ele diz puxando os cabelos em frente a obra. o que esses calhordas fizeram? acabaram com tudo! o outro diz: isso começou ano retrasado. ele diz: vou falar com o meu irmão, o meu irmão é advogado! ele acende o cigarro tremendo. o outro diz: cara, esquece isso! os olhos dele ficam vermelhos de lágrimas. ele diz: esquecer isso? e a democracia! vocês são muito acomodados... o outro pergunta: você acredita em Papai Noel? o inferno está só começando... você vai ver quando essa obra ficar pronta. ele para. e pensa. o outro complementa. isso que dá ficar muito sem aparecer... ele diz: eu estava preso. o outro se cala.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Feliz Dia do Índio!
a gente cruza um estado do sul numa banheira velha. ouvindo Raul Seixas. a menina loura de cabelos curtos e olhos azuis está sentada atrás. fumando. o namorado dela está sentado na carona. é a cara do Kurt Cobain! eu me sinto o único preto no mundo. ela põe saliva na ponta do dedo, e apaga o cigarro. ela diz: merda! abana a fumaça. acho esse gesto tão falso quanto campanha antifumo, quando nos querem dopados o tempo todo. um dos índios vem em nossa direção. ele diz: vamos fechar a estrada daqui a pouco. e com o braço apoiado na janela da carona, completa: hoje o pedágio é dez 10 contos! Kurt Cobain pergunta: porquê? outros índios se aproximam. ele tem um facão na cintura que desce até a canela. o cara dá a nota cinza. o índio diz: feliz dia do índio! e libera a passagem.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O Segredo...
ele está dormindo. ela o cutuca. ele acorda, e diz: fala. ela diz: quer saber um segredo? ele diz: não. ela diz: mas, é o segredo! ele diz: pior ainda para deixar de ser... ela diz: não vai te custar nada... ele esfrega as mãos, e responde: opa, chuchu beleza, que maravilha... de graça até ônibus errado! pode mandar! ela diz: é o segredo da busca da felicidade, da riqueza, do conhecimento, e da eterna juventude... ele diz: chega de lero-lero, manda! o ladrão encosta o cano da pistola em sua costela, e fala: é um assalto... passa o aparelho! ele responde: você está sendo filmado! o ladrão pergunta: mas, e daí?! ele dá o aparelho, e balbucia. ora, bolas... não se pode mesmo ser feliz!
domingo, 13 de outubro de 2013
Vômito...
euforia. crise nervosa. agressividade repentina. coragem em excesso. palavras inoportunas. cara na lama. dedo na goela para voltar a beber. a garrafa vazia jaz na mão. vomita no ônibus. desonra a família. remédio no banheiro. uns, cantam. outros, batem. dança desengonçado. fuma cigarro. dorme com a cara no prato de comida. cochila no vaso sanitário. acorda ao lado de alguém que não conhece. sexo de risco. má conduta. conduta libidinosa. pega uma doença. o vômito jorra de todos os poros. vaga pela cidade de madrugada. esquece o caminho de casa. volta pra casa. ciúme desperto. chaga exposta. briga. larga o pescoço. vê o corpo inerte. trabalha com bafo. suor. delirium tremens. julgado. espancado. morre sem saber que morreu.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Levantou Poeira...
duas horas da tarde. o moleque sentado na grade olha o céu. passa o ferro velho sacolejante. as pessoas atravessam por aquele buraco na parede. o velho caboclo de chapéu toma o guaraná que é vendido numa garrafa de cerveja, e diz: nossa, parece até que alguém esqueceu esse lugar... o outro que passa o pano no balcão, retruca: esse lugar não evoluiu... mas não fica nem uma hora do centro! os evangélicos de domingo atravessam a rua. o moleque pula da grade. ele pula, e corre atrás da pipa. a minha cerveja esquenta no balcão empoeirado. um ônibus lotado levanta toda a poeira que cabe num pulmão. o moleque da grade canta com a pipa na mão... levantou poeira...
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
1904...
pulo do bonde. desço a ladeira com as mãos nos bolsos. assoviando. ele me pergunta: você está assobiando, porquê? digo: não sei. está feliz? pergunta. respondo. talvez... diz: talvez, você está assobiando, e não sabe porque está assobiando? eu digo: tudo bem, talvez o fato de eu estar assobiando não seja tão importante assim, entendeu? ele diz: então você está me dizendo que é um bobo alegre? não, só que existem coisas mais importantes que isso. a revolta nas ruas... sei lá! e você acha que com toda essa náusea, com todo esse medo, e essa sensação de sufocamento que a sociedade nos dá, como se alguém estivesse com as duas mãos colocadas sobre nossa garganta, ainda exista motivo para se andar assobiando cançonetas populares, por aí? eu digo: cara, se isso te irrita tanto assim, eu não assobio mais, falou? muito obrigado, senhor, com licença, passar bem. e ele seguiu com o seu chapéu e a sua bengala de escritor famoso. entrou na rua do teatro.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Alice no País das Maravilhas...
Alice pergunta ao segurança com toda a educação. vai ter de dar a carteira de identidade? o segurança do local diz com ironia, sim, e ainda vai ser revistada! é uma casa famosa onde se toca jazz de raiz universitário. Alice toma chá para ficar mais tranquila. o centro boêmio e histórico foi revitalizado depois de uma novela das seis. um pouco antes da cidade ser eleita sede dos jogos. Alice olha para o resto da fila cheia de japoneses. brasileiros. americanos. italianos... faz um escândalo, e berra: é lógico que eu vou ser revistada neste país! com os olhos em brasa. vermelhos. balança o black power com todo o poder. por ser da sua cor, seu cretino! qual o nome do filme? Alice No País Das Maravilhas!
domingo, 6 de outubro de 2013
Programa de Domingo...
rola um louvor na maquininha de música. aquela hora não tem ninguém na rua. não, aqui, neste lugar, ermo. ela atravessa. está com um salto que não combina bem com a sua saia rendada. cheia de babados de festa de quinze anos. o salto branco, também, não. a pobreza é uma tristeza. o andar desengonçado. a gordura da comida grudada em nossos óculos. em nossas casinhas. assim como os canos de descarga dos caminhões estão enfiados em nossas narinas. o centro da cidade abandonada é assim. a poeira pinta todas as paredes de cinza. a menina do outro lado da rua está sentada em frente a uma casinha. sentada numa estrutura de cimento feita para barrar a água da enchente. a tevê ao fundo. a porta de madeira entreaberta exibe o programa de domingo. é um programa apresentado por um rapaz louro. e afetado. é domingo na zona...
sábado, 5 de outubro de 2013
...Pra Todo Mundo!
acorda no escuro. beija
a mulher que diz: quero dormir! beija o bebê que produz o som de quem não quer
ser incomodado. na sala vê a luz do aparelho do filho adolescente que cobre a
cabeça com um lençol. sons de teclas. diz: bom dia... o filho não escuta. na
rua da favela diz a um policial: bom dia... fica no vácuo de novo. o cara da
plataforma diz: pô... tá foda esse trem atrasando todo dia... encontra o amigo
de infância. por educação, pergunta: e aí? o amigo responde: tá foda... e
começa a falar mal do trabalho. da mulher. de toda a família. do time. do
governo. chega ao supermercado. encontra o colega na escada. com o aparelho em
uma das mãos, antes dele abrir a boca, sem tirar os olhos do aparelho, o colega
diz: hoje tá foda... ele irritado responde: tá foda pra todo mundo! e pensa,
será que eu sou o único norueguês que vê isso!
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Em Frente ao Buraco!
o segurança em frente a loja. o camelô desmonta a barraca de CDs e DVDs originais. ela olha para o meu black. para o meu casaco que parece ter saído de dentro de uma garrafa. pra minha cara de chapado. pros meus olhos vermelhos e gigantes como os do Lobo Mau, e me pergunta sobre o papelão em frente ao banco. fico em silêncio. ela estala a língua irritada, e diz para o menino: eu, hein... parece um retardado! eles desistem, e vão embora. graças a Deus. eu penso, quem me dera fosse um catador de papelão nesta cidade! um carro passa tocando funk. outro policial me pergunta: ocupação? e respondo: se disser escritor o senhor vai acreditar? ele me olha com pena, e me libera. acho que eles temem mais os terroristas. eu espero por minha mina em frente ao buraco de uma das estações do metrô de Nova Iorque. e o cara do transporte alternativo berra em nossas orelhas: Brooklyn, Bronx, Manhattan, Harlem!
domingo, 29 de setembro de 2013
O Julgamento...
mete a mão no bolso.
gesto rápido. frio. cara suja. cabelo ensebado. alguém faz cara de nojo. dá um
empurrão. perco o rastro. aperto o passo. vai tudo que cabe em seu trapo. a
multidão fica hipnotizada com o espetáculo. seguro o seu punho. ela se desvencilha,
e diz: eu quero assistir até ao final! eu olho ao nosso redor, e respondo: por
hoje é o suficiente! longe dali ela me mostra. olha o quê eu trouxe para o
vovô! e me exibe feliz um pedaço de pão. sussurro: esconde isso! ela me diz com
pesar... o ladrão vai ser executado...
sábado, 28 de setembro de 2013
Sem Anestesia, Michael Jackson!
sem anestesia fica difícil Michael Jackson. encarar o mundo assim. frente a frente. cara a cara. botar a cara. bater de frente. sem religião. sem grana. sem ideologia. sem nada. no puro. no duro. careta. sem tomar um remedinho. sem beber um negocinho. sem fumar um Hollywood. botam na gente sem vaselina. a gente enlouquece. no pelo. liso. sem preservativo. sem uma musiquinha romântica. num vê essas passeatas que criaram toda essa expectativa e não deram em nada. vou ter que desligar, Michael Jackson da Silva! lá vem o carcereiro! pego o celular e coloco na entoca. onde alguém me disse que era melhor para alguém não ver.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
O Fim da Privacidade...
fotografa. grampeado. leitura labial. pede a Deus uma namorada. tapa a boca. escuta. sendo filmado sorria. cinco contra um. descasca a banana. ela também. mão direita. mão esquerda. na batida do funk. no ritmo do axé. tira a meleca. põe a mãozinha na boca. cospe a bebida. coça o saco. traje de banho. praia de nudismo. clube das mulheres. termas. em plenas sanitas. assistindo filmes impróprios para menores. sem as peças íntimas. com as peças íntimas. lendo contos proibidos. entrando em hotel. saindo de hotel. dançando sem roupa. medalha no bolso. malote na cueca. fuzil na mão. posa com bandido. vai na festa. mulher de silicone. mulher maravilha tecnológica. no flagra chama o outro pra fumar. choque. cacetada. tiro. gás. mata. esfola. pisoteia. corrompe. é corrompido. rouba. é roubado. preso na chaminé. ela é interrompida no meio da cópula em que perdia o velcro. enquanto produzia um ser mutante num coito avançado. uma espécie de ciborgue. talvez um ser alterado geneticamente. descendente. dependente químico. tóxicos. agro-tóxicos. agronegócios. agro-indústria. drogaria. farmácia. boteco. boca da estagiária da casa rosa no estacionamento.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Um Mergulho na Noite Chinesa...
ele balança o bebê que
parece um embrulho que sorri. eu digo: posso segurá-lo um pouco? ele me passa o
bebê que entorta os lábios, e chora como quem vê uma assombração. ele tem olhos
grandes e luminosos. eu me viro e digo a sua mãe: acho que se assustou
comigo... o moleque não gosta de mim! ela diz: ela não tem do que gostar... e o
pega e me passa. é manhã. ele quer é farra... balança ele! balanço o bebê que
volta a sorrir. olho o seu rosto e penso, meu Deus, parece um homem da minha
família! pela primeira vez vejo os passos do outro. e grito em êxtase a sua
mãe: ele anda igual ao pai dele! a mãe responde num muxoxo: todo mundo fala
isso... fico assustado com a herança genética. o outro me puxa pela perna como
quem diz querer participar da festa. e vejo o seu sorriso lindo de banho de
chuva. o outro diz: o meu pai só que andar de táxi! o meu pai quer andar de
táxi o dia inteiro.... só porque recebeu hoje! então todo mundo para no ponto
de ônibus. eu me lembro da Pais e Filhos da Legião Urbana, e da All You Need Is
Love dos Beatles... e beijo cada cabeça e digo. inclusive para o embrulho que
dorme. te amo. o meu coração palpita ao caminhar para casa e saber que ela está
me esperando. desço a ruazinha que termina com o muro. e dou um mergulho na
noite chinesa...
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Máquina de Escrever...
ela fuma, e diz: tem aquela festa! ele fuma, e diz: vai rolar aquele evento... ela fuma, e diz: aquele lançamento! ela fuma, e diz: e mais o sarau... ele fuma, e diz: vai tá todo mundo lá! ela fuma, e diz: vamu fazê muito contato... ele fuma, e diz: ainda tem a reunião... ele me pergunta: e você vai? do canto da sala eu berro até sufocar o som do aparelho. vou continuar escrevendo... e peço: tranquem a porta por favor! eles saem... e ao fechar a porta me atrapalham. penso, foda-se. batuco nas teclas da máquina. desligo o som. a pior coisa que existe para um escritor é o silêncio.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
O Fim da Novela...
um cara é atropelado por uma mulher que se apaixona por ele. uma esposa descobre que na verdade é irmã do marido. o casal principal tem um relacionamento vai e vem. um personagem é assassinado e todos os personagens são suspeitos do crime. dois irmãos brigam por causa de uma herança. dois irmãos brigam pela presidência de uma empresa. alguém vai se revelar viado ou sapatão. uma bicha afetada vai fazer fofoca. a empregada preta e pobre vai se meter na vida da família rica. alguém que todo mundo pensava ter morrido vai reaparecer para se vingar. uma irmã vai tentar roubar o namorado da outra. no último capítulo o assassino é descoberto, e o casal principal se casa numa cerimônia com todos os personagens. eu digo, não posso me esquecer do filho rejeitado. ele grita: ele pode ser filho da empregada! falo: eu não havia pensado nisso antes... afirmo: fechou. ele diz. toca aqui. bato em sua mão. bicho, dú caralho! dú caralho, bicho! foda! ele dá um giro. uh! já pensou enviar essa porra pra televisão? eu digo: mas a minha intenção é essa!
domingo, 22 de setembro de 2013
Que Horas Começa o Nacional Kid?
acorda no cubículo. apertado. acende o primeiro do dia. liga a tevê. olha para a garota que está conversando com uma de suas amigas. pensa igual alguns homens pensam... como as duas! a garota diz: gostou do meu bumbum? a outra fecha as duas mãos, e responde animada. ih, garota, adorei... você tem it! (aqui ela balança a cabeça) que sex appeal! depois pergunta: fez onde? ela conta. esfrega na cara da amiga. no Doutor Igor Maguari! diz a frase como uma máxima. e a amiga responde: ah, ficou lindo... você está cheia de bossa! e dos meus seios, gostou? está de arromba! a outra responde. a garota diz num muxoxo. só achei o da esquerda um pouco torto... a outra diz: que nada, você está um estrondo! eu, por exemplo, quero comprar um cérebro novinho, na caixa, lacrado! ele coça o saco. desliga a tevê. e diz: porra, têm uns filmes de ficção que são mentirosos pra caralho! que horas começa o Nacional Kid?
sábado, 21 de setembro de 2013
Acumulador Compulsivo Virtual...
John Smith com apenas 15 anos recebeu o diagnostico de acumulador compulsivo virtual. em sua casa todas as máquinas são infestadas de vírus. a mãe do John, Mary Smith, diz que precisou contratar um técnico para fazer manutenção semanal. a família sofre com o problema. são inúmeros programas e aplicativos que John sabe que nunca irá usar, ou músicas que nunca irá ouvir. pois considera velha qualquer canção que tenha um ano. mas seriam necessários anos, e mais anos, para que John ouvisse todas as músicas que estão em seus aparelhos. as fotos nunca serão reveladas. sobre os livros John admite. não gosto de ler. mas eu baixo porque todo mundo viu o filme. tá lendo. comentando. sobre os filmes John precisaria mais do que seus quinze jovens anos para assisti-los todos. na mesma velocidade em que tecla com o polegar esquerdo, John envia fotos para as redes sociais com o direito. fico surpreso: uau, como você consegue! começo a dizer: John, e se talvez você tivesse vivido... ele me corta. já ouvi esse papo, mas acho que hoje em dia as coisas são assim. faço aquilo que a maioria das pessoas já fazem normalmente, digamos, um pouco mais. eu insisto: isso não te incomoda? John responde: nas festas é um saco. pois eu não vivo. apenas registro o momento.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Os Órfãos do Mangue...
quando a antiga Zona do
Mangue foi removida do centro perdeu todo glamour. e se transformou no que hoje
chamamos de Vila-Mimosa. o Mangue era frequentado por escritores, músicos e
jornalistas. e lá se encontravam alguma gringas fugidas da guerra, ou não.
dizem que muitas ex-prostitutas daquela época, após remoção forçada,
sucumbiram. como acontece hoje com pessoas que perdem suas casas para a
construção de mais estradas. os terrenos são avaliados. não o imóvel. o valor
sentimental não tem valor algum. chega alguém, e fala: você tem dias pra cair
fora! ela diz. DEMOcracia é isso! deve ser o menos mal... num cortiço do centro
da cidade converso com dois velhinhos centenários para a gravação de um filme
sobre filhos de ex-prostitutas do Mangue que morreram deprimidas. o seu Bob de
cabeça branca, brinca. dois filhos de Maria, um de Mary Jane, assim mesmo, em
inglês, coisa de pobre, ele diz. Peter tem olhos claros e fala, eu sou filho de
Maria Joana! e conclui: que eles acabassem com a zona! que acabassem com a
prostituição! mas que não acabem com nossas mães... pois não temos nada com os
problemas dos outros! os órfãos do Mangue olham tristes para a parede do muro
em frente.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Os Homens do Vagão Feminino!
ele se equilibra e me diz: ler é melhor que tudo. ler é melhor que escrever. vai por mim, escritor. eu digo: tô ligado! quando passa um cara gritando. dois mil louvor num DVD! uma música toca no último volume. o barulho de ferro velho se chocando. alguém grita. o fim do mundo está próximo! um novo grito: costelinha de porco! uma mulher diz: hoje eu mato o meu marido. ah, se não mato! picoto ele todinho e ponho dentro da mala! ninguém vai saber que fui eu... balança as pernas. pulamos na estação. ele diz: ler é mais importante do que ficar estudando 2, mais dois. faz sinais com as mãos. aponta com o nariz. olha esses caras que viajam todos os dias no vagão feminino. você acha que se eles tivessem lido alguma coisa em suas vidas fariam isso? estala a língua com insatisfação. que nada! faço cara de dúvida. nos despedimos.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Na Boca da Favela...
o velho Ernest pergunta ao moleque: tem mulher nessa punheta? sem tirar os olhos do aparelho o moleque diz: várias... o velho Ernest, tosse, cospe e diz: vocês são do piru, vocês são do piru, mesmo! vô te contar, hein! num canto fica o pessoal da porrinha. na mesa do meio o pessoal do carteado. que é o pessoal do velho Ernest. que faça chuva, ou faça sol, está ali. o velho Ernest diz: dormem a pamparra... é um entra e sai danado. calor. alunos. sexta-feira. feirinha. funk. crente. remanescentes de religiões afro. o velho Ernest diz: foda-se. eu contribuí com a previdência social a vida toda. com a providência divina. paguei por tudo o quê me foi imposto. tenho direito de tomar uma cerveja sossegado! essa preta vai falar na casa do... cigarro. hambúrguer. refrigerante. barraca de fruta. o velho Ernest lembra do tempo exército quando visitava as favelas dos amigos, mas isso foi antes da guerra. reclamando o velho Ernest diz: boca de favela americana é tudo igual! um policial aparece na esquina e fala num radio. tudo tranquilo na entrada da favela!
sábado, 14 de setembro de 2013
Sábado, Sozinho em Casa!
consegue se livrar da mãe. dois dias. evento da igreja. abre os olhos. uh, hoje é meu dia! pensa em cagar de porta aberta. porque não? sozinho em casa, pô! dá um chute na porta. se limpa. arrota. e peida sem necessidade. anda de cueca pela casa. diz para si: quando quiser tomo banho! ignora o Nescau preparado pela mãe. dá uma mordida no pão. tô sem fome. como quando quiser! pega o telefone. liga para o cupincha. diz: e aí, tô sozinho em casa... arruma umas putas pra trazer pra cá... (acende um cigarro!). o outro, como quem toma um susto diz: que isso, rapá! tá pensando que eu sou agenciador de puta? num prometo nada, não, mas vô tentar! ele insiste por causa de uma história boa sobre essa cara. vai para a internet ver se tem uma puta online. tem uma porção. mas nenhuma delas dá ideia para ele. as horas passam. o outro não aparece. pensa, foda-se, ainda tenho dinheiro para sair. conta a merreca deixada pela mãe em cima da mesa. dá pra tirar uma onda na festa. e arrastar uma puta para casa. quem sabe. mas mal sabe ele, que no final da nossa estória, o mocinho chega a casa de manhã, sozinho. bêbado. toca uma punheta. e vai dormir.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Uma Garrafa de Big Apple...
passa um viado... um deles diz, olha ali a tua menina, olha ali! e força as risadas. passa o gordão... ele pergunta: e aí gordão, quando você vai arrumar uma namorada? o gordão responde: quando você arrumar um trabalho! ele faz cara de decepção, e diz, estalando a língua: ah! passa a magrela... ele diz: vem cá, magrela, feia pra caralho! a magrela lança o dedo. lá vem o retardado da rua... ele faz o gesto de quem tá de olho no retardado. o outro digita rápido, sem tirar os olhos do aparelho, diz: esse maluco não tem o que fazer da vida, não? fica zanzando o dia todo pra lá e pra cá! passa a gostosa da rua... ele tira os olhos do aparelho, e diz: gostosa pra caralho, puta que pariu! o outro diz: gostosa é o caralho! isso é uma vadia, o namorado dela é um bucha... a gostosa ignora a existência dos dois. ele digita. sexta-feira, qual é a boa? o outro diz: sei lá, num sei de boa, não aí. maior tédio, aí. maior tédio. ele começa a caminhar com os dedos ainda em ação. o outro acompanha automaticamente, e puxa seu aparelho do bolso. a esquina fica vazia. ele diz. vamos ao supermercado comprar uma garrafa de Big Apple.... depois a gente decide o que fazer... ambos mantêm os olhos em seus respectivos aparelhos.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Walter Mosley e Chester Himes na Penha!
Walter Mosley diz: essa favela tá um saco, tá parecendo um campo de concentração... cheia de soldado... Chester Himes responde: tá parecendo é um quartel, isso sim! daqui a pouco eu vou começar a bater continência! ele diz isso, e ri sozinho. eles voltam para o assunto anterior. Walter Mosley diz para Chester Himes: não me venha com essa de que sabia que o Adriano seria craque desde o Campo do Ordem, Joe! (não sei o porque desses apelidos.), dizer isso aqui na Penha, é o mesmo que dizer que apostava na estrela do Zeca desde a época do Cacique. todo mundo fala isso! Chester Himes diz: Joseph, você é um velho que fala de Carlos Lacerda! Eu digo a Walter Mosley: dizem que Lacerda era um bom orador... Walter Mosley dá um tapinha em minhas costas, e diz: tá por dentro hein, rapaz? Chester Himes fala: daqui a pouco esse velho vai querer falar do tempo em que o Tenório mandava em Caxias. Walter Mosley grita: mas eu morava lá! Chester Himes responde, num disse? vou cair fora! esse papo vai terminar na trama do Getúlio com o Prestes... Walter Mosley me aponta o espelho. gostou do corte? saindo da barbearia Chester Himes levanta o Meia-Hora para cumprimentar uma senhora que passa na calçada com bolsas de feira. ele diz: tudo bom, com a senhora?
domingo, 1 de setembro de 2013
Eu Queria Ser Um Vândalo...
ele me pergunta: qual a diferença de vagabundo pra desocupado? eu digo: acho que o desocupado é o desempregado. é o cara que tá atrás de um trampo, tá ligado? já o vagabundo, esse não quer nada com o basquete! ele me pergunta: então você é vagabundo, ou desocupado? digo a ele: não sou vagabundo, nem desocupado. sou, um artista! (arregalo os olhos e levanto o dedo), continuo, você não entende isso porque você acha que todo artista é famoso. o jornal na mão esquerda. ele fica o tempo todo se balançando. a cinza imensa no cigarro. a chama alcança o dedo. ele pergunta: porque esses cretinos cismaram com esse tal de cheirinho da loló? porque esses putos não fumam maconha? quando ele diz cretinos está se referindo aos adolescentes. eu digo: talvez seja mais prático. maconha tem fumaça. chama atenção. dá trabalho. respiro. normalmente esse pessoal já cheira outra coisa, ou bebe. agora superexcitado me pergunta aos gritos: qual a diferença de vândalo para arruaceiro? pigarreio, e digo. o vândalo é o cara que quebra as coisas, que dá prejuízo nos outros. os arruaceiros devem ser aqueles caras que ficam jogando lixo no meio da rua. desisto. ah, sei, lá! ele diz: eu queria ser um vândalo... quando chega o guarda do manicômio judiciário, e diz: vão bora retardados!
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Ele Fala Brasileiro!
ele disse: ele veio aqui.... tem que vê... humildão, ele... num foi, Charles? eu disse: foi... ele disse: ele é lá da Itália (e fez um gesto para longe). eu disse: é, ele é italiano. balançando as pernas. ele se mexeu, deu um tapa no braço do outro, e disse: ih, ele é maneirão! ele fala até nossa língua, ele! sentimos um vento frio. cruzei os braços. ele pôs a mão no rosto e disse: ele fala brasileiro. eu disse: é, ele fala brasileiro. depois fiquei pensando porque ele disse ele fala brasileiro. será porque ele é de algum grupo secreto ultranacionalista, ou porque ele segue a lógica do brasileiro fala brasileiro, português fala português, alemão fala alemão, e por aí vai. quando ele grita: evém o busão! nós, pulamos, dentro. a minha mãe diria: você entendeu o que eu falei, não entendeu? e logo após ela balançaria a cabeça.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Ninguém Vê Nada, Todo Mundo Filma Tudo...
a hora do beijo. Antônio Fagundes se aproxima da Ângela Vieira. é cena que Hollywood produz, duas, ou três vezes ao ano. vai rolar, o beijo. pronto. todo mundo levanta o celular, o computador, e seja o quê for em direção ao casal. você não vê mais nada. apenas as costas dos outros que não conseguem ver o planeta a olho nu. é assim na hora do batizado. é assim na hora do aniversário. é assim na hora da formatura. todo mundo está ocupado registrando o momento. num show que fui assistir tive a impressão de que todo mundo era jornalista, ou celebridade, porque parte do público estava filmando o show, e a outra parte tirando fotos e enviando para o ciberespaço. filmar e assistir é a mesma coisa? uma vez assisti ao vídeo de uma mulher se afogando, um cara ajudava com uma das mãos, e com a outra segurava a câmera. quanta briga e estupro podiam ser evitados se o cinegrafista amador esquecesse o YouTube. o gol do Fio Maravilha da música do Jorge Ben Jor, hoje, teria sido filmado, mas não, assistido.
domingo, 25 de agosto de 2013
A Geração dos Polegares Tortos...
o neguinho tá sentado na calçada da esquina embaixo da marquise. ele cruza as pernas longas como se estivesse em casa. o sorriso congelado no rosto. o moleque branco de óculos escuros tecla com os polegares que parecem mais longos, e ágeis. ele faz parte da geração dos polegares tortos. alguém passa de bike e grita alguma coisa pro neguinho que responde: viado, tu tá me devendo. aquela aposta! pensa que esqueci... o neguinho balança o dedo de forma negativa. a bike desce a rua. quando chega esse cara. tem isqueiro? o neguinho tira o isqueiro do bolso, dá ao cara, e continua em silêncio. o isqueiro prateado faz uma enorme chama. o cara fuma. devolve o isqueiro. o neguinho tá sem camisa, de chinelos, de bermuda, e o sorriso congelado no rosto. o cara fuma. o cara fala. domingo é chato pra burro, aí! o moleque branco tecla e responde: nada pra fazer, aí. na net. no Face. mó, tédio. o cara fuma. o cara fala. que horas é o jogo, hein? o branco tecla e responde: sei de jogo não, aí! e agora passa a teclar com apenas um dos dedos. e diz sem deixar de olhar pro aparelho. vou sair. dá um tapa na mão do cara. e um tapa na mão do neguinho. tecla atravessando a rua. ele diz: tenho de ir almoçar com a minha avó. o neguinho diz: ah, moleque, vai comer a gororoba daquela velha?! o branco diz: padrão Fifa. o cara fuma. o cara fala. Almoço de domingo... o neguinho sorriso congelado.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Guia de Sobrevivência no Centro...
não tem nada. foi atrás de alguma coisa. 45 graus na Presidente Vargas pira o cabeção de qualquer um. pão com manteiga e café no estômago. tontura. luzinhas azuis, e vermelhas. envelope pardo debaixo do braço. longas caminhadas. intestinos relaxados. dor de barriga. MacDonald`s. você finge que está falando com alguém no celular que está a sua espera no segundo piso. tampa pro banheiro. o carinha de uniforme nem vai notar. o sanitário do CCBB tem cheiro de eucalipto. esquece restaurante, e bar. esses caras não tem coração. pastelaria de chinês, nem pensar. agora, e o cafezinho? cai pra um sindicato ou pra uma associação. ainda mais se for algo cultural, sempre rola um pessoal marxista, meio cristão, que fala de ditadura, usa barba, e é magoado com o PT. mas o melhor de tudo, socializa o café. pergunta sobre futebol, eles adoram falar sobre futebol para se sentir parte do proletariado. faz alguma pergunta imbecil sobre alguma coisa que não se resolve ali, e cai fora. o cafezinho do Ecad era o melhor que existia. não sei se ainda é assim. mas alguém sempre grita: o podrão no Carioca, dois real, tô partindo pra lá! e é aquela correria. um atropelando o outro. botando o pé na frente pro outro cair. todo mundo com medo que acabe o pão. é aí que você vê o caráter do brasileiro. filipeta de puta. telefone público com foto de travesti. profetas enlouquecidos. você pergunta o preço que lê na placa para ter certeza. confere de novamente se as moedas ainda estão no bolso. o vendedor esfrega o valor na sua cara, como quem diz, eu sei que você só tem duas moedas e mais o RioCard! a pergunta: linguiça, ou salsicha? ouriça os pombos com quem você vai travar uma batalha por causa das batatas-palha. caju, ou maracujá? caju que maracujá dá sono, você diz, mas é mentira, é porque o de caju é mais aguado. se conseguir vencer os pombos e ainda tiver tempo antes da entrevista, ou da reunião, eu te dou uma dica. põe o traseiro num banco do Campo de Santana, e conheça o tédio de verdade.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
O Poster!
o que está na janela fala: pô, que calor chato pra burro! dali se avista o cais. o cheiro da maresia podre empesteia os pensamentos. ela pinta as unhas em cima da cama. pôs um velho espelho quebrado próximo ao pé. a pintura da parede é verde. o esmalte é vermelho. ela diz: vai se fuder, maninho, calor do caralho! o outro que tá na rede enrolando tabaco numa Colomy, diz: pô, olha, seu mano, esse calor tá de fuder, mermo, ó! no radio alguma noticia. atrás da menina que pinta as unhas tem um poster do Luan Santana. numa noite em que o quê está na janela, que é marido da menina, chegou bêbado em casa, disse que ia tirar o poster do Luan Santana dali. foi uma confusão danada. dizem que até que uma pá de voou. ele disse: isso não canta, nada! isso, é um fresco! ela disse chorando, bêbada, você tem que me aceitar do jeito que eu sou! aos poucos a ressaca passou. os ânimos foram se aclimatando ao marasmo. e o poster ficou por ali. hoje não incomoda ninguém. ele fuma, bate a cinza do cigarro na janela, e fala: lá vem véio, ó! desce a rua na maior correria. pô, seu mano... quase que não te pego, ó! adianta um frila aí... o velho puxa um cigarro e dá a ele. depois o velho faz a mesma pergunta de sempre: e o nosso time? ele diz: eu acho que vai, ó, esse ano, num sei não, nós vamo arroxa eles aí, ó! então o velho desce a rua satisfeito.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
O Sossega Leão é Proibido?
ele disse: mostrou na
televisão um cara zoando a Brasil, atrapalhando o trá-fe-go. eu disse: eu vi.
tinha que dar um sossega leão, nele... ele me olhou como se eu fosse contra os
direitos humanos, e essa treta toda. eu disse: sossega leão não é só porrada,
não. uma vez fiquei internado na enfermaria de um hospital público. e aí tinha
um velho que toda madrugada as 2 em ponto, ele começava a gritar que o filho
era isso e aquilo, aquela treta dos velhos. e ninguém conseguia dormir. mas
tinha uma enfermeira de cabelo vermelho, diziam as más línguas que ela cheirava
éter no banheiro para suportar o plantão. ele com sotaque carioca me pergunta
cantando... mentira? sério! quando era o plantão dela o velho começava. o que
é, que há?! o meu filho fazer um papelão desses... me deixar no meio dessa
porção de gente desclassificada! eu sou funcionário público, bacharel em
jornalismo, ele erguia o dedo, cuspindo e concursado! aí vinha a enfermeira.
ela sempre tava com uma coriza, e ficava mexendo no nariz o tempo todo. ela
dizia toda ouriçada, balançando os dedos, vou dar um sossega leão, nele! ela ia
lá dentro e voltava com o líquido que despejava naquela bombinha. o velho
dormia como se fosse uma donzela. ele me pergunta: mas o sossega leão é
proibido? eu digo: não sei. nós descemos do muro e vamos caminhando pela linha
do trem.
domingo, 18 de agosto de 2013
Tem Cura Para a Compulsão Sexual?
o chileno está no fundo do bar, ouvindo a maquininha de música que toca Raul Seixas pela centésima vez, ele comprou cem fichas. a mesma música, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás. este chileno veio paro o Rio junto de uns peregrinos que vieram atrás do Papa, e acabou ficando por aqui. hoje ele trabalha na pastelaria de um chinês, e aluga um barraco na favela do Mandela. estou num canto do boteco com o meu violão encostado, e vendo a cerveja esquentar a minha frente. o casal ao lado briga por causa de uma revista que está em cima da mesa, e que tem uma matéria sobre um ator que diz ter compulsão sexual. ela diz: não se tem cura para a compulsão sexual. depois balança a cabeça. eles não dormem já faz uns dois dias. a garrafa de Big-Apple jaz na mesa. o namorado sacode o crânio e dá um trago no cigarro como quem diz que não se conforma com a assertiva. a menina com o cabelo tingido de rosa parece inconformada como um torcedor de futebol ao ver a marcação de um pênalti contra o seu time. ela se vira para o rapaz do boteco que passa o pano em cima do balcão, e pergunta: tem cura para a compulsão sexual? ele diz: como é que eu vou saber? eu sou apenas um atendente de boteco! aos poucos o Raul Seixas morre ao fundo.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Aí, Qual Foi Daquele Neguinho?!
se liga, aquele neguinho foi lá na reunião no morro lá, nós recebemo ele bem, certo. porque o amigo tinha dado o papo que o mano era maneiro. então nós recebemo ele bem, porque tu sabe que cum nós num tem esse bagulho de miséria, mesmo. que sempre vai ter um que vai salvar uma carne ou um baseado, que tu sabe que nós gosta de fuma nossa droga mermo, tá ligado? mas aquele mano levou o gringo, e o gringo ficou falando tudo enrolado, e nós num entendendo nada que o gringo tá falando, tá ligado? aí ele começou a falar do amigo. e disse que o amigo era muito fechado e que era isso e aquilo e que o amigo podia tá ganhando dinheiro com isso e com aquilo. mas que o amigo era devagar. aí nós se bolou com ele, e nós falamo, você num pode falar do amigo. porque se você tá aqui agora, desenrolando, trocando essa ideia com nós, é por que foi o amigo que abriu essa brecha pra você tá aqui. e nós já numa de partir pra cima dele, eu disse: o amigo é igual nós. a mesma merda. ele fica aí onde você tá sentado. foi esse papo que eu dei nele, e ainda disse pra ele se adiantar. porque se não a madeira ia cantar pra cima dele. interrompi a história, e disse: não. paz. por favor. ele perguntou: e, qual foi daquele neguinho?! eu disse: deixa ele pra lá. pus as mãos nos bolsos.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Brigitte Bardot...
ela era a cara da Brigitte Bardot. eu esperava dentro do carro. tinha certeza de que aquela seria a noite mais maravilhosa da minha vida. estava mais cheiroso que filho de barbeiro. levantei para pegar um ar, e fumar um cigarro. e também para não amassar o meu terno cheirando a lavanderia. trouxe todos os mimos. o chocolate. as flores. uma joia, uma correntinha de nossa senhora... e aconselhado por uma vendedora atenciosa, que me perguntou tudo sobre ela, trouxe uma blusinha de seda. disse a vendedora. ela se parece com a Brigitte Bardot. a vendedora fez cara de quem ouve isso todo dia. reafirmei, ela é a cara da Brigitte Bardot... bato com o sapato bicolor e engraxado na calçada. nunca saio sem dar um brilho no pisante. e hoje fiz questão de chamar o melhor barbeiro da família. estou com o meu melhor terno. não amassei as flores. o hálito está em dia com e trago a bombinha de própolis, caso exista alguma emergência. o cabelo engomado. ela surge vinda da porta. cambaleando. vejo a meia calça branca. ela não sabe andar de salto alto. parece bêbada. traz um casaco no braço. desligo a fita do Charles Aznavour. ela diz: matei o meu marido! e mostra a arma. o sangue espirra no meu terno novo. que droga. parte do sangue do marido dela espirra no meu terno novo. não gosto de ir à festa nenhuma de terno sujo. ainda mais com mancha de sangue. depois para sair é uma merda. tudo porque ela se parece com a Brigitte Bardot. tudo por causa da droga da Brigitte Bardot. ela bate o pó na mão. cheira. e muda para uma estação que toca música clássica.
A Banana Mecânica...
o Cadelão olhou pelo retrovisor. eu tô a fim de comer uma pizza. pôrra, é isso aí. tô a fim de comer uma pizza. hoje é o meu aniversário! tenho direito, pôrra, tenho direito! eu disse a ele tentando amenizar as coisas, Cadelão, a gente não tem dinheiro pra comprar pizza. o Alexinho disse. a gente pode não ter dinheiro. mas a gente tem uma boceta pra servir de isca, e um ferro. levantou a camisa Hering mostrando o trabuco. olhei pra Emma Bovary que chorava no banco do carona. Cadelão passou os braços em suas costas, e disse: num é, meu amor? pode deixar que hoje você vai chupar, e vai dar pra todo mundo. vai ser currada! vai ser divertido. eu disse ao Cadelão, sabe o que acontece, Cadelão, a gente pode pagar tudo com o meu cartão. eu tô com o meu cartão aqui. ele disse, já fazendo a curva, deixa o cartão pra mais tarde. pro motel. nada de cartão. só pago no cash! eu disse ao Cadelão. vamos liberar a Emma. ele me disse: vai dar pra trás, agora? liberar é o caralho! vai dar uma de escritor lá pras suas negas, filho-da-puta! insisti. Cadelão, ela não tá com vontade! ele entrou no estacionamento de uma pizzaria e ordenou, desce todo mundo. tinha um japonês num balcão. Cadelão disse: eu quero uma pizza portuguesa gigante, e a maior Coca-Cola que existir. o japonês disse: não tem mais. vou fechar. acabou tudo. quando o Cadelão puxou o velho pra fora do balcão pelo cangote. Alexinho me apontou a pistola e disse: se fizer alguma gracinha vai morrer junto! Emma chorava de cabeça baixa num canto, evitando olhar a cena e tentando sufocar o choro. enquanto Cadelão pisoteava o velho que gemia, e espirrava sangue. quando cheguei em casa o sol havia acabado de aparecer. no trajeto de volta viajei encostado na janela, e me arrependi de ter saído de casa naquele dia.
A Cela...
a menina loura que matou o pai está encostada na grade da cela enquanto brinca com um boneco de nome Pequerrucho. ela mesma o confeccionou nas aulas de artesanato. é bonita de perfil. já chegou a conclusão de que não valeu a pena matar o imbecil. mas pensa que a melhor coisa é esquecer tudo o que aconteceu e pensar daqui pra frente. hoje a situação dela é a prisão. a outra loura que picotou o japa também se arrepende de ter matado o infeliz. ela enxerga a cadeia como um lugar por onde se deve passar. um lugar onde algumas pessoas vivem. ela olha a menina, com o boneco, que dá um sorriso. sente ternura por ela. a morena de óculos que foi acusada de matar a enteada empunha a bíblia. em seu desespero ela diz. vamos começar a oração. a menina traz o boneco e brinca com ele como fosse um ventríloquo. ela diz, tia, vamos orar. as três riem. a morena de óculos vê a atriz na capa da revista, e pensa que aquele cabelo curto, e aquele visual louro não combinam com ela.
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A Síndrome da Pós-Modernidade
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