o chileno está no fundo do bar, ouvindo a maquininha de música que toca Raul Seixas pela centésima vez, ele comprou cem fichas. a mesma música, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás. este chileno veio paro o Rio junto de uns peregrinos que vieram atrás do Papa, e acabou ficando por aqui. hoje ele trabalha na pastelaria de um chinês, e aluga um barraco na favela do Mandela. estou num canto do boteco com o meu violão encostado, e vendo a cerveja esquentar a minha frente. o casal ao lado briga por causa de uma revista que está em cima da mesa, e que tem uma matéria sobre um ator que diz ter compulsão sexual. ela diz: não se tem cura para a compulsão sexual. depois balança a cabeça. eles não dormem já faz uns dois dias. a garrafa de Big-Apple jaz na mesa. o namorado sacode o crânio e dá um trago no cigarro como quem diz que não se conforma com a assertiva. a menina com o cabelo tingido de rosa parece inconformada como um torcedor de futebol ao ver a marcação de um pênalti contra o seu time. ela se vira para o rapaz do boteco que passa o pano em cima do balcão, e pergunta: tem cura para a compulsão sexual? ele diz: como é que eu vou saber? eu sou apenas um atendente de boteco! aos poucos o Raul Seixas morre ao fundo.
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