“Cinco horas da manhã. Depois de uma noite perdida nas pensões do amor barato...”. É desse jeito que Luís Martins inicia o seu livro Lapa. Ele te joga num ambiente sórdido apenas na primeira frase. Luís Martins foi mais um autor vítima da inveja e do falso moralismo brasileiro. O autor teve livro recolhido e tudo. Na introdução do seu livro Noturno da Lapa, ele narra magistralmente esse episódio de sua vida. O Lapa de Luís Martins pertence ao apagar das luzes do cabaré. Aconteceu no fim da época de ouro da Lapa. O Lapa de Luís Martins é um livro sobre o baixo meretrício. Um personagem vai se casar com uma das prostitutas. E isso fará fazer com que ele perca o emprego. Uma censura moral. Assim como aconteceu com o autor e seu livro. A Lapa de Luís Martins não é a futura Lapa dos turistas. É a Lapa da desesperança. Não existem descrições sexuais. O narrador Luís Martins é um romântico. Ele é aquele cara que no final da “festa” sente a depressão. Luís analisa a vida das prostitutas a fundo. Envolve-se com elas emocionalmente, as ajuda, e vê uma namorada sua, a qual ele negou fogo trocá-lo por outro para em seguida estrear na prostituição. Ele se apaixona. E se alguém esperava um boêmio garanhão, ou um malandro... O malandro só aparece para dar um bico na barriga de uma das prostitutas. e para apunhalar o rosto de outra. Não há glamour aqui. Não lembro se ele deixa explícito, mas bem diferente das prostitutas que frequenta, o narrador tem boas "condições". Mesmo que seu pai não seja rico, como ele diz, a sua situação era ótima para aquela época. A sua penúria é mais por não dançar conforme a música dos pais. A descrição dos lucros, da decadência, e da mudança de status dentro da prostituição são impressionantes. O livro não é um canto ao prazer. Ele está mais para denuncia e o desabafo. Nada do escritor que se apaixonou por uma prostituta e escreveu uma linda historia romântica. Nada do vivant feliz. Quando o narrador volta depois de um período de dois anos em que foi "estudar" em outro estado., ele percebe que a vida das mulheres mudou drasticamente. Agora ele sente pena de Odette por quem foi apaixonado, e a quem agora presta auxílio. Ele recebe o conselho de Odette para que abandone seu novo caso, pois ele não é precisa viver na zona com gente como elas... Soa como um medo de que ele se torne "homem de mulheres". Odette ateou fogo às vestes. Odette. Ela corre tentando se segurar nas companheiras... É terrível... Mas ela não era a única. Como existia aquela "personagem" do samba de Wilson Batista que também pôs fogo às vestes...
terça-feira, 12 de julho de 2016
domingo, 10 de julho de 2016
A Fantástica Fábrica De Cadáver! Carlos Eduardo Taddeo...
você já ouviu esses tiros? quando são de armas de calibre trinta e oito são secos. explodem. explodem. pipocam. se forem de calibre quarenta cinco eles são mais graves. eles vêm em sequência primeiro. e depois de segundos infinitos se tornam espaçados. depois de um silêncio constrangedor. começa a se ouvir passos. alguém surge primeiro na esquina com a cabeça esticada. depois aparecem mais e mais pessoas. os passos se tornam mais rápido. já se ouvem vozes. e lá se vem algum nome familiar. um novo silêncio. esse amedrontador. normalmente vêm os gritos, e os choros das mulheres. aí vem a pior parte. a hora dos choros das mulheres. e aquele último choro, que é o da mãe, ele é insuportável, saí do fundo da alma, é uma dor sem cura essa da partida. A dor do adeus...
na entrada da favela existe uma máquina. está tocando Eduardo o tempo todo. uma crackuda tá dançando sozinha. ela tem uma garrafa vazia na mão. um coroa caquético aperta um baseado. um grupo entra num beco que dá para o outro lado. mutilados. esfacelados. todos estão por ali. naquele lugar tão filmado, tão comentado, mas tão pouco frequentado por aqueles que deveriam, muito frequentado, muito “mal frequentado”. enquanto a voz do Eduardo ecoa...
antigamente os moleques balançavam a cabeça ouvindo rap, olhavam para o lado, e diziam: “Só a realidade!”. ninguém fala mais a realidade. Atualmente só o Eduardo fala a realidade. talvez alguns outros... eu sou um que não digo a realidade. ainda sou muito egoísta. mas reconheço que o Eduardo diz a realidade. antigamente eu ficava feliz quando ouvia um disco de rap com dez músicas boas, vai que fossem oito, mas duas horas?!... ele exagerou, e é como se dissesse quem sair por último apague a luz. Eduardo é uma metralhadora de palavras. e que porra é essa de cultura que ele tem que ele vem citando todos os teóricos revolucionários, e anarquistas, e mistura tudo isso com gírias das favelas de São Paulo, com a história do Brasil, com a história do mundo, eu nem tenho tempo de pesquisar todas aquelas citações. calibres. policias. leis. documentos. mas se tem aula sobre tanta coisa. ele parece um jornalista falando. para que o playboy entenda tem de explicar que ele é uma espécie de Ricardo Boechat. para que o playboy entenda tem de explicar que ele é uma espécie de Chico Buarque para a poesia. você tem de ouvir o disco com uma enciclopédia e um dicionário do lado. vai aprender muita coisa. a história do Brasil. tudo que ele fala só não vê quem não quer. Eduardo é bacharel na história do Brasil contemporânea. esse seu disco é o Dom Casmurro do rap. ele dá nome aos bois. as siglas. numa das músicas ele diz que se tornou o patinho feio do rap porque não é comercial. ele é mesmo! “enquanto o rap põe gelo no balde da ostentação...” Eduardo conta sobre tudo aquilo que nós, os brasileiros, sabemos, mas não podemos falar. tudo que está por debaixo do pano. e que não pode se revelado, pois, amamos nossas vidas. Eduardo cita de questões ecológicas, avanços da ciência... eu nem consigo ficar citando frases. porque são duas horas delas de frases de rap. seco. rap de verdade. para quem não gosta de mentira. para quem gosta da verdade que liberta. e é um disco para maluco, para todo mundo que olha pro outro lado da rua e pensa. porque a gente aceita viver assim? eu gosto de rap. de texto. Eduardo superou todo mundo. atropelou. mas é porque ele é bem mais do que um rapper, ele é um menestrel, está combatendo em contato com os revolucionários do mundo inteiro, creio eu, deve se conectar com eles telepaticamente, quando vejo os grandes raps do mundo, parecem crianças inocentes de frente para o Eduardo. Como ele diz, enquanto estão preocupados com flou. o Eduardo é o único que não se preocupa com nada. nem com ninguém. só com aquela missão que ele tem que cumprir. e a qual me parece nasceu destinado... é um herói que nós simples mortais vamos viver sonhando ter a mesma coragem. ele sempre irá nos inspirar. quando eu pensei que o rap ia acabar. Veio o Eduardo e renovou tudo aquilo que eu mais amava no rap. aquele lado havia me feito entrar no rap. Eduardo mostrou um caminho que chega a ser ridículo ficar olhando para o próprio umbigo. Ele fala a verdade. a sua verdade? não! a nossa verdade! a verdade que nós não queremos aceitar. tudo começou porque vi pichada A Era Das Chacinas... depois das dez todo excluído... vira alvo vivo!
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Nelson Rodrigues - A Mentira.
Lúcia vai arrumar o inferno naquela casa. A descrição da menina de Nelson Rodrigues nesse livro é tão viva, que enquanto se lê é quase possível ouvi-la respirar, ou sentir a sua brancura lívida... Ele é um mestre dos personagens, através de pequenos gestos, diálogos e atitudes. Lúcia é um desses casos. Ela é uma heroína de Nelson. Assim como Silene, de Asfalto Selvagem, ou qualquer outra, talvez Glorinha, ela é mais uma de suas personagens cínicas, e vilãs sem igual da literatura, e ao mesmo tempo heroínas. Mais uma Bonitinha, mas Ordinária. Os personagens de Nelson são encurralados entre o lema do prazer arrebatador, e incontrolável, e a culpa incutida em seu íntimo, e o quê os outros vão dizer. O quê os vizinhos irão pensar. O Doutor Godofredo diz que Lúcia está grávida. Dona Ana vai ter de contar ao marido. Lúcia tem duas irmãs. Dora, e Isabel que tem maior participação no drama. Toda a família vai morar na Barra da Tijuca. É vontade da mãe que deseja cuidar das filhas. Então a casa acolhe as filhas com os genros, e essa caçula. Que é a obsessão do pai, que é Doutor coisíssima nenhuma. É apenas um título que imputou a si mesmo. Quando vem a notícia, a mulher quer saber, filho de quem? Todos querem saber, mas filho de quem? A menina não nega, Lúcia começa a fazer um jogo psicológico com todos, e a manipular a história do filho. O pai em sua fúria, odiosa, de quem detesta as outras filhas, e ama somente a essa como deixa bem claro, mostra toda a sua fraqueza no episodio. Culpa a mulher pela “desgraça” da filha, e consequentemente da família. Quando ele descarrega na esposa que seu amor por aquela filha, é de um longe um amor maior do que ele sente por ela, que ele diz sentir amor nenhum, e pelas outras filhas. Isabel, essa que aparece como esposa de três dos cunhados em situações diferentes, diz ter herdado uma úlcera por causa do pai. O pai em sua fúria acaba com a mulher, que Nelson diz ser pusilânime, com fraqueza de caráter, ou sem caráter, que nunca enfrentara o marido. A mulher dona Ana diz ao marido que Lúcia não é sua filha. Lembra-se daquela viagem a Curitiba. Lúcia veio depois de todo mundo. Era uma filha temporã. Ninguém acreditou quando Lúcia veio. Pois dona Ana já ia com idade avançada para engravidar. O homem insiste, diz que não tem ciúmes nem nada. Mas foi o Cláudio. Um amigo de Doutor Maciel já falecido. Um homem fraco, e com aspecto de doente. muitas vezes esse personagem do homem doente que ninguém dá nada por ele vai aparecer na obra de Nelson Rodrigues, vitima de um romantismo de uma mulher que sonha com um príncipe encantado, e que contrariando a todos, podendo escolher a quem quiser, algumas vezes opta pelo mais fragilizado, aquele que aparentemente não oferece perigo, e traz a tristeza no olhar, como se esse gesto elevasse a mulher, como se com aquele homem tudo fosse permitido, e com o canalha não. Lógico que na obra de Nelson existem muitas mulheres obcecadas por esse canalha. A história que se desenrola num ritmo alucinante e sem tempo para um suspiro. Leva a revelação de que o namorado de Lúcia, quem ela gosta? Como eles perguntam a ela o tempo inteiro você tem de gostar de alguém? Um filho não aparece assim, do nada. Eles nunca se referem ao ato, como se a simples menção fosse imoral. Mesmo que o escritor se sentisse pressionado, a escrever dessa forma por causa da moral vigente, a minha interpretação é que nesse caso, era isso mesmo que ele queria sublinhar, quem ela gosta, e não com quem ela “dormiu”, “deitou”, ou qualquer outro eufemismo. O namorado de Lúcia é o paralítico da casa ao lado. Nesse caso, ele é o inválido. Como dizem. Mas agora. Lúcia tem certeza de que o filho é dele. Mas ela não conta. O paralítico que odeia a todos e se odeia. Nonô. Diz a Lúcia que ela esteve com ele por pena. E ele insiste que todas as mulheres são iguais. Ele não aceita de forma alguma que a menina o tenha desejado. Ele tem dezenove. Ela tem catorze. Quando a mãe diz que ela é apenas uma criança. Uma das irmãs grita criança coisa nenhuma! Lúcia se fecha e aterroriza a todos com o seu cinismo. Menos o pai que insiste em sua defesa. Depois que a mulher diz ao pai que Lúcia não é sua filha. Tudo muda. É a mulher que lê seus pensamentos. E que o chama de monstro. Diz que sabe muito bem o que ele está tramando com aquela viagem para ficar sozinho com a filha. O argumento é que eles têm que tirar a filha dali. Para que não vire um escândalo e para que ninguém fique sabendo. A mulher percebe a manobra do marido, que agora não tem de encarar o incesto pela frente, assim como o ato de Lúcia mexe com a imaginação do pai, ele destroça com a dos genros, e com um deles em especial, Aparício, Marido de Isabel, a irmã da úlcera. Então se a menina fez isso, o quê mais ela poderia fazer, o velho como é tratado no diálogo dos genros que são excelentes, em seu cinismo, arma uma trama de que a velha está pirando, vendo se aproximar o dia da viagem Dona Ana tentar matar o marido. Que diz que a mulher está enlouquecendo, e faz de tudo para levá-la a um hospício, no quê a mulher jura ao marido que ele será morto pelo pai do filho de sua filha, o paralítico se derrama ao saber da gravidez, e de que a menina vai viajar, ela diz que tudo que fez foi por pena. Ela inventa uma mentira para o pai. Que a pressiona, com a praga de dona Ana na cabeça. Ela inventa uma história que na festa que aconteceu na casa de Nonô, num casamento, ela havia bebido e que não sabia quem fizera aquilo com ela. O pai que tanto insistira no nome do namorado, parece se resignar com aquela mentira. Que não dá a ele a obrigação de ter de saber quem é o pai, e que pode viver agora para cuidar da sua “filha” adorada. Que dona Ana diz, a única que não é a sua filha. Aparício, o genro, começa a pirar, se encontra com a garota. E sabendo da história toda que a esposa conta para ele dentro do quarto. Ele intercepta Lúcia que se despedira do vizinho na rua. Nonô. E diz a ela que ele é o pai da criança. e dizem sua loucura se declara apaixonado. Ela ameaça contar ao pai. Ele propõe a fuga. A menina parece gostar do assédio. Aquele era o genro que ela mais gostava. Aparício segue para cima do velho. E o ameaça. Ele confessa tudo. Diz que está apaixonado e enfrenta o velho. Ele diz, nós somos rivais! E dispara quatro tiros no velho. E diz. O que dona Ana não conseguiu fazer eu faço. Um amigo chamado Telêmaco tentou avisar a Aparício que o Doutor Godofredo estava louco. Aquela semana em que Lúcia fora se consultar com ele, o doutor havia dito que uma senhora de oitenta anos estava grávida, e uma menina de oito anos também. Era oito ou oitenta. O velho estava pirado. Aparício que gritava por Lúcia na cadeia. Ao saber da boca do outro que ela não era uma mulher feita. Como em muitos momentos os personagens se referem à Lúcia com a sua posição após o ato consumado. Em sua decepção de que ela não era apenas uma menina, Aparício mete uma bala na cabeça.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
John Fante, Charles Bukowski, Henry Miller e Louis-Ferdinand Céline!
eu li Pergunte Ao Pó por causa de uma introdução de Bukowski. eu não gostava de Bukowski porque a maior parte das pessoas que lêem Bukowski não entendem a sua literatura. então elas pensam que Bukowski é apenas sexual e alcoólico. e os cátedras moralistas se aproveitam disso para censurar Bukowski. embora não se encontre Bukowski nos sebos nem nas bibliotecas. pois está sempre esgotado. de Bukowski só se encontra livros novos e mesmo assim não é fácil. de segunda mão é mais através da internet. mas caiu essa introdução de Bukowski sobre John Fante em minhas mãos. Eu li os romances de Fante. não os contos. os romances. eu gosto de romances com Arturo Bandini. Eu sou Arturo Bandini! eu já gritei. quem leu esses livros e não gritou essa frase? Eu li Pergunte Ao Pó num sábado de tarde ensolarado. depois li Bunker-Hill, e Espere A Primavera, Bandini. Rumo A Los Angeles, esse último foi o primeiro que ele escreveu, e que só apareceu após sua morte. permaneceu inédito enquanto Fante esteve vivo (Assim como Diário de Um Jornalista Bêbado de Hunter Thompson que é maravilhoso.) o livro mostra o antes de Bandini. ele ainda em casa não conseguindo se enquadrar. depois disso eu li Bukowski. todos os romances de Bukowski. não li poesia porque não é meu o forte. quanto aos romances, contos, crônicas, eu li tudo. e depois que senti os mesmo engulhos daquela mulher que vomitou ao ter uma relação sexual com Bukowski, o vômito havia curado a ressaca, e eu estava livre. ele não me assustava mais. é a mesma sensação libertária que eu tive ao ler o Henry Miller. bem mais erudito que Bukowski, é claro. mais profundo. Henry Miller o memorialista. gosto dos livros de viagem. do Big-Sur... de tudo! Não li apenas algum ensaio e o livro sobre o palhaço. Amo Big-Sur, o livro sobre a Grécia, o Colosso de Marússia, e lógico a trilogia, a Crucificação Encarnada. Todos que eu li. Câncer, Capricórnio, Sexo, Clichy. Primavera Negra. Os Livros da Minha Vida, com esse livro Henry Miller me ensinou a ler. A Crucificação Encarnada é a libertação, como quando ele diz que um homem para chegar ao paraíso tem que chegar ao inferno primeiro. é uma catarse ler Henry Miller. ele rompe todas as barreiras morais, filosóficas, toda essa ladainha mentirosa que os autômatos conseguem manter junto com os seus senhores feudais através dos tempos. Henry Miller não deixa pedra sobre pedra. Sábio... Miller escreveu um texto aos oitenta anos em que dizia que a vida não era boa, nem má, nem uma coisa, nem outra. ele admirava o estilo de vida de Picasso. e se dizia um adolescente. Eu li os livros de Miller na sequência. li aqueles livros crus do começo. Moloc. Crazy Cook. que não foram lançados em vida. Henry Miller é uma paixão antiga que encontrei na biblioteca por acaso. eu vi que o distrito que ele descrevia era igual ao distrito que eu vivia tanto tempo depois. assim como Bukowski encontrou John Fante. Já o Céline que é o pai de todos eles, inclusive influenciou os beats, que foram também influenciados pelo misantropo Salinger? os quais eu fui a procura. Bukowski falava sobre Céline. em um de seus livros. Céline é um personagem. no Pulp. creio que fosse seu escritor preferido. e lendo uma introdução sobre o livro Viagem Ao Fundo Da Noite, eu li que Henry Miller havia reescrito Trópico de Câncer, após ler esse livro. eu li. e cheguei a conclusão de que o grande autor era Céline. Céline não escreveu tanto como Nelson Rodrigues, por exemplo. mas esse livro é o melhor livro que sobre o ser humano. é um livro sobre a guerra. eu duvido que exista um romance que me agrade mais. se descobrir eu anuncio. o velho Céline ficou louco na guerra. assim como o meu avô que não podia ouvir barulho de bomba. mas ele continuou vivendo e escrevendo. com todas as perturbações. será que ele teve a Síndrome de Estocolmo? era neurótico de guerra. eu li Viagem Ao Fim da Noite. Morte A Crédito.que realmente é tão bom quanto Viagem como as pessoas juravam. existem escritores que escreveram mais que Céline. mas poucos alcançaram a velocidade da fala e do pensamento como Céline conseguiu. e que desnuda o mundo para qualquer incauto. ele nos conheceu profundamente. ele sabe que estamos mentindo. como ele diz em Morte A Crédito, ah, minhas inclinações...não li Norte. graças a Deus! ainda falta um belo livro de Céline... vou ter o prazer de ler uma página por dia. como tenho feito com o Lapa de Luis Martins. outro escritor injustiçado. por esses mesmos motivos. censura moral. inveja. panela. e o cacete a quatro! mas um conselho que dou, acho que se não tivesse lido Viagem primeiro, eu não teria viajado no Morte! Eu já li Marcel Proust que é um escultor de catedrais da palavra que amo. li Flaubert, Kafka, Dostoiévski, Machado, mas nada no mundo nada me toca tanto, e tão profundamente quanto esse famigerado Céline. é uma pena que o seu nome tenha sido associado ao nazismo. é uma pena que as pessoas não entendam a loucura da guerra. o meu avô não podia ouvir barulho de bomba. uma vez falei sobre Céline e ouvi uma pergunta. ele num era nazista? que pena. a força da literatura dele é de poucos. ele põe o ser humano em seu devido lugar. embora os puritanos. os atrasados. as pessoas comuns. normais. os burros. os carentes de inteligência, de imaginação. de sensibilidade. os insensíveis. os chatos. os caretas. os janotas. que são a maioria esmagadora do planeta, não entendam que é libertador. assim como entrar num trem fantasma. e no final dele, novamente, poder respirar, e ver a luz do dia. é uma pena que não entendam que assim como Cristo, o Henry Miller de a Crucificação Encarnada sofre por você. Céline ouvia barulhos. e escrevia. devia ter insônia e tudo. ele foi o maior pacifista que existiu. o escritor que escreveu sobre a guerra e a odiou mais profundamente. e um dos que mais sofreu com ela. por isso ele me impressiona. ele foi para o inferno e escreveu sobre ele. e através de sua leitura, podemos purificar nossos pecados, e nos ver sem ilusão. límpidos e claros como água. como num espelho. eles não oferecem o fim dos sofrimentos. esses escritores cruéis e realistas. assim como Nelson Rodrigues (outro injustiçado em alguns momentos), e que assim como Bukowski, que é um poço de desejos e que sucumbe a todos eles... . através da saturação nos mostram o caminho para sossegar os instintos por alguns instantes. eles não nos vendem o fim do sofrimento e sim o fim das ilusões quanto ao ser humano. ou melhor, quanto a si mesmo!
quarta-feira, 13 de abril de 2016
A Praça...
no começo havia aquele espaço vazio. e um dos caras que estava no bar em frente jogando cartas, e bebendo deve ter dito. a prefeitura deixou aquele espaço vazio. aquele espaço vazio fica no entroncamento das ruas. então eles decidiram. vamos fazer as mesas, e as cadeiras de cimento. a gente faz uma vaquinha na rua. alguém deve ter dito. fechou! e lá estava a mesa. os banquinhos que sempre exibiam a sua utilidade. ou era o descanso no trajeto dos que vinham com as bolsas de supermercado. e a natureza colaborou enchendo as arvores, e deixando uma sombrinha. quando chovia parte do pessoal improvisava uma lona. até que alguém deu a ideia de que eles fizessem uma cobertura. e novamente eles se cotizaram para tal. e aí apareceu a cobertura. e começaram os churrascos comunitários, pois boa parte daqueles moradores eram criados na área. ou moravam ali fazia algum tempo. então alguém deu a ideia. porque a gente não faz uma churrasqueira. da churrasqueira nasceu o pagode improvisado. e do pagode improvisado nasceu o bloco. e a festinha do dia das crianças. e a festinha junina. e sempre que eu passo por ali, eu me lembro que aquela pracinha era apenas um espaço vazio.
domingo, 13 de março de 2016
Você Conhece Daniel Panão?
Assim como as suas
rimas a história de Daniel Panão é sinuosa. Às vezes quebrada. Às vezes acelerada. Sentado ali naquela cama de solteiro ele me explicava. É um bagulho
estudado. Pensado. Não é algo que eu fiz, assim, não... De qualquer jeito...
Panão gesticula como se conseguisse guiar as palavras com as mãos, o que parece
ser a vontade expressa em seus olhos. Quando dá aquela risada zombeteira.
Daniel Panão está com uma camisa do N.W.A. Daniel Panão é o cara que canta com
o Daniel Shadow. Aquele maluco naquele programa do Canal Show Livre que está no
YouTube, de boné e de óculos escuros. E que é apresentado pelo Clemente do
Inocentes. Paralelo a isso ele mantém seu trabalho solo. Daniel Shadow era do
Cartel MC´s. Durante a conversa com Panão perguntei sobre algumas frases...
Sobre algumas frases que eu havia conseguido captar ouvindo sua música. Mas
hoje quando abri a música Você Que Faz Versos, no YouTube, Daniel Panão em
parceria com DJ Erick Skratch. Desisti. Fiquei com a impressão de que todas as
frases eram memoráveis, e que seria uma injustiça escolher uma. Você Que Faz
Versos é aquela letra que se sustenta no papel. Não precisa de ninguém que
segure a folha no ar. O refrão da música cita um trecho extraído do Poema, E
Agora, José? Daniel Panão tocou teclado numa banda cover do Pink Floyd, e assim
como muitos músicos aprendeu música na igreja. No caso dele numa igreja batista
na Penha. Onde tocou teclado e flauta durante parte de sua adolescência. Panão
se envolveu com a vida errada. E assim como inúmeros cantores de rap. Saiu da
vida errada. E voltou para o rap. Daniel Panão, carioca nascido no Grajaú, e
cria da Penha, morou dos 11 aos dezoito anos na zona noroeste de BH. Daniel
Panão passou um tempo zanzando nas ruas do centro de BH. Simplesmente para
gravar, ele afirma. Nada do quê eu vivi foi por necessidade... Fiz porque eu
tava maluco! Panão dormiu no sofá de um, e de outro, igual ao líder do Nirvana.
Tudo por causa da música. Música essa que ele me diz, tudo é música! Para
ajudar em casa Panão trabalhou numa lanchonete famosa. Trabalhou numa torcida
do Vasco. Time do seu coração. Trabalhou. E trabalhou. Ele trabalhou para
ajudar a mãe, e uma época simplesmente deixou o rap de lado. Até que veio o
convite de Daniel Shadow. Panão voltou para a música. Ele que trabalhou como
camelô na Praça Sete em BH. Assim como o dramaturgo Plínio Marcos Panão
trabalhou com o quê pôde. E nessas idas, e vindas. Entre um trabalho e outro.
Panão trabalhou no estúdio de rap. E apresentou um programa numa radio
comunitária da Lapa, Madame Satã. E assim como Geraldo Pereira, que dizem ter
morrido em consequência de uma briga com o famoso travesti que dá nome a radio,
Panão caminhou por aquelas ruas com a música na cabeça. Ele era frequentador
assíduo de um evento chamado Reciclando Pensamentos, que acontecia na Fundição
Progresso semanalmente, e que acabou por causa de um incêndio no local. Mas as
chamas não puderam apagar os laços que Panão havia estreitado com o rap. Panão
começou a cantar rap influenciado por um amigo de BH, Brow, que colocava um CD
de bases para rolar em sua casa, e improvisava. Tudo movido a altas
doses de suco de tomate. E assim como Brow outro incentivador foi o amigo
Minhoca. Amizade das ruas. Dos moleques que andavam de skate. Sua “família de
rua”, os Kamikaze Crew de BH. O seu irmão Diedro, Pelão, emprestou um CD do
Jigaboo a Panão... Pronto. Daniel ia se divertir. O amigo Brow, que morreu
assassinado em 2014, deixou para sempre a lembrança daquele dia na mente de
Panão. No dia em que Panão rimou a primeira vez... Passou minutos rimando sem
parar. E era a primeira vez que rimava! Lá foi ele no dia seguinte comprar um
CD de bases. Desde então, parece que toda vez que a vida aponta um caminho é em
direção à música. Panão me diz. Eu canto rap. Rap é música! Quando a gente
levanta Panão me pergunta: tem um careta? Eu queria perguntar a ele sobre a
tatuagem... Mas esqueci. Digo que não. Caminhando na Penha Daniel Panão já deu
autógrafo até para adolescente de igreja que gosta de rap. Embora outras
pessoas olhem desconfiadas, ele me diz, saí de madrugada, de dia em casa,
pensam que é vagabundo... Eu me lembro das frases de um dos seus amigos. EAZY
CDA. Na música Somos. “Nosso ofício é visto para os de fora como esquisito. Mas
a largada já foi dada. Não tem volta. Não ligo. Vou indo. Seguindo. Erguido
firme no destino. Aonde iremos chegar já se tornou um detalhe mínimo!” Panão só
tem aqueles quatro sons que estão na internet. Ele diz que está pensando... Ele
quase não grava nada. Demora a gravar. Mostra pouca coisa. Fica desconfiado.
“Todo Rapper que escreve, fará livros também” Disse Sabotage. Mas esse não é o
desejo de nosso amigo. Ele diz, não gosto de escrever! Eu já ouvi isso da boca
de alguns escritores. Daniel Panão está de mudança. Não vai mais morar na
Penha. Pena. É a música... Eu me despeço de Panão que mergulha na noite das
nossas ruas tortuosas, e de nossas calçadas quebradas, que mais parecem
estacionamentos... Panão some ao virar a esquina. É a música... Eu penso.
fotos: Sergio Vinicius.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Ela Conversava Com as Plantas...
Ela conversava com as plantas
Ela falava com toda a confiança
Ela parecia enluarada
Mas as plantas nunca lhe disseram nada
E ninguém conseguia explicar
O que ela queria dizer
Se é que ela dizia alguma coisa
Que as plantas conseguissem entender...
Um dia eu perguntei as plantas
Se e a gente incomodava indo ali no jardim
Mas pelo que deu para perceber
As plantas só fizeram rir de mim
Só fizeram rir de mim
As plantas só fizeram rir de mim
Só fizeram rir de mim
As plantas só fizeram rir de mim
Ela conversava com o gato
Que nunca falou mal de nenhum rato
Que sempre a ouviu com paciência
Durante toda aquela convivência
Ele também nunca comentou nada
Ele sumia quase toda a madrugada
E um dia eu perguntei a ele
Se a gente não atrapalhava a vida dele
Ele me disse que eu não era nada dele!
E que nem ela era da família dele...
Ele me disse que eu não era nada dele!
E que nem ela era da família dele...
Ela falava com toda a confiança
Ela parecia enluarada
Mas as plantas nunca lhe disseram nada
E ninguém conseguia explicar
O que ela queria dizer
Se é que ela dizia alguma coisa
Que as plantas conseguissem entender...
Um dia eu perguntei as plantas
Se e a gente incomodava indo ali no jardim
Mas pelo que deu para perceber
As plantas só fizeram rir de mim
Só fizeram rir de mim
As plantas só fizeram rir de mim
Só fizeram rir de mim
As plantas só fizeram rir de mim
Ela conversava com o gato
Que nunca falou mal de nenhum rato
Que sempre a ouviu com paciência
Durante toda aquela convivência
Ele também nunca comentou nada
Ele sumia quase toda a madrugada
E um dia eu perguntei a ele
Se a gente não atrapalhava a vida dele
Ele me disse que eu não era nada dele!
E que nem ela era da família dele...
Ele me disse que eu não era nada dele!
E que nem ela era da família dele...
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
O Veneno da Natureza...
Nem toda fruta que se come tem sabor
Nem toda flor que se cheira tem odor
Nem toda fruta que se come tem semente
Nem toda flor que se cheira a gente sente
Nem toda fruta que se come é madura
Nem toda planta que se cheira é da pura
Nem toda a planta que se planta tem raiz
E nem tudo aquilo que se fala a gente diz
Nem toda casca diz quem é o alimento
Nem toda terra que se pisa é firmamento
Nem todo alimento tá próprio pra consumo
Nem toda bosta de vaca é pra insumo
Nem todo o interior tem o ar puro
Nem todo fruto que está verde está duro
Nem todo animal está pronto pro abate
E nem toda erva que se planta é erva mate
Nem tudo na natureza é uma beleza
Eu conheço o veneno da natureza
Nem todo o solo fértil é arado
Nem todo bife do bom é bem passado
Nem toda vaca louca é para o matadouro
Nem toda serra pelada vale ouro
Nem toda terra boa é adubada
Nem toda cratera saliente é apertada
Nem todo boi que eu conheço usa chifre
E nem todo gado de esquife é bom pra bife
Nem toda praia está imprópria para banho
Nem toda erva maldita leva cânhamo
Nem todo pica pau é amarelo
Nem todo chá de boldo é chá de cogumelo
Nem toda planta que se planta é pra queimar
Nem toda natureza é pra se preservar
Nem todo animal está em extinção
E nem todo veneno é pra incineração
Nem tudo na natureza é uma beleza
Eu conheço o veneno da natureza
Nem toda flor que se cheira tem odor
Nem toda fruta que se come tem semente
Nem toda flor que se cheira a gente sente
Nem toda fruta que se come é madura
Nem toda planta que se cheira é da pura
Nem toda a planta que se planta tem raiz
E nem tudo aquilo que se fala a gente diz
Nem toda casca diz quem é o alimento
Nem toda terra que se pisa é firmamento
Nem todo alimento tá próprio pra consumo
Nem toda bosta de vaca é pra insumo
Nem todo o interior tem o ar puro
Nem todo fruto que está verde está duro
Nem todo animal está pronto pro abate
E nem toda erva que se planta é erva mate
Nem tudo na natureza é uma beleza
Eu conheço o veneno da natureza
Nem todo o solo fértil é arado
Nem todo bife do bom é bem passado
Nem toda vaca louca é para o matadouro
Nem toda serra pelada vale ouro
Nem toda terra boa é adubada
Nem toda cratera saliente é apertada
Nem todo boi que eu conheço usa chifre
E nem todo gado de esquife é bom pra bife
Nem toda praia está imprópria para banho
Nem toda erva maldita leva cânhamo
Nem todo pica pau é amarelo
Nem todo chá de boldo é chá de cogumelo
Nem toda planta que se planta é pra queimar
Nem toda natureza é pra se preservar
Nem todo animal está em extinção
E nem todo veneno é pra incineração
Nem tudo na natureza é uma beleza
Eu conheço o veneno da natureza
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
A Cidade...
A cidade segue o seu rumo secreto
Existe algo que não funciona nem por um decreto
A cidade segue o seu ritmo diurno
A cidade segue o seu ritmo noturno
Eu não sei quem acelera de verdade.
Se é ela ou se sou eu.
Tem fiança quem atropela
E morte! Quem morreu?
A cidade se une em prol da sua crença
Desmorona em sua desavença
Na cidade tem quem manda
E quem é mandado
A cidade tem vítima
Não tem culpado
A cidade tem multa
A cidade tem tarifa
A cidade tem pedágio
A cidade tem rifa
A cidade tem ladeira
Cidade é marginal
Cidade tem velocidade
Cidade tem perimetral
A cidade tem defeito
A cidade tem excesso
Na cidade há quem veja
E quem não chegue perto!
Existe algo que não funciona nem por um decreto
A cidade segue o seu ritmo diurno
A cidade segue o seu ritmo noturno
Eu não sei quem acelera de verdade.
Se é ela ou se sou eu.
Tem fiança quem atropela
E morte! Quem morreu?
A cidade se une em prol da sua crença
Desmorona em sua desavença
Na cidade tem quem manda
E quem é mandado
A cidade tem vítima
Não tem culpado
A cidade tem multa
A cidade tem tarifa
A cidade tem pedágio
A cidade tem rifa
A cidade tem ladeira
Cidade é marginal
Cidade tem velocidade
Cidade tem perimetral
A cidade tem defeito
A cidade tem excesso
Na cidade há quem veja
E quem não chegue perto!
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Três Minutos Naquela Rua...
esse preto que tá em pé tá com uma touca bordada. verde, amarela e vermelha. ele deve ter uns cinquenta anos ou mais. tá grisalho, mas parece o rosto de um menino no corpo de um homem. ele diz pro outro. mosquito maldito! o governo esconde os números... olha quantas mulheres grávidas... o outro sentado no meio fio pergunta... será que vamos ser dizimados? os outros não respondem. ignoram o seu comentário. passa uma menina branca magrinha de cabelo pintado de azul com uma camisa do Ramones. do outro lado da rua tem um bar, e dentro do bar três malucos. eles dançam ouvindo Vida Loka Parte Dois na máquina de música. eles dançam, e fazem cara feia olhando em direção ao outro lado da rua onde estão os outros três malucos. eles dançam como se tivessem fazendo uma apresentação para eles... Mas os malucos parecem impassíveis. eles estão com os olhos vermelhos de tanto pegar sol. sobe uma fumaça da churrasqueira. eles ficam encobertos pela fumaça que sobe da churrasqueira. esse cara mais velho tá com os dois dedos frente à boca. como se segurasse uma caneta. mas, não há nada ali... ele só está prendendo o ar. com as mãos. passam duas meninas conversando. uma delas pergunta: você já foi assaltada? ela vai dizer que não. acho que por causa da minha cor... o outro pergunta. vocês vieram de trem? Infelizmente... ele responde. viemos esmagados num vagão da SuperVia. porque não vieram de ônibus? você só tem essas duas opções? ele responde com outra pergunta. passa um moleque olhando para o chão. o cara que tá sentado no meio-fio pergunta. hei, moleque! tá procurando o quê? o moleque não responde. o outro diz. ele deve ter perdido alguma coisa. passa um cara correndo. o cara que está no meio fio grita. se eu pudesse gritar eu gritava. mamães: não deixem seus filhos na rua! o mais velho diz. qual é maluco tá ficando doido! quando explodem as sirenes... de bombeiro. e todo mundo que está na rua corre. para ver o quê é.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
A Rua...
De dentro do boteco vem o som da maquininha
Sentado no caixote, esperando uma quentinhaUm de cadeira de roda, outro de muleta.
Sentado no alambrado ou encostado na mureta
Mosquito no nariz derramado de plantão
Tem quem passe a vida toda procurando algo no chão
Mal tempo, clima tenso, rotina, levanta a blusa!
Tem velho, tem menina, porque todo mundo usa!
Ficha na maquininha, pilha no radinho.
Faz fila, abre a visão, não atrapalha o caminho.
Vagando ou andando sob o efeito zumbi
Deita-se não descansa quando cai é pra dormir
Sente o aroma da de galo vem guiado pelo cheiro
Mete a boca no gargalo desce o ralo do banheiro
Correndo e se debatendo com um tica nervoso
Tremendo se mordendo tipo um cão raivoso
Onde se vê mendigo ou cachorro faminto
Não há dama de honra cavalheiro distinto
O quê você vê na tevê ou então na internet
É o quê ali se vê e nunca se esquece
Faz rolo barganha, ganha qualquer dinheiro.
Na barraquinha tem bala, copinho d´água e isqueiro.
Na rua da vala, da linha ou do valão.
Na rua do campinho, da escadinha, ou do lixão.
Alguns são mortos e outros vivem encarcerados
Existem os que desistem e os que vivem mutilados
Seus complexos, neuroses, suas depressões.
Sujeito a divagações que apavoram os corações
Esperando o fim da guerra, dentro do mundo moderno.
Nesse cantinho da Terra, Rio de Janeiro, um inferno!
Naquela rua têm uns tipo psicótico
Naquela rua tem uns tipo neurótico (paranoico)
Naquela rua tem uns tipo eufórico
É lógico! É lógico!
De onde você é? Quem é você? Onde você mora?
O quê faz aqui? Passeando a essa hora?
Não vem mandado, ninguém passa batido.
Pra chegar ao farmacêutico tem que ter olho clínico
De dia o tempo fecha a noite brilha feito sol
Medida de segurança, por favor, pisca o farol.
Onde não tem ONG, nem igreja, nem estado.
Onde a vala é negra e os impostos são cobrados
Onde não tem padre, pai de santo, ou pastor.
Ansiolítico vicia na neblina do vapor
O círculo vicioso se ainda está vivo
Se dirige a farmácia toma um antidepressivo
Tem tido ansiedade sudorese uma dose
Joga na celulose não morrer de overdose
Na hora do recreio no intervalo da escola
Em busca de uma dola dentro daquela sacola
Na hora do almoço com uniforme do trabalho
Maltrapilho, esmolando, parecendo um espantalho
Na rua do sofrimento, ou na rua da amargura.
Dá soco, leva chute, toma tiro, leva dura.
Referendo, votação, maioridade penal.
Injeção letal, para a pena capital.
Sem a instituição da reabilitação
Masmorra, calabouço, cadeia ou prisão.
O quê não há em casa procura em outro lugar
Um beco sem saída para se chamar de lar
Cuide de você mesmo, não conte com o governo.
Se for bala perdida vai ter flor no teu enterro
A previsão é de mal tempo e de muito sofrimento
A esperança floresce, mas carece de exemplo.
Naquela rua têm uns tipo psicótico
Naquela rua tem uns tipo neurótico (paranoico)
Naquela rua tem uns tipo eufórico
É lógico! É lógico!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Eu, Christiane F, e David Bowie...
tudo começou com Christiane. pois havia em sua casa dois álbuns do Bowie. o mesmo álbum. que nós ficamos ouvindo a tarde inteira enquanto elas se arrumavam. antes de irmos a Sound. isso foi antes de Christiane conhecer Detlef. eu deixava o disco rolar. e sempre que a agulha chegava ao final do disco. eu me encaminhava até o aparelho. pegava a agulha. e a levava ao início do disco. eu não queria que aquele disco parasse. Babsi veio até a porta e me mostrou a blusa, ela perguntou, gostou? balancei a cabeça dizendo que sim. ela disse na direção do quarto. Christiane, acho que ele gostou mais do Bowie! Christiane, gritou de volta. num te disse que todo mundo gosta, Babsi! eu disse a Babsi. igual dizem os críticos de jornal. ele possui uma sonoridade própria. ela entortou a boca como as mulheres fazem quando nós fazemos um comentário irrelevante. e voltou para o quarto. continuei sacudindo o pé esquerdo. em cima do joelho direito. nós fumamos um. e ficamos chapados ouvindo música. eu pensava naquele cara viciado em heroína que havia vendido sua coleção do Bowie. e sentia pena dele não poder mais ouvir o David Bowie.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Quentin Tarantino – Os Oito Odiados...
Tarantino fala do bandido. da violência humana. ele é a voz do assassino. a voz da sociedade que se auto destrói. a sua violência não é a mesma violência chorosa dos filmes que vemos todos os dias. é a violência real dos assassinos e psicopatas que abatem seres humanos, como quando esmagamos formigas entre o farelo, e o papel de pão. é Lógico que Tarantino tem filmes como Bastardos Inglórios, e Tempo de Violência, que as pessoas vão querer assistir em todo novo filme seu. por exemplo, eu vou sempre querer assistir aquelas caretas do Brad Pitt de Bastardos Inglórios, e aquele nazista com a sua tortura psicológica. sempre vou querer ouvir os diálogos de Samuel L. Jackson com John Travolta, de Tempo de Violência. mas aí, é que está, Tarantino de Os Oito Odiados é o Tarantino da palavra. o Tarantino do ambiente claustrofóbico. inóspito. com toda a tradicional violência que perde o sentido. Tarantino nos mostra isto, que a violência sequenciada, acaba não parecendo tão chocante, quanto parecia, assim como nas tardes televisivas brasileiras, como alguns seres humanos querem nos fazer supor. neste filme está todo o ufanismo americano. o ódio racial. o personagem de Samuel L. Jackson dá voz ao outro lado. a articulação das palavras na boca dos atores é clara, e objetiva, não sei se por causa da época, ou da região em que a historia se passa, ou se é um dos focos da direção.... mas você fica ali sentado. aquele tempo todo sem piscar. e quando acaba você pensa é o Tarantino de sempre. os conflitos políticos estão no filme. a guerra civil americana. a discussão sobre as leis que no filme nos mostram quanto o óbvio pode ser absurdo. eu tenho um pedaço de papel no qual diz que posso te enforcar, eu digo algo para que você pegue aquela arma, e tente me matar, aí então eu te mato em legítima defesa. o bom é que Quentin Tarantino, assim como os grandes escritores, e outros grandes cineastas, ele criou o seu universo, e mesmo que explore outros universos, a sua marca estará sempre com ele, sem perder aquilo que lhe é mais característico. como o Quentin Tarantino de Os Oito Odiados confirma.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Júpiter Maçã...
a gente falava de um desses festivais brasileiros de rock que são conhecidos no mundo todo. eu disse, fecha com o Júpiter Maçã! ele disse. Júpiter Maçã morreu. eu fiquei sabendo cinco dias depois. Júpiter teve uma morte bufona. bateu com a cabeça no banheiro. Júpiter Maçã não morreu aos 27. e sim aos quarenta e sete do segundo tempo. não quis abrir mão da atitude rock. fiel a ela até o último momento. a última entrevista que assisti do Júpiter. ele tirou um sarro com a entrevistadora que não conhecia seu trabalho. disse a ela, se referindo, a um de seus discos. esse disco que é um clássico! Júpiter já um clássico. não adianta nada guitarra em museu. o quê fica são as músicas. Júpiter soava original. fazia o quê gostava. sua sonoridade é própria. suas influências muitas vezes são claras. como na clássica marchinha que é um pastiche do Caetano que reverenciou um de seus discos Plastic Soda. assim como Sean Lennon. por falar nisso Júpiter Maçã era um beatlemaníaco. eu acho Modern Kid. um dos melhores clipes brasileiros. não só por sua interpretação, também. pra onde Júpiter Maçã foi? a resposta é óbvia. ele abandonou essa caretice toda... e foi pra um lugar do caralho!
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Fatmagul...
bem que a mãe do Mustafá disse que ele estava diferente. que a sua voz havia mudado, que a sua postura havia mudado. ainda mais depois que Mustafá pôs aquele lenço de playboy no pescoço. a mãe do Mustafá perguntou a ele: que roupas são essas, filho? ele disse: eu comprei. são roupas de luxo! para trabalhar com eles eu preciso estar bem arrumado! o Mustafá fala como aquele garoto que aparece com dinheiro em casa, e não sabe explicar a procedência. eu me lembro do seu pai dizendo a ele, que se ele ficasse com Fatmagul, depois que ela havia "dormido com outro homem". as aspas são minhas. será que ele iria aguentar? em suas cabeças Fatmagul era culpada. Fatmagul era sempre culpada. Mustafá deve sentir saudades da época em que Fatmagul era culpada. pois agora que a batata quente caiu em suas mãos, agora que ele tem certeza de que foram eles que acabaram com a sua vida, e não ela. ele terá de enfrentá-los. mais gente sabe da sua desgraça. é mais gente para dar satisfação. e para provar o quanto ele é homem. Mustafá gostou de dirigir aquele carro. ele gostou de ir à porta daqueles restaurantes. mas ele também quer entrar. ele quer brincar também. saber como é lá dentro. como outros ganham ar condicionado na cara e sobremesa. enquanto outros comem marmita no sol. a vida era tão mais simples na cidadezinha do interior. quando a gente não sabia que existia isso tudo. naquele que Mustafá foi ao quarto do Edogan... ele experimentou os óculos. o relógio. Edogan deve ter a mesma idade que Mustafá. Mustafá pensa, eu posso... tudo acaba justificando seus atos. ele ficou com o carro porque era seu por direito. enquanto os que foram mais prejudicados com tudo. empurram um carro velho. eles haviam destruído seu mundinho cor de rosa. eles acabaram com a Fatmagul que ele conhecia. eles fizeram pior, eles a jogaram nos braços de outro. ela não é mais a mesma. Mustafá também não é mais o mesmo. ele descobriu que tudo aquilo que ele sonhava conquistar, com muito trabalho, e esforço, não era nada para aquilo que outros possuíam apenas por ter herdado. simplesmente. outros que não eram dignos em sua cabeça. destruíram sua vida. feriram a sua honra acima de tudo. ele não tem mais nada a perder. Mustafá que antes se envergonhava do que fizeram a Fatmagul... agora se delicia na cama ao lado da Asu, uma linda garota de programa. que se apaixonou por sua robustez, e inocência, com a qual Mustafá chegou a cidade grande. vindo se vingar daquele de quem foi tirado a sua princesinha inocente, casta e pura. Asu ensinou a Mustafá as delícias da cama. de uma forma tão rápida e veloz, e tão independente, que era como se ele não imaginasse. não soubesse que aquelas facilidades da vida em Istambul não existiam. quando ele sempre estivera preocupado com o quê o povo de sua cidade iria pensar. Fatmagul está com outro. casada com outro. não é assim que eles fazem. compram as pessoas. ela não vai mais fazer programa. não fala mais em programa! ele dá um chilique. Mustafá está parecendo um gigolô.
domingo, 25 de outubro de 2015
Depressão...
eu tenho depressão desde criança. só que eu não sabia disso. por isso que algumas reações minhas, sobre alguns acontecimentos, eram descabidas. decidi frequentar aquelas reuniões de doze passos. li algo aqui, outro ali, foi abrindo a minha mente. fui a um primeiro psiquiatra incentivado por minha esposa. ele me mandou tomar remédio. há anos já estava convencido de que tinha depressão. e mesmo assim relutava em tomar remédio. por puro preconceito. o segundo psiquiatra me disse para que tomasse remédio. aí eu confiei nele, aceitei. e a minha vida passou a ter alguma esperança. mas ainda tenho crises de depressão. passei a fazer terapia. as pessoas não tomam remédio. nós brasileiros somos preconceituosos. e não temos educação. nem cultura. eu mesmo sou um exemplar de machão suburbano latino americano de escola pública. e como eu vou chegar na roda dos malucos, e dizer que tomo remédio? e que tenho depressão, que é doença de fresco, doença de rico? depois eu pensei que fosse frescura minha. um charme de artista. mas não. os números da organização mundial de saúde são alarmantes. ninguém sabe porquê. nem os médicos. ninguém sabe nada. eu desconfio que nosso modelo de sociedade seja um clima bastante propicio para deixar o sujeito pinel. com todo ódio ciúme inveja. mas aí na terapia eu contei a psicóloga sobre acontecimentos da minha vida. da minha vida em comunidade. da minha vida em família. coisas que na minha concepção pareciam acontecimentos normais da vida de uma criança. mas que na verdade, provocavam bem mais sofrimento do que aparentavam. eu fui um moleque normal. assumindo até uma atitude de liderança em alguns momentos, em atividades na rua e na escola. mas tinha depressão. que na minha cabeça era doença de fraco. deveria tomar remédio. não que eu tenha vergonha de ser fraco. ou medroso. que na verdade eu sou. pois sei da fragilidade humana. pior do que ser fraco, é os outros ficarem sabendo que você é fraco. descobri em minha pesquisa, que nas civilizações mais evoluídas, os médicos são obrigados a receitar o remédio para quem tem depressão. aqui depressão ainda é coisa de maluco. não é. quem dera que fosse! o maluco não sabe que está maluco. você sabe porque está sofrendo. ou melhor, nem sempre... mas tem consciência de que está sofrendo. se é que o maluco está sofrendo. depois que você volta de uma crise de depressão fica de ressaca. envergonhado. com remorso, do que disse na hora do nervoso. da crise de choro. no Brasil normalmente depressão é curada com sexo, crack, pó, maconha, cerveja, internet, televisão, churrasco, aplicativos, violência, açúcar, sal, velocidade, dinheiro, popularidade... e muitos remédios tomados a torto e a direito. mas a depressão está bombando no mundo todo. e a conclusão de uma depressão desviada, para um outro local, um vício por exemplo. creio eu, que não sou especialista de nada. que seja triste! que seja um fiasco... depressão têm motivos. acontecimentos. ou não. cada um reage de uma forma. e só quem tem depressão. sabe o que quem tem depressão sente. é igual ser preto e pobre no Brasil. não adianta explicar que você não vai entender. você vê tudo cinza. você que foi criado para ser o macho. o provedor. o protetor. se vê chorando igual uma criança em frente a sua esposa. impotente. pois a depressão é incapacitante. aquela à qual teoricamente nessa sociedade machista você deveria proteger. você se sente o elo fraco da corrente. a minha depressão é pública. mas poucas pessoas com quem eu comentei algo, disseram alguma coisa de volta. o número de pessoas que sabe, é maior do que o número que finge que não sabe. em sua maioria me disseram para que não tomasse remédio. e me sugeriram que haviam feito um feitiço pra mim. o que não foram poucas vezes. e já sugeriram que eu estivesse impotente sexualmente. algumas vezes me desencorajaram da terapia. depressão carrega o estigma da doença mental. e além do mais ninguém quer ouvir choro. ainda mais de quem está aparentemente saudável. você se sente um cafajeste, num mundo com tanta criancinha sendo triturada. esse cara que está na rua. e quê você vê na cachaça. no crack. talvez tenha começado com uma depressão. depressão não tem cura. mas tem tratamento. manutenção para que não piore. esse maluco que mora na calçada da sua rua. que fala sozinho. todo sujo. cabelo grande. tudo bem que você chega no posto de saúde. e fica junto dos malucos, não existe uma triagem, muito doido! não que eu não seja maluco, ou que tenha algum problema com isso, e do qual a sociedade quer empurrar para debaixo do tapete. vamos nos livrar da vergonha dos malucos e dos suicidas que temos na nossa grande família complicada. só que aí vamos ter de nos livrar de muito mais gente do que a gente imagina. não é Simão Bacamarte? ninguém quer carregar o estigma de ser anormal. ainda mais na sociedade do rebanho. porque o número de gente que tem depressão, e não sabe não está no gibi! eu falo sobre depressão, porque é importante falar. pois se consegue apoio. porque eu sou artista também, e muitos, mas muitos artistas que eu gosto, morreram ou se mataram por causa da depressão. Não vai acontecer comigo. Melhorei, e continuo o tratamento.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Fatmagul... 2
Fatmagul... vai catar o feijão! Mukaddes grita. Fatmagul sai de perto do fogão. a cozinha é pequenina. Fatmagul deixa o que estava fazendo para ir fazer o que a outra mandou. Fatmagul vai catar o feijão. Fatmagul dorme espremida num sofá cama com o sobrinho de quem ela cuida. o sobrinho é filho do seu irmão. Rahmi. que chama. Fatmagul... E filho da cunhada que aqui faz o papel de bruxa. antes de dormir Fatmagul olha para os lados. ela vê se todos na pequena casa já estão dormindo. Fatmagul aspira ao silêncio. sente o ar. enfia a mão embaixo do sofá. tateia. ela ainda está lá. que alivio! A cartinha que está ensebada de tanto ser manuseada. Fatamagul sente o cheiro da carta escrita em folha de caderno. e a guarda novamente... é de se imaginar que aquela carta pardacenta seja o seu refúgio. o seu descanso. o seu álibi para o presente. o seu paraíso. o seu pequeno segredo de estimação. desses que compõe a vida. Kerim ouviu da boca de Mukaddes ela gosta de você! se não gostasse não guardaria esta carta! Fatmagul guarda a carta com unhas e dentes. Kerim diz a Mukaddes que devolva a carta de volta ao lugar onde a encontrou. Aquela frase de Mukaddes fica indo e vindo a cabeça de Kerim. e sempre que ele quer se ver livre de todo aquele sofrimento... ele aciona a frase de Mukaddes que fica pululando em seu cérebro. enquanto o coração de Fatmagul acelera. Kerim sente a calmaria. ele está feliz por ter um emprego. por poder trabalhar e ajudar em casa. por poder pagar seus pecados. numa daquelas conversas de quartinho com a tia, Kerim diz que sonha levar todos para o estrangeiro. para que eles possam ter paz. ou melhor, para que ele possa ficar em paz com Fatmagul. era o que Mustafa sonhava. apenas ter o seu recanto de paz com a sua amada... uma casinha no subúrbio com flores. chegar com o dia claro, ainda. trazendo o pão debaixo do braço. Mustafa só queria que as coisas permanecessem como estavam. as vezes é apenas isso que a gente deseja. Kerim quer ir para longe dali. sem a sombra de Mustafa... e daqueles vampiros! Ninguém nunca desejou o perdão como Kerim. a sua frase fica valsando na cabecinha de Fatmagul. eu não fiz nada! você estava inconsciente, por isso não se lembra! ele era cúmplice. não fez nada para impedir. Ebe Nine, a tia, ficará feliz se ele for perdoado. Fatmagul representa o sonho da inocência campestre. do interior. Fatmagul é a inocência em tudo. na roupa. no olhar. Na pessoa... nos olhinhos verdes. ou claros. a simplicidade... Fatmagul é um anjinho. Uma santinha que precisa ser protegida. Mustafa não entendeu isso. ele vive por uma vingança... Kerim entra na loja. lembra do sapato de Fatmagul. ele nunca comprou nada com tanto ardor em sua vida. nunca trabalhar um dia inteiro pregando, e martelando, fez tão bem a uma pessoa! ele pergunta se tem desconto ao cara da loja. tem. Kerim olha para o vestido. imagina Fatmagul vestida com ele... Fatmagul não pode saber que foi Kerim quem comprou. cabelo solto. ano novo! e só o Kerim sabe o quê sentiu...
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Amelinha...
não era qualquer música. era Frevo Mulher. do Zé Ramalho. e isso para um suburbano que gostava de festa junina e quadrilha, deveria dizer muita coisa, sendo que essa era uma das músicas mais tocadas. e uma das preferidas dos grupos folclóricos. penso que aquela gravação é impecável. uma das melhores da música brasileira! musique. music. Amelinha é esta cantora. eu conheço a sua voz. a sua voz única. Amelinha deu sorte com a natureza. pois tem um timbre peculiar. e seu estilo não é aquele, você canta em lugar tal... num camelô no Ceará numa negociação em que envolveu uma coletânea do Moreira da Silva, consegui negociar uma coletânea da Amelinha. não era apenas uma cantora que me lembrava a minha infância. a sua música é viva. ela não deixa nada a desejar aos seus conterrâneos, contemporâneos. já ouviu aquele disco O Pessoal do Ceará com Amelinha, Belchior e Ednardo? e essa gravação do Dia Branco de Geraldo Azevedo? ela está ligada ao que existe de melhor da música brasileira, moderna, original. assim como a música de Minas.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Henry Miller...
Henry Miller vai para o inferno e arrasta o leitor junto. e depois ele te mostra a luz. talvez por isso o nome de sua trilogia se chame A Crucificação Encarnada. ele mesmo diz que um homem para chegar ao paraíso tem de conhecer o inferno primeiro. sendo ele o narrador, memorialista, até onde é possível, Henry Miller divide o ponto de vista com você. fazendo com que experimente suas vivências. você se vê transladado para os sentimentos de Miller. em algum momento se sente confortável. Henry Miller disse que um homem que nunca sofreu com as suas próprias neuroses, não sabe o quê é sofrer. é isso que ele nos apresenta. as suas neuroses. da mesma forma que o esgoto exposto do Brooklyn em A Primavera Negra. Henry Miller disse que se tivesse lido o Tao Te Ching antes não teria sofrido com todos aqueles conflitos. acredito que no Big Sur ele tenha dito que não guardava mágoa de ninguém do passado. essa é a mesma impressão que se tem ao ler Henry Miller. a insatisfação de não ter lido, ou compreendido Henry Miller antes. Henry Miller é libertário. leia o início de Trópico de Câncer em que ele se diz. não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. ele afirma. sou o mais feliz dos homens vivos! ou aquela passagem de Marússia. em que ele responde ao homem que diz que os americanos são ricos, Henry Miller diz que eles são ricos, sim, ricos de espírito, que ele não tem dinheiro, mas que irá para Atenas, e que vai conseguir o dinheiro para comprar a passagem. Henry Miller ficava feliz por qualquer coisa, pois sabia que não tinha nada. uma passagem de um livro. uma paisagem. o cheiro de uma comida. um rosto de uma mulher. tudo é sublime porque estar vivo é uma sorte. ele destruía o mundo para depois edificá-lo ao máximo. era forte como Walt Whitman, ou Blaise Cendrars, homens que admirava. o seu ponto de vista é sem maquiagem. para Henry Miller não existe gênero, raça, cor, nacionalidade. ele ri de si mesmo. detesta a si mesmo. e ama o ser humano, fingido e patético. ele amava viver. simples. talvez por isso continue vivo em seus livros. clichê. Henry Miller publicou seu primeiro livro depois dos quarenta anos. incentivado por Mona ele foi para a França. havia abandonando tudo para escrever. emprego, família. aprendeu uma nova língua. depois recomeçou a vida em Big Sur. com as dificuldades de se morar em um local isolado, criar crianças, e levar uma vida simples. com a qual se aprende muito. Henry Miller encarou a si próprio para recomeçar. E morreu velho. como morrem os homens sábios.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Rio de Janeiro Lugar Limpo e Pacífico...
você olha a manhã pela janela. faz um dia bonito. você diz. eu vou comprar pão, e aproveitar para pegar um solzinho. os pássaros estão cantando em frente a sua janela. o beija-flor bebe a água que você deixou para ele num daqueles troços de plástico que vende na feira, e que têm flores artificiais em volta. você caminha olhando o céu azul. na esquina da padaria um caminhão arrasta um carro e uma árvore. começa a esquentar. a temperatura. e as pessoas. você vê o trocador do ônibus dizendo ao motorista, que palhaço! o motorista olha para o retrovisor com aquele olhar de gavião. de rabo de olho. ele bufa atrás do volante. parece que vai jogar o ônibus em cima do carro do cara. na entrada da favela você vê os policiais abordarem três moleques pretos. de mão pra parede. eles devem ter entre treze, e quinze anos. o moleque do banco da frente diz. tenso. o senhor está discutindo com três mulheres com uniforme da Claro. ele grita. você não é a gerente! você é a gerente?! a mulher grita ao telefone. manda ele pro inferno, Soraia! os camelôs saem correndo. aconteceu alguma coisa. mais, mas, o quê? você olha as imagens do arrastão na tevê. você está em pé em frente aquele pé-sujo. você olha as pessoas correndo na praia. você diz pra mulher. caralho, anos noventa!
sábado, 19 de setembro de 2015
Fatmagul! 3
Resat Yasaran cospe para o filho. e para o sobrinho. idiotas! nós demos tudo a vocês para quê? para que no final vocês se comportassem como animais! a decoração da sala é suntuosa. Yasaran parece um bicheiro. ele tem relógio e cordões. anda de camisa com o botão de cima aberto. e sempre põe a mão no quadril e a outra para o alto quando dá esporro. o velho de barbicha branca insinua. ele é o dono do vilarejo. ele é o dono da cidade. o playboy de olhos verdes e barbicha serrada, primo de Selim Yasaran, ele não tá nem aí! ele olha para a secretaria. Resat Yasaran é grisalho. magro. Resat tem uma presença imponente. ele é impetuoso. implacável com os inimigos. ele estraçalha. bate na cara do filho. a noiva do filho viu. ele olha para eles, e diz que se eles saírem da linha outra vez, eles não imaginam do quê ele será capaz. de maneira intrínseca insinua de que pode passar por cima do vagabundo miserável. ele seria capaz de matar o próprio filho. é isso que ele quer dizer. o irmão fala no mesmo tom. o primo de Selim olha para a secretaria com olhos de gavião, mal sabe ele que ela é a comidinha de Resat. eles são uma família de mafiosos. o irmão de Resat fala com o filho, e com o sobrinho no mesmo tom. antes de sair da sala eles ficam sabendo que irão trabalhar. e trabalhar. a mãe de Selim sofre tremendamente. o pai da noiva liga para saber que história é aquela nos jornais. é impressionante o diálogo de Selim com o pai. é um pingue-pongue. a mãe de Selim sofre horrores por causa do filho. ela vê o quanto o filho se parece com o marido. o filho só está preocupado em proteger seu casamento e o negócio do pai. e o pai consequentemente. em nenhum momento eles pensam em Kerim ou em Fatmagul. Da mesma forma que Mustafá só se preocupa com a sua honra. que ele diz que está manchada, mas que ele irá limpar com sangue. em nenhum momento se refere ao sofrimento de Fatmagul a mãe morrendo pede que ele jure a ela que não vai fazer nada. mas Mustafá é sangue no olho. só pensa em vingança. ele diz que não pode prometer algo que não vai cumprir. Mustafá queimou a casa em que ele ia morar com Fatmagul. tão grande é seu ódio. a noiva já sabe. sofre. o seu pai liga para Resat. ele quer esclarecimentos. tanto ele quanto o filho negam aquela história. quando uma mulher vai a casa de Fatamagul pegar de volta a aliança, ela diz, não mate o mensageiro! Kerim marcou uma conversa com os playboys. eles estão dentro de um iate. o clima fica tenso como num filme de Hitchcock vira um tríler psicológico. Kerim diz que não suporta ficar perto da garota. que fica olhando para ele. ele não suporta ficar perto dela. ele está atrelado a ela. eles não. ele diz que eles são uns vermes. depois que o Kerim saí e deixa os parasitas sozinhos. eles conversam entre si. nenhum deles tem conseguido dormir. na hora em que Kerim avança a mão para segurar o copo. Fatmagul vê a marca em seu braço. a marca daquela noite. ele puxa a manga da camisa. ela olha para ele com ódio. eles estão naquela pensão em Istambul. Fatmagul está sentada numa cadeira. de costas para janela. é possível ouvir a voz do seu irmão em off. Fatmagul, onde você vai? espera Fatmagul! Mustafá acorda o careca com as duas mãos em seu pescoço. Mustafá diz, você vai me dizer tudinho o quê aconteceu aquela noite. o careca diz para os playboys. idiotas! ele é um advogado de porta de cadeia. será tio de Selim? o careca logo se recompõe, e com a sua frieza leva Mustafá na conversa. a trilha sonora é passional. o cenário da pequena cidade praiana de pescadores, é paradisíaco. idílico. mas eles sofrem. a pressão psicológica é insuportável. o careca diz a Mustafá que não é nada disso. e que Fatmagul é que armou aquela história de estupro. Mustafá leu o jornal. em sua fúria só ele havia dado uma passada na casa de Kerim. ele só não bateu em sua tia. mas quebrou tudo que viu pela frente. e com todo ódio cortou o nome de Kerim escrito na árvore. Fatmagul olha para o canivete em cima da cama. ela pega o canivete. e vai enfiar em Kerim que dorme. ele acorda. e segura a sua mão. saí batendo a porta. logo após, ou antes. Fatmagul se senta de costas para a janela. é tão linda Fatmagul... parece uma menina brasileira de verdade. deve ter uns vinte anos.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Samo Está Morto Basquiat Está Vivo!
Samo is dead. Basquiat está vivo. andando por aí. Basquiat caminha no centro da cidade. anda de um lado para o outro com a pilot na mão. rabisca frases aparentemente desconexas nas paredes. no banco do busão. breath teeth. Basquiat vaga pela cidade. dorme pouco a noite. no sofá de amigos. aqui e ali. mal tem onde dormir. come sanduíches de queijo. anda com roupas folgadas para o seu corpo. o seu cabelo tem um corte peculiar. reconhecível. Basquiat diz que não tem nada diferente para falar. diz que não se lembra do quê sente raiva. Basquiat deu uns pegas na Madonna antes dela ficar famosa. Madonna tem apenas três músicas na época. Basquiat já tem uma obre imensa. sua namorada Vênus, Suzzane, parte pra cima da Madonna na Roxy. Basquiat pinta sobre a briga. Basquiat tem uma banda de jazz. instrumental. e ele quem nomeia as músicas. uma delas se chama Mona Lisa. Basquiat tem uma banda chamada Gray. é um som experimental. será minimalista. não sei. Basquiat caminha sobre os corpos dos viciados em Heroína que infestam o Soho. Basquiat dorme e trabalha no estúdio. vende seus cartões postais com embalagens de bala. Basquiat pinta ouvindo jazz. John Coltrane. escuta David Byrne. pinta ao som da música. faz isso compulsivamente como se fosse a única coisa interessante a ser feita sobre a Terra. Basquiat começa a usar cocaína. fica paranoico. cobre as paredes do estúdio de preto e branco para não ser visto. diz que o serviço secreto está atrás de si. desconfia das pessoas. começa a usar heroína. saí na capa da New York Sunday Times. Basquiat está de terno. mas do mesmo jeito em que podemos encontrá-lo quando pinta. o cara que promove a arte de Basquiat chega ao estúdio. não necessariamente nessa ordem cronológica. Basquiat está chapado de ópio. Suzzane diz que quando Basquiat usa cocaína a sua pintura é mais detalhada e que quando ele está chapado de heroína, a sua pintura é mais expressionista. Ela consegue perceber. Basquiat vende um de seus postcards para Andy Warhol. um desses que valiam dois dólares e que hoje valem uma fortuna. Basquiat decora apartamentos de yuppies de Wall Street viciados em cocaína. que recebem o pó no açucareiro. a sua arte se torna um comodities. Basquiat expõe junto com Andy Warhol. a crítica detona a exposição. Basquiat está deprimido. paranoico. parecendo um velho de oitenta anos. Basquiat morre de overdose. Basquiat morre aos vinte e sete anos. assim como todos os grandes. Jimi Hendrix. Kurt Cobain. Jim Morrison. Janis Joplin. Amy Winehouse...
terça-feira, 15 de setembro de 2015
A Casa da Família...
a casa vivia cheia. eram muitos filhos. eles se reuniam a noite em volta da televisão. iguais famílias de civilizações antigas se reuniam em volta da fogueira. o pai e a mãe conversavam até tarde. todos os dias. mesmo depois que os filhos já estavam dormindo. durante a manhã era aquele alvoroço. e o batalhão, como dizia a mãe, se arrumava para ir à escola. o pai e a mãe saíam trabalhar. nos finais de semana, aos domingos, eles tomavam o desjejum juntos. o pai ia cedo a padaria comprar pão, a mortadela, o leite, e trazia o jornal. eles sorriam. e juntos faziam aquele almoço suntuoso. depois que a mãe morreu todos foram embora. o pai foi o último a abandonar a casa. agora eles pouco se vêem. se falam sazonalmente. e se cumprimentam educadamente. é como se fossem estranhos. isso quando não param de se falar. a casa está vazia, mas ela continua respirando. é como se sentisse a falta deles. e ainda é possível ouvir suas vozes. e se deparar com o vulto dos vivos. mas isso já é passado. assim como o início do texto que você acabou de ler.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Cadê Você Meu Querido Henry?
ontem eu me lembrei de você meu amigo Henry. de quando você descia a rua gingando e sempre trazia uma carta na manga. você se virava e me dizia, hei, man! está com sede? eu dizia. estou. você me perguntava. quer tomar Coca-Cola? eu olhava para a cantina da escola, e dizia. mas eu não tenho dinheiro. e você me dizia, eu perguntei se queria beber Coca-Cola. não perguntei se tinha dinheiro. você via alguém sentado no pátio com a Coca as suas costas. alguém cujo pai devia dar mesada, e daqui a pouco você aparecia com uma Coca-Cola. e matava a nossa sede. e a gente dizia, amo muito tudo isso! eu me lembro quando você se deitava no chão se fingindo de morto. enquanto eu e os moleques da rua acendíamos uma vela ao lado do seu corpo. e te cobríamos com jornal. você com os pés para fora do jornal... a gente adorava quando vinha uma daquelas senhoras, olhava e dizia, coitado, que pena dessa mãe! elas acreditavam que era apenas mais um daquela época que havia sido morto. e a gente caia na gargalhada. eu me lembro que quando a aula estava chata, você entrava na secretaria para roubar as carteirinhas, enquanto eu sempre o mais medroso e o mais covarde, apenas vigiava. você pegava de volta, a minha carteirinha e as sua já com a presença carimbada em azul. e a gente caia fora. ou pela porta da frente. ou pulando o muro. e estávamos livres! livres! eu me lembro de quando não havia dinheiro para comprar fichas de fliperama, e você dava um jeito. para tudo que fosse verdadeiramente importante você dava um jeito. eu me lembro de você travando as bolas do totó. ou virando a mesa para que a ficha caísse. ou pegando um pedaço de arame. para tudo você tinha uma solução. até quando aquele cara mais forte que todos nós resolveu nos bater... e você veio com aquela. eu me lembrei de você meu amigo Henry! e me lembrei de como nós éramos inteligentes naquela época, criativos, espontâneos. quando a mentirinha chamada sociedade não conseguia nos ludibriar com a sua aparência sã. mas você sumiu no mundo... e a gente acaba "crescendo", e ganhando essa aparência de "saudável". de sensato. e temos de sufocar tudo aquilo que cala fundo em nosso coração. pois os clichês quase sempre são verdadeiros e temos de fingir que não acreditamos mais em nada daquilo. e que tudo que pensávamos era coisa de gente inocente. como se toda aquela rebeldia utópica não fosse verdadeira. aí nós temos que fingir, que acreditamos em toda essa mentira. em todo esse circo que os homens criaram. para que a gente possa se parecer com os idiotas.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Qual é a Contrapartida do Artista?
o seu trabalho.
o que o artista faz para contribuir com a sociedade?
o seu trabalho.
assim como,
o médico, o professor, o gari...
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
O Pai da Menina do Vídeo que Vazou na Internet...
a menina está deitada na cama. ela acabou de descobrir que o seu corpo está exposto por toda a internet. todo mundo acordou podendo ver seu corpo na rede mundial de computadores. em cada parte do globo que existisse um mínimo equipamento que se conectasse a internet poderiam ver seu copo. ele agora era de domínio público. a intimidade que ela tanto tentara preservar, até a sua noite de núpcias com o namorado. como ele, dizia. estava em toda a rede mundial de computadores. ela queria ser descolada como uma daquelas mulheres que exibiam os seus corpos em revista sem o menor constrangimento, talvez não fossem ligar para nada daquilo. ela não era uma mulher posando ganhando milhões para tirar a roupa. não. ela havia tirado a roupa para o namorado. e não ia depois de aquilo dar entrevista, ou subir para a cobertura de um prédio. ela teria de encarar as pessoas no dia a dia. na escola. na rua. os vizinhos. o ataque havia começado. quando ela abriu o seu Facebook, já havia mensagens sobre o seu peitinho. Suzana só tinha uma certeza. ela iria dar um jeito de se matar o mais rápido possível. agora ela não entendia porque o pai viera até ali. porque ele não a deixava sozinha. ela estava com a cabeça embaixo do travesseiro de tanta vergonha que sentia. o pai sentou a cama, e ela sabia que ele iria contemporizar. e tentar dizer alguma coisa que desestimulasse uma atitude mais drástica. Jorge sabia que era jogo perdido tentar chamar atenção da filha. o pior de tudo já havia acontecido. quando ele se dirigiu a ela, e disse, Suzana, ela disse, eu tenho vergonha de você. a voz de Suzana parecia saída de um túmulo. de um buraco muito escuro. Jorge disse, pior do que isso, eu fiz abandonando você ainda criança. Jorge continuou. sabe Suzana, o quê você fez, está feito. e você vai sofrer as consequências do quê fez. agora, eu te pergunto. quem nesse mundo todo, de bilhões de pessoas, que vai assistir a esse vídeo ou a essa foto. quem deles se preocupa verdadeiramente com você. quem deles já te perguntou algum dia, como você estava se sentindo, ou te ofereceu alguma coisa. ou mudou de opinião por algo que você disse ou pensou. você é apenas uma Suzana. existem milhões de Suzana. você vai se matar, por isso? mas e as pessoas da escola da minha família. o pai disse, filha. a gente se muda. faz o que for. mas a vida irá continuar. e a partir de agora esse vídeo faz parte da sua história. não para te lembrar que cometeu um erro. mas sim, que a vida continua. pois ela sempre continua, independente de você.
sábado, 29 de agosto de 2015
Sherazade...
a senhora diz detrás do balcão. vai começar a minha novela, a Sherazade! para de ficar para lá e para cá com esse controle! o velho com o controle na mão diz a Dilma. você foi trabalhar de bicicleta, Dilma? um cliente está encostado num balcão com uma cerveja esquentando a sua frente. num daqueles botecos debaixo do viaduto. o velho continua, ela engarrafou tudo. ela foi de bicicleta. mas levou carros com ela. e ainda atraiu a atenção dos curiosos. o cliente sorri. o velho continua. não vai de Bike, Dilma! não tem ciclovia! alguns presidentes vão trabalhar de metrô porque em seus respectivos países dá pra fazer isso. coitada da Dilma que tem que pedalar num canteiro. cuidado Dilma, para que não apareça o filho do Eike Batista derrapando, e te jogando longe! ou o filho do Pitanguy subindo na calçada de repente numa numa rua tranquila. ou o filho de alguém que nunca vai ser preso porque tem dinheiro. e cuidado para que os ladrões de bicicleta não roubem a sua bike. cuidado com as facadas por todo o país. seja por nosso machismo. ou por nossa agressividade. que não é associada a imagem melíflua que o nosso turismo sexual criou. quem não vai sorrir com uma gorjeta em dólar, ou em euro, Dilma? mesmo depois de ter devorado uma de nossas criancinhas. ou uma de nossas lindas "meninas", e nossos lindos "meninos". o cliente diz para descontrair. mas esse Pitanguy é velho! acho que ele vai substituir o Niemeyer! a mulher diz. a Dilma emagreceu. ah, ele emagreceu sim... emagreceu, e muito! agora se foi por stresse. ou para se manter a forma... é o preço do poder! começa a Sherazade. e todos olham vidrados para a tevê.
Prometeu Acorrentado...
O menino dorme sozinho num dos quartos do segundo andar da casa grande, e branca. dorme é uma forma de dizer. pois aquela noite será tão longa quanto as outras. O menino teme o mico que se encontra preso a árvore. ele ouve o guinchar ensurdecedor do mico durante o dia. o medo agora é a enorme aranha na parede. ou melhor, a sombra enorme da aranha. de manhã, com a chegada da luz do dia. o medo se desvanece.
sábado, 22 de agosto de 2015
A Fita Do Noel...
o maluco do trabalho que havia me emprestado a fita do Cartola, também me emprestou uma fita do Noel. eu pus os pés no ônibus. paguei a passagem. dei boa noite ao cobrador. fiquei no último assento alto. na janela. o maluco que era para me cobrir havia faltado. então tive de ficar até tarde no trabalho. sem ganhar hora extra. puxei o walkman. dei o play. não acreditava que estava ouvindo aquelas raridades na voz do próprio. não havia internet aquela época. subiram dois malucos pela frente. com isopor. como se fossem vender alguma coisa. o quê estava com o isopor puxou um trinta e oito enferrujado lá de dentro. eu ia tirando sorrateiramente a fita. quando ele disse, passa essa porra pra cá! eu ia dizer, amigo... ele fez a aquela cara de filme americano. e disse. eu estouro seus miolos! joguei a fita dentro do isopor. o walkman era emprestado. também.
A Fita do Cartola...
um maluco do trabalho havia me emprestado a fita do Cartola. um maluco que tocava bandolim. branco, e de óculos. infelizmente não lembro o nome dele. alvoraçado eu abri a porta. joguei a mochila no sofá. a minha mãe estava na cozinha. dei um beijo em seu rosto. ela perguntou, vai onde? terraço! subi às pressas a escadinha de ferro em forma de caracol. tateei o interruptor no escuro. na luz, achei a tomada. abri o compartimento da toca fitas. joguei a fita. e quando explodiu a introdução da primeira música, O Mundo É Um Moinho. as lágrimas escorreram com a mesma velocidade com que cheguei. chorei copiosamente. não chorava por nenhum motivo especial. não era por causa da humanidade, que se mantinha firme em seu propósito lento, e gradual de autodestruição. não chorava por nenhum motivo em particular. e sim, porque havia músicas como aquela... ou a dança dos pássaros no céu. de manhã. olhando a janela. durante o primeiro café. sempre conto a mesma história. pois mesmo em silêncio... aquela introdução me vem à cabeça.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Crack!
eu fiquei extremamente sem graça quando ele falou comigo. pois lembrou do meu nome. ele chamou meu nome. levantou o polegar e sorriu. ele estava sujo, e maltrapilho. carregando coisas. dava pra ver que estava no crack. eu não conseguia lembrar quem era de jeito nenhum. até hoje não sei quem falou comigo aquele dia. sei apenas que nós fomos muito íntimos, pois aquela voz me era familiar. ele parecia ter lembrado de bons momentos quando falou comigo. eu sabia que ele estava destruído pelo crack. eu o vi perto da passarela. o outro ia a minha casa. morava na mesma rua. falou comigo. eu estava do outro lado da avenida. os ônibus passavam. ele pôs as mãos no peito demonstrando o quanto gostava de mim. eu imitei o seu gesto. e olhei pra ele como quem diz, que independente daquela merda toda. eu continuava gostando dele. os meus olhos encheram de água. ali eu me emocionei, e perdi toda a sisudez de machão suburbano. presenciei a expressão de um amigo meu, numa cena parecida, e ela parecia de horror. ainda bem que pude ficar feliz perante um amigo que havia ido parar na rua por causa da bebida, e que agora estava todo arrumado, como antigamente. como quando nós éramos moleques. quando nos conhecemos. mas nunca vi ninguém liberto do crack. sempre vejo aquele moleque correndo, para lá. e para cá. e sempre me lembro dele, que está abandonado ali. tendo alucinações. sendo vítima de rituais. de espíritos malignos, segundo alguns. esquizofrênicos, segundo outros. para todo lado que olho vejo mendigo. gente morando na rua. falando sozinha. deitada na calçada. carregando trapo. esmolando. fazendo suas necessidades a luz do dia. morando no meio do lixo. andando nos trilhos.caminhando nas vias expressas. eu vi aquele moleque branco e o pessoal da favela segurando ele que estava tendo uma overdose. não sei se ele sobreviveu. mas apenas ouvi as pessoas gritando, Playboy! Playboy! Volta, Playboy!
terça-feira, 11 de agosto de 2015
O Repórter...
o repórter se indigna com a menina loura que matou os pais. enquanto isso, Romário se equilibra num vagão da SuperVia, ele pergunta, mas o seu nome é Brad Piti por causa do ator? O outro diz. sim. a minha mãe gosta muito dele. o amigo com nome de jogador de futebol sorri. a repórter pega carona de bicicleta. Brad Piti pensa que ela age igual político em campanha. ela diz as pessoas, nós temos de ter força de vontade. Brad Piti não consegue entender. ele pensa, porque eles têm que ter força de vontade, se os políticos são empregados? não entendo! Obviamente que o repórter está indignado porque os pais mataram os filhos. ele não entende como eles são capazes de fazer isso tendo a vida que tem. Romário em sua depressão chega a chorar na do repórter. não existe nada mais triste do quo pais matando filhos. Romário sabe que no canal ao lado, durante a semana é uma carnificina só. jorra sangue. crianças são esquartejadas. bebês são mortos. baleados. pessoas são enterradas vivas. Crianças abusadas. Um horror. mas ninguém está nem aí! diz o cara com o nome em homenagem ao jogador de futebol. vovós são mortas a machadadas nas periferias. a violência brasileira é feia, e triste. e se aquele repórter tivesse lido O Casamento de Nelson Rodrigues, ele saberia que os doentes estão em todas as classes. se é que ele não sabe disso. pensa Romário. a repórter fica feliz com a presença do secretário de obras, que deu o ar da graça depois de tanto tempo. ele apareceu para asfaltar ruas que nunca foram asfaltadas na história. mas que serão asfaltadas agora quando a humanidade começa a pensar em povoar Marte. ele põe a culpa disso nos governos anteriores, asfalta uma rua. e cai fora. as pessoas que moram na rua ficam agradecidas. E ficam pensando em como ele é generoso em ceder parte do tempo para conversar com eles, que vibram quando o secretário diz que vai fazer alguma coisa. Brad Pit diz a Romário. eu estava naquele vagão da SuperVia que passou por cima daquele rapaz. o repórter só falta chorar. ele está indignado com a mulher que matou o marido para ficar com o amante. ele não consegue acreditar que ela possa ter feito isso tendo a vida de rica que tinha. ele só falta dizer a ela que se ao menos ela fosse uma miserável. Brad Pit chora copiosamente. junto ao repórter que chora na tela da televisão. e repete aquela frase clichê. o mundo está perdido.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Sophie Miller...
Sophie Miller é o tipo de menina que tem dois olhinhos pequeninos e brilhantes no fundo dos óculos. Ela ficou com este ar de inteligente depois que começou a usar óculos. Mas antes disso Sophie Miller já dizia, acho tão bonito quem usa óculos... Sophie Miller ficou com cara de boazinha mesmo contra a sua vontade. A sua voz é igual à voz dessa mulher que nos diz quando devemos acrescentar um novo número ao telefone discado. Sophie Miller parece uma apresentadora de telejornal que eu admiro... Se reparar nas olheiras de Sophie Miller, você irá pensar que ela é algum tipo que não dorme de madrugada. Outro dia perguntei a ela, Sophie, a que horas você dorme, normalmente? Depois das duas... Porquê? Eu disse Nada, não é por nada, não... É só por curiosidade, mesmo... Sophie Miller assiste a um daqueles programas que passam tarde da noite, e que sempre tem um cara metido a inteligente como entrevistador, e outro cara metido a inteligente sendo entrevistado. Sophie Miller é o tipo de menina que lê o livro da moda em pé no metrô. E que ouve músicas com fones de ouvido enormes. Ela conhece as dez mais tocadas da temporada. E música de um ano atrás, Sophie Miller considera velha. Sophie Miller masca chicletes. Fuma cigarros de sabor. Fala do seu cantor preferido com a desenvoltura de um crítico musical. E conhece de cor todas as suas letras. Sophie Miller é o tipo de menina que senta no chão do aeroporto. E que tem fotos das férias espalhadas por tudo quanto é canto da casa. Ela faz pose numa porção de cartões postais pelo mundo, e em fotos com as amigas dentro do banheiro da escola. Sophie faz uma pose de perfil expondo o lado direito do rosto, e dispara a foto com a mão direita estendida, e inclinada para baixo. No espelho vemos o reflexo de Sophie, e os de suas amigas. Sophie Miller usa aquele tênis que tem uma estrela, e que todos os seus amigos usam. Igual aquele casaco que tem o nome formado por três letras. Acho que eles combinam para não repetir as cores... Cada um tem a sua máquina para que se comuniquem em rede. Eles têm perfis em redes sociais, e os polegares tortos. A maioria dos meninos é viciada em jogos, futebol e pornografia. No almoço todos bebem esse líquido escuro que vicia, e comem hambúrguer naquele restaurante onde a foto do funcionário do mês, com o uniforme que incluí o boné, fica pendurada na parede. Mas um dia, quem sabe, Sophie Miller poderá fazer regimes estranhos na busca pelo corpo ideal. Talvez deixe de comer carne vermelha para só comer vegetais. E quem sabe ela passe a defender os animais. Ou as pessoas que moram nas ruas. Você pode ver Sophie Miller próxima a uma rua de shopping chique de qualquer lugar do planeta. Seja no hemisfério norte, ou no hemisfério sul. Usando um traje básico, de short, blusa branca, sandálias, óculos escuros, e chapéu contra o sol que ela segura para que não voe. Sophie viaja uma ou duas vezes por ano. Você pode até pensar em Sophie como uma menina comum, mas quando a gente era criança, perguntei a Kevin Thompson se ele sabia que um de nossos amigos se dizia apaixonado por Sophie, ele disse: Jacob Smith, não seja idiota! Quem não é apaixonado por Sophie Miller? Sophie e Kevin formam aquele tipo de casal que você não consegue imaginar separado, e não os imaginava junto.
Roberto Carlos na Vitrola...
a mãe de Samuel dizia a ele, Samuel, se o seu pai não voltar pra casa eu me mato! eu taco fogo na casa com você dentro! você vai ver, Samuel! você vai ver! eu mato a gente, Samuel... nós dois! Samuel era muito novinho. era criança, ainda. ele estava no início do antigo primário. Samuel olhava para a mãe, e imaginava a casa pegando fogo, crepitando, com eles dentro. Samuel se lembrava daquele filme em que a mãe do psicopata suava. Samuel não conseguia se lembrar se o psicopata morria queimado no final, ou se a sua mãe morria queimada, ou se a casa do psicopata terminava em chamas, pegando fogo. a mãe de Samuel em nada se parecia com a mãe do psicopata. em alguns momentos ela nem parecia irritada. acabava colocando Roberto Carlos na vitrola, e passando a cera vermelha no chão. a cera era de uma vermelhidão, tremenda. ela passava a cera no chão, como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. enquanto Samuel jogava bola sozinho no quintal. ou com o primo que era mais ou menos da mesma idade que ele. quando a mãe de Samuel estava de bom humor, ela não falava nem da morte, e nem da piranha que o pai de Samuel havia arrumado. e aquelas manhãs de sábado de sol eram tranquilas. com Samuel jogando bola no quintal.
domingo, 2 de agosto de 2015
Sangue Bom!
tava jogando a pelada de segunda meia noite na praça. quando ainda tinha algum fôlego para correr. enquanto eu passava eles gritavam, tá na capa! físico de jogador de dominó! tá malhando? pele e osso. aí eu me lembrava daquela música em que o Cartola diz, e quando eu passo, a gurizada pasma, horrorizada, como quem vê um fantasma! e o esqueleto humano, assim vai, cambaleando, quase cai, não cai. eu falei pro moleque no meio da pelada. passa a bola, sangue bom! ele explodiu, caraca! sangue bom! da antiga aí, valeu! ele ficou deliciado em ouvir aquela gíria. talvez ela o remetesse a algum pai, ou a algum tio com quem tenha convivido quando era criança. ou trouxesse a ele lembranças da rua.
Bater Ponto...
todo dia naquele horário nós estávamos sentados naquele portão. então ele passava por nós, e dizia. eu vou bater o ponto. e se encaminhava até o orelhão da esquina. um dia eu disse, nossa, que legal... cool. você bate o ponto por telefone! o pai dele me olhou como se eu estivesse viajando. eu havia achado o máximo uma pessoa trabalhar em casa, e bater o ponto pelo orelhão. era algo que me remetia a grandes empresas de tecnologia. achei aquilo super evoluído. e moderníssimo para a visão mundo cão, que parte de nós brasileiros temos do trabalho. quando cheguei a casa comentei o acontecido com a minha esposa. e fiquei decepcionado ao descobrir que o rapaz não se referia ao trabalho. e sim, ao ato de telefonar para a mesma pessoa todos os dias, ritualisticamente, no mesmo horário. fiquei triste ao vê-lo dia seguinte de manhã cedo de uniforme do trabalho no ponto do ônibus.
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