quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Netfobia

Estou com medo que o meu computador seja invadido e as minhas ideias plagiadas. Estou com medo de não ter mais direito a um segredo. De não ter mais direito a uma intimidade. Tenho medo que você esteja me filmando agora, neste momento. Tenho medo que você saiba onde eu estou e tenha todos os meus dados. Tenho medo de ser filmado nu, ou no próprio ato sexual, ou até quem sabe tocando uma, como se não tivesse mais direito a fantasia, e as paredes a partir de agora tivessem realmente ouvidos, e ouvissem até a minha respiração. Tenho medo que me filmem dando uma cagada em um local proibido. Ou de ser preso antes de aliviar a bexiga. Ou de ser filmado tirando uma meleca do nariz, e passando na sola no tênis, e isso virar um hit no YouTube. Quem não deve não teme. Mas eu devo muito. Não quero viver em rede, embora eu já me veja enrolado nela igual um caranguejo, lutando para me desvencilhar. Não quero ser um número, como previu o apocalipse, neste mundo de dígitos e bits. Não quero ter um milhão de amigos virtuais. Não quero ser gravado dando uma opinião que não daria publicamente para não magoar as pessoas. Como se a preservação, o cinismo, a fofoca, ou a hipocrisia não fossem inerentes ao ser humano. Tenho medo de me tornar um viral sem conteúdo. Tenho medo que as minhas músicas sejam jogadas no meio de um milhão de outras músicas que são escutadas em aparelhos pequeninos para se ouvir durante alguns dias. Tenho medo que as minhas músicas sejam ouvidas fora do contexto. Tenho medo de que os meus textos se tornam mais textos empilhados na internet. Tenho medo de não ter mais tempo para a leitura de livros de outro tempo. Tenho medo de não poder ouvir mais os discos. Tenho medo de não ter tempo para admirar um quadro, ou de não ter tempo para o ócio e a divagação. Tenho medo de deixar de ser eu, e fazer parte de um grupo e ficar repetindo as coisas que os outros dizem. Tenho medo de circular por aí em remixado. E que mais do que ganhar dinheiro com isso, eu não tenha direito a autoria. Como eu já vi imagens que captei na televisão e só pude dizer: fui eu que fiz isso! Como já ouvi versões de coisas minhas. Tenho medo, e sei que tudo isso está acontecendo, e que não vai parar de acontecer. Como se a gente não tivesse direito de optar, ir ou não ir à praia de nudismo. Só que dessa vez o que será despido, serão os nossos espíritos. Eu tenho medo de mais do que perder a minha essência no meio desse bolo doido, é de não me reconhecer como tal. Como quem eu sou! A privacidade está com os dias contados e eu não vou saber lidar com isso. Talvez eu fuja para uma ilha. Fique barbudo. E invente uma nova doença. Netfobia.

4 comentários:

  1. O capítulo 22 do livro "Todo mundo é Jhow!", de Delano Valentim II, está disponível para download. Leia algumas páginas do primeiro colocado na categoria romance do "Edital Novos Autores Fluminenses - 2010/2011" da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro: http://www.mobileditorial.com.br/?p=397

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  2. http://www.travessa.com.br/TODO_MUNDO_E_JHOW/artigo/d188cf29-202f-4d3c-b912-ad8d30b2ffd9

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  3. Muito bom texto, como sempre.
    O tema é atualíssimo, pois sinto que todos estamos vigiados de alguma forma. É o preço do progresso.
    Mas, caso continue a pensar em fugir para uma ilha e virar Urtigão, me avisa... rs
    Beijim...

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    1. Obrigado Juju... rs... o progresso custa caro... sobre virar urtigão... sou um ser urbano... rs beijos...

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