quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ele Era Divino!

Ele subiu cambaleando no mesmo ônibus que eu estava e sentou na escada para não pagar passagem. O motorista não pôde ver. Eu o reconheci logo, o cabelo grisalho, a barba mal feita e a camisa de botão aberta. Eu não teria coragem de falar com ele em outra ocasião, pois tem fama de mal-humorado. Mas ele estava tão bêbado que resolvi arriscar e disse: o meu pai conhece o senhor e... E ele disse: eu não me lembro de ninguém! Um tempo depois ele morreu de tanto beber. Mas dizem que antes de morrer comeu uma mulher mais nova que ele, e dizem que também fez algum dinheiro participando de um show de uma pagodeira famosa. Ele morreu na merda igual aqueles pintores antigos que morreram na merda e hoje em dia são nomes de serviços de banco, ou aqueles compositores para quem o pessoal do municipal cruza as pernas entre um bocejo e outro. A família dele mora na mesma casinha do subúrbio. Mas agora quando ele foi homenageado por sua escola de samba e sua obra virou tese em universidade e ele é cantado por sambistas que participaram da revitalização da Lapa, a madrinha da bateria que é atriz-modelo diz assim: ele era divino! Eu concordo que ele era divino!

3 comentários:

  1. Muito bom seu texto, comparavel aos grandes escritores do estilo.
    Parabens e sucesso!

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  2. Era mais um daqueles artistas que o mundo apenas conheceu postumamente. imaginem agora, os que o mundo jamais conhecerá? Eu conheci um monte deles. como o meu falecido irmão que era rapper, por exemplo.

    Delano, acho que sou seu fã. valeu, mano.

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  3. O capítulo 22 do livro "Todo mundo é Jhow!", de Delano Valentim II, está disponível para download. Leia algumas páginas do primeiro colocado na categoria romance do "Edital Novos Autores Fluminenses - 2010/2011" da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro: http://www.mobileditorial.com.br/?p=397

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