domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Filho do Presidente...

Na reunião da cúpula do governo, o filho do presidente, disse: papai, ainda tem aquele assunto da mudança da embaixada. Um general de alta patente, bigode grosso, tampado de medalhas, interviu. O seu pai vai arriscar a vida caso se envolva nisso. O presidente arregalou os olhos. O rapaz encolheu os ombros.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Matrix...

Ele perguntou para o amigo ao telefone: sabe aquele tênis...? Estou afim de comprar um! Quando desligou sentou para procurar um jogo no site de busca. Apareceu o tênis com o preço. Que coincidência... Ele pensou. Ao acessar a  rede social em sua linha de tempo viu uma página do tênis. Ele se escondeu embaixo da cama enquanto sussurrava para si mesmo. Matrix...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Sandra Bullock No Rio...

Sandra Bullock disse. O meu maior desafio será criar minhas crianças aqui no Rio. Enfrentar aquele rio foi fácil. Olho para o Garoto e a Garota que estão presos à ela por uma cordinha. Eu pergunto. E como você tem feito? Ela responde. Além de passar o tempo todo junto deles? Eu controlo tudo que eles escutam, comem, e assistem... Ao perceber a minha reação, ela diz. Sinto muito, aqui não é Netflix... Sandra Bullock puxa o gancho com os doces. Pega os filhos, e desce no Maracanã.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Gaiola...

Ele respondeu, Penha. E repetiu mentalmente. Ele vai falar. O moleque de Piracicaba disse, na Penha é onde tem a Gaiola... Um sobrinho neto do Amazonas quis conhecer à Gaiola. E mesmo no Rio, quando dizia a alguém que morava na Penha. Ouvia a frase. Na penha é onde tem a Gaiola. Na homilia o padre falou sobre a Gaiola. Seu amigo do carteado disse, o pessoal exagera... Ele viu o pássaro grafitado em frente ao Prix. Onde está escrito. Sai da Gaiola! E pensou, será que ele tá falando da Gaiola ou de uma gaiola qualquer? Um dia onze horas da manhã ligou para o irmão, onde você tá? Gaiola... Esse senhor de oitenta e três anos, quando viu aquele moleque vir em sua direção derrotado. Perguntou. Gaiola? O rapaz deu um grunhido. Ele ouviu um estrondo. E a voz que ecoou. Gaiola...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

As Pálpebras...

Essa mulher me acompanha às escondidas desde a minha infância. Minha mãe gritava para que ela fosse embora. E às vezes ela se apossava do corpo da minha mãe e chorava querendo me abraçar. A minha mãe dizia que ela não era real. Quando pensava que eu estava longe, minha mãe gritava para o “nada”, deixa o meu filho! Eu sabia que a mulher estava ali. Não sei para onde ela pode me levar, nem para onde ela vai quando não está por perto. Ela foi a única companhia constante na solidão da infância. Num dia em que minha mãe ia me deixar só, ela pediu à mulher, protege o meu filho. E a mulher balançou a cabeça em silêncio, afirmativamente. Mas agora estou cansado demais para dizer não, sentado nesta cadeira, cansado demais, mesmo, e ela me chama.. E minha mãe se foi. Ela diz que chegou a hora. Ela manteve-se jovem. Eu envelheci. Ela deve ter percebido a visão embaçada e o coçar de cabeça na esperança que esse gesto pudesse expulsar os cabelos brancos que tomaram conta. Eu sempre fugi da sua companhia, mas admito não ter mais forças para resistir. Pois ela é como uma dessas miragens que se vê no deserto ou quando se é envolvido por uma névoa de sono profundo. O único sonho que não podemos ter. O único sono ao qual não devemos nos entregar. Pensei que quando chegasse a hora de partir haveria barulho, dor, sofrimento, e luto. A vida nos surpreende. Eu sinto apenas as pálpebras pesadas, e o pensamento distante... Como quando rapidamente nos vem um sono muito, muito, profundo...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Só Por Hoje...

Eu preciso dar um tempo de rede social. E isso é uma questão de saúde psíquica. Embora as pessoas que me amam digam para que eu não faça isso, pois eu sairei prejudicado e lá também estão amigos meus. Não se pode falar nada. Não se pode ser “você mesmo”. Eu também não sou santo. Eu fiquei aceitando e adicionando todo mundo e eu tenho os meus surtos de ego como todo mundo... Normal. Tudo que se diz ofende alguém e essa incapacidade de comunicação me joga pra baixo. Você vai me perguntar. Porque é que você liga para a opinião dos outros? É o que eu vivo me perguntando. Assim como a maior parte das pessoas eu não sou “eu mesmo” ali. A maioria naquela festa ou está blefando, ou não está dizendo tudo o que pensa. Até porque se todo mundo começar a dizer a verdades que vai em seu coração, vai todo mundo ficar de cabelo em pé. Já tentei desfazer minhas contas várias as vezes. Mas eu sempre volto. Depois que eu volto eu me empolgo, depois que eu me empolgo eu publico algo do que eu penso, depois que eu público algo que eu penso eu ofendo alguém ou eu sou ofendido, e aí eu me deprimo. Então prefiro não participar e não opinar do que ficar nesse embate cansativo nessa selva dos infernos. Por isso que Buda e Lao Tsé falavam tanto sobre o silêncio. Rezem por mim para que eu consiga ficar limpo. Só mais vinte e quatro horas de paz e serenidade para todos. Ele deu outro gole em seu café.

As Guerreiras da Cinelândia...

Afastei todas as bandeiras que vi pelo caminho. Até que conseguimos atravessar o mar de gente e chegar ao meio dos acontecimentos. Dei uma olhada ao redor e a multidão era formada por gente de todas as idades, cores e estilos. Ao meu lado direito havia um teatro com sua cúpula dourada que o fazia parecer um castelo imponente. À minha frente, atrás do grande carro estava o palácio. Lentes apontavam para pessoas em suas escadarias. Eu pensava se eles iam assistir àquelas imagens e analisar os fatos. O prédio velho lembrava Edson Luís que morreu no calabouço de um lugar assim. Recordei noventa e dois quando também estive por lá. O colorido das bandeiras e roupas, e a diversidade de ideologias e crenças me fez crer que ali havia uma interseção. As cores lembravam a primavera de sessenta e oito. Só que agora era diferente. Lá em cima do carro estavam somente mulheres num contra-plongée. No topo de tudo. Mulheres diferentes umas das outras. Mulheres negras. Mulheres brancas. Eu tentava recordar ocasião igual àquela. A frase do menestrel sobre o macho adulto branco sempre no comando perdera o sentido. Elas deixavam bem claro que estavam lutando por todos. Eram mães, mulheres, filhas, e de todas as religiões. Lá em cima não havia uma bandeira. O discurso era seguido como um mantra, uma oração... E as pessoas repetiam as frases no mesmo estribilho... E de repente ecoavam gritos que revitalizavam a energia do ambiente. O coro de palavras confortadoras vinha de um lugar onde todos seriam iguais. E no céu zumbia o mosquito de metal. E de repente todo mundo gritava aquela frase que era uma negação, mas que soava como uma afirmação: “Ele não! Ele não!” Todos cerravam os punhos. As pessoas apontavam para o mosquito de metal e gritavam para ele: “Ele não! Ele não!” Eu acreditei que tanto o piloto como o homem das lentes ouviam o coro. Um grupo de mulheres de perna de pau ficou à frente do grande carro, foram feitos pedidos para a que a multidão permitisse a sua passagem, e todos foram caminhando... Quando saímos ela disse: “Colaram algo em suas costas.” Era a foto de um homem com um número. Eu tirei a foto da camisa e joguei no lixo. O carro aos poucos começou a se distanciar. E para nós, os outros; que estavam ali, e que eram filhos, netos, e pais… aquela talvez fosse a última esperança.