sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIX

Depois que acontecia com você, quando acontecia com os outros, você dizia foda-se, era o mesmo que um adolescente desesperado para foder uma mulher querer explicar a alguém insensível, como este tipo de problema é mais complexo do que se possa imaginar, assim como depois que sua mãe morre, você não consegue sentir uma dor tão intensa quando a mãe de alguém morre como você sentia antes, pois você já passou por aquilo. Então para você se torna natural todo mundo passar por aquilo. Talvez por isso alguns pais não tenham paciência de ficar consolando os filhos em algumas situações. Então era assim que Enzo pensava. Já Sophie, encarou aquela cena do suicídio do garoto tão novo... como a pior cena do dia. Pois ela se lembrou do quanto às pessoas lutavam para viver nos hospitais, para vir um filho da puta e fazer aquilo, aquela covardia era humilhante. Sophie só pensava que na verdade sentia vergonha da pessoa. Ódio não seria a palavra correta. Ela sabia que o país não só tinha uma pena de morte institucionalizada, ou até mesmo ilegal, já que a maior parte, dos crimes, não era solucionada, e os culpados não eram punidos. Mas aquele imbecil tirar a própria vida! Aquilo era nojento... Enzo também se lembrou de que aquilo era o que mais acontecia nos quarteis. Depois que a cena do garoto com a cabeça encostada no peito e um buraco no ouvido se tornara desinteressante, eles seguiram caminho. Sophie perguntou a Enzo? O que você acha disso? Ele disse a ele, eu acho que ele é um covarde. Como assim um covarde? Alguém que tem medo de viver. Que não tem disposição para resolver os problemas. Sophie disse, é para quem já pegou uma cadeia, e foi para a guerra, até que você tem autoridade para falar... Enzo disse, mas eu não estou falando por causa disso. E sim porque um dos meus irmãos cometeu suicídio. Ela se calou. Não queria falar sobre aquilo. Então quando Enzo entrou com Sophie na rua em que as pessoas urinavam, e que estacionavam os carros, e onde eventualmente faziam sexo. Ele viu um vulto que se parecia com o da mãe de seu filho, aquela vagabunda que o abandonara, e que fora embora com um policial. Mas ela era um vulto em sua mente, alguém que ele sempre via, então volta e meia tomava um susto. Para onde ele olhasse, ele a via, era o cabelo parecido, a voz que o fazia se virar na rua para olhar para trás. Ou mesmo uma mulher nos braços de um cara. Ou o cheiro de um perfume que ele supunha que ela usara. Ele vivia vendo a mãe de seu filho em tudo que era lugar. Era um pesadelo constante que o acompanhava. Então quando ele viu aqueles cabelos pintados de louro chupando uma piroca num beco, ele se lembrou dela imediatamente. E sentiu aquela depressão repentina, com a qual desde que ela fora embora, ele aprendera a conviver. E agora com aquela cara de chapado, e assustado, ele caminhou por dentro da festa do gueto atrás do patrão. Enzo encontrou o patrão numa roda de bandidos. Eles sorriam. Enzo os interrompeu. O patrão perguntou a ele, mas quem é ela? Apontando para Sophie. Enzo respondeu, é uma amiga minha... Ele disse para aquele patrão sem rosto. Para o qual as pessoas evitavam encarar, mas com o qual elas voltam, e meia se viam obrigadas a cruzar o olhar. Tenebroso. Sinistro.