terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVIII

As luzes. Os barracos. As pessoas andando de um lado para o outro. Viciados em crack se misturavam as outras pessoas no descampado de terra. E aos porcos. Existia um comércio que girava em torno dos viciados e que movimentava todo o gueto. Mas aquilo tudo só existia por causa da conivência de alguns policiais que eram pagos com suborno, e que sabiam aonde encontrar o esquema, mas que graças a deus não iam lá. Pois também tinha medo que alguém no meio daquela confusão puxasse um revólver, e resolvesse atirar, seria pior. Ainda mais quando estavam de moto. Mas o comércio da droga era livre. A feira. E Sophie pensava, não há outro jeito de se conseguir erva, então vamos nós. Tinha que ir aquele campo minado para fumar um. Logo assim que eles embicaram o carro em direção à tendinha a qual Enzo apontava e que alguns homens se espremiam para entrar num minúsculo banheiro, para urinar, numa rua que estava toda suja, mas que assim mandava o protocolo... Eles desceram do carro. Enzo pôs a mochila nas costas e disse a Sophie, fica tranquila. Sinta-se em casa. A área é nossa. Das caixas de som, estouravam um rap, num volume altíssimo. Bandidos circulavam armados como soldados em quartéis. Exibiam suas armas. Roupas. Cordões. Relógios. Bonés. Telefones. Drogas. Armamento. Amizades. Mulheres. Tudo que desse a eles algum status, e que os colocasse dentro de um conjunto de valores que os levasse a ser algo, não com as coisas, mas a partir delas, pois eles pareciam se legitimar a partir do que tinham. Mesmo que fosse um poder irrisório, ou um castelo de areia que a qualquer momento poderia desabar. Diferentes destas construções antigas que parecem lego que se encaixam uns nos outros. Com agruras infalíveis. Assim como pequenos passarinhos que constroem seus ninhos feitos de uma engenharia complexa, e provavelmente impossível para as mãos humanas. Logo que entraram viram uma aglomeração próxima a um poste. Numa rua com iluminação precária. Alguém estava encostado. Quando eles se intrometeram no meio da roda, para ver o que havia acontecido, deram de cara com uma cena chocante. Chocante para quem? Enzo perguntou. O que foi? O cara disse, ele se matou com um tiro no ouvido. Enzo tinha um caso de suicídio na família, e uma dúzia na guerra. Então para ele aquilo fora indiferente. Ele, por exemplo, se perguntava se no mundo todo, não morriam por dia, mais pessoas que cometiam suicídio, do que pessoas assassinadas. Então para ele aquilo era só uma maneira covarde de se morrer, assim como desertar no meio de uma guerra, ou negar fogo no gueto quando a polícia viesse. Ou delatar os amigos. Depois que seu irmão cometeu o suicídio, incrivelmente ele passou a considerar que qualquer pessoa poderia fazer o mesmo, em várias situações diferentes, embora tenha visto aquilo diversas vezes, inclusive na cadeia. Ele passou a perceber que aquela atitude estava mais entranhada na sociedade do que ele imaginava, pois assim que o seu irmão morreu. Ele passou a contar os números de suicídios de que ouvira falar, que tivera notícias, e na verdade eles só faziam aumentar. Então depois de seu irmão ter morrido daquela forma. Por mais que aquela fosse uma das maneiras mais escrotas de se morrer, e que mais doessem na alma e no espírito daqueles que ficavam.