sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIII

Na cadeia ele vivia com medo de ser atocaiado na cama de madrugada. Mas fingia não sentir medo. Não falava demais. Não via demais. Optou por ter a visão e a audição limitadas. Não atrasava ninguém. Tinha paciência. Estava sempre na sua. Sendo assim os outros presos o respeitavam. Enzo não queria se comprometer com os assuntos dos outros, ele não queria ouvir o que eles tinham a dizer, ele não queria ouvir o que podia ser considerado uma confissão de próprio punho. Alguns ouviam, e na sede de diminuir a própria pena, abriam o bico, delatavam os outros, falavam demais, davam com a língua nos dentes, e arrumavam inimigos para o resto da vida. Outros se empolgavam ao contar as suas peripécias. Por mais interessantes que fosse o quê qualquer um deles tenha feito, Enzo não se preocupava com isso. Preferia o silêncio. Do que exaltar ou contestar seus atos. Ele é que não ia ficar batendo palma para maluco dançar na esquina. Quando alguns deles cismavam de cantar de galo com ele, ele partia a cara do sujeito ao meio, já que fingia ser um cara durão, ter colhões, e todo ódio do mundo, sendo capaz de já ter puxado uma faca, e um vergalhão... Enzo vivia de dar sugestão nos outros. Ele gritava. Dava a primeira porrada. Quebrava prato na parede. Aí o cara tinha que aguentar, e levar porrada até ver estrelas. Ou fugir aos pinotes. Engraçado que no gueto não era tão rígido quanto na cadeia, no gueto, se você quisesse fingir que era bandido podia fingir. Bastava que subisse numa moto, fizesse cara feia, e cruzasse uma arma nas costas. Talvez aos olhos dos outros... Enzo era respeitado por ter uma guerra nas costas... Acreditarem que tinham peito de aço, e que sendo assim talvez não fossem morrer, e acreditavam que ficariam presos com os mesmos caras com os quais se andava no gueto. Ou dos quais se ouvia falar. Mas chegando lá era diferente, porque a questão não era com quem estar preso. E sim, estar preso. Quem nunca havia sido preso, não podia conhecer todo o valor da liberdade... No gueto com uma arma na mão, todos os dias você espera a polícia chegar... Mas como eles não vieram logo no primeiro dia, você logo acha que é fácil e que eles nunca virão, mas quando eles chegam de verdade, é que você passa a conhecer a cadeia, o que é estar preso. Quando e você está na delegacia já sente isso. Não poder se movimentar é horrível, ter as algemas nos punhos, e a cara virada para a parede. Nenhum dos relatos mais vívidos que você pode ouvir no gueto, entre um baseado e outro, são iguais estar na cadeia de verdade... Um pai estrilou quando viu um cara falando do lugar onde o filho estava que aquilo lá não era vida pra ninguém, não... Da mesma forma que alguém saudável, não podia imaginar como era estar doente, se nunca havia ficado doente antes... Daquela vez ele já estava ficando sem ar. Aquele cara em cima de Enzo o estava matando, quando ele, vendo o mundo de cabeça pra baixo, viu o patrão, agachado, ele ia morrer queimado no fogo daquele inferno. No último arzinho que existia. Ele ouviu o patrão dizendo... Eu quero ver até aonde vai à palhaçada de vocês dois, e sentiu aquele braço que o esganava deixar seu pescoço milagrosamente, como se fosse uma cobra que houvesse desistido de dar o bote. E ainda no chão ele agradeceu a deus por sua vida. Não ia morrer no meio daquele inferno sem ter feito nada de interessante na vida.