sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XII

Ele pensava que agora era hora de fingir para Sophie, assim como ele fingira para outros homens. Ele pensava que diante dos homens mais perigosos, você teria que deixar de sentir medo. Apenas fingir que não tinha medo. Assim como podia manipular a sua vontade, para aquilo que você mais queria, ou melhor, pelo que ele aprendera na guerra, e na cadeia. Que você soubesse escolher o que era certo fazer com o que você tinha. Nas condições em que você vivia, no tempo, no espaço, e com as possibilidades que existiam... A vida fora da cadeia não importava, mais. O que ele iria fazer quando saísse da cadeia, ele ia pensar nisto quando saísse da cadeia. Agora ele teria que viver o dia a dia da cadeia, da melhor maneira, dentro do possível. Ele lamentava não ter aprendido aquilo longe das grades. E ter precisado delas para que pudesse aprender de uma vez. Quando Enzo saísse da cadeia, depois de todos aqueles anos, se o mundo ainda existisse, e ele não morresse lá dentro numa guerra nuclear, sem saber o que aconteceria aqui fora, às vezes ele pensava que só não desejava morrer na cadeia. E que se tivesse que morrer dentro dela que pelo menos morresse com a alma em paz, e não assassinado. Ele pensaria no que com sua liberdade, na cadeia os sonhos não podiam substituir a realidade, pois eles sempre encontravam os muros, grades, as cercas, e os arames farpados. Nem divagação, nem ilusões, elas existiam, mas não podiam contaminar todo seu pensamento, você tinha duas opções na cadeia. Aceitar. Ou aceitar. Então você tinha que viver de maneira objetiva. Se quisesse continuar vivo. Usar o lado prático e racional. E não ser guiado por nenhum tipo de emoção que pudesse contaminar o seu pensamento, como pena e ódio. Igual daquela vez em que Enzo no auge de sua juventude se vira arrastado para a guerra. Assim como um dia quando criança, acordara com a sua mãe gritando, e pedindo a ele que acordasse, e corresse, pois a casa estava pegando fogo. É como estar doente. Como daquela vez que ele fora internado num hospital público do centro da cidade do campo que um dia pertencera à família real. Ele chegou ao hospital para uma consulta, e o médico disse que teria que ficar por lá. Assim como de repente ele se vira embarcado para uma guerra que ele não provocara. Por mais adolescente que essa rebeldia pudesse parecer. É como estar na guerra. É como ser pobre, e preto. É como viver, pena que alguns tenham que passar por tudo isso, como eu passei para aprender já tão tarde. Hoje eu teria feito tudo certo, Enzo pensava. Teria feito tudo que me pediram. Teria sentado lá, calado a boca, e copiado todo tipo de porcaria que eles passavam no quadro, teria passado para o lado deles. Antes que eles me declarassem como inimigo. Pois se você se tornar inimigo deles, saiba que está frito. Eles vão de jogar você no ostracismo. O problema é que eles, assim como o governo, são nós, e assim, como deus, ou sociedade, então na verdade fica muito difícil saber quem é o verdadeiro culpado dessa bandalheira toda. Mas sejam eles lá quem ou o quê eles sejam, e isso inclui você, voluntária... Ou involuntariamente, eles vão te excluir, e te tratar como um inútil, pois é assim que as coisas são, e tudo indica que continuarão assim por um bom tempo... E sim fingir que ele não existia. Disfarça-lo.