domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VIII

Não sei como ainda consigo me orientar nesse mundo de meu deus... Acho que é por ter vivido nas ruas, ser pobre e preto, ter ido para a guerra, e ter visto pessoas pisando em minas terrestres e voando ao meu lado. Tendo um dia pela frente, eu viveria até o final do dia, e estando atrás de trincheiras, e visto, valas cheias de corpos, acho que isso te faz nivelar as coisas sempre por baixo. Faz-te comparar tudo por baixo. Enzo pensou e depois disse, já tendo o policial distante, que nem figurava no retrovisor. Igual você, depois que passou a trabalhar no hospital. Eu tenho essa mesma sensação de que ainda estou vivo. Ainda me deixam respirar. Ainda me deixam existir. Só não sei até quando. Mas eu estivesse nesse hospital de guerra que você fala, nesse hospital de filmes de tevê, e já fiquei internado em hospitais como esse que você trabalha. Ela pergunta a ele, como é ficar preso? Você quer saber como é ficar no calabouço? Sinceramente, todo mundo tinha que fazer de tudo para não ir parar naquele lugar. É horrível, é uma coisa horrível, a solitária, ter que dar metade da comida azeda para os ratos, e comer a outra metade, é horrível... Ela pergunta, e para onde você foi primeiro... para a guerra ou para a prisão? Enzo diz, para a guerra, eu fui preso depois que voltei da guerra. Eu fiquei cinco anos na guerra. Cinco anos na prisão. E desde que me conheço como gente sou um preto do gueto, que precisa roubar para poder comer, roubar em todos os sentidos. Puxar o tapete dos outros antes que eles puxem o meu. É assim que nós pensamos. Sophie diz, acho que a gente não consegue perceber que somos apenas uma bactéria num corpo. Que não temos importância alguma. Na guerra é que você vê a falta de importância da vida para o mundo. E na prisão sabe, na prisão é onde você conhece o sofrimento. Na prisão você aprende a valorizar a liberdade, a vida, ou você aprende isso, ou você morre lá dentro. O teu espírito morre. Pois a prisão neste país é feita para isso. Para foder com a vida do sujeito. Prisão é pau no cu! Mas é como aquele cantor de rap disse, a prisão fazia parte do crescimento dele como homem, todos esses rapazes assim como eu, já foram presos, envolvidos com o crime, e suas mães eram empregadas domésticas. Ela diz, eu gosto mais de rock. Falo dos verdadeiros rappers, não dessa falsificação que existe por aí. Sophie pergunta a Enzo, mas você já havia ido à guerra, porque achava que a prisão fosse te ajudar em alguma coisa? Na verdade eu não achava isso, todos os meus amigos já haviam sido presos. Então eu achei que se eles podiam passar por aquilo eu também poderia. Eu havia passado pela guerra. Mas o problema da cadeia é que ela é igual à guerra, você vai pra lá pensando que é uma coisa, e por mais feio que pintem a guerra, quem já foi, chega lá é algo pior do que você podia imaginar. Isso aconteceu comigo quando fui preso. Por mais que eu tivesse encarado a guerra antes, percebi que a prisão era tão ruim quanto, talvez até pior. E que nenhum ódio, nenhuma frustração, merece que você vá parar naquele lugar. Talvez você até faça coisas para ir parar naquele lugar. Mas quando você chega lá. E sinceramente percebe que quem você matou já está morto. E provavelmente livre de qualquer sofrimento. Por mais que os seus parentes ainda sofram.