terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo X

A cadeia e a guerra são assim, e não é possível que o inferno seja pior. Aqui se faz. Aqui se paga. Lugar onde filho chora. E mãe não vê... A gente vive de teimoso. Porque se emociona com a porra de um pôr do sol no fim da tarde. Só por isso. Antes disso eu também havia experimentado enterrar um irmão, eu vivo num lugar em que o cara que matou seu irmão entra no mesmo bar que você para comprar cigarros, e você não pode fazer nada, porra. Todo mundo sabe que aqui não existe estado democrático de direito. E todo mundo sabe que ele matou seu irmão. Inclusive você. Sophie pergunta a Enzo: e o que aconteceu com o cara que matou seu irmão? Ele olha para frente. Ele apareceu morto. É como se agir de maneira diferente fosse contra as leis do lugar. Já o carro do meu outro irmão se chocou com um caminhão numa estrada. Outro morreu de tanto beber. E outro babaca cometeu suicídio. Mas não gosto de ficar falando dessas coisas. Então eu já estou acostumado. Não ligo, não. Pode ver que eu fico com essa cabeça aqui no colo, mas nem ligo. Porque eu sei que o que existia de ruim aqui neste corpo, não existe mais. Já saiu. Sophie pergunta a ele: você acredita na existência da alma? Em vida após a morte? Essas coisas. Enzo diz que sim. Eu acredito. Ele acredita. Então ela pergunta a ele para onde ele acha que pode ter ido à alma daquele homem que ele matou. E quando ele responde a ela para o inferno, ela pergunta se ele acha que deus também vá manda-lo para o inferno, já que ele matou alguém. Enzo diz que fez justiça com as próprias mãos. E que pelo menos deus é a favor da justiça. Sophie pensa que Enzo mantém muito de seu lado animal. Mas ela não comenta nada com ele. Ele diz que não se importa. Pois deus está vendo que aquele que ele acabou de matar abusava de meninas mais novas. Então ela pergunta a Enzo se ele acha que para deus existe diferença de um crime para o outro. Ele diz que existe, sim. Ele diz que já matou outros homens, como se não precisasse ter matado esse para se apoiar no que dizia. E que sim. Deus sabia que o outro era um safado que abusava de menores. Ela perguntou a ele, se ele considerava a morte de uma criança, ou o estupro de uma mulher uma covardia, ele disse que sim. Que a criança não podia se defender. E que no caso da mulher. Ninguém podia obrigar ninguém a fazer o que não quisesse. E indagado sobre a morte de um velho, ele disse que sim, que também era covardia, pois um velho não tinha forças para se defender. Ela perguntou a ele se ele iria parar de matar. Ele disse que sim. Que aquilo não era vida para ele. E que logo assim que ele arrumasse um bom dinheiro. Ele iria pegar o seu filho, e cuidar de arrumar uma boa mulher, que fosse companheira, e o ajudasse a educar seu filho melhor do que aquela vadia da mãe dele. Na verdade aquela morte era uma questão de honra. Sophie perguntou a ele sobre os soldados que ele havia matado na guerra. Ele disse: na guerra, você, apenas, obedece. Mata para se manter vivo. E não que eu odeie o outro. Aquele que eu mato. Um babaca pode até pensar assim. Mas um soldado consciente, normalmente odeia quem o enviou para a guerra, mais do que a todo mundo. Na guerra você vai sem querer. Não importam os motivos. E num lugar onde o serviço militar é obrigatório, isso é um inferno, você é obrigado a servir a porcaria do seu país, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.