sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VI

Porque um cara o pegou aqui... Num gueto próximo a tua casa, mas aí eles ligaram pra avisar a gente que ele estava em poder deles. Se fosse por mim eu teria picotado ele todinho no machado, que eu gosto de usar o machado, parte por parte, pedaço por pedaço. Ele morreu com um tiro na cabeça. Podia ter matado ele com mais requinte, deixa-lo no sol sofrendo, igual os romanos faziam antigamente, ele teria uma morte bonita. Mas essa morte que ele teve foi fácil. Mas esse tipo de cara quando cai no sistema, vira mocinha na cela, eles enfiam até cabo de vassoura no rabo dele, você sabia que nesse país quem manda na cadeia são os presos? Não tem esse negócio de carcereiro, não. Carcereiro é só o cara que vai levar as notícias ruins aos presos. Quando disse que ia levar a cabeça dele, eles não acreditaram, eles pensaram que eu ia até lá só para me certificar de que ele já estava morto. Mas aí eles disseram que não havia necessidade, pois eles iam mata-lo. Eu tinha certeza disso. Mas quando eu disse que eu ia até lá arrancar a cabeça dele, quando eu disse isso pelo telefone, eles pensaram que eu estava brincando. Então quando eu arrastei o corpo dele de dentro da vala para poder arrancar a cabeça dele... Durante todo esse discurso, Sophie se manteve imóvel olhando para Enzo, como se tivesse tomado uma droga poderosa que lhe desse essa catalepsia, e quando Enzo falava de seu morto, o balançava, ou seja, balançava a cabeça o que sobrara do inimigo. Ele disse, mas o tiro valeu a pena, aliás, você sabe que um tiro com endereço errado pode desencadear uma guerra mundial. Eles não acreditaram. Nem quando eu pedi um facão emprestado. Sophie disse a Enzo, você pode guardar essa coisa? Ele perguntou a ela? Você está com medo? Ela disse lógico que não... Eu tenho medo é que alguém veja isso, não quero ter que me aborrecer com meu pai. Sophie disse a Enzo, que se dane, eu conhecia esse babaca... Eu também não gostava dele. Enzo sente sinceridade em sua voz. Ele se metia com meninas muito novinhas. Ela diz. Ele percebe um brilho em seus olhos. Enzo diz a Sophie: você ainda quer ir lá comigo, ela diz, sim. Hoje é meu dia de fumar um baseado! O meu trabalho está uma merda. A minha vida está uma merda igual à vida de todo mundo. O tempo que se leva para chegar ao trabalho. O ar que se respira. Toda a poluição visual, e sonora... A sujeira das ruas. A miséria estampada na cara dos mendigos. A loucura tatuada nos rostos dos viciados em crack. Não é essa cabeça que vai acabar com o meu final de semana... Ele já está morto, mesmo... Diferente de mim que preciso viver. E de mais a mais, trabalho com gente morta o tempo todo. Com todos os tipos de mortos. Mortos vivos. E mortos de fato. Não vai voltar. Nós que estamos vivos é que temos que nos preocupar com a morte. Eles, não. A vida já era para ele. Eu sou enfermeira num hospital público. E não se esqueça de que o meu pai é um policial. E não pense que eu estou com medo de você por causa dessa segunda afirmativa. Porque eu sei que se você quiser me matar, você vai me matar. Então não faz diferença. E além do mais, prometi a mim mesma, que nunca imploraria por minha vida. Caso não estivesse errada. Então não vou implorar por minha vida, caso você resolva que o simples fato, de eu ser filha de um policial, represente o que há de pior na polícia, e queira se vingar disso em cima de mim. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.