domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIV

Ele ficou pensando no chão, talvez escrevesse um livro ou tivesse um filho quando saísse da prisão, ou fosse embora da guerra, mas faria alguma coisa. Quem sabe seguir outra profissão como sonhava. Ele sonhava um dia poder ir a um cinema com uma garota. Assistir a um filme qualquer. Sentar numa poltrona acolchoada. Comer pipoca e tomar aquele lindo líquido preto e adocicado que ninguém sabe como é feito. Fazer algo que as pessoas normais podem fazer... Ao invés de ficar o tempo todo escondido nos guetos da vida. Era isso que ele sonhava. Ele não falava nada. Os amigos sonhavam em sair daquele lugar miserável, e sombrio, para matar mais gente. Se vingar em cima de mais gente. Ele, não. Ele queria respirar o ar da noite. O ar da cidade. Urbano. Dos prédios. O espaço vazio, na rua, que mesmo poluído exalava liberdade... Se ele soubesse que a prisão era daquele jeito... Mas isso é o quê todo mundo diz quando chega lá dentro, todo mundo diz que poderia ter ficado na praia, fumando maconha, sem fazer nada o dia inteiro, mas que acabou caindo nas garras do capeta. Sendo abocanhado pela ambição, amordaçado pelo medo, ou pelo tesão por uma mulher. Ou quem sabe pelos três juntos. Ao invés de andar por aí arrumando problemas. Enzo voltou da guerra prometendo largar o crime. E saiu da prisão com a mesma promessa. Em nenhuma das duas ocasiões ele conseguira cumprir com o prometido. Não que ele não pudesse mudar aquela altura do campeonato, todo mundo podia mudar sua própria vida quando quisesse, nunca era tarde... Ele teria mais chances... As coisas chegaram aquele estado por acaso. E venhamos, e convenhamos, ele sempre fizera parte do crime, desde criança, o próprio pai era bandido, e havia passado um tempo na colônia penal. Mas ver o seu filho chorando de fome. Dizendo: papai, eu quero pão... Enzo começou a pegar dinheiro emprestado na boca de fumo para pagar o aluguel, comprar botijão de gás, e quando foi ver estava atrelado aquele mundo novamente. Começou deixando que escondessem as armas e as drogas na hora da fuga, para poder pagar aquele dinheiro que eles o emprestaram, se eles soubessem o quanto estavam fora da lei, agradeceriam a ele, por simplesmente deixar que eles ficassem naquele lugar. Como morador. Pois dar um telefonema anônimo era a coisa mais fácil do mundo. Se ele não fazia isso era porque desde criança fora criado no gueto, e sabia muito bem respeitar as coisas dos outros. Cada um com o seu problema. Era o que diziam. Tudo foi a partir da agiotagem. Assim como os homens sanduíches que andavam na calçada dizendo que vendiam, e comprovam ouro. Tudo aquilo era contravenção. Assim como os jogos ilegais. Uns mais, outros menos, assim como a pirataria, todo mundo de uma forma ou de outra acabava burlando alguma lei. Ou a moral, ou a ética. Vendendo cigarro. Vendendo bebida. Comprando roupas falsificadas, e contrabandeadas. Ao mesmo tempo todo mundo pagava imposto. E ao mesmo tem que todo mundo pagava imposto de uma forma de ou de outra, alguém pagava propina. Passava a frente numa fila. Negava um bom dia. Um copo de água. Mesmo que por timidez, e existiam as leis que eram idiotas, e que cumpri-las, era como ser contra maconha, e fumar cigarro, sacou?