segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IX

Você percebe que quem está morto é você, que vai ficar preso lá dentro. Imagino os sofrimentos dos homens que são presos injustamente, deus que me perdoe, mas são uns poucos seres que são expostos ao pior tipo de sofrimento, que é a vingança da prisão, sem ter feito absolutamente nada. Era nisso que eu pensava quando eu estava preso. Na verdade eu sentia mais pena deles, do que de mim, que eu sabia que eu havia me jogado lá dentro. É uma insanidade que teria que ser evitada a qualquer custo. Se o ser humano deixasse o seu lado animal um pouco de lado quando necessário... Por causa da guerra surtei com o país, fiquei revoltado, fui roubar... Aí eles me pegaram, num dia que eu não ia sair para roubar, mas que o meu filho precisava comer. Nossa você nem me disse que tinha um filho... Enzo diz, eu tenho, olha aqui a foto dele... Ele disse a ela, eu tenho um filho. Acende a luz do salão de novo. Olha a foto dele. Enzo mostra a foto na carteira. Um dia eu vou largar essa vida que eu levo por causa dele... Teve uma cantora que fez isso, largou tudo para cuidar do filho. E uma atriz que largou tudo porque tinha síndrome do pânico. Uma atriz até famosa... E como é ficar preso? E ir a guerra? Os olhos de Enzo estavam vidrados, os de Sophie também. É como ir para o inferno. Imagina estar no inferno. É assim que é estar na guerra, é como estar preso, e estar preso é a mesma coisa que estar na guerra, não sei como acontece com os outros países, mas aqui a cadeia é assim. Todos os dias você tem que agradecer por ter visto o sol. Na guerra é assim também. Sophie pergunta a Enzo, e como é que você fez para sobreviver a toda essa loucura? Enzo diz. Da mesma forma que você faz para sobreviver à loucura do seu trabalho. Eu fui vivendo. Enzo pergunta a Sophie, e como você lida com os mortos no teu trabalho. Eu passo por essa lavagem cerebral pela qual todo mundo que trabalha com saúde e segurança é obrigado a passar. Porque senão acaba surtando. Ficando deprimida, ou alguma porra dessas. A cadeia é um pesadelo. Eu sempre fui pobre. No primeiro barraco em que morei, na primeira favela em que eu morei, tacaram fogo nela de madrugada, nos barracos de madeira, a gente estava dormindo. A gente morava numa invasão. Chão de terra, e barraco de madeira. Foi um incêndio criminoso, todo mundo sabe que foi um incêndio criminoso, isso vive acontecendo, mas eles não dão a notícia assim... Eles sempre dizem que vão investigar quais foram à causa do incêndio. Para eles deve ser tão vergonhoso admitir isso, como deve ser para uma família admitir que um suicida pusesse fogo as vestes. É tão vergonhoso para o governo, para o sistema, que somos nós, mesmos, quanto um parricídio. Ou aqueles suicídios que se dão como forma de protesto. Mas em nenhum momento aventaram a possibilidade de alguém ter provocado aquele incêndio. Eu tive que passar por dois infernos, pelo inferno do fogo, e pelo da água, que era na época das enchentes no verão, em que todos os anos nós perdíamos tudo, e tínhamos que reconstruir tudo de novo. Naquelas enchentes. E vizinhos nosso que moravam mais próximos ao barranco, morriam. Sabe tudo isto que estou contando aconteceu no antigo gueto do mercado, que não existe mais... De noite tacaram fogo em alguns barracos, eu ainda ouço o crepitar das chamas.