segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IV

Ele estava com a mochila em seu colo, quase que eu me esqueço da mochila... Ela diz, o quê é que tem aí dentro? Depois que ele pôs a mochila nas pernas. Ele diz: algumas ferramentas de trabalho. Ele disse depois que guardou a arma na cintura. Enzo hesitou um pouco. E pensando que se Sophie havia aceitado a historia da arma, ela era suficientemente loura, e louca, para saber o quê havia dentro daquela mochila sem se pasmar, e não achar nada daquilo anormal. Era como se ele confiasse nela, logo de primeira, logo de cara. Embora os amigos sempre o aconselhassem a nunca confiar em mulher alguma, de maneira alguma, sobre hipótese alguma, ainda mais se tratando de negócios, de coisas relacionadas a dinheiro, tretas, cambalachos. Enzo sabia que mulheres traídas, assim como nações, levam homens à primeira página do jornal. Com gravações de escutas telefônicas de conversas não autorizadas pela justiça, que mais parecem confissões. Algumas chegam às vias, de fato, ao picotar o marido e passear com os restos dele dentro de uma mala por aí. Outras esperam o sujeito dormir para só então tacar fogo nele. Ou jogar água fervendo em seus ouvidos. Outras preferem algo ainda mais humilhante, como por exemplo, uma traição silenciosa. Nada pior do que esse gosto de ferro que fica na boca depois da vingança. De bílis. Esse gosto de merda de criança. De cheiro de vômito. Como Enzo sentia na cadeia, naquele lugar que cheirava a concreto, ferro, esterco, e secreções de todos os tipos. Nasais, orais e anais. Era horrível quando algum diretor tinha a infeliz ideia de jogar um produto qualquer para desinfetar todo o pavilhão com creolina. O cheiro se espalhava pela masmorra, e ficava difícil respirar. Como é difícil respirar nesses prédios fechados. Num lugar em que você sonha respirar o ar da rua. Da lua. Não poder entranhar esse ar nas narinas, e sim o cheiro de algum produto químico de quinta categoria. Não tem nem o cheiro comum da cadeia que já é fedorento. Mas que ele já estava acostumado. Igual o cheiro dos mortos na guerra. Você se acostuma com o cheiro deles, mesmo que tenha que se fingir de morto, numa vala, junto à centena deles. Não é difícil se sentir assim, mesmo distante dos campos de batalhas. Das linhas de frente. Sabe como é na guerra? É igual na vida real. Alguém sempre quer ter ferrar. Tem sempre alguém atrás de você, querendo puxar o seu tapete. E você está sempre fugindo, e tentando puxar o tapete de alguém que está na sua frente. Pois é isso que mantém as coisas desequilibradas no mundo. Se os seres humanos simplesmente se entendessem, e parassem de querer provar o quanto podem ser demoníacos, isto aqui seria o paraíso. Enzo pensa. Então logo assim que ela terminou a pergunta, ele abriu o zíper da mochila. Baixou parte dela, e surgiu o saco em formato de cabeça. Ou cobrindo a cabeça. Meu deus... Era uma cabeça... Mesmo... De verdade! Era a cabeça de um homem nos seus vinte e poucos anos. Sophie subiu com o carro numa calçada, batendo com a roda no meio fio. E correu. Indo vomitar numa parede. Enzo pensou que talvez Sophie não aguentasse ficar presa num manicômio judiciário nem por uma semana.