sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo I

Era meia noite quando Enzo viu a menina estacionar o carro lentamente batendo com a traseira em algum lugar. Ela saiu de maneira desajeitada com um andar de quem carrega quinquilharias por aí. A menina foi em direção ao trailer de cachorro quente, da praça. Ela era branca, baixinha, troncuda, vestia jeans, tinha os cabelos tingidos de louro, e falsos olhos azuis. Tatuada. Enzo era preto feito pneu, forte, alto, tinha cabelos rastafári. A menina veio andando, e parou atrás de Enzo. Agora ela vestia uma capa de chuva transparente. Era uma noite dessas em que a chuva fina fica batendo no casaco que tem capuz. Um sábado em que a maioria das pessoas se esconde do frio, chocolate, vinho, pizza, maconha, sexo, Enzo também gosta dessas coisas. Não importa que as pessoas estejam morrendo na África. Eu estou no cu do ocidente, e não posso fazer nada por elas, ele pensa. Então vem essa menina, e para trás de Enzo, ele permanece com as mãos nos bolsos do casaco sem olhar para trás. Enzo tem o rosto largo, e aquilino. Mas ele olha para frente. A garota tem um rostinho de boneca, e tem cara de quem apronta das suas. Ela diz alguma coisa como: será que vai demorar muito? Enzo responde educado, fingindo indiferença, tomara que não. Ele tenta pôr na voz a mesma emoção que usaria caso estivesse falando com um velhinho do sexo masculino. E não com aquela garota, que parecia uma princesinha de conto de fadas perdida num bosque. Ele se cala. Como se qualquer diálogo tivesse que vir dela, ele era o homem, e já estava errado por existir, e andar com aquele troço preto, por aí, balançando no meio das pernas. Ele sabia o quanto a força do seu interesse contava naquele momento, interesse, este, que não podia soar como desespero, mesmo que fosse ela que estivesse interessada nele, Enzo sabia o quanto as mulheres eram desconfiadas, e ainda existia o tal abismo social entre os dois, e como tinham que ter pelo menos, a sensação de estar sempre no poder, embora o mundo estivesse caminhando para que elas tomassem o poder de vez, os principais cargos dos principais países já estavam sensatamente sobre o domínio de mulheres, e desde que ele se entendia por gente, na maior parte do tempo, os interesses delas não se limitavam a duas pernas abertas numa cama, como eram os de alguns homens iguais a ele. Enzo queria deixar a garota à vontade. Para que puxasse assunto, ou não. Enzo havia lido numa revista que alguns homens sempre confundiam o comportamento de algumas mulheres, quando na verdade elas estavam apenas sendo apenas simpáticas, e elas tivesse em mente o peso do preconceito que os homens carregavam, de achar que toda relação feminino masculino partia de um pressuposto carnal. Algumas mulheres ficavam enojadas, por isto. Não é que eles fizessem por mal, ou existisse algum traço de caráter nisso. É que eles não entendiam como algumas mulheres podiam não gostar tanto de sexo quanto alguns homens. Não que isso os tornasse mais, ou menos, felizes, sei lá, era apenas, diferente.

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