sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIX

Depois que acontecia com você, quando acontecia com os outros, você dizia foda-se, era o mesmo que um adolescente desesperado para foder uma mulher querer explicar a alguém insensível, como este tipo de problema é mais complexo do que se possa imaginar, assim como depois que sua mãe morre, você não consegue sentir uma dor tão intensa quando a mãe de alguém morre como você sentia antes, pois você já passou por aquilo. Então para você se torna natural todo mundo passar por aquilo. Talvez por isso alguns pais não tenham paciência de ficar consolando os filhos em algumas situações. Então era assim que Enzo pensava. Já Sophie, encarou aquela cena do suicídio do garoto tão novo... como a pior cena do dia. Pois ela se lembrou do quanto às pessoas lutavam para viver nos hospitais, para vir um filho da puta e fazer aquilo, aquela covardia era humilhante. Sophie só pensava que na verdade sentia vergonha da pessoa. Ódio não seria a palavra correta. Ela sabia que o país não só tinha uma pena de morte institucionalizada, ou até mesmo ilegal, já que a maior parte, dos crimes, não era solucionada, e os culpados não eram punidos. Mas aquele imbecil tirar a própria vida! Aquilo era nojento... Enzo também se lembrou de que aquilo era o que mais acontecia nos quarteis. Depois que a cena do garoto com a cabeça encostada no peito e um buraco no ouvido se tornara desinteressante, eles seguiram caminho. Sophie perguntou a Enzo? O que você acha disso? Ele disse a ele, eu acho que ele é um covarde. Como assim um covarde? Alguém que tem medo de viver. Que não tem disposição para resolver os problemas. Sophie disse, é para quem já pegou uma cadeia, e foi para a guerra, até que você tem autoridade para falar... Enzo disse, mas eu não estou falando por causa disso. E sim porque um dos meus irmãos cometeu suicídio. Ela se calou. Não queria falar sobre aquilo. Então quando Enzo entrou com Sophie na rua em que as pessoas urinavam, e que estacionavam os carros, e onde eventualmente faziam sexo. Ele viu um vulto que se parecia com o da mãe de seu filho, aquela vagabunda que o abandonara, e que fora embora com um policial. Mas ela era um vulto em sua mente, alguém que ele sempre via, então volta e meia tomava um susto. Para onde ele olhasse, ele a via, era o cabelo parecido, a voz que o fazia se virar na rua para olhar para trás. Ou mesmo uma mulher nos braços de um cara. Ou o cheiro de um perfume que ele supunha que ela usara. Ele vivia vendo a mãe de seu filho em tudo que era lugar. Era um pesadelo constante que o acompanhava. Então quando ele viu aqueles cabelos pintados de louro chupando uma piroca num beco, ele se lembrou dela imediatamente. E sentiu aquela depressão repentina, com a qual desde que ela fora embora, ele aprendera a conviver. E agora com aquela cara de chapado, e assustado, ele caminhou por dentro da festa do gueto atrás do patrão. Enzo encontrou o patrão numa roda de bandidos. Eles sorriam. Enzo os interrompeu. O patrão perguntou a ele, mas quem é ela? Apontando para Sophie. Enzo respondeu, é uma amiga minha... Ele disse para aquele patrão sem rosto. Para o qual as pessoas evitavam encarar, mas com o qual elas voltam, e meia se viam obrigadas a cruzar o olhar. Tenebroso. Sinistro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVIII

As luzes. Os barracos. As pessoas andando de um lado para o outro. Viciados em crack se misturavam as outras pessoas no descampado de terra. E aos porcos. Existia um comércio que girava em torno dos viciados e que movimentava todo o gueto. Mas aquilo tudo só existia por causa da conivência de alguns policiais que eram pagos com suborno, e que sabiam aonde encontrar o esquema, mas que graças a deus não iam lá. Pois também tinha medo que alguém no meio daquela confusão puxasse um revólver, e resolvesse atirar, seria pior. Ainda mais quando estavam de moto. Mas o comércio da droga era livre. A feira. E Sophie pensava, não há outro jeito de se conseguir erva, então vamos nós. Tinha que ir aquele campo minado para fumar um. Logo assim que eles embicaram o carro em direção à tendinha a qual Enzo apontava e que alguns homens se espremiam para entrar num minúsculo banheiro, para urinar, numa rua que estava toda suja, mas que assim mandava o protocolo... Eles desceram do carro. Enzo pôs a mochila nas costas e disse a Sophie, fica tranquila. Sinta-se em casa. A área é nossa. Das caixas de som, estouravam um rap, num volume altíssimo. Bandidos circulavam armados como soldados em quartéis. Exibiam suas armas. Roupas. Cordões. Relógios. Bonés. Telefones. Drogas. Armamento. Amizades. Mulheres. Tudo que desse a eles algum status, e que os colocasse dentro de um conjunto de valores que os levasse a ser algo, não com as coisas, mas a partir delas, pois eles pareciam se legitimar a partir do que tinham. Mesmo que fosse um poder irrisório, ou um castelo de areia que a qualquer momento poderia desabar. Diferentes destas construções antigas que parecem lego que se encaixam uns nos outros. Com agruras infalíveis. Assim como pequenos passarinhos que constroem seus ninhos feitos de uma engenharia complexa, e provavelmente impossível para as mãos humanas. Logo que entraram viram uma aglomeração próxima a um poste. Numa rua com iluminação precária. Alguém estava encostado. Quando eles se intrometeram no meio da roda, para ver o que havia acontecido, deram de cara com uma cena chocante. Chocante para quem? Enzo perguntou. O que foi? O cara disse, ele se matou com um tiro no ouvido. Enzo tinha um caso de suicídio na família, e uma dúzia na guerra. Então para ele aquilo fora indiferente. Ele, por exemplo, se perguntava se no mundo todo, não morriam por dia, mais pessoas que cometiam suicídio, do que pessoas assassinadas. Então para ele aquilo era só uma maneira covarde de se morrer, assim como desertar no meio de uma guerra, ou negar fogo no gueto quando a polícia viesse. Ou delatar os amigos. Depois que seu irmão cometeu o suicídio, incrivelmente ele passou a considerar que qualquer pessoa poderia fazer o mesmo, em várias situações diferentes, embora tenha visto aquilo diversas vezes, inclusive na cadeia. Ele passou a perceber que aquela atitude estava mais entranhada na sociedade do que ele imaginava, pois assim que o seu irmão morreu. Ele passou a contar os números de suicídios de que ouvira falar, que tivera notícias, e na verdade eles só faziam aumentar. Então depois de seu irmão ter morrido daquela forma. Por mais que aquela fosse uma das maneiras mais escrotas de se morrer, e que mais doessem na alma e no espírito daqueles que ficavam.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVII

Mas pelo pouco que ela havia visto, Enzo quebrara o pé de uma mesa, e partira para cima do senhor com cara de japonês, exigindo a ele que esvaziasse o caixa. Foi o quê o velho fez, mesmo assim Enzo deu lhe com o pé da cadeira em sua perna. O quê fez o velho se curvar de dor. Enzo ouviu como se um osso fosse quebrado, fraturado. Sophie ligou o carro, e abriu a porta do motorista para ele. Ela perguntou a Enzo passando o baseado para ele, o quê você fez? Ele disse, eu roubei aquele velho filho da puta para que a gente pudesse comer um hambúrguer, e tomar um refrigerante num lugar decente. Ele se referia como lugar decente aquela rede de lanchonetes famosa no mundo todo. Aí ele ganhou uma batata frita, e depois pediu um sundae. Depois que eles comeram, ele foi até o aparelho que tocava música. E colocou uma música daquela banda que era considerada a maior banda da história do mundo. A maior banda de rock. Eles saíram. Ele disse a ela, ainda quer ir ao gueto? Ela disse, sim. Ele disse a ela, e digamos que eu não seja uma boa companhia. Se eu achasse isso já tinha caído fora. Sophie disse na lata. O velho me disse que a câmera estava me filmando. Eu perguntei a ele, mas e daí? Por quê? Eu estou mais bonito? Era a eterna certeza de impunidade. E a loucura de entrar numa escola atirando. O carro de um bêbado maluco em sua direção. Alguém da sua família que pode ser estuprado por um policial da pior espécie, como disse Sophie. Ou ser filmada trocando de roupa por algum tarado. Ou ser filmado no ato sexual por algum tarado desocupado. E depois de alguns minutos quase que ao vivo o seu ato sexual para o mundo inteiro. O mundo inteiro vendo você foder. Enquanto você decide se vai se matar ou não. Pois sabe que a partir de agora todo mundo que olhar para a sua cara vai se lembrar disso. Você tem que encontrar alguma motivação para que se mantenha viva. Ou de um policial que está sendo filmado por uma câmera instalada em sua própria viatura, ou arrastar alguém até a mala de um carro. Ou quem sabe ser filmado pouco antes de cometer um assassinato, ou aproveitar a câmera para ser filmado roubando um cordão, ou quem sabe terminando de matar de executar alguém, e depois aparecer sorrindo. Era com esse tipo de coisa que todo mundo naquele lugar maluco, naquela cidade maluca, tinha que lidar... Com aquela pobreza de espírito e aquele egotismo que só faziam arrastar todo mundo pro mesmo buraco, onde os ricos eram uns imbecis que não investiam nos pobres, e os pobres eram uns idiotas que não acreditavam em si próprios, então ficavam as ordens desses ricos imbecis, e que ao invés de lucrar, perdiam com toda desgraça do país, e do mundo... O mais bizarro de tudo era que os pobres pensavam igual aos ricos. Sophie perguntou a Enzo: porque você não consegue deixar de ser bandido. Ele diz, não consigo encarar esse mercado de trabalho. Sophie disse, mas e se você estudasse? Ele diz, eu não gostaria de ter uma gravata me sufocando. Mas hoje eu prometi a mim mesmo que eu vou entregar essa cabeça, e cair fora dessa vida de crime, hoje é a minha despedida... É algo que já está decidido. Quando eles viraram na primeira rua do gueto, que ficava perto de um valão. Por ali passavam uma porção de viciados. Já conseguia se ouvir o som alto.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVI

Enzo diz, catando a maconha do chão, está liberado... Ali devia ter no mínimo uma de cinquenta. Ele senta no carro, e joga a maconha para Sophie, ela diz a Enzo, cara, se você soubesse a vontade que eu estava de fumar um baseado... E começa a desfazer a maconha com as mãos e a tirar as sementes. Sophie diz, está verdinha sente o cheiro... Enzo diz dirigindo. O cheiro está bom, hein Sophie... Devia ser a primeira vez que ele a tratava pelo nome. Pelo menos era o que ele havia pensado. Eles começaram a fumar o baseado... O rapaz foi embora pensando que há essa hora, era para a menina que estava estar recriminando o rastafári pelo que ele havia feito. Mas se ele realmente tivesse prestado atenção ao que Enzo havia dito, ele teria percebido que a reação de Sophie havia sido completamente indiferente. Como alguém que tivesse uma depressão que o deixasse prostrado, e sem reação diante do oficial de justiça com a ordem de despejo, assistindo na mais completa paz todos os seus pertences jogados no meio da rua pelo governo que suspostamente era seu empregado. Destarte, ela tivesse na verdade sentindo enfado, como se aquela cena lhe fosse algo bastante familiar. Ela devia usar a mesma frieza que usava para virar braços em hospitais públicos. A mesma frieza que os professores usavam com as crianças de escolas públicas, quando faziam greve ou tinham que se deter diante de algum retardado mental que não conseguia aprender. A mesma frieza que bandidos, advogados, e deveriam ter em suas profissões. Assim como se existisse um político honesto, que não fosse um ET, ele sofreria. Enzo disse, estou com fome. E Sophie disse, mas já? Nós acabamos de comer. Enzo disse, estou falando de comida de verdade. E Sophie perguntou a ele, forçando um sorriso, no mínimo envolvente. Um sorriso de dentões branquíssimos. Não castigados e amarelecidos pelo café, e pelos cigarros, assim como os de Enzo eram, se é que ela tomava café e fumava cigarros. O que não parecia ser o caso. Sophie perguntou a Enzo, porque você começou a fumar? Para fazer pose, ele respondeu, porque todo mundo que eu andava naquela época fumava... Depois eu passei a gostar. Enzo encostou o carro. Ele saiu do carro, enquanto Sophie dava goma no baseado, e tossia... Enzo seguia em direção ao boteco que existia em frente... Enzo entrou no boteco. Puxou o revólver. Sophie conseguia perceber parte do que acontecia lá dentro, mas não conseguia precisar toda a história. Toda a ação. Se tivesse que testemunhar, sela fosse chamada para depor...  Assim como aquelas testemunhas imprestáveis que só fazem retardar o trabalho dos outros. Sophie se lembrou de um fora da lei, um estuprador, que o seu retrato falado não era em nada parecido com a sua estampa verdadeira. Sophie pensou em quantos inocentes apodreciam na prisão. Em quantas bruxas eram queimadas nas fogueiras injustamente todos os dias por causa de alguma fofoca mentirosa. Quantos bodes expiatórios haviam sido mortos. Chutados. Pisoteados. Linchados até a morte. Para que nós tivéssemos alguma satisfação ao saber que alguém estava pagando por existir um monstro que nós mesmos havíamos criado, era simples assim. Ponto. E da porcaria do estado democrático de direito... Assim como a democracia que só existia em alguns casos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XV

Ou como não mijar numa rua em que o prefeito não coloca um banheiro. Ou pagar uma propina num estabelecimento público que é bancado com o seu dinheiro. Mas ninguém percebia isso, e achava que contravenção era só droga, maconha, e que o álcool, assim como os remédios controlados, era saúde. Assim pensava a maioria das pessoas, e era mais provável que elas comparassem a maconha ao cigarro, e ao crack, mas ele que tinha irmão acidentado, suicida, assassinado, alcóolatra, todos eles tendo como característica o fato de serem negros, e pobres, sabia muito bem diferençar as coisas. Aos poucos Enzo foi desistindo de conseguir algum trabalho ilegal, porém honesto. Como por exemplo, trabalhar como ambulante. Numa barraca de feira. De chapa, descarregando coisas de caminhões. Ou como flanelinha vigiando os carros. Já que não dava para sobreviver com o dinheiro que ganhava por terem fodido com sua cabeça na guerra, não dava para sustentar a casa... Não conseguia ouvir o seu filho dizendo. Eu quero pão, papai... Se ele pudesse trocar aqueles anos da guerra, e de prisão pela morte... Mas não podia morrer nem ser preso novamente, pois agora existia o seu filho. Ele trocaria. Enzo não tinha nenhuma dúvida disso. Para pestanejar a uma proposta dessas teria que ser alguém anormal. Ele lembrou-se do amigo dizendo, cara, vai devagar... Você vai passar mal... Você acende um baseado atrás do outro. Enzo perguntou para o amigo, você acha que isso é sequela da guerra? Ou da prisão? O amigo disse, não. Respondeu, apenas. Eu não quis dizer isso, eu quis dizer que tem mais maconha aqui. Não precisa se preocupar, sacou? A maconha não vai acabar não! Quando Enzo viu o cara na calçada ele fez sinal para que Sophie encostasse o carro. Puxou o revólver. Foi abrindo a porta, e pulando com o carro em movimento... Ele mostrou exatamente a mesma carteira que puxou para os policiais. E jogou o cara com um estilo que era uma mistura de hippie moderno, e roqueiro antigo, contra a parede. O cara disse a Enzo. Qual é cara, qual é o problema? Cadê o baseado... O quê foi cara! Você não é policial... Você não tem cara de polícia! E polícia tem cara, seu veado! Ele aponta a pistola para o cara que diz, o único dinheiro que eu tenho é esse... O cara amassa as duas notas que havia acabado de tirar da carteira para dar a Enzo. Que diz entredentes, eu posso estourar os teus miolos, seu filho da puta! Cadê a porra da maconha? Eu sei que você está com a porra da maconha! Cara, esse é o único dinheiro que eu tenho... Enzo deixa o cara falando sozinho. Vai até o carro. Tudo isso é assistido por uma Sophie boquiaberta. Enzo pega a mochila que está na poltrona do carona, joga pela janela. Leva a mochila até o rapaz, com olhos brilhantes como diamantes. Tira a cabeça de dentro da bolsa, e olha para o pastiche. Patife. E pergunta pausadamente, enquanto o outro termina de abrir a boca demonstrando todo o seu espanto. Hei cara, você quer ficar igual a ele?! Se você quiser... É só me dizer... Enzo exibe a cabeça como se ela fosse uma granada da qual a qualquer momento ele pudesse puxar o pino. Ou um revólver velho do velho oeste do qual pudesse puxar o gatilho. O rapaz enfia as mãos dentro das calças, tremendo. E arremessa uma trouxinha de maconha para fora.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIV

Ele ficou pensando no chão, talvez escrevesse um livro ou tivesse um filho quando saísse da prisão, ou fosse embora da guerra, mas faria alguma coisa. Quem sabe seguir outra profissão como sonhava. Ele sonhava um dia poder ir a um cinema com uma garota. Assistir a um filme qualquer. Sentar numa poltrona acolchoada. Comer pipoca e tomar aquele lindo líquido preto e adocicado que ninguém sabe como é feito. Fazer algo que as pessoas normais podem fazer... Ao invés de ficar o tempo todo escondido nos guetos da vida. Era isso que ele sonhava. Ele não falava nada. Os amigos sonhavam em sair daquele lugar miserável, e sombrio, para matar mais gente. Se vingar em cima de mais gente. Ele, não. Ele queria respirar o ar da noite. O ar da cidade. Urbano. Dos prédios. O espaço vazio, na rua, que mesmo poluído exalava liberdade... Se ele soubesse que a prisão era daquele jeito... Mas isso é o quê todo mundo diz quando chega lá dentro, todo mundo diz que poderia ter ficado na praia, fumando maconha, sem fazer nada o dia inteiro, mas que acabou caindo nas garras do capeta. Sendo abocanhado pela ambição, amordaçado pelo medo, ou pelo tesão por uma mulher. Ou quem sabe pelos três juntos. Ao invés de andar por aí arrumando problemas. Enzo voltou da guerra prometendo largar o crime. E saiu da prisão com a mesma promessa. Em nenhuma das duas ocasiões ele conseguira cumprir com o prometido. Não que ele não pudesse mudar aquela altura do campeonato, todo mundo podia mudar sua própria vida quando quisesse, nunca era tarde... Ele teria mais chances... As coisas chegaram aquele estado por acaso. E venhamos, e convenhamos, ele sempre fizera parte do crime, desde criança, o próprio pai era bandido, e havia passado um tempo na colônia penal. Mas ver o seu filho chorando de fome. Dizendo: papai, eu quero pão... Enzo começou a pegar dinheiro emprestado na boca de fumo para pagar o aluguel, comprar botijão de gás, e quando foi ver estava atrelado aquele mundo novamente. Começou deixando que escondessem as armas e as drogas na hora da fuga, para poder pagar aquele dinheiro que eles o emprestaram, se eles soubessem o quanto estavam fora da lei, agradeceriam a ele, por simplesmente deixar que eles ficassem naquele lugar. Como morador. Pois dar um telefonema anônimo era a coisa mais fácil do mundo. Se ele não fazia isso era porque desde criança fora criado no gueto, e sabia muito bem respeitar as coisas dos outros. Cada um com o seu problema. Era o que diziam. Tudo foi a partir da agiotagem. Assim como os homens sanduíches que andavam na calçada dizendo que vendiam, e comprovam ouro. Tudo aquilo era contravenção. Assim como os jogos ilegais. Uns mais, outros menos, assim como a pirataria, todo mundo de uma forma ou de outra acabava burlando alguma lei. Ou a moral, ou a ética. Vendendo cigarro. Vendendo bebida. Comprando roupas falsificadas, e contrabandeadas. Ao mesmo tempo todo mundo pagava imposto. E ao mesmo tem que todo mundo pagava imposto de uma forma de ou de outra, alguém pagava propina. Passava a frente numa fila. Negava um bom dia. Um copo de água. Mesmo que por timidez, e existiam as leis que eram idiotas, e que cumpri-las, era como ser contra maconha, e fumar cigarro, sacou?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIII

Na cadeia ele vivia com medo de ser atocaiado na cama de madrugada. Mas fingia não sentir medo. Não falava demais. Não via demais. Optou por ter a visão e a audição limitadas. Não atrasava ninguém. Tinha paciência. Estava sempre na sua. Sendo assim os outros presos o respeitavam. Enzo não queria se comprometer com os assuntos dos outros, ele não queria ouvir o que eles tinham a dizer, ele não queria ouvir o que podia ser considerado uma confissão de próprio punho. Alguns ouviam, e na sede de diminuir a própria pena, abriam o bico, delatavam os outros, falavam demais, davam com a língua nos dentes, e arrumavam inimigos para o resto da vida. Outros se empolgavam ao contar as suas peripécias. Por mais interessantes que fosse o quê qualquer um deles tenha feito, Enzo não se preocupava com isso. Preferia o silêncio. Do que exaltar ou contestar seus atos. Ele é que não ia ficar batendo palma para maluco dançar na esquina. Quando alguns deles cismavam de cantar de galo com ele, ele partia a cara do sujeito ao meio, já que fingia ser um cara durão, ter colhões, e todo ódio do mundo, sendo capaz de já ter puxado uma faca, e um vergalhão... Enzo vivia de dar sugestão nos outros. Ele gritava. Dava a primeira porrada. Quebrava prato na parede. Aí o cara tinha que aguentar, e levar porrada até ver estrelas. Ou fugir aos pinotes. Engraçado que no gueto não era tão rígido quanto na cadeia, no gueto, se você quisesse fingir que era bandido podia fingir. Bastava que subisse numa moto, fizesse cara feia, e cruzasse uma arma nas costas. Talvez aos olhos dos outros... Enzo era respeitado por ter uma guerra nas costas... Acreditarem que tinham peito de aço, e que sendo assim talvez não fossem morrer, e acreditavam que ficariam presos com os mesmos caras com os quais se andava no gueto. Ou dos quais se ouvia falar. Mas chegando lá era diferente, porque a questão não era com quem estar preso. E sim, estar preso. Quem nunca havia sido preso, não podia conhecer todo o valor da liberdade... No gueto com uma arma na mão, todos os dias você espera a polícia chegar... Mas como eles não vieram logo no primeiro dia, você logo acha que é fácil e que eles nunca virão, mas quando eles chegam de verdade, é que você passa a conhecer a cadeia, o que é estar preso. Quando e você está na delegacia já sente isso. Não poder se movimentar é horrível, ter as algemas nos punhos, e a cara virada para a parede. Nenhum dos relatos mais vívidos que você pode ouvir no gueto, entre um baseado e outro, são iguais estar na cadeia de verdade... Um pai estrilou quando viu um cara falando do lugar onde o filho estava que aquilo lá não era vida pra ninguém, não... Da mesma forma que alguém saudável, não podia imaginar como era estar doente, se nunca havia ficado doente antes... Daquela vez ele já estava ficando sem ar. Aquele cara em cima de Enzo o estava matando, quando ele, vendo o mundo de cabeça pra baixo, viu o patrão, agachado, ele ia morrer queimado no fogo daquele inferno. No último arzinho que existia. Ele ouviu o patrão dizendo... Eu quero ver até aonde vai à palhaçada de vocês dois, e sentiu aquele braço que o esganava deixar seu pescoço milagrosamente, como se fosse uma cobra que houvesse desistido de dar o bote. E ainda no chão ele agradeceu a deus por sua vida. Não ia morrer no meio daquele inferno sem ter feito nada de interessante na vida.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XII

Ele pensava que agora era hora de fingir para Sophie, assim como ele fingira para outros homens. Ele pensava que diante dos homens mais perigosos, você teria que deixar de sentir medo. Apenas fingir que não tinha medo. Assim como podia manipular a sua vontade, para aquilo que você mais queria, ou melhor, pelo que ele aprendera na guerra, e na cadeia. Que você soubesse escolher o que era certo fazer com o que você tinha. Nas condições em que você vivia, no tempo, no espaço, e com as possibilidades que existiam... A vida fora da cadeia não importava, mais. O que ele iria fazer quando saísse da cadeia, ele ia pensar nisto quando saísse da cadeia. Agora ele teria que viver o dia a dia da cadeia, da melhor maneira, dentro do possível. Ele lamentava não ter aprendido aquilo longe das grades. E ter precisado delas para que pudesse aprender de uma vez. Quando Enzo saísse da cadeia, depois de todos aqueles anos, se o mundo ainda existisse, e ele não morresse lá dentro numa guerra nuclear, sem saber o que aconteceria aqui fora, às vezes ele pensava que só não desejava morrer na cadeia. E que se tivesse que morrer dentro dela que pelo menos morresse com a alma em paz, e não assassinado. Ele pensaria no que com sua liberdade, na cadeia os sonhos não podiam substituir a realidade, pois eles sempre encontravam os muros, grades, as cercas, e os arames farpados. Nem divagação, nem ilusões, elas existiam, mas não podiam contaminar todo seu pensamento, você tinha duas opções na cadeia. Aceitar. Ou aceitar. Então você tinha que viver de maneira objetiva. Se quisesse continuar vivo. Usar o lado prático e racional. E não ser guiado por nenhum tipo de emoção que pudesse contaminar o seu pensamento, como pena e ódio. Igual daquela vez em que Enzo no auge de sua juventude se vira arrastado para a guerra. Assim como um dia quando criança, acordara com a sua mãe gritando, e pedindo a ele que acordasse, e corresse, pois a casa estava pegando fogo. É como estar doente. Como daquela vez que ele fora internado num hospital público do centro da cidade do campo que um dia pertencera à família real. Ele chegou ao hospital para uma consulta, e o médico disse que teria que ficar por lá. Assim como de repente ele se vira embarcado para uma guerra que ele não provocara. Por mais adolescente que essa rebeldia pudesse parecer. É como estar na guerra. É como ser pobre, e preto. É como viver, pena que alguns tenham que passar por tudo isso, como eu passei para aprender já tão tarde. Hoje eu teria feito tudo certo, Enzo pensava. Teria feito tudo que me pediram. Teria sentado lá, calado a boca, e copiado todo tipo de porcaria que eles passavam no quadro, teria passado para o lado deles. Antes que eles me declarassem como inimigo. Pois se você se tornar inimigo deles, saiba que está frito. Eles vão de jogar você no ostracismo. O problema é que eles, assim como o governo, são nós, e assim, como deus, ou sociedade, então na verdade fica muito difícil saber quem é o verdadeiro culpado dessa bandalheira toda. Mas sejam eles lá quem ou o quê eles sejam, e isso inclui você, voluntária... Ou involuntariamente, eles vão te excluir, e te tratar como um inútil, pois é assim que as coisas são, e tudo indica que continuarão assim por um bom tempo... E sim fingir que ele não existia. Disfarça-lo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XI

Ele disse que por ele nem existiriam nem armas, mas que para que isso acontecesse tolos como aquele, nessa hora ele balançou a mochila com a cabeça da vítima. Não poderiam existir. Sophie perguntou a Enzo, se ele acreditava que se podia chegar à paz através da guerra. Ele disse que não. Que não poderia acreditar nisso. Mas que era assim que se agia diante da violência do outro. Sophie perguntou a Enzo se ele não pensava que violência gerava violência. Ele disse que sim. E que bastava observar o ódio de quem havia acabado de sair da prisão, alguns, não todos. Mas ele disse, eu matei esse cara, porque senão ele ia matar mais gente inocente. O meu trabalho é igual ao do seu pai. Ela se calou. Você sabia que ele era um policial. Ela diz, sim, eu sabia, eu sabia que ele era um policial igual ao meu pai. Só que bem diferente do meu pai, ele era um asqueroso. E bem diferente do meu pai, ele era um assassino. Não um assassino assim como você... Digamos... tipo, vingador. Ele diz, eu acabo com a vida de quem merece. Ele se meteu com garotinhas. O meu pai não é igual a você, e muito menos igual a ele, Sophie disse com o dedo em riste. E se você quiser me matar, me mate agora, pois eu não vou mudar uma vírgula do que eu estou dizendo. Por mais clichê que isto seja. Ele olha para os carros, e diz a ela, um dia vão ter que acabar com essa porção de carros, na sociedade do futuro não vai existir nada disso, engarrafamentos. Ninguém sairá tão apressado. Ninguém vai trabalhar com o que não gosta. Ninguém vai passar o dia inteiro num lugar que não gosta, fazendo o que não quer. As escolas serão abertas, e irão educar as pessoas para a vida. As cidades serão planejadas melhor, e o nosso contato com a natureza será mais intenso. E mais harmonioso, e todas as cidades serão projetadas de maneira a interagir completamente com a natureza, serão extintas as fronteiras, e as diferenças, ela diz, e papai Noel vai aparecer todo natal para nos visitar... E deus vai proteger as criancinhas. Qual é cara, acorda! Nada disso vai acontecer. Qualquer um diz esse bando de coisas bonitas. Não vai acontecer nada disso, porque a maioria não vai fazer nada para que isso aconteça. Falou? Nem você está fazendo nada para que isso aconteça. O que mais impressionou Enzo foi o tom da voz de Sophie. O mesmo tom que ouvira na cadeia com os homens frios, com os quais ele fora obrigado a conviver. As piores criaturas da face da terra. Capazes de esmagar um ser humano igual se esmagam uma formiga, ou uma barata. E outros que haviam entrado no crime enganado, como se ele fosse algum parque temático famoso, para depois descobrir que fora enganado, e que havia pegado o caminho errado, e o pior caminho de todos, que é ter o pior inimigo contra você, que é o governo. Pois o governo pode tudo, ele entra na sua casa e estupra a sua família se ele quiser e fica por isso mesmo. Enzo tinha que fingir que tudo bem. Que todos os presos estavam na mesma. Na cadeia ele fingia que era uma coisa que ele não era, a sua vida é toda baseada em fingimentos. Se ele fosse tão homem assim, como ele fingira na guerra, onde apenas se preocupava em alcançar seus objetivos sem pensar, postura que passara a adotar em sua vida.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo X

A cadeia e a guerra são assim, e não é possível que o inferno seja pior. Aqui se faz. Aqui se paga. Lugar onde filho chora. E mãe não vê... A gente vive de teimoso. Porque se emociona com a porra de um pôr do sol no fim da tarde. Só por isso. Antes disso eu também havia experimentado enterrar um irmão, eu vivo num lugar em que o cara que matou seu irmão entra no mesmo bar que você para comprar cigarros, e você não pode fazer nada, porra. Todo mundo sabe que aqui não existe estado democrático de direito. E todo mundo sabe que ele matou seu irmão. Inclusive você. Sophie pergunta a Enzo: e o que aconteceu com o cara que matou seu irmão? Ele olha para frente. Ele apareceu morto. É como se agir de maneira diferente fosse contra as leis do lugar. Já o carro do meu outro irmão se chocou com um caminhão numa estrada. Outro morreu de tanto beber. E outro babaca cometeu suicídio. Mas não gosto de ficar falando dessas coisas. Então eu já estou acostumado. Não ligo, não. Pode ver que eu fico com essa cabeça aqui no colo, mas nem ligo. Porque eu sei que o que existia de ruim aqui neste corpo, não existe mais. Já saiu. Sophie pergunta a ele: você acredita na existência da alma? Em vida após a morte? Essas coisas. Enzo diz que sim. Eu acredito. Ele acredita. Então ela pergunta a ele para onde ele acha que pode ter ido à alma daquele homem que ele matou. E quando ele responde a ela para o inferno, ela pergunta se ele acha que deus também vá manda-lo para o inferno, já que ele matou alguém. Enzo diz que fez justiça com as próprias mãos. E que pelo menos deus é a favor da justiça. Sophie pensa que Enzo mantém muito de seu lado animal. Mas ela não comenta nada com ele. Ele diz que não se importa. Pois deus está vendo que aquele que ele acabou de matar abusava de meninas mais novas. Então ela pergunta a Enzo se ele acha que para deus existe diferença de um crime para o outro. Ele diz que existe, sim. Ele diz que já matou outros homens, como se não precisasse ter matado esse para se apoiar no que dizia. E que sim. Deus sabia que o outro era um safado que abusava de menores. Ela perguntou a ele, se ele considerava a morte de uma criança, ou o estupro de uma mulher uma covardia, ele disse que sim. Que a criança não podia se defender. E que no caso da mulher. Ninguém podia obrigar ninguém a fazer o que não quisesse. E indagado sobre a morte de um velho, ele disse que sim, que também era covardia, pois um velho não tinha forças para se defender. Ela perguntou a ele se ele iria parar de matar. Ele disse que sim. Que aquilo não era vida para ele. E que logo assim que ele arrumasse um bom dinheiro. Ele iria pegar o seu filho, e cuidar de arrumar uma boa mulher, que fosse companheira, e o ajudasse a educar seu filho melhor do que aquela vadia da mãe dele. Na verdade aquela morte era uma questão de honra. Sophie perguntou a ele sobre os soldados que ele havia matado na guerra. Ele disse: na guerra, você, apenas, obedece. Mata para se manter vivo. E não que eu odeie o outro. Aquele que eu mato. Um babaca pode até pensar assim. Mas um soldado consciente, normalmente odeia quem o enviou para a guerra, mais do que a todo mundo. Na guerra você vai sem querer. Não importam os motivos. E num lugar onde o serviço militar é obrigatório, isso é um inferno, você é obrigado a servir a porcaria do seu país, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IX

Você percebe que quem está morto é você, que vai ficar preso lá dentro. Imagino os sofrimentos dos homens que são presos injustamente, deus que me perdoe, mas são uns poucos seres que são expostos ao pior tipo de sofrimento, que é a vingança da prisão, sem ter feito absolutamente nada. Era nisso que eu pensava quando eu estava preso. Na verdade eu sentia mais pena deles, do que de mim, que eu sabia que eu havia me jogado lá dentro. É uma insanidade que teria que ser evitada a qualquer custo. Se o ser humano deixasse o seu lado animal um pouco de lado quando necessário... Por causa da guerra surtei com o país, fiquei revoltado, fui roubar... Aí eles me pegaram, num dia que eu não ia sair para roubar, mas que o meu filho precisava comer. Nossa você nem me disse que tinha um filho... Enzo diz, eu tenho, olha aqui a foto dele... Ele disse a ela, eu tenho um filho. Acende a luz do salão de novo. Olha a foto dele. Enzo mostra a foto na carteira. Um dia eu vou largar essa vida que eu levo por causa dele... Teve uma cantora que fez isso, largou tudo para cuidar do filho. E uma atriz que largou tudo porque tinha síndrome do pânico. Uma atriz até famosa... E como é ficar preso? E ir a guerra? Os olhos de Enzo estavam vidrados, os de Sophie também. É como ir para o inferno. Imagina estar no inferno. É assim que é estar na guerra, é como estar preso, e estar preso é a mesma coisa que estar na guerra, não sei como acontece com os outros países, mas aqui a cadeia é assim. Todos os dias você tem que agradecer por ter visto o sol. Na guerra é assim também. Sophie pergunta a Enzo, e como é que você fez para sobreviver a toda essa loucura? Enzo diz. Da mesma forma que você faz para sobreviver à loucura do seu trabalho. Eu fui vivendo. Enzo pergunta a Sophie, e como você lida com os mortos no teu trabalho. Eu passo por essa lavagem cerebral pela qual todo mundo que trabalha com saúde e segurança é obrigado a passar. Porque senão acaba surtando. Ficando deprimida, ou alguma porra dessas. A cadeia é um pesadelo. Eu sempre fui pobre. No primeiro barraco em que morei, na primeira favela em que eu morei, tacaram fogo nela de madrugada, nos barracos de madeira, a gente estava dormindo. A gente morava numa invasão. Chão de terra, e barraco de madeira. Foi um incêndio criminoso, todo mundo sabe que foi um incêndio criminoso, isso vive acontecendo, mas eles não dão a notícia assim... Eles sempre dizem que vão investigar quais foram à causa do incêndio. Para eles deve ser tão vergonhoso admitir isso, como deve ser para uma família admitir que um suicida pusesse fogo as vestes. É tão vergonhoso para o governo, para o sistema, que somos nós, mesmos, quanto um parricídio. Ou aqueles suicídios que se dão como forma de protesto. Mas em nenhum momento aventaram a possibilidade de alguém ter provocado aquele incêndio. Eu tive que passar por dois infernos, pelo inferno do fogo, e pelo da água, que era na época das enchentes no verão, em que todos os anos nós perdíamos tudo, e tínhamos que reconstruir tudo de novo. Naquelas enchentes. E vizinhos nosso que moravam mais próximos ao barranco, morriam. Sabe tudo isto que estou contando aconteceu no antigo gueto do mercado, que não existe mais... De noite tacaram fogo em alguns barracos, eu ainda ouço o crepitar das chamas.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VIII

Não sei como ainda consigo me orientar nesse mundo de meu deus... Acho que é por ter vivido nas ruas, ser pobre e preto, ter ido para a guerra, e ter visto pessoas pisando em minas terrestres e voando ao meu lado. Tendo um dia pela frente, eu viveria até o final do dia, e estando atrás de trincheiras, e visto, valas cheias de corpos, acho que isso te faz nivelar as coisas sempre por baixo. Faz-te comparar tudo por baixo. Enzo pensou e depois disse, já tendo o policial distante, que nem figurava no retrovisor. Igual você, depois que passou a trabalhar no hospital. Eu tenho essa mesma sensação de que ainda estou vivo. Ainda me deixam respirar. Ainda me deixam existir. Só não sei até quando. Mas eu estivesse nesse hospital de guerra que você fala, nesse hospital de filmes de tevê, e já fiquei internado em hospitais como esse que você trabalha. Ela pergunta a ele, como é ficar preso? Você quer saber como é ficar no calabouço? Sinceramente, todo mundo tinha que fazer de tudo para não ir parar naquele lugar. É horrível, é uma coisa horrível, a solitária, ter que dar metade da comida azeda para os ratos, e comer a outra metade, é horrível... Ela pergunta, e para onde você foi primeiro... para a guerra ou para a prisão? Enzo diz, para a guerra, eu fui preso depois que voltei da guerra. Eu fiquei cinco anos na guerra. Cinco anos na prisão. E desde que me conheço como gente sou um preto do gueto, que precisa roubar para poder comer, roubar em todos os sentidos. Puxar o tapete dos outros antes que eles puxem o meu. É assim que nós pensamos. Sophie diz, acho que a gente não consegue perceber que somos apenas uma bactéria num corpo. Que não temos importância alguma. Na guerra é que você vê a falta de importância da vida para o mundo. E na prisão sabe, na prisão é onde você conhece o sofrimento. Na prisão você aprende a valorizar a liberdade, a vida, ou você aprende isso, ou você morre lá dentro. O teu espírito morre. Pois a prisão neste país é feita para isso. Para foder com a vida do sujeito. Prisão é pau no cu! Mas é como aquele cantor de rap disse, a prisão fazia parte do crescimento dele como homem, todos esses rapazes assim como eu, já foram presos, envolvidos com o crime, e suas mães eram empregadas domésticas. Ela diz, eu gosto mais de rock. Falo dos verdadeiros rappers, não dessa falsificação que existe por aí. Sophie pergunta a Enzo, mas você já havia ido à guerra, porque achava que a prisão fosse te ajudar em alguma coisa? Na verdade eu não achava isso, todos os meus amigos já haviam sido presos. Então eu achei que se eles podiam passar por aquilo eu também poderia. Eu havia passado pela guerra. Mas o problema da cadeia é que ela é igual à guerra, você vai pra lá pensando que é uma coisa, e por mais feio que pintem a guerra, quem já foi, chega lá é algo pior do que você podia imaginar. Isso aconteceu comigo quando fui preso. Por mais que eu tivesse encarado a guerra antes, percebi que a prisão era tão ruim quanto, talvez até pior. E que nenhum ódio, nenhuma frustração, merece que você vá parar naquele lugar. Talvez você até faça coisas para ir parar naquele lugar. Mas quando você chega lá. E sinceramente percebe que quem você matou já está morto. E provavelmente livre de qualquer sofrimento. Por mais que os seus parentes ainda sofram.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VII

Nem vem que não tem cara pálida! Enzo disse a Sophie, gente como o seu pai, matou ao meu pai, e matou meu irmão. Enzo disse: você fala como se conhecesse bem o assunto. Como se tivesse ficado presa. Ela pergunta: você já ficou preso? Ele responde, sim. Por quê? Você já ficou? Ela diz, não. Eu não. E sorri. Porque você ri de tudo? Ela diz, além de ser filha de policial, eu sou uma simples enfermeira. Eu queria ser presa por causa de política. Numa passeata... Queria ser arrastada. Aparecer na televisão. Virar um mártir de uma passeata, e ter o meu nome rodando na internet. Tentei isso durante todo o tempo em que estive na escola. Não deu certo. Nem jogado Malvina em carro de polícia. O máximo que consegui levar choque, cacetada e spray de pimenta na cara. E o pior é que mesmo filmado, não era nada em vista do que estava acontecendo naquela época. Havia coisa mais quente. Eu entendo de morte porque sou enfermeira num hospital que é um verdadeiro açougue. Vejo pessoas morrendo. Você sabia que a febre tem um cheiro diferente. Enzo fica olhando para a cara de Sophie. Tudo bem. Eu acredito que o seu pai seja policial. Então sendo assim ficaria um pouco mais difícil para que eu fosse presa, ou qualquer coisa do tipo, pois não trabalho com nenhuma contravenção. Ele diz, eu também não, quando eu estou em trabalhos temporários, trabalhando de pedreiro, eu deixo tudo isso pra lá, o meu negócio mesmo é a grana. Pra você ver. Eu quase não uso droga. A não ser os meus remédios, mesmo, que eu tenho que tomar. E que todo mundo pensa que é remédio de maluco, neste país as pessoas são muito atrasadas, elas não sabem que ter depressão, não é ser maluco, e que depressão não é doença de fresco, e nem de rico. Ela pergunta a ele, será que vão descobrir a cura para a depressão? Ele diz: pouco provável. Mas eu sou doido mesmo. Tenho esse cabelo. E tomo remédio. Vamos, acho que vai ser uma aventura andar com você, diz Sophie dando uma tapinha no ombro de Enzo. Quando Enzo disse a Sophie, não fique nervosa, aja como se nada estivesse acontecendo. Diminui a velocidade. Acende a luz do salão, por favor. Isso. Eles vão parar a gente. É só não gaguejar... O seu pai é polícia, eu sou o seu amigo da faculdade. Eu sou combatente veterano. Da primeira infantaria. O policial põe a palma da mão para baixo pedindo a ela que diminua a velocidade e pare. Enzo para. O policial chama Enzo que desce do carro. Enzo diz a ele, chefe, eu sou combatente, veterano da guerra, ele mostrou o documento. O policial perguntou: tudo certo com o documento do carro? Ele disse ao policial, tudo certo com o documento do carro, o pai dela também é policial... Ele aponta para o carro. Ele também é da casa... Aponta para o distintivo. O policial diz, não dá pra deixar o do café? Enzo diz, não. Eu realmente não tenho, e o café ultimamente está muito caro... Você há de concordar comigo no quanto o café está caro... Qualquer compra que se faz no supermercado leva todo o dinheiro da carteira. Eles vivem dizendo na tevê que a economia melhorou, melhorou pra quem? Eles pensam que eu me importo com aqueles gráficos que eles exibem nos jornais. Eu mal entendo aqueles gráficos! Não sei nem dizer os nomes das capitais desse país. Sou péssimo em geografia, na língua, em história, em matemática, em tudo!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VI

Porque um cara o pegou aqui... Num gueto próximo a tua casa, mas aí eles ligaram pra avisar a gente que ele estava em poder deles. Se fosse por mim eu teria picotado ele todinho no machado, que eu gosto de usar o machado, parte por parte, pedaço por pedaço. Ele morreu com um tiro na cabeça. Podia ter matado ele com mais requinte, deixa-lo no sol sofrendo, igual os romanos faziam antigamente, ele teria uma morte bonita. Mas essa morte que ele teve foi fácil. Mas esse tipo de cara quando cai no sistema, vira mocinha na cela, eles enfiam até cabo de vassoura no rabo dele, você sabia que nesse país quem manda na cadeia são os presos? Não tem esse negócio de carcereiro, não. Carcereiro é só o cara que vai levar as notícias ruins aos presos. Quando disse que ia levar a cabeça dele, eles não acreditaram, eles pensaram que eu ia até lá só para me certificar de que ele já estava morto. Mas aí eles disseram que não havia necessidade, pois eles iam mata-lo. Eu tinha certeza disso. Mas quando eu disse que eu ia até lá arrancar a cabeça dele, quando eu disse isso pelo telefone, eles pensaram que eu estava brincando. Então quando eu arrastei o corpo dele de dentro da vala para poder arrancar a cabeça dele... Durante todo esse discurso, Sophie se manteve imóvel olhando para Enzo, como se tivesse tomado uma droga poderosa que lhe desse essa catalepsia, e quando Enzo falava de seu morto, o balançava, ou seja, balançava a cabeça o que sobrara do inimigo. Ele disse, mas o tiro valeu a pena, aliás, você sabe que um tiro com endereço errado pode desencadear uma guerra mundial. Eles não acreditaram. Nem quando eu pedi um facão emprestado. Sophie disse a Enzo, você pode guardar essa coisa? Ele perguntou a ela? Você está com medo? Ela disse lógico que não... Eu tenho medo é que alguém veja isso, não quero ter que me aborrecer com meu pai. Sophie disse a Enzo, que se dane, eu conhecia esse babaca... Eu também não gostava dele. Enzo sente sinceridade em sua voz. Ele se metia com meninas muito novinhas. Ela diz. Ele percebe um brilho em seus olhos. Enzo diz a Sophie: você ainda quer ir lá comigo, ela diz, sim. Hoje é meu dia de fumar um baseado! O meu trabalho está uma merda. A minha vida está uma merda igual à vida de todo mundo. O tempo que se leva para chegar ao trabalho. O ar que se respira. Toda a poluição visual, e sonora... A sujeira das ruas. A miséria estampada na cara dos mendigos. A loucura tatuada nos rostos dos viciados em crack. Não é essa cabeça que vai acabar com o meu final de semana... Ele já está morto, mesmo... Diferente de mim que preciso viver. E de mais a mais, trabalho com gente morta o tempo todo. Com todos os tipos de mortos. Mortos vivos. E mortos de fato. Não vai voltar. Nós que estamos vivos é que temos que nos preocupar com a morte. Eles, não. A vida já era para ele. Eu sou enfermeira num hospital público. E não se esqueça de que o meu pai é um policial. E não pense que eu estou com medo de você por causa dessa segunda afirmativa. Porque eu sei que se você quiser me matar, você vai me matar. Então não faz diferença. E além do mais, prometi a mim mesma, que nunca imploraria por minha vida. Caso não estivesse errada. Então não vou implorar por minha vida, caso você resolva que o simples fato, de eu ser filha de um policial, represente o que há de pior na polícia, e queira se vingar disso em cima de mim. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo V

Ele que passara a pior época de sua vida num... Sabia muito bem disso, quem sentia ânsia de vômito, ou vomitava por causa de uma bebida mais forte, como uma porcaria de licor de menta qualquer, não podia beber a água barrenta da guerra, quem com um simples balançar de ônibus sentia o estômago embrulhar, quem não podia ver sangue, nem ver os corpos dos amigos metralhados, ou quem sabe ver a cara de um soldado momentos antes do seu corpo voar pelos ares, com toda diligência, as pessoas fazem um olhar triste pouco antes de morrer, os soldados movem o rosto para o lado. É como se virassem crianças. Tem mãe que se mata quando fica sabendo que o filho morreu assassinado na guerra. Mas se ela visse a expressão que todos eles fazem antes de levar um tiro, iria abrir uma cratera em seu coração. Segundos antes as pessoas sabem que vão morrer, mesmo quando não são avisadas. Igual àqueles gatos que se posicionam atrás da porta antes do dono chegar. Dos elefantes que se afastam para morrer. Ou dos macacos que se protegem com as mãos antes da pancada, e que se parecem conosco até no momento da morte. Eles têm a mesma expressão. Deve ser uma proteção a dor, como algumas pessoas que sofrem acidentes e acordam no hospital sem ter sentido dor. É igual à esperança de se encontrar com alguém depois da morte. Ou morrer dormindo feito um passarinho. Enzo assistiu Sophie colocar para fora o resto de suas tripas, e voltar caminhando em sua direção. Ela se sentou no carro. Ela devia ser o tipo que não aguentava o sol em cima do corpo, nem pôr os pés na areia da praia. Ele perguntou a ela, meio que brincando, meio que sério, até porque quando dissesse quem era ele na televisão ela logo o reconheceria, e o delataria por qualquer recompensa. Então era bom saber se existia alguma possibilidade dela desistir dessa idiotice. Mas para descobrir se ela iria fazer realmente, isso, Enzo não precisava de nada mais, nada menos, que conversar com ela olho no olho. Sophie se sentou no carro, e fez uma expressão de quem havia passado. E no seu olhar não havia nada que denotasse medo, aquilo era só parte da aventura, mas, uma mulher histérica dela teria gritado feito uma vaca. Ia abrir a porta, e dar no pé correndo no meio dos carros. Ele teria que dar um tiro nela antes que ela alcançasse o outro lado da pista, e conseguisse fugir, ou fosse atropelada por um automóvel. Na esperança de contar o quê viu. Alguém que se chocasse com uma cabeça cortada, logo ia querer fugir. Mesmo porque Enzo era capaz de identificar o milímetro esgar de nojo no canto da boca de muito bandido considerado excessivamente frio em suas ações... Como aqueles que mereciam uma medalha por roubar um banco desarmado e se fazendo passar por funcionário do banco. Ele ganhava todo mundo na expressão. Teriam que ser aproveitados pelo governo. Assim como eram aproveitados os hackers. De uma dondoca então... Nem se fala! Era como se eles se perguntassem. Cara, porque você fez isso? Ele disse, ele havia comido a mulher do patrão. Ele já havia aprontado pra cima de mim, também... Então quando telefonaram lá pra área, dizendo que haviam pegado, e matado ele aqui, eu prometi ao patrão que levaria a cabeça dele.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IV

Ele estava com a mochila em seu colo, quase que eu me esqueço da mochila... Ela diz, o quê é que tem aí dentro? Depois que ele pôs a mochila nas pernas. Ele diz: algumas ferramentas de trabalho. Ele disse depois que guardou a arma na cintura. Enzo hesitou um pouco. E pensando que se Sophie havia aceitado a historia da arma, ela era suficientemente loura, e louca, para saber o quê havia dentro daquela mochila sem se pasmar, e não achar nada daquilo anormal. Era como se ele confiasse nela, logo de primeira, logo de cara. Embora os amigos sempre o aconselhassem a nunca confiar em mulher alguma, de maneira alguma, sobre hipótese alguma, ainda mais se tratando de negócios, de coisas relacionadas a dinheiro, tretas, cambalachos. Enzo sabia que mulheres traídas, assim como nações, levam homens à primeira página do jornal. Com gravações de escutas telefônicas de conversas não autorizadas pela justiça, que mais parecem confissões. Algumas chegam às vias, de fato, ao picotar o marido e passear com os restos dele dentro de uma mala por aí. Outras esperam o sujeito dormir para só então tacar fogo nele. Ou jogar água fervendo em seus ouvidos. Outras preferem algo ainda mais humilhante, como por exemplo, uma traição silenciosa. Nada pior do que esse gosto de ferro que fica na boca depois da vingança. De bílis. Esse gosto de merda de criança. De cheiro de vômito. Como Enzo sentia na cadeia, naquele lugar que cheirava a concreto, ferro, esterco, e secreções de todos os tipos. Nasais, orais e anais. Era horrível quando algum diretor tinha a infeliz ideia de jogar um produto qualquer para desinfetar todo o pavilhão com creolina. O cheiro se espalhava pela masmorra, e ficava difícil respirar. Como é difícil respirar nesses prédios fechados. Num lugar em que você sonha respirar o ar da rua. Da lua. Não poder entranhar esse ar nas narinas, e sim o cheiro de algum produto químico de quinta categoria. Não tem nem o cheiro comum da cadeia que já é fedorento. Mas que ele já estava acostumado. Igual o cheiro dos mortos na guerra. Você se acostuma com o cheiro deles, mesmo que tenha que se fingir de morto, numa vala, junto à centena deles. Não é difícil se sentir assim, mesmo distante dos campos de batalhas. Das linhas de frente. Sabe como é na guerra? É igual na vida real. Alguém sempre quer ter ferrar. Tem sempre alguém atrás de você, querendo puxar o seu tapete. E você está sempre fugindo, e tentando puxar o tapete de alguém que está na sua frente. Pois é isso que mantém as coisas desequilibradas no mundo. Se os seres humanos simplesmente se entendessem, e parassem de querer provar o quanto podem ser demoníacos, isto aqui seria o paraíso. Enzo pensa. Então logo assim que ela terminou a pergunta, ele abriu o zíper da mochila. Baixou parte dela, e surgiu o saco em formato de cabeça. Ou cobrindo a cabeça. Meu deus... Era uma cabeça... Mesmo... De verdade! Era a cabeça de um homem nos seus vinte e poucos anos. Sophie subiu com o carro numa calçada, batendo com a roda no meio fio. E correu. Indo vomitar numa parede. Enzo pensou que talvez Sophie não aguentasse ficar presa num manicômio judiciário nem por uma semana.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo III

Ela perguntou assim, me desculpe, mas eu não sei o seu nome... Ele disse, o meu nome é Enzo. Ela disse mordendo o hambúrguer. Nossa... O meu é Sophie, eu nem me apresentei... Quando Enzo viu um pedaço de alface grudar nos dentes brancos, e lindos da Sophie, ele sentiu como se tivesse levado um soco no peito... Mas não era um soco que causasse dor. Era apenas uma boa pressão. Um baque harmonioso. Ela disse, falta de educação, né? E perguntou a ele, você está olhando para a minha tatuagem? Ele disse, sim, estou. Ela disse: você fuma? Ele disse, acho que sim. Enzo perguntou a ela: e você, só fuma? Ela disse, só. Graças a deus. Ele disse, eu já cheirei, e parei, graças a deus. Mas o mais difícil é parar de fumar cigarro, né? Ele mostrou o cigarro numa das mãos. Ela perguntou a ele, você tem erva? Ele disse, não. Eu não tenho erva. Ela disse você sabe onde comprar? Ele disse, sei. Ela disse, tem coragem de ir lá. Ele disse: coragem eu tenho, mas existe um probleminha. Ela perguntou qual problema. Ele respondeu. Eu estou armado. Eu passei a andar armado depois que vim da guerra. Ela pergunta, para que guerra você foi? Ele disse, era uma intervenção pacífica das nações desunidas num pequeno país do Oriente. Os olhos dela brilharam quando ele terminou a historia da guerra. Ela disse a ele, mas você tem coragem de ir comigo na boca de fumo? Ele diz, fale baixo para que as outras pessoas não fiquem abismadas... A droga ainda não é legalizada neste país. Ela diz, deixa-me ver a arma... Ele mostra a ela que diz: uau! Nunca vi uma arma tão grande! E dá uma risada que soa como uma pilhéria de quem não tem medo algum. É uma pistola preta. E velha. Enzo se enrola com o cinto de segurança. Quando cai uma camisinha de seu bolso. Ela põe a mão na boca, e sorri. Sophie diz: você leva camisinha até quando vai à esquina comprar um cachorro quente... Bom saber... Ele diz, não... Mas sabe como é, vai que surge alguma maluca? A gente nunca sabe. Alguma maluca que te convide para ir numa favela, numa noite chuvosa de sábado, numa boca de fumo, num lugar perigoso, armado, Ela diz a ele, você tem a sua carteira de reservista? Ele diz, tenho. Ela diz: então se vier algum policial você pode mostrar a sua carteira de reservista, e o documento da arma. Ele disse, posso sim, mostro. Eu faço isso, sim. E por que você foi para a reserva depois que voltou da guerra? Na verdade eu fui dado como inválido. Por isso ninguém pode saber que trabalho de pedreiro. Ela diz, não vou contar pra ninguém que você trabalha de pedreiro. Ela diz olhando o asfalto. E o que aconteceu na guerra? Ele diz, eu bati com a cabeça. Sophie decidiu que seria melhor não perguntar mais nada sobre o assunto. Então eles entraram no carro, e Sophie pegou a avenida principal que cruza a cidade, direto para o gueto que ele havia indicado um ponto de drogas conhecido, onde ela já havia ido a algumas festas com um amigo veado. A chuva batia no para-brisa igual acontece nos filmes. E passavam por baixo de viadutos, e passarelas. E aquela luz da noite amarelecida resvalava para dentro do carro. Aquela luz que aparece quando se tem a impressão que as lentes dos óculos ocultam alguma película da mesma cor. É só nisso que pensamos, quando vemos o carro avançar. Enzo diz a Sophie. Você vai até a boca de fumo, comigo... Você vai gostar de lá, lá tem uma pessoal tão legal... Você vai ver... Você vai gostar deles. Vai sim. Eu tenho certeza absoluta.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo II

Só porque os rapazes pensavam em sexo o tempo todo, achavam que as garotas também deveriam pensar. Enzo pensava, quando foi interrompido pela voz feminina, ela disse a ele, que sábado chato, que chuva chata pra caralho... Ele respirou com alivio, como quem dissesse, estou em casa, é uma das minhas, sendo assim, há de se imaginar o poder de sedução que as palavras de baixo calão exerciam sobre ele, Enzo não perdeu tempo, e disse, é foda mesmo... Essa chuva quebra qualquer parada, Ela confirmou com a cabeça. Nem fala... Hoje eu ia sair, a garota disse. Mas babou. Mixou. Enzo disse, eu não ia sair, mas a chuva incomoda mesmo, assim... Enzo pensou, que papo merda o meu... Que papo mixuruca. Ela perguntou a Enzo porque ele não ia sair? Já que era sábado... Ele disse a ela, porque eu já saí ontem. E esfregou um dedo no polegar, que deve ser o gesto universal para dinheiro. Ela sorriu, e disse, eu também... Enzo que tinha um talho no rosto, que o deixava parecendo um pneu rachado, disse, o meu salário acaba no dia do pagamento. Eu só tenho dinheiro no dia do pagamento. Nos outros dias eu não tenho dinheiro. O resto do mês eu passo rezando para que passe logo. Ela disse, com o meu salário também é parecido. Ela perguntou a ele, você trabalha de quê? Ele disse, eu sou pedreiro. Ela perguntou, e como é ser pedreiro? Ele disse: mais que tudo, é cansativo... O garoto ruivo e gordo com sardas, e de óculos, olhava para os dois, O garoto gordo perguntou: o quê vocês vão querer? Como se eles estivessem juntos. Mas ele havia feito aquilo de sacanagem. Simplesmente para aborrecer. Pois ele sabia que eles não estavam juntos. Ele sabia que eles não podiam estar juntos. Ele sabia pelo papo que eles vinham tendo, que ele fingira não ouvir, mas que, com certeza ouvira, ele sabia que eles não estavam juntos. E mesmo assim fizera aquela pergunta idiota que soava como deboche. Caso eles ficassem juntos... O balofo era invejoso. Enzo sabia disso. Podia perceber pelo seu olhar, quando Enzo aparecia por ali. Porque ele teria inveja de um pedreiro? Sabe se lá por que. Enzo era preto. Era mais forte. Tinha mais estilo. As pessoas o conheciam. Falavam com ele no meio da rua. Ele andava na moda. Era querido. Cumprimentava todo mundo. E aquele balofo de bochechas coradas, não. Dava para ver que o balofo era amargo. Que ele era o menininho da escola que não foi convidado para brincar, e que ficou o final de semana inteiro pensando nisso. Enzo pensava que aquilo era tão fácil de resolver. E bastava que o balofo, parasse de olhar as pessoas daquele jeito arrogante, de cima. Então a menina pediu um hambúrguer, e um refrigerante. Quando o rapaz do trailer veio com o hambúrguer, pôs o refrigerante, que era um líquido preto, dentro dos copos. Enzo perguntou a menina, rezando para que ela dissesse, não. Você quer que eu pague o seu? Ela disse; paga aí, que eu te dou aqui. Ela sentara numa das mesas como se estivesse o convidando. Ele se encaminhou até ela, segurando os hambúrgueres e os refrigerantes numa bandeja, com dificuldade, enquanto a via brigando com uma bolsinha de onde tirou o dinheiro amassado, e jogou na frente de Enzo, e deixou que ele visse os cartões de crédito dentro da bolsa.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo I

Era meia noite quando Enzo viu a menina estacionar o carro lentamente batendo com a traseira em algum lugar. Ela saiu de maneira desajeitada com um andar de quem carrega quinquilharias por aí. A menina foi em direção ao trailer de cachorro quente, da praça. Ela era branca, baixinha, troncuda, vestia jeans, tinha os cabelos tingidos de louro, e falsos olhos azuis. Tatuada. Enzo era preto feito pneu, forte, alto, tinha cabelos rastafári. A menina veio andando, e parou atrás de Enzo. Agora ela vestia uma capa de chuva transparente. Era uma noite dessas em que a chuva fina fica batendo no casaco que tem capuz. Um sábado em que a maioria das pessoas se esconde do frio, chocolate, vinho, pizza, maconha, sexo, Enzo também gosta dessas coisas. Não importa que as pessoas estejam morrendo na África. Eu estou no cu do ocidente, e não posso fazer nada por elas, ele pensa. Então vem essa menina, e para trás de Enzo, ele permanece com as mãos nos bolsos do casaco sem olhar para trás. Enzo tem o rosto largo, e aquilino. Mas ele olha para frente. A garota tem um rostinho de boneca, e tem cara de quem apronta das suas. Ela diz alguma coisa como: será que vai demorar muito? Enzo responde educado, fingindo indiferença, tomara que não. Ele tenta pôr na voz a mesma emoção que usaria caso estivesse falando com um velhinho do sexo masculino. E não com aquela garota, que parecia uma princesinha de conto de fadas perdida num bosque. Ele se cala. Como se qualquer diálogo tivesse que vir dela, ele era o homem, e já estava errado por existir, e andar com aquele troço preto, por aí, balançando no meio das pernas. Ele sabia o quanto a força do seu interesse contava naquele momento, interesse, este, que não podia soar como desespero, mesmo que fosse ela que estivesse interessada nele, Enzo sabia o quanto as mulheres eram desconfiadas, e ainda existia o tal abismo social entre os dois, e como tinham que ter pelo menos, a sensação de estar sempre no poder, embora o mundo estivesse caminhando para que elas tomassem o poder de vez, os principais cargos dos principais países já estavam sensatamente sobre o domínio de mulheres, e desde que ele se entendia por gente, na maior parte do tempo, os interesses delas não se limitavam a duas pernas abertas numa cama, como eram os de alguns homens iguais a ele. Enzo queria deixar a garota à vontade. Para que puxasse assunto, ou não. Enzo havia lido numa revista que alguns homens sempre confundiam o comportamento de algumas mulheres, quando na verdade elas estavam apenas sendo apenas simpáticas, e elas tivesse em mente o peso do preconceito que os homens carregavam, de achar que toda relação feminino masculino partia de um pressuposto carnal. Algumas mulheres ficavam enojadas, por isto. Não é que eles fizessem por mal, ou existisse algum traço de caráter nisso. É que eles não entendiam como algumas mulheres podiam não gostar tanto de sexo quanto alguns homens. Não que isso os tornasse mais, ou menos, felizes, sei lá, era apenas, diferente.