quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Fatmagul

bem que a mãe do Mustafá disse que ele estava diferente. que a sua voz havia mudado, que a sua postura havia mudado. ainda mais depois que Mustafá pôs aquele lenço de playboy no pescoço. a mãe do Mustafá perguntou a ele: que roupas são essas, filho? ele disse: eu comprei. são roupas de luxo! para trabalhar com eles eu preciso estar bem arrumado! o Mustafá fala como aquele garoto que aparece com dinheiro em casa, e não sabe explicar a procedência. eu me lembro do seu pai dizendo a ele, que se ele ficasse com Fatmagul, depois que ela havia "dormido com outro homem". as aspas são minhas. será que ele iria aguentar? em suas cabeças Fatmagul era culpada. Fatmagul era sempre culpada. Mustafá deve sentir saudades da época em que Fatmagul era culpada. pois agora que a batata quente caiu em suas mãos, agora que ele tem certeza absoluta de que foram eles que acabaram com a sua vida, e não ela. ele terá que enfrentá-los. mais gente sabe da sua desgraça. é mais gente para dar satisfação. e para provar o quanto ele é homem. Mustafá gostou de dirigir aquele carro. ele gostou de ir a porta daqueles restaurantes. mas ele também quer entrar. ele quer brincar também. saber como é lá dentro. como outros ganham ar condicionado na cara e sobremesa. enquanto outros comem marmita no sol. a vida era tão mais simples na cidadezinha do interior. quando a gente não sabia que existia isso tudo. naquele que Mustafá foi ao quarto do Edogan... ele experimentou os óculos. o relógio. Edogan deve ter a mesma idade que Mustafá. Mustafá pensa, eu posso... tudo acaba justificando seus atos. ele ficou com o carro porque era seu por direito. enquanto os que foram mais prejudicados com tudo. empurram um carro velho. eles haviam destruído seu mundinho cor de rosa. eles acabaram com a Fatmagul que ele conhecia. eles fizeram pior, eles a jogaram nos braços de outro. ela não é mais a mesma. Mustafá também não é mais o mesmo. ele descobriu que tudo aquilo que ele sonhava conquistar, com muito trabalho, e esforço, não era nada para aquilo que outros possuíam apenas por ter herdado. simplesmente. outros que não eram dignos em sua cabeça. destruíram sua vida. feriram a sua honra acima de tudo. ele não tem mais nada a perder. Mustafá que antes se envergonhava do que fizeram a Fatmagul... agora se delicia na cama ao lado da Asu, uma linda garota de programa. que se apaixonou por sua robustez, e inocência, com a qual Mustafá chegou a cidade grande. vindo se vingar daquele de quem foi tirado a sua princesinha inocente, casta e pura. Asu ensinou a Mustafá as delicias da cama. de uma forma tão rápida e veloz, e tão independente, que era como se ele não imaginasse. não soubesse que aquelas facilidades da vida em Istambul não existiam. quando ele sempre estivera preocupado com o quê o povo de sua cidade iria pensar. Fatmagul está com outro. casada com outro. não é assim que eles fazem. compram as pessoas. ela não vai mais fazer programa. não fala mais em programa! ele dá um chilique. Mustafá está parecendo um gigolô.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fatmagul

Fatmagul... vai catar o feijão! Mukaddes grita. Fatmagul sai de perto do fogão. a cozinha é pequenina. Fatmagul deixa o que estava fazendo para ir fazer o que a outra mandou. Fatmagul vai catar o feijão. Fatmagul dorme espremida num sofá cama com o sobrinho de quem ela cuida. o sobrinho é filho do seu irmão. Rahmi.  que chama. Fatmagul... E filho da cunhada que aqui faz o papel de bruxa. antes de dormir Fatmagul olha para os lados. ela vê se todos na pequena casa já estão dormindo. Fatmagul aspira ao silêncio. sente o ar. enfia a mão embaixo do sofá. tateia. ela ainda está lá. que alivio! A cartinha que está ensebada de tanto ser manuseada. Fatamagul sente o cheiro da carta escrita em folha de caderno. e a guarda novamente... é de se imaginar que aquela carta pardacenta seja o seu refúgio. o seu descanso. o seu álibi para o presente. o seu paraíso. o seu pequeno segredo de estimação. desses que compõe a vida. Kerim ouviu da boca de Mukaddes ela gosta de você!  senão gostasse não guardaria esta carta! Fatmagul guarda a carta com unhas e dentes. Kerim diz a Mukaddes que devolva a carta de volta ao lugar onde a encontrou. Aquela frase de Mukaddes fica indo e vindo a cabeça de Kerim. e sempre que ele quer se ver livre de todo aquele sofrimento... ele aciona a frase de Mukaddes que fica pululando em seu cérebro. enquanto o coração de Fatmagul acelera. Kerim sente a calmaria. ele está feliz por ter um emprego. por poder trabalhar e ajudar em casa. por poder pagar seus pecados. numa daquelas conversas de quartinho com a tia, Kerim diz que sonha levar todos para o estrangeiro. para que eles possam ter paz. ou melhor, para que ele possa ficar em paz com Fatmagul. era o que Mustafa sonhava. apenas ter o seu recanto de paz com a sua amada... uma casinha no subúrbio com flores. chegar com o dia claro, ainda. trazendo o pão debaixo do braço. Mustafa só queria que as coisas permanecessem como estavam. as vezes é apenas isso que a gente deseja. Kerim quer ir para longe dali. sem a sombra de Mustafa... e daqueles vampiros! Ninguém nunca desejou o perdão como Kerim. a sua frase fica valsando na cabecinha de Fatmagul. eu não fiz nada! você estava inconsciente, por isso não se lembra!. ele era cúmplice. não fez nada para impedir. Ebe Nine, a tia, ficará feliz se ele for perdoado. Fatmagul representa o sonho da inocência campestre. do interior. Fatmagul é a inocência em tudo. na roupa. no olhar. Na pessoa... nos olhinhos verdes. ou claros. a simplicidade... Fatmagul é um anjinho. Uma santinha que precisa ser protegida. Mustafa não entendeu isso. ele vive por uma vingança... Kerim entra na loja. lembra do sapato de Fatmagul. ele nunca comprou nada com tanto ardor em sua vida. nunca trabalhar um dia inteiro pregando, e martelando, fez tão bem a uma pessoa! ele pergunta se tem desconto ao cara da loja. tem. Kerim olha para o vestido. imagina Fatmagul vestida com ele... Fatmagul não pode saber que foi Kerim quem comprou. cabelo solto. ano novo! e só o Kerim sabe o quê sentiu...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Amelinha...

não era qualquer música. era Frevo Mulher. do Zé Ramalho. e isso para um suburbano que gostava de festa junina e quadrilha, deveria dizer muita coisa, sendo que essa era uma das músicas mais tocadas. e uma das preferidas dos grupos folclóricos. penso que aquela gravação é impecável. uma das melhores da música brasileira! musique. music. Amelinha é esta cantora. eu conheço a sua voz. a sua voz única. Amelinha deu sorte com a natureza. pois tem um timbre peculiar. e seu estilo não é aquele, você canta em lugar tal... num camelô no Ceará numa negociação em que envolveu uma coletânea do Moreira da Silva, consegui negociar uma coletânea da Amelinha. não era apenas uma cantora que me lembrava a minha infância. a sua música é viva. ela não deixa nada a desejar aos seus conterrâneos, contemporâneos. já ouviu aquele disco O Pessoal do Ceará com Amelinha, Belchior e Ednardo? e essa gravação do Dia Branco de Geraldo Azevedo? ela está ligada ao que existe de melhor da música brasileira, moderna, original. assim como a música de Minas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Henry Miller...

Henry Miller vai para o inferno e arrasta o leitor junto. e depois ele te mostra a luz. talvez por isso o nome de sua trilogia se chame A Crucificação Encarnada. ele mesmo diz que um homem para chegar ao paraíso tem que conhecer o inferno primeiro. sendo ele o narrador, memorialista, até onde é possível, Henry Miller divide o ponto de vista com você. fazendo com que experimente suas vivências. você se vê transladado para os sentimentos de Miller. em algum momento se sente confortável. Henry Miller disse que um homem que nunca sofreu com as suas próprias neuroses, não sabe o quê é sofrer. é isso que ele nos apresenta. as suas neuroses. da mesma forma que o esgoto exposto do Brooklyn em A Primavera Negra. Henry Miller disse que se tivesse lido o Tao Te Ching antes não teria sofrido com todos aqueles conflitos. acredito que no Big Sur ele tenha dito que não guardava mágoa de ninguém do passado. essa é a mesma impressão que se tem ao ler Henry Miller. a insatisfação de não ter lido, ou compreendido Henry Miller antes. Henry Miller é libertário. leia o inicio de Trópico de Câncer em que ele se diz. não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. ele afirma. sou o mais feliz dos homens vivos! ou aquela passagem de Marússia. em que ele responde ao homem que diz que os americanos são ricos, Henry Miller diz que eles são ricos, sim, ricos de espírito, que ele não tem dinheiro, mas que irá para Atenas, e que vai conseguir o dinheiro para comprar a passagem. Henry Miller ficava feliz por qualquer coisa, pois sabia que não tinha nada. uma passagem de um livro. uma paisagem. o cheiro de uma comida. um rosto de uma mulher. tudo é sublime porque estar vivo é uma sorte. ele destruía o mundo para depois edificá-lo ao máximo. era forte como Walt Whitman, ou Blaise Cendrars, homens que admirava. o seu ponto de vista é sem maquiagem. para Henry Miller não existe gênero, raça, cor, nacionalidade. ele ri de si mesmo. detesta a si mesmo. e ama o ser humano, fingido e patético. ele amava viver. simples. talvez por isso continue vivo em seus livros. clichê. Henry Miller publicou seu primeiro livro depois dos quarenta anos. incentivado por Mona ele foi para a França. havia abandonando tudo para escrever. emprego, família. aprendeu uma nova língua. depois recomeçou a vida em Big Sur. com as dificuldades de se morar em um local isolado, criar crianças, e levar uma vida simples. com a qual se aprende muito. Henry Miller encarou a si próprio para recomeçar. E morreu velho. como morrem os homens sábios.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Rio de Janeiro Lugar Limpo e Pacífico.

você olha a manhã pela janela. faz um dia bonito. você diz. eu vou comprar pão, e aproveitar para pegar um solzinho. os pássaros estão cantando em frente a sua janela. o beija-flor bebe a água que você deixou para ele num daqueles troços de plástico que vende na feira, e que têm flores artificiais em volta. você caminha olhando o céu azul. na esquina da padaria um caminhão arrasta um carro e uma árvore. começa a esquentar. a temperatura. e as pessoas. você vê o trocador do ônibus dizendo ao motorista, que palhaço! o motorista olha para o retrovisor com aquele olhar de gavião. de rabo de olho. ele bufa atrás do volante. parece que vai jogar o ônibus em cima do carro do cara. na entrada da favela você vê os policiais abordarem três moleques pretos. de mão pra parede. eles devem ter entre treze, e quinze anos. o moleque do banco da frente diz. tenso. o senhor está discutindo com três mulheres com uniforme da Claro. ele grita. você não é a gerente! você é a gerente?! a mulher grita ao telefone. manda ele pro inferno, Soraia! os camelôs saem correndo. aconteceu alguma coisa. mais, mas, o quê? você olha as imagens do arrastão na tevê. você está em pé em frente aquele pé-sujo. você olha as pessoas correndo na praia. você diz pra mulher. caralho, anos noventa!

sábado, 19 de setembro de 2015

Fatmagul!

Resat Yasaran cospe para o filho. e para o sobrinho. idiotas! nós demos tudo a vocês para quê? para que no final vocês se comportassem como animais! a decoração da sala é suntuosa. Yasaran parece um bicheiro. ele tem relógio e cordões. anda de camisa com o botão de cima aberto. e sempre põe a mão no quadril e a outra para o alto quando dá esporro. o velho de barbicha branca insinua. ele é o dono do vilarejo. ele é o dono da cidade. o playboy de olhos verdes e barbicha serrada, primo de Selim Yasaran, ele não tá nem aí! ele olha para a secretaria. Resat Yasaran é grisalho. magro. Resat tem uma presença imponente. ele é impetuoso. implacável com os inimigos. ele estraçalha. bate na cara do filho. a noiva do filho viu. ele olha pra eles, e diz que se eles saírem da linha outra vez, eles não imaginam do quê ele será capaz. de maneira intrínseca insinua de que pode passar por cima do vagabundo miserável. ele seria capaz de matar o próprio filho. é isso que ele quer dizer. o irmão fala no mesmo tom. o primo de Selim olha para a secretaria com olhos de gavião, mal sabe ele que ela é a comidinha de Resat. eles são uma família de mafiosos. o irmão de Resat fala com o filho, e com o sobrinho no mesmo tom. antes de sair da sala eles ficam sabendo que irão trabalhar. e trabalhar. a mãe de Selim sofre tremendamente. o pai da noiva liga para saber que história é aquela nos jornais. é impressionante o dialogo de Selim com o pai. é um pingue-pongue. a mãe de Selim sofre horrores por causa do filho. ela vê o quanto o filho se parece com o marido. o filho só está preocupado em proteger seu casamento e o negócio do pai. e o pai consequentemente. em nenhum momento eles pensam em Kerim ou em Fatmagul. Da mesma forma que Mustafá só se preocupa com a sua honra. que ele diz que está manchada, mas que ele irá limpar com sangue. em nenhum momento se refere ao sofrimento de Fatmagul a mãe morrendo pede que ele jure a ela que não vai fazer nada. mas Mustafá é sangue no olho. só pensa em vingança. ele diz que não pode prometer algo que não vai cumprir. Mustafá queimou a casa em que ele ia morar com Fatmagul. tão grande é seu ódio. a noiva já sabe. sofre. o seu pai liga para Resat. ele quer esclarecimentos. tanto ele quanto o filho negam aquela historia. quando uma mulher vai a casa de Fatamagul pegar de volta a aliança, ela diz, não mate o mensageiro! Kerim marcou uma conversa com os playboy. eles estão dentro de um iate. o clima fica tenso como num filme de Hitchcock vira um tríler psicológico. Kerim diz que não suporta ficar perto da garota. que fica olhando para ele. ele não suporta ficar perto dela. ele está atrelado a ela. eles não. ele diz que eles são uns vermes. depois que o Kerim saí e deixa os parasitas sozinhos. eles conversam entre si. nenhum deles tem conseguido dormir. na hora em que Kerim avança a mão para segurar o copo. Fatmagul vê a marca em seu braço. a marca daquela noite. ele puxa a manga da camisa. ela olha para ele com ódio. eles estão naquela pensão em Istambul. Fatmagul está sentada numa cadeira. de costas para janela. é possível ouvir a voz do seu irmão em off. Fatmagul, onde você vai? espera Fatmagul! Mustafá acorda o careca com as duas mãos em seu pescoço. Mustafá diz, você vai me dizer tudinho o quê aconteceu aquela noite. o careca diz para os playboys. idiotas! ele é um advogado de porta de cadeia. será tio de Selim? o careca logo se recompõe, e com a sua frieza leva Mustafá na conversa. a trilha sonora é passional. o cenário da pequena cidade praiana de pescadores, é paradisíaco. idílico. mas eles sofrem. a pressão psicológica é insuportável. o careca diz a Mustafá que não é nada disso. e que Fatmagul é que armou aquela história de estupro. Mustafá leu o jornal. em sua fúria só ele havia dado uma passada na casa de Kerim. ele só não bateu em sua tia. mas quebrou tudo que viu pela frente. e com todo ódio cortou o nome de Kerim escrito na árvore. Fatmagul olha para o canivete em cima da cama. ela pega o canivete. e vai enfiar em Kerim que dorme. ele acorda. e segura a sua mão. saí batendo a porta. logo após, ou antes. Fatmagul se senta de costas para a janela. é tão linda Fatmagul... parece uma menina brasileira de verdade. deve ter uns vinte anos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Samo Está Morto. Basquiat Está Vivo!

Samo is dead. Basquiat está vivo. andando por aí. Basquiat caminha no centro da cidade. anda de um lado para o outro com a pilot na mão. rabisca frases aparentemente desconexas nas paredes. no banco do busão. breath teeth. Basquiat vaga pela cidade. dorme pouco a noite. no sofá de amigos. aqui e ali. mal tem onde dormir. come sanduíches de queijo. anda com roupas folgadas para o seu corpo. o seu cabelo tem um corte peculiar. reconhecivél. Basquiat diz que não tem nada diferente para falar. diz que não se lembra do quê sente raiva. Basquiat dá uns pega Madonna antes dela ficar famosa. Madonna tem apenas três músicas na época. Basquiat já tem uma obre imensa. sua namorada Vênus, Suzzane, parte pra cima da Madonna na Roxy. Basquiat pinta sobre a briga. Basquiat tem uma banda de jazz. instrumental. e ele quem nomeia as músicas. uma delas se chama Mona Lisa. Basquiat tem uma banda chamada Gray. é um som experimental. será minimalista. não sei. Basquiat caminha sobre os corpos dos viciados em Heroína que infestam o Soho. Basquiat dorme e trabalha no estúdio. vende seus cartões postais com embalagens de bala. Basquiat pinta ouvindo jazz. John Coltrane. escuta David Byrne. pinta ao som da música. faz isso compulsivamente como se fosse a única coisa interessante a ser feita sobre a Terra. Basquiat começa a usar cocaína. fica paranoico. cobre as paredes do estúdio de preto e branco para não ser visto. diz que o serviço secreto está atrás de si. desconfia das pessoas. começa a usar heroína. saí na capa da New York Sunday Times. Basquiat está de terno. mas do mesmo jeito em que podemos encontrá-lo quando pinta. o cara que promove a arte de Basquiat chega ao estúdio. não necessariamente nessa ordem cronológica. Basquiat está chapado de ópio. Suzzane diz que quando Basquiat usa cocaína a sua pintura é mais detalhada e que quando ele está chapado de heroína, a sua pintura é mais expressionista. Ela consegue perceber. Basquiat vende um de seus postcards para Andy Warhol. um desses que valiam dois dólares e que hoje valem uma fortuna. Basquiat decora apartamentos de yuppies de Wall Street viciados em cocaína. que recebem o pó no açucareiro. a sua arte se torna um comodities. Basquiat expõe junto com Andy Warhol. a crítica detona a exposição. Basquiat está deprimido. paranoico. parecendo um velho de oitenta anos. Basquiat morre de overdose. Basquiat morre aos vinte e sete anos. assim como todos os grandes. Jimi Hendrix. Kurt Cobain. Jim Morrison. Janis Joplin. Amy Winehouse...

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Casa Da Família...

a casa vivia cheia. eram muitos filhos. eles se reuniam a noite em volta da televisão. igual famílias de civilizações antigas se reuniam em volta da fogueira. o pai e a mãe conversavam até tarde. todos os dias. mesmo depois que os filhos já estavam dormindo. durante a manhã era aquele alvoroço. e o batalhão, como dizia a mãe, se arrumava para ir a escola. o pai e a mãe saíam trabalhar. nos finais de semana, aos domingos, eles tomavam o desjejum juntos. o pai ia cedo a padaria comprar pão, a mortadela, o leite, e trazia o jornal. eles sorriam. e juntos faziam aquele almoço suntuoso. depois que a mãe morreu todos foram embora. o pai foi  o último a abandonar a casa. agora eles pouco se veem. se falam sazonalmente. e se cumprimentam educadamente. é como se fossem estranhos. isso quando não param de se falar. a casa está vazia, mas ela continua respirando. é como se sentisse a falta deles. e ainda é possível ouvir suas vozes. e se deparar com o vulto dos vivos. mas isso já é passado. assim como o início do texto que você acabou de ler.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cadê Você Meu Querido Henry?

ontem eu me lembrei de você meu amigo Henry. de quando você descia a rua gingando e sempre trazia uma carta na manga. você se virava e me dizia, hei, man! está com sede? eu dizia. estou. você me perguntava. quer tomar Coca-Cola? eu olhava para a cantina da escola, e dizia. mas eu não tenho dinheiro. e você me dizia, eu perguntei se queria beber Coca-Cola. não perguntei se tinha dinheiro. você via alguém sentado no pátio com a Coca as suas costas. alguém cujo o pai devia dar mesada, e daqui a pouco você aparecia com uma Coca-Cola. e matava a nossa sede. e a gente dizia, amo muito tudo isso! eu me lembro quando você se deitava no chão se fingindo de morto. enquanto eu e os moleques da rua acendíamos uma vela ao lado do seu corpo. e te cobríamos com jornal. você com os pés pra fora do jornal... a gente adorava quando vinha uma daquelas senhoras, olhava e dizia, coitado, que pena dessa mãe! elas acreditavam que era apenas mais um daquela época que havia sido morto. e a gente caia na gargalhada. eu me lembro que quando a aula estava chata, você entrava na secretaria para roubar as carteirinhas, enquanto eu sempre o mais medroso e o mais covarde, apenas vigiava. você pegava de volta, a minha carteirinha e as sua já com a presença carimbada em azul. e a gente caia fora. ou pela porta da frente. ou pulando o muro. e estávamos livres! livres! eu me lembro de quando não havia dinheiro para comprar fichas de fliperama, e você dava um jeito. para tudo que fosse verdadeiramente importante você dava um jeito. eu me lembro de você travando as bolas do totó. ou virando a mesa para que a ficha caísse. ou pegando um pedaço de arame. para tudo você tinha uma solução. até quando aquele cara mais forte que todos nós resolveu nos bater... e você veio com aquela. eu me lembrei de você meu amigo Henry! e me lembrei de como nós éramos inteligentes naquela época, criativos, espontâneos. quando a mentirinha chamada sociedade não conseguia nos ludibriar com a sua aparência sã. mas você sumiu no mundo... e a gente acaba "crescendo", e ganhando essa aparência de "saudável". de sensato. e temos que sufocar tudo aquilo que cala fundo em nosso coração. pois os clichês quase sempre são verdadeiros e temos que fingir que não acreditamos mais em nada daquilo. e que tudo que pensávamos era coisa de gente inocente. como se toda aquela rebeldia utópica não fosse verdadeira. aí nós temos que fingir, que acreditamos em toda essa mentira. em todo esse circo que os homens criaram. para que a gente possa se parecer com os idiotas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Qual É A Contrapartida Do Artista?

o seu trabalho.
o quê o artista faz para contribuir com a sociedade?
o seu trabalho.
assim como,
o médico, o professor, o gari...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Pai Da Menina Do Vídeo que Vazou Na Internet...

a menina está deitada na cama. ela acabou de descobrir que o seu corpo está exposto por toda a internet. todo mundo acordou podendo ver seu corpo na rede mundial de computadores. em cada parte do globo que existisse um mínimo equipamento que se conectasse a internet poderiam ver seu copo. ele agora era de domínio público. a intimidade que ela tanto tentara preservar, até a sua noite de núpcias com o namorado. como ele, dizia. estava em toda a rede mundial de computadores. ela queria ser descolada como uma daquelas mulheres que exibiam os seus corpos em revista sem o menor constrangimento, talvez não fossem ligar para nada daquilo. ela não era uma mulher posando ganhando milhões para tirar a roupa. não. ela havia tirado a roupa para o namorado. e não ia depois daquilo dar entrevista, ou subir para a cobertura de um prédio. ela teria que encarar as pessoas no dia a dia. na escola. na rua. os vizinhos. o ataque havia começado. quando ela abriu o seu Facebook, já haviam mensagens sobre o seu peitinho. Suzana só tinha uma certeza. ela iria dar um jeito de se matar o mais rápido possível. agora ela não entendia porque o pai viera até ali. porque ele não a deixava sozinha. ela estava com a cabeça embaixo do travesseiro de tanta vergonha que sentia. o pai sentou a cama, e ela sabia que ele iria contemporizar. e tentar dizer alguma coisa que desestimulasse uma atitude mais drástica. Jorge sabia que era jogo perdido tentar chamar atenção da filha. o pior de tudo já havia acontecido. quando ele se dirigiu a ela, e disse, Suzana, ela disse, eu tenho vergonha de você. a voz de Suzana parecia saída de um túmulo. de um buraco muito escuro. Jorge disse, pior do que isso, eu fiz abandonando você ainda criança. Jorge continuou. sabe Suzana, o quê você fez, está feito. e você vai sofrer as consequências do quê fez. agora, eu te pergunto. quem nesse mundo todo, de bilhões de pessoas, que vai assistir a esse vídeo ou a essa foto. quem deles se preocupa verdadeiramente com você. quem deles já te perguntou algum dia, como você estava se sentindo, ou te ofereceu alguma coisa. ou mudou de opinião por algo que você disse ou pensou. você é apenas uma Suzana. existem milhões de Suzana. você vai se matar, por isso? mas e as pessoas da escola da minha família. o pai disse, filha. a gente se muda. faz o que for. mas a vida irá continuar. e a partir de agora esse vídeo faz parte da sua história. não para te lembrar que cometeu um erro. mas sim, que a vida continua. pois ela sempre continua, independente de você.

sábado, 29 de agosto de 2015

A Bike da Dilma e a Sherazade...

a senhora diz detrás do balcão. vai começar a minha novela, a Sherazade! para de ficar pra lá e pra cá com esse controle! o velho com o controle na mão diz a Dilma. você foi trabalhar de bicicleta, Dilma? um cliente está encostado num balcão com uma cerveja esquentando a sua frente. num daqueles botecos debaixo do viaduto. o velho continua, ela engarrafou tudo. ela foi de bicicleta. mas levou carros com ela. e ainda atraiu a atenção dos curiosos. o cliente sorri. o velho continua. não vai de Bike, Dilma! não tem ciclovia! alguns presidentes vão trabalhar de metrô porque em seus respectivos países dá pra fazer isso. coitada da Dilma que tem que pedalar num canteiro. cuidado Dilma, para que não apareça o filho do Eike Batista derrapando, e te jogando longe! ou o filho do Pitanguy subindo na calçada de repente numa numa rua tranquila. ou o filho de alguém que nunca vai ser preso porque tem dinheiro. e cuidado para que os ladrões de bicicleta não roubem a sua bike. cuidado com as facadas por todo o país. seja por nosso machismo. ou por nossa agressividade. que não é associada a imagem melíflua que o nosso turismo sexual criou. quem não vai sorrir com uma gorjeta em dólar, ou em euro, Dilma? mesmo depois de ter devorado uma de nossas criancinhas. ou uma de nossas lindas "meninas", e nossos lindos "meninos". o cliente diz para descontrair. mas esse Pitanguy é velho! acho que ele vai substituir o Niemeyer! a mulher diz. a Dilma emagreceu. ah, ele emagreceu sim... emagreceu, e muito! agora se foi por stresse. ou para se manter a forma... é o preço do poder! começa a Sherazade. e todos olham vidrados para a tevê.

Prometeu Acorrentado...

O menino dorme sozinho num dos quartos do segundo andar da casa grande, e branca. dorme é uma forma de dizer. pois aquela noite será tão longa quanto as outras. O menino teme o mico que se encontra preso a árvore. ele ouve o guinchar ensurdecedor do mico durante o dia. o medo agora é a enorme aranha na parede. ou melhor, a sombra enorme da aranha. de manhã, com a chegada da luz do dia. o medo se desvanece.

sábado, 22 de agosto de 2015

A Fita Do Noel...

o maluco do trabalho que havia me emprestado a fita do Cartola, também me emprestou uma fita do Noel. eu pus os pés no ônibus. paguei a passagem. dei boa noite ao cobrador. fiquei no último assento alto. na janela. o maluco que era para me cobrir havia faltado. então tive que ficar até tarde no trabalho. sem ganhar hora extra. puxei o walkman. dei o play. não acreditava que estava ouvindo aquelas raridades na voz do próprio. não havia internet aquela época. subiram dois malucos pela frente. com isopor. como se fossem vender alguma coisa. o quê estava com o isopor puxou um trinta e oito enferrujado lá de dentro. eu ia tirando sorrateiramente a fita. quando ele disse, passa essa porra pra cá! eu ia dizer, amigo... ele fez a aquela cara de filme americano. e disse. eu estouro seus miolos! joguei a fita dentro do isopor. o walkman era emprestado. também.

A Fita do Cartola...

um maluco do trabalho havia me emprestado a fita do Cartola. um maluco que tocava bandolim. branco, e de óculos. infelizmente não lembro o nome dele. alvoraçado eu abri a porta. joguei a mochila no sofá. a minha mãe estava na cozinha. dei um beijo em seu rosto. ela perguntou, vai onde? terraço! subi às pressas a escadinha de ferro em forma de caracol. tateei o interruptor no escuro. na luz, achei a tomada. abri o compartimento do toca fitas. joguei a fita. e quando explodiu a introdução da primeira música, O Mundo É Um Moinho. as lágrimas escorreram com a mesma velocidade com que cheguei. chorei copiosamente. não chorava por nenhum motivo especial. não era por causa da humanidade, que se mantinha firme em seu propósito lento, e gradual de autodestruição. não chorava por nenhum motivo em particular. e sim, porque havia músicas como aquela... ou a dança dos pássaros no céu. de manhã. olhando a janela. durante o primeiro café. sempre conto a mesma história. pois mesmo em silêncio... aquela introdução me vem à cabeça.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Crack!

eu fiquei extremamente sem graça quando ele falou comigo. pois lembrou do meu nome. ele chamou meu nome. levantou o polegar e sorriu. ele estava sujo, e maltrapilho. carregando coisas. dava pra ver que estava no crack. eu não conseguia lembrar quem era de jeito nenhum. até hoje não sei quem falou comigo aquele dia. sei apenas que nós fomos muito íntimos, pois aquela voz me era familiar. ele parecia ter lembrado de bons momentos quando falou comigo. eu sabia que ele estava destruído pelo crack. eu o vi perto da passarela. o outro ia a minha casa. morava na mesma rua. falou comigo. eu estava do outro lado da avenida. os ônibus passavam. ele pôs as mãos no peito demonstrando o quanto gostava de mim. eu imitei o seu gesto. e olhei pra ele como quem diz, que independente daquela merda toda. eu continuava gostando dele. os meus olhos encheram de água. ali eu me emocionei, e perdi toda a sisudez de machão suburbano. presenciei a expressão de um amigo meu, numa cena parecida, e ela parecia de horror. ainda bem que pude ficar feliz perante um amigo que havia ido parar na rua por causa da bebida, e que agora estava todo arrumado, como antigamente. como quando nós éramos moleques. quando nos conhecemos. mas nunca vi ninguém liberto do crack. sempre vejo aquele moleque correndo, para lá. e para cá. e sempre me lembro dele, que está abandonado ali. tendo alucinações. sendo vítima de rituais. de espíritos malignos, segundo alguns. esquizofrênicos, segundo outros. para todo lado que olho vejo mendigo. gente morando na rua. falando sozinha. deitada na calçada. carregando trapo. esmolando. fazendo suas necessidades a luz do dia. morando no meio do lixo. andando nos trilhos.caminhando nas vias expressas. eu vi aquele moleque branco e o pessoal da favela segurando ele que estava tendo uma overdose. não sei se ele sobreviveu. mas apenas ouvi as pessoas gritando, Playboy! Playboy! Volta, Playboy!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Repórter...

o repórter se indigna com a menina loura que matou os pais. enquanto isso, Romário se equilibra num vagão da SuperVia, ele pergunta, mas o seu nome é Brad Piti por causa do ator? O outro diz. sim. a minha mãe gosta muito dele. o amigo com nome de jogador de futebol sorri. a repórter pega carona de bicicleta. Brad Piti pensa que ela age igual político em campanha. ela diz as pessoas, nós temos que ter força de vontade. Brad Piti não consegue entender. ele pensa, porque eles têm que ter força de vontade, se os políticos são empregados? não entendo! Obviamente que o repórter está indignado porque os pais mataram os filhos. ele não entende como eles são capazes de fazer isso tendo a vida que tem. Romário em sua depressão chega a chorar na do repórter. não existe nada mais triste do quê pais matando filhos. Romário sabe que no canal ao lado, durante a semana é uma carnificina só. jorra sangue. crianças são esquartejadas. bebês são mortos. baleados. pessoas são enterradas vivas. Crianças abusadas. Um horror. mas ninguém está nem aí! diz o cara com o nome em homenagem ao jogador de futebol. vovós são mortas a machadadas nas periferias. a violência brasileira é feia, e triste. e se aquele repórter tivesse lido O Casamento de Nelson Rodrigues, ele saberia que os doentes estão em todas as classes. se é que ele não sabe disso. pensa Romário. a repórter fica feliz com a presença do secretário de obras, que deu o ar da graça depois de tanto tempo. ele apareceu para asfaltar ruas que nunca foram asfaltadas na história. mas que serão asfaltadas agora quando a humanidade começa a pensar em povoar Marte. ele põe a culpa disso nos governos anteriores, asfalta uma rua. e cai fora. as pessoas que moram na rua ficam agradecidas. E ficam pensando em como ele é generoso em ceder parte do tempo para conversar com eles, que vibram quando o secretário diz que vai fazer alguma coisa. Brad Pit diz a Romário. eu estava naquele vagão da SuperVia que passou por cima daquele rapaz. o repórter só falta chorar. ele está indignado com a mulher que matou o marido para ficar com o amante. ele não consegue acreditar que ela possa ter feito isso tendo a vida de rica que tinha. ele só falta dizer a ela que se ao menos ela fosse uma miserável. Brad Pit chora copiosamente. junto ao repórter que chora na tela da televisão. e repete aquela frase clichê. o mundo está perdido.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sophie Miller...

Sophie Miller é o tipo de menina que tem dois olhinhos pequeninos e brilhantes no fundo dos óculos. Ela ficou com este ar de inteligente depois que começou a usar óculos. Mas antes disso Sophie Miller já dizia, acho tão bonito quem usa óculos... Sophie Miller ficou com cara de boazinha mesmo contra a sua vontade. A sua voz é igual à voz dessa mulher que nos diz quando devemos acrescentar um novo número ao telefone discado. Sophie Miller parece uma apresentadora de telejornal que eu admiro... Se reparar nas olheiras de Sophie Miller, você irá pensar que ela é algum tipo que não dorme de madrugada. Outro dia perguntei a ela, Sophie, a que horas você dorme, normalmente? Depois das duas... Por quê? Eu disse Nada, não é por nada, não... É só por curiosidade, mesmo... Sophie Miller assiste a um daqueles programas que passam tarde da noite, e que sempre tem um cara metido a inteligente como entrevistador, e outro cara metido a inteligente sendo entrevistado. Sophie Miller é o tipo de menina que lê o livro da moda em pé no metrô. E que ouve músicas com fones de ouvido enormes. Ela conhece as dez mais tocadas da temporada. E música de um ano atrás, Sophie Miller considera velha. Sophie Miller masca chicletes. Fuma cigarros de sabor. Fala do seu cantor preferido com a desenvoltura de um crítico musical. E conhece de cor todas as suas letras. Sophie Miller é o tipo de menina que senta no chão do aeroporto. E que tem fotos das férias espalhadas por tudo quanto é canto da casa. Ela faz pose numa porção de cartões postais pelo mundo, e em fotos com as amigas dentro do banheiro da escola. Sophie faz uma pose de perfil expondo o lado direito do rosto, e dispara a foto com a mão direita estendida, e inclinada para baixo. No espelho vemos o reflexo de Sophie, e os de suas amigas. Sophie Miller usa aquele tênis que tem uma estrela, e que todos os seus amigos usam. Igual aquele casaco que tem o nome formado por três letras. Acho que eles combinam para não repetir as cores... Cada um tem a sua máquina para que se comuniquem em rede. Eles têm perfis em redes sociais, e os polegares tortos. A maioria dos meninos é viciada em jogos, futebol, e pornografia. No almoço todos bebem esse líquido escuro que vicia, e comem hambúrguer naquele restaurante onde a foto do funcionário do mês, com o uniforme que incluí o boné, fica pendurada na parede. Mas um dia, quem sabe, Sophie Miller poderá fazer regimes estranhos na busca pelo corpo ideal. Talvez deixe de comer carne vermelha para só comer vegetais. E quem sabe ela passe a defender os animais. Ou as pessoas que moram nas ruas. Você pode ver Sophie Miller próxima a uma rua de shopping chique de qualquer lugar do planeta. Seja no hemisfério norte, ou no hemisfério sul. Usando um traje básico, de short, blusa branca, sandálias, óculos escuros, e chapéu contra o sol que ela segura para que não voe. Sophie viaja uma ou duas vezes por ano. Você pode até pensar em Sophie como uma menina comum, mas quando a gente era criança, perguntei a Kevin Thompson se ele sabia que um de nossos amigos se dizia apaixonado por Sophie, ele disse: Jacob Smith, não seja idiota! Quem não é apaixonado por Sophie Miller? Sophie e Kevin formam aquele tipo de casal que você não consegue imaginar separado, e não os imaginava junto.

Roberto Carlos na Vitrola...

a mãe de Samuel dizia a ele, Samuel, se o seu pai não voltar pra casa eu me mato! eu taco fogo na casa com você dentro! você vai ver, Samuel! você vai ver! eu mato a gente, Samuel... nós dois! Samuel era muito novinho. era criança, ainda. ele estava no início do antigo primário. Samuel olhava para a mãe, e imaginava a casa pegando fogo, crepitando, com eles dentro. Samuel se lembrava daquele filme em que a mãe do psicopata suava. Samuel não conseguia se lembrar se o psicopata morria queimado no final, ou se a sua mãe morria queimada, ou se a casa do psicopata terminava em chamas, pegando fogo. a mãe de Samuel em nada se parecia com a mãe do psicopata. em alguns momentos ela nem parecia irritada. acabava colocando Roberto Carlos na vitrola, e passando a cera vermelha no chão. a cera era de uma vermelhidão, tremenda. ela passava a cera no chão, como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. enquanto Samuel jogava bola sozinho no quintal. ou com o primo que era mais ou menos da mesma idade que ele. quando a mãe de Samuel estava de bom humor, ela não falava nem da morte, e nem da piranha que o pai de Samuel havia arrumado. e aquelas manhãs de sábado de sol eram tranquilas. com Samuel jogando bola no quintal.

domingo, 2 de agosto de 2015

Sangue Bom!

tava jogando a pelada de segunda meia noite na praça. quando ainda tinha algum fôlego para correr. enquanto eu passava eles gritavam, tá na capa! físico de jogador de dominó! tá malhando? pele e osso. aí eu me lembrava daquela música em que o Cartola diz, e quando eu passo, a gurizada pasma, horrorizada, como quem vê um fantasma! e o esqueleto humano, assim vai, cambaleando, quase cai, não cai. eu falei pro moleque no meio da pelada. passa a bola, sangue bom! ele explodiu, caraca! sangue bom! da antiga aí, valeu! ele ficou deliciado em ouvir aquela gíria. talvez ela o remetesse a algum pai, ou a algum tio com quem tenha convivido quando era criança. ou trouxesse a ele lembranças da rua.

Bater Ponto...

todo dia naquele horário nós estávamos sentados naquele portão. então ele passava por nós, e dizia. eu vou bater o ponto. e se encaminhava até o orelhão da esquina. um dia eu disse, nossa, que legal... cool. você bate o ponto por telefone! o pai dele me olhou como se eu estivesse viajando. eu havia achado o máximo uma pessoa trabalhar em casa, e bater o ponto pelo orelhão. era algo que me remetia a grandes empresas de tecnologia. achei aquilo super evoluído. e moderníssimo para a visão mundo cão, que parte de nós brasileiros temos do trabalho. quando cheguei a casa comentei o acontecido com minha esposa. e fiquei decepcionado ao descobrir que o rapaz não sem referia ao trabalho. e sim, ao ato de telefonar para a mesma pessoa todos os dias, ritualisticamente, no mesmo horário. fiquei triste ao vê-lo no dia seguinte de manhã cedo de uniforme do trabalho no ponto do ônibus...

sábado, 1 de agosto de 2015

A Crise!

ele não sabe responder ao filho porque existem tantas placas de aluga-se, e vendem-se penduradas por todo o bairro. já que quando eles foram procurar casa para alugar, a mãe havia dito que não havia casas para alugar naquele lugar. agora as placas se multiplicavam uma por cima das outras. então ele diz ao filho, é a crise. o filho pergunta, o quê é a crise, pai? ele corta. quando as coisas estão ruins. e o filho insiste, as coisas estão ruim pai. ele diz, sim, meu filho. as coisas estão ruins. mas elas irão melhorar. então o pai se afasta dizendo. vamos embora, meu filho, e o menino o segue... este outro homem estava assustado. não sabia o quê fazer. ele não era alguém que a cerveja conseguisse ludibriar. depois que passava a ressaca. ele sempre se lembrava dos filhos adolescentes. sendo educados ao léu. e ele estagnado naquele emprego. ele sabia que homens que tiveram tudo na vida acabavam espremidos em quartinhos. os seus medos eram muitos. quando olhava para a filha, ele temia que um dia aparecesse com outra criança nos braços. ele se preocupava ao ver que os seus seios começavam a brotar. e pensava. ou eu tenho dinheiro para dar de comer aos meus filhos. ou eu tenho tempo para educar meus filhos. era assim que ele pensava. imaginava quando o filho fumaria o primeiro baseado. e temia que experimentasse  a cocaína. e  crack que era o maior sofrimento que ele presenciava em sua vida. ou que assim como ele, que não admitia ser alcoólatra, o filho bebesse todos os dias. meninas também não estavam livres de nada. ele vivia num lugar onde era perigoso andar nas ruas. na escola em que seus filhos estudavam havia de tudo. agora havia de tudo em todo lugar. às vezes ele sonhava que seus filhos batessem com suas cabeças, e se convertessem a alguma religião. ou quem sabe se apaixonassem por alguma coisa que fosse além da violência, e da pornografia, assim como ele era viciado nessas coisas. ele estava espremido na cama igual a um feto. era apenas uma criança assustada, que se pudesse gritaria. mãe!

domingo, 26 de julho de 2015

Tim Maia, Fábio e Hyldon... Velho camarada!

um skatista desce a rampa. Fábio de branco caminhando canta a parte dele. lentamente. o letreiro anuncia Velho Camarada de Augusto Cesar. Fábio dubla a parte com vozes femininas. faz aquela expressão de felicidade em tom agudo. uma porção de figurantes estão sentados ao fundo. Tim Maia canta sua parte metido num blazer azul, e dança fazendo pose. Hyldon está sentado no meio de umas minas que são o "must" da época. os olho do Hylson são singulares. Hyldon está de calça branca, e camisa praiana. todos estão tostados pelo sol. eu não acredito que esteja vendo isto! que ano era aquele, mesmo?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo Final

Enzo sabia que diferente do que o patrão dissera, ele não o respeitava pela guerra ou pela cadeia que ele pegara, ou por sua fidelidade canina, pois era assim que o identificava pelas costas. Mas sim porque ele já havia provado do que era capaz, e assim como na prisão depois que mostrara do que era capaz, e amedrontara até facínoras com sua ofensiva de voar na jugular, e cortá-la se fosse possível. Esfacelá-la. Ele entrou na roda, abriu a mochila, e todos o olharam como se ele fosse um maluco, e alguém capaz de coisas absurdas até mesmo para eles. Durante algum tempo Sophie sentiu orgulho daquele desconhecido, assim como sentia de seu pai quando ele ameaçava algum bandido. Alguém que mudava de calçada quando o via no meio da rua. Mesmo alguns vagabundos, e viciados. O pai sabia que a sua filha fumava maconha, mas ela havia estudado numa faculdade pública, era formada, funcionária pública, era doutora... Mas aqueles bandidos matavam as pessoas. Pessoas como ele, pessoas as quais ele também teria que matar se se sentisse ameaçado. Então quando ela viu Enzo jogar a cabeça. Pensou que ele não poderia fazer nada diferente daquilo. Todos os bandidos puseram uma máscara no rosto. Mas na verdade sentiram a loucura do outro, que se arriscara sem necessidade com aquela cabeça, por uma vingança qualquer, só por que dera a sua palavra que parecia talhada em pedra da qual não poderia ser arrancada. Ele se virou. Entregou a arma ao patrão, e perguntou: posso ir? O patrão disse, sim. Ele saiu caminhando. Sophie foi a sua direção andando. Ela acenou para um rapaz louro que sorriu para ela, e disse a Enzo, é o meu amigo... Ele sempre vem aqui! Quando Enzo se virou, ela disse, eu vou ficar com ele. Enzo disse: tudo bem, Sophie. Prazer em te conhecer. Que nada... Sophie disse, a gente se esbarra por aí. Enzo respondeu, com um olhar positivo e uma expressão afirmativa, a gente se esbarra por aí. Enzo olhou para Sophie que se afastava sorrindo. E Sophie olhou para ele, e pensou que aquele era o mesmo olhar que recebemos de um amigo de alguns momentos bons, simples, e infinitos, dentro de um supermercado. É um olhar perdido. Que parece dizer obrigado. Obrigado por estar bem. Obrigado pela companhia naquelas horas, as quais eu não consigo esquecer. Ela correu para o amigo, e ele pensou que quando chegasse a casa encontraria o filho dormindo. Fim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIX

Depois que acontecia com você, quando acontecia com os outros, você dizia foda-se, era o mesmo que um adolescente desesperado para foder uma mulher querer explicar a alguém insensível, como este tipo de problema é mais complexo do que se possa imaginar, assim como depois que sua mãe morre, você não consegue sentir uma dor tão intensa quando a mãe de alguém morre como você sentia antes, pois você já passou por aquilo. Então para você se torna natural todo mundo passar por aquilo. Talvez por isso alguns pais não tenham paciência de ficar consolando os filhos em algumas situações. Então era assim que Enzo pensava. Já Sophie, encarou aquela cena do suicídio do garoto tão novo... como a pior cena do dia. Pois ela se lembrou do quanto às pessoas lutavam para viver nos hospitais, para vir um filho da puta e fazer aquilo, aquela covardia era humilhante. Sophie só pensava que na verdade sentia vergonha da pessoa. Ódio não seria a palavra correta. Ela sabia que o país não só tinha uma pena de morte institucionalizada, ou até mesmo ilegal, já que a maior parte, dos crimes, não era solucionada, e os culpados não eram punidos. Mas aquele imbecil tirar a própria vida! Aquilo era nojento... Enzo também se lembrou de que aquilo era o que mais acontecia nos quarteis. Depois que a cena do garoto com a cabeça encostada no peito e um buraco no ouvido se tornara desinteressante, eles seguiram caminho. Sophie perguntou a Enzo? O que você acha disso? Ele disse a ele, eu acho que ele é um covarde. Como assim um covarde? Alguém que tem medo de viver. Que não tem disposição para resolver os problemas. Sophie disse, é para quem já pegou uma cadeia, e foi para a guerra, até que você tem autoridade para falar... Enzo disse, mas eu não estou falando por causa disso. E sim porque um dos meus irmãos cometeu suicídio. Ela se calou. Não queria falar sobre aquilo. Então quando Enzo entrou com Sophie na rua em que as pessoas urinavam, e que estacionavam os carros, e onde eventualmente faziam sexo. Ele viu um vulto que se parecia com o da mãe de seu filho, aquela vagabunda que o abandonara, e que fora embora com um policial. Mas ela era um vulto em sua mente, alguém que ele sempre via, então volta e meia tomava um susto. Para onde ele olhasse, ele a via, era o cabelo parecido, a voz que o fazia se virar na rua para olhar para trás. Ou mesmo uma mulher nos braços de um cara. Ou o cheiro de um perfume que ele supunha que ela usara. Ele vivia vendo a mãe de seu filho em tudo que era lugar. Era um pesadelo constante que o acompanhava. Então quando ele viu aqueles cabelos pintados de louro chupando uma piroca num beco, ele se lembrou dela imediatamente. E sentiu aquela depressão repentina, com a qual desde que ela fora embora, ele aprendera a conviver. E agora com aquela cara de chapado, e assustado, ele caminhou por dentro da festa do gueto atrás do patrão. Enzo encontrou o patrão numa roda de bandidos. Eles sorriam. Enzo os interrompeu. O patrão perguntou a ele, mas quem é ela? Apontando para Sophie. Enzo respondeu, é uma amiga minha... Ele disse para aquele patrão sem rosto. Para o qual as pessoas evitavam encarar, mas com o qual elas voltam, e meia se viam obrigadas a cruzar o olhar. Tenebroso. Sinistro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVIII

As luzes. Os barracos. As pessoas andando de um lado para o outro. Viciados em crack se misturavam as outras pessoas no descampado de terra. E aos porcos. Existia um comércio que girava em torno dos viciados e que movimentava todo o gueto. Mas aquilo tudo só existia por causa da conivência de alguns policiais que eram pagos com suborno, e que sabiam aonde encontrar o esquema, mas que graças a deus não iam lá. Pois também tinha medo que alguém no meio daquela confusão puxasse um revólver, e resolvesse atirar, seria pior. Ainda mais quando estavam de moto. Mas o comércio da droga era livre. A feira. E Sophie pensava, não há outro jeito de se conseguir erva, então vamos nós. Tinha que ir aquele campo minado para fumar um. Logo assim que eles embicaram o carro em direção à tendinha a qual Enzo apontava e que alguns homens se espremiam para entrar num minúsculo banheiro, para urinar, numa rua que estava toda suja, mas que assim mandava o protocolo... Eles desceram do carro. Enzo pôs a mochila nas costas e disse a Sophie, fica tranquila. Sinta-se em casa. A área é nossa. Das caixas de som, estouravam um rap, num volume altíssimo. Bandidos circulavam armados como soldados em quartéis. Exibiam suas armas. Roupas. Cordões. Relógios. Bonés. Telefones. Drogas. Armamento. Amizades. Mulheres. Tudo que desse a eles algum status, e que os colocasse dentro de um conjunto de valores que os levasse a ser algo, não com as coisas, mas a partir delas, pois eles pareciam se legitimar a partir do que tinham. Mesmo que fosse um poder irrisório, ou um castelo de areia que a qualquer momento poderia desabar. Diferentes destas construções antigas que parecem lego que se encaixam uns nos outros. Com agruras infalíveis. Assim como pequenos passarinhos que constroem seus ninhos feitos de uma engenharia complexa, e provavelmente impossível para as mãos humanas. Logo que entraram viram uma aglomeração próxima a um poste. Numa rua com iluminação precária. Alguém estava encostado. Quando eles se intrometeram no meio da roda, para ver o que havia acontecido, deram de cara com uma cena chocante. Chocante para quem? Enzo perguntou. O que foi? O cara disse, ele se matou com um tiro no ouvido. Enzo tinha um caso de suicídio na família, e uma dúzia na guerra. Então para ele aquilo fora indiferente. Ele, por exemplo, se perguntava se no mundo todo, não morriam por dia, mais pessoas que cometiam suicídio, do que pessoas assassinadas. Então para ele aquilo era só uma maneira covarde de se morrer, assim como desertar no meio de uma guerra, ou negar fogo no gueto quando a polícia viesse. Ou delatar os amigos. Depois que seu irmão cometeu o suicídio, incrivelmente ele passou a considerar que qualquer pessoa poderia fazer o mesmo, em várias situações diferentes, embora tenha visto aquilo diversas vezes, inclusive na cadeia. Ele passou a perceber que aquela atitude estava mais entranhada na sociedade do que ele imaginava, pois assim que o seu irmão morreu. Ele passou a contar os números de suicídios de que ouvira falar, que tivera notícias, e na verdade eles só faziam aumentar. Então depois de seu irmão ter morrido daquela forma. Por mais que aquela fosse uma das maneiras mais escrotas de se morrer, e que mais doessem na alma e no espírito daqueles que ficavam.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVII

Mas pelo pouco que ela havia visto, Enzo quebrara o pé de uma mesa, e partira para cima do senhor com cara de japonês, exigindo a ele que esvaziasse o caixa. Foi o quê o velho fez, mesmo assim Enzo deu lhe com o pé da cadeira em sua perna. O quê fez o velho se curvar de dor. Enzo ouviu como se um osso fosse quebrado, fraturado. Sophie ligou o carro, e abriu a porta do motorista para ele. Ela perguntou a Enzo passando o baseado para ele, o quê você fez? Ele disse, eu roubei aquele velho filho da puta para que a gente pudesse comer um hambúrguer, e tomar um refrigerante num lugar decente. Ele se referia como lugar decente aquela rede de lanchonetes famosa no mundo todo. Aí ele ganhou uma batata frita, e depois pediu um sundae. Depois que eles comeram, ele foi até o aparelho que tocava música. E colocou uma música daquela banda que era considerada a maior banda da história do mundo. A maior banda de rock. Eles saíram. Ele disse a ela, ainda quer ir ao gueto? Ela disse, sim. Ele disse a ela, e digamos que eu não seja uma boa companhia. Se eu achasse isso já tinha caído fora. Sophie disse na lata. O velho me disse que a câmera estava me filmando. Eu perguntei a ele, mas e daí? Por quê? Eu estou mais bonito? Era a eterna certeza de impunidade. E a loucura de entrar numa escola atirando. O carro de um bêbado maluco em sua direção. Alguém da sua família que pode ser estuprado por um policial da pior espécie, como disse Sophie. Ou ser filmada trocando de roupa por algum tarado. Ou ser filmado no ato sexual por algum tarado desocupado. E depois de alguns minutos quase que ao vivo o seu ato sexual para o mundo inteiro. O mundo inteiro vendo você foder. Enquanto você decide se vai se matar ou não. Pois sabe que a partir de agora todo mundo que olhar para a sua cara vai se lembrar disso. Você tem que encontrar alguma motivação para que se mantenha viva. Ou de um policial que está sendo filmado por uma câmera instalada em sua própria viatura, ou arrastar alguém até a mala de um carro. Ou quem sabe ser filmado pouco antes de cometer um assassinato, ou aproveitar a câmera para ser filmado roubando um cordão, ou quem sabe terminando de matar de executar alguém, e depois aparecer sorrindo. Era com esse tipo de coisa que todo mundo naquele lugar maluco, naquela cidade maluca, tinha que lidar... Com aquela pobreza de espírito e aquele egotismo que só faziam arrastar todo mundo pro mesmo buraco, onde os ricos eram uns imbecis que não investiam nos pobres, e os pobres eram uns idiotas que não acreditavam em si próprios, então ficavam as ordens desses ricos imbecis, e que ao invés de lucrar, perdiam com toda desgraça do país, e do mundo... O mais bizarro de tudo era que os pobres pensavam igual aos ricos. Sophie perguntou a Enzo: porque você não consegue deixar de ser bandido. Ele diz, não consigo encarar esse mercado de trabalho. Sophie disse, mas e se você estudasse? Ele diz, eu não gostaria de ter uma gravata me sufocando. Mas hoje eu prometi a mim mesmo que eu vou entregar essa cabeça, e cair fora dessa vida de crime, hoje é a minha despedida... É algo que já está decidido. Quando eles viraram na primeira rua do gueto, que ficava perto de um valão. Por ali passavam uma porção de viciados. Já conseguia se ouvir o som alto.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XVI

Enzo diz, catando a maconha do chão, está liberado... Ali devia ter no mínimo uma de cinquenta. Ele senta no carro, e joga a maconha para Sophie, ela diz a Enzo, cara, se você soubesse a vontade que eu estava de fumar um baseado... E começa a desfazer a maconha com as mãos e a tirar as sementes. Sophie diz, está verdinha sente o cheiro... Enzo diz dirigindo. O cheiro está bom, hein Sophie... Devia ser a primeira vez que ele a tratava pelo nome. Pelo menos era o que ele havia pensado. Eles começaram a fumar o baseado... O rapaz foi embora pensando que há essa hora, era para a menina que estava estar recriminando o rastafári pelo que ele havia feito. Mas se ele realmente tivesse prestado atenção ao que Enzo havia dito, ele teria percebido que a reação de Sophie havia sido completamente indiferente. Como alguém que tivesse uma depressão que o deixasse prostrado, e sem reação diante do oficial de justiça com a ordem de despejo, assistindo na mais completa paz todos os seus pertences jogados no meio da rua pelo governo que suspostamente era seu empregado. Destarte, ela tivesse na verdade sentindo enfado, como se aquela cena lhe fosse algo bastante familiar. Ela devia usar a mesma frieza que usava para virar braços em hospitais públicos. A mesma frieza que os professores usavam com as crianças de escolas públicas, quando faziam greve ou tinham que se deter diante de algum retardado mental que não conseguia aprender. A mesma frieza que bandidos, advogados, e deveriam ter em suas profissões. Assim como se existisse um político honesto, que não fosse um ET, ele sofreria. Enzo disse, estou com fome. E Sophie disse, mas já? Nós acabamos de comer. Enzo disse, estou falando de comida de verdade. E Sophie perguntou a ele, forçando um sorriso, no mínimo envolvente. Um sorriso de dentões branquíssimos. Não castigados e amarelecidos pelo café, e pelos cigarros, assim como os de Enzo eram, se é que ela tomava café e fumava cigarros. O que não parecia ser o caso. Sophie perguntou a Enzo, porque você começou a fumar? Para fazer pose, ele respondeu, porque todo mundo que eu andava naquela época fumava... Depois eu passei a gostar. Enzo encostou o carro. Ele saiu do carro, enquanto Sophie dava goma no baseado, e tossia... Enzo seguia em direção ao boteco que existia em frente... Enzo entrou no boteco. Puxou o revólver. Sophie conseguia perceber parte do que acontecia lá dentro, mas não conseguia precisar toda a história. Toda a ação. Se tivesse que testemunhar, sela fosse chamada para depor...  Assim como aquelas testemunhas imprestáveis que só fazem retardar o trabalho dos outros. Sophie se lembrou de um fora da lei, um estuprador, que o seu retrato falado não era em nada parecido com a sua estampa verdadeira. Sophie pensou em quantos inocentes apodreciam na prisão. Em quantas bruxas eram queimadas nas fogueiras injustamente todos os dias por causa de alguma fofoca mentirosa. Quantos bodes expiatórios haviam sido mortos. Chutados. Pisoteados. Linchados até a morte. Para que nós tivéssemos alguma satisfação ao saber que alguém estava pagando por existir um monstro que nós mesmos havíamos criado, era simples assim. Ponto. E da porcaria do estado democrático de direito... Assim como a democracia que só existia em alguns casos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XV

Ou como não mijar numa rua em que o prefeito não coloca um banheiro. Ou pagar uma propina num estabelecimento público que é bancado com o seu dinheiro. Mas ninguém percebia isso, e achava que contravenção era só droga, maconha, e que o álcool, assim como os remédios controlados, era saúde. Assim pensava a maioria das pessoas, e era mais provável que elas comparassem a maconha ao cigarro, e ao crack, mas ele que tinha irmão acidentado, suicida, assassinado, alcóolatra, todos eles tendo como característica o fato de serem negros, e pobres, sabia muito bem diferençar as coisas. Aos poucos Enzo foi desistindo de conseguir algum trabalho ilegal, porém honesto. Como por exemplo, trabalhar como ambulante. Numa barraca de feira. De chapa, descarregando coisas de caminhões. Ou como flanelinha vigiando os carros. Já que não dava para sobreviver com o dinheiro que ganhava por terem fodido com sua cabeça na guerra, não dava para sustentar a casa... Não conseguia ouvir o seu filho dizendo. Eu quero pão, papai... Se ele pudesse trocar aqueles anos da guerra, e de prisão pela morte... Mas não podia morrer nem ser preso novamente, pois agora existia o seu filho. Ele trocaria. Enzo não tinha nenhuma dúvida disso. Para pestanejar a uma proposta dessas teria que ser alguém anormal. Ele lembrou-se do amigo dizendo, cara, vai devagar... Você vai passar mal... Você acende um baseado atrás do outro. Enzo perguntou para o amigo, você acha que isso é sequela da guerra? Ou da prisão? O amigo disse, não. Respondeu, apenas. Eu não quis dizer isso, eu quis dizer que tem mais maconha aqui. Não precisa se preocupar, sacou? A maconha não vai acabar não! Quando Enzo viu o cara na calçada ele fez sinal para que Sophie encostasse o carro. Puxou o revólver. Foi abrindo a porta, e pulando com o carro em movimento... Ele mostrou exatamente a mesma carteira que puxou para os policiais. E jogou o cara com um estilo que era uma mistura de hippie moderno, e roqueiro antigo, contra a parede. O cara disse a Enzo. Qual é cara, qual é o problema? Cadê o baseado... O quê foi cara! Você não é policial... Você não tem cara de polícia! E polícia tem cara, seu veado! Ele aponta a pistola para o cara que diz, o único dinheiro que eu tenho é esse... O cara amassa as duas notas que havia acabado de tirar da carteira para dar a Enzo. Que diz entredentes, eu posso estourar os teus miolos, seu filho da puta! Cadê a porra da maconha? Eu sei que você está com a porra da maconha! Cara, esse é o único dinheiro que eu tenho... Enzo deixa o cara falando sozinho. Vai até o carro. Tudo isso é assistido por uma Sophie boquiaberta. Enzo pega a mochila que está na poltrona do carona, joga pela janela. Leva a mochila até o rapaz, com olhos brilhantes como diamantes. Tira a cabeça de dentro da bolsa, e olha para o pastiche. Patife. E pergunta pausadamente, enquanto o outro termina de abrir a boca demonstrando todo o seu espanto. Hei cara, você quer ficar igual a ele?! Se você quiser... É só me dizer... Enzo exibe a cabeça como se ela fosse uma granada da qual a qualquer momento ele pudesse puxar o pino. Ou um revólver velho do velho oeste do qual pudesse puxar o gatilho. O rapaz enfia as mãos dentro das calças, tremendo. E arremessa uma trouxinha de maconha para fora.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIV

Ele ficou pensando no chão, talvez escrevesse um livro ou tivesse um filho quando saísse da prisão, ou fosse embora da guerra, mas faria alguma coisa. Quem sabe seguir outra profissão como sonhava. Ele sonhava um dia poder ir a um cinema com uma garota. Assistir a um filme qualquer. Sentar numa poltrona acolchoada. Comer pipoca e tomar aquele lindo líquido preto e adocicado que ninguém sabe como é feito. Fazer algo que as pessoas normais podem fazer... Ao invés de ficar o tempo todo escondido nos guetos da vida. Era isso que ele sonhava. Ele não falava nada. Os amigos sonhavam em sair daquele lugar miserável, e sombrio, para matar mais gente. Se vingar em cima de mais gente. Ele, não. Ele queria respirar o ar da noite. O ar da cidade. Urbano. Dos prédios. O espaço vazio, na rua, que mesmo poluído exalava liberdade... Se ele soubesse que a prisão era daquele jeito... Mas isso é o quê todo mundo diz quando chega lá dentro, todo mundo diz que poderia ter ficado na praia, fumando maconha, sem fazer nada o dia inteiro, mas que acabou caindo nas garras do capeta. Sendo abocanhado pela ambição, amordaçado pelo medo, ou pelo tesão por uma mulher. Ou quem sabe pelos três juntos. Ao invés de andar por aí arrumando problemas. Enzo voltou da guerra prometendo largar o crime. E saiu da prisão com a mesma promessa. Em nenhuma das duas ocasiões ele conseguira cumprir com o prometido. Não que ele não pudesse mudar aquela altura do campeonato, todo mundo podia mudar sua própria vida quando quisesse, nunca era tarde... Ele teria mais chances... As coisas chegaram aquele estado por acaso. E venhamos, e convenhamos, ele sempre fizera parte do crime, desde criança, o próprio pai era bandido, e havia passado um tempo na colônia penal. Mas ver o seu filho chorando de fome. Dizendo: papai, eu quero pão... Enzo começou a pegar dinheiro emprestado na boca de fumo para pagar o aluguel, comprar botijão de gás, e quando foi ver estava atrelado aquele mundo novamente. Começou deixando que escondessem as armas e as drogas na hora da fuga, para poder pagar aquele dinheiro que eles o emprestaram, se eles soubessem o quanto estavam fora da lei, agradeceriam a ele, por simplesmente deixar que eles ficassem naquele lugar. Como morador. Pois dar um telefonema anônimo era a coisa mais fácil do mundo. Se ele não fazia isso era porque desde criança fora criado no gueto, e sabia muito bem respeitar as coisas dos outros. Cada um com o seu problema. Era o que diziam. Tudo foi a partir da agiotagem. Assim como os homens sanduíches que andavam na calçada dizendo que vendiam, e comprovam ouro. Tudo aquilo era contravenção. Assim como os jogos ilegais. Uns mais, outros menos, assim como a pirataria, todo mundo de uma forma ou de outra acabava burlando alguma lei. Ou a moral, ou a ética. Vendendo cigarro. Vendendo bebida. Comprando roupas falsificadas, e contrabandeadas. Ao mesmo tempo todo mundo pagava imposto. E ao mesmo tem que todo mundo pagava imposto de uma forma de ou de outra, alguém pagava propina. Passava a frente numa fila. Negava um bom dia. Um copo de água. Mesmo que por timidez, e existiam as leis que eram idiotas, e que cumpri-las, era como ser contra maconha, e fumar cigarro, sacou?

sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XIII

Na cadeia ele vivia com medo de ser atocaiado na cama de madrugada. Mas fingia não sentir medo. Não falava demais. Não via demais. Optou por ter a visão e a audição limitadas. Não atrasava ninguém. Tinha paciência. Estava sempre na sua. Sendo assim os outros presos o respeitavam. Enzo não queria se comprometer com os assuntos dos outros, ele não queria ouvir o que eles tinham a dizer, ele não queria ouvir o que podia ser considerado uma confissão de próprio punho. Alguns ouviam, e na sede de diminuir a própria pena, abriam o bico, delatavam os outros, falavam demais, davam com a língua nos dentes, e arrumavam inimigos para o resto da vida. Outros se empolgavam ao contar as suas peripécias. Por mais interessantes que fosse o quê qualquer um deles tenha feito, Enzo não se preocupava com isso. Preferia o silêncio. Do que exaltar ou contestar seus atos. Ele é que não ia ficar batendo palma para maluco dançar na esquina. Quando alguns deles cismavam de cantar de galo com ele, ele partia a cara do sujeito ao meio, já que fingia ser um cara durão, ter colhões, e todo ódio do mundo, sendo capaz de já ter puxado uma faca, e um vergalhão... Enzo vivia de dar sugestão nos outros. Ele gritava. Dava a primeira porrada. Quebrava prato na parede. Aí o cara tinha que aguentar, e levar porrada até ver estrelas. Ou fugir aos pinotes. Engraçado que no gueto não era tão rígido quanto na cadeia, no gueto, se você quisesse fingir que era bandido podia fingir. Bastava que subisse numa moto, fizesse cara feia, e cruzasse uma arma nas costas. Talvez aos olhos dos outros... Enzo era respeitado por ter uma guerra nas costas... Acreditarem que tinham peito de aço, e que sendo assim talvez não fossem morrer, e acreditavam que ficariam presos com os mesmos caras com os quais se andava no gueto. Ou dos quais se ouvia falar. Mas chegando lá era diferente, porque a questão não era com quem estar preso. E sim, estar preso. Quem nunca havia sido preso, não podia conhecer todo o valor da liberdade... No gueto com uma arma na mão, todos os dias você espera a polícia chegar... Mas como eles não vieram logo no primeiro dia, você logo acha que é fácil e que eles nunca virão, mas quando eles chegam de verdade, é que você passa a conhecer a cadeia, o que é estar preso. Quando e você está na delegacia já sente isso. Não poder se movimentar é horrível, ter as algemas nos punhos, e a cara virada para a parede. Nenhum dos relatos mais vívidos que você pode ouvir no gueto, entre um baseado e outro, são iguais estar na cadeia de verdade... Um pai estrilou quando viu um cara falando do lugar onde o filho estava que aquilo lá não era vida pra ninguém, não... Da mesma forma que alguém saudável, não podia imaginar como era estar doente, se nunca havia ficado doente antes... Daquela vez ele já estava ficando sem ar. Aquele cara em cima de Enzo o estava matando, quando ele, vendo o mundo de cabeça pra baixo, viu o patrão, agachado, ele ia morrer queimado no fogo daquele inferno. No último arzinho que existia. Ele ouviu o patrão dizendo... Eu quero ver até aonde vai à palhaçada de vocês dois, e sentiu aquele braço que o esganava deixar seu pescoço milagrosamente, como se fosse uma cobra que houvesse desistido de dar o bote. E ainda no chão ele agradeceu a deus por sua vida. Não ia morrer no meio daquele inferno sem ter feito nada de interessante na vida.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XII

Ele pensava que agora era hora de fingir para Sophie, assim como ele fingira para outros homens. Ele pensava que diante dos homens mais perigosos, você teria que deixar de sentir medo. Apenas fingir que não tinha medo. Assim como podia manipular a sua vontade, para aquilo que você mais queria, ou melhor, pelo que ele aprendera na guerra, e na cadeia. Que você soubesse escolher o que era certo fazer com o que você tinha. Nas condições em que você vivia, no tempo, no espaço, e com as possibilidades que existiam... A vida fora da cadeia não importava, mais. O que ele iria fazer quando saísse da cadeia, ele ia pensar nisto quando saísse da cadeia. Agora ele teria que viver o dia a dia da cadeia, da melhor maneira, dentro do possível. Ele lamentava não ter aprendido aquilo longe das grades. E ter precisado delas para que pudesse aprender de uma vez. Quando Enzo saísse da cadeia, depois de todos aqueles anos, se o mundo ainda existisse, e ele não morresse lá dentro numa guerra nuclear, sem saber o que aconteceria aqui fora, às vezes ele pensava que só não desejava morrer na cadeia. E que se tivesse que morrer dentro dela que pelo menos morresse com a alma em paz, e não assassinado. Ele pensaria no que com sua liberdade, na cadeia os sonhos não podiam substituir a realidade, pois eles sempre encontravam os muros, grades, as cercas, e os arames farpados. Nem divagação, nem ilusões, elas existiam, mas não podiam contaminar todo seu pensamento, você tinha duas opções na cadeia. Aceitar. Ou aceitar. Então você tinha que viver de maneira objetiva. Se quisesse continuar vivo. Usar o lado prático e racional. E não ser guiado por nenhum tipo de emoção que pudesse contaminar o seu pensamento, como pena e ódio. Igual daquela vez em que Enzo no auge de sua juventude se vira arrastado para a guerra. Assim como um dia quando criança, acordara com a sua mãe gritando, e pedindo a ele que acordasse, e corresse, pois a casa estava pegando fogo. É como estar doente. Como daquela vez que ele fora internado num hospital público do centro da cidade do campo que um dia pertencera à família real. Ele chegou ao hospital para uma consulta, e o médico disse que teria que ficar por lá. Assim como de repente ele se vira embarcado para uma guerra que ele não provocara. Por mais adolescente que essa rebeldia pudesse parecer. É como estar na guerra. É como ser pobre, e preto. É como viver, pena que alguns tenham que passar por tudo isso, como eu passei para aprender já tão tarde. Hoje eu teria feito tudo certo, Enzo pensava. Teria feito tudo que me pediram. Teria sentado lá, calado a boca, e copiado todo tipo de porcaria que eles passavam no quadro, teria passado para o lado deles. Antes que eles me declarassem como inimigo. Pois se você se tornar inimigo deles, saiba que está frito. Eles vão de jogar você no ostracismo. O problema é que eles, assim como o governo, são nós, e assim, como deus, ou sociedade, então na verdade fica muito difícil saber quem é o verdadeiro culpado dessa bandalheira toda. Mas sejam eles lá quem ou o quê eles sejam, e isso inclui você, voluntária... Ou involuntariamente, eles vão te excluir, e te tratar como um inútil, pois é assim que as coisas são, e tudo indica que continuarão assim por um bom tempo... E sim fingir que ele não existia. Disfarça-lo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo XI

Ele disse que por ele nem existiriam nem armas, mas que para que isso acontecesse tolos como aquele, nessa hora ele balançou a mochila com a cabeça da vítima. Não poderiam existir. Sophie perguntou a Enzo, se ele acreditava que se podia chegar à paz através da guerra. Ele disse que não. Que não poderia acreditar nisso. Mas que era assim que se agia diante da violência do outro. Sophie perguntou a Enzo se ele não pensava que violência gerava violência. Ele disse que sim. E que bastava observar o ódio de quem havia acabado de sair da prisão, alguns, não todos. Mas ele disse, eu matei esse cara, porque senão ele ia matar mais gente inocente. O meu trabalho é igual ao do seu pai. Ela se calou. Você sabia que ele era um policial. Ela diz, sim, eu sabia, eu sabia que ele era um policial igual ao meu pai. Só que bem diferente do meu pai, ele era um asqueroso. E bem diferente do meu pai, ele era um assassino. Não um assassino assim como você... Digamos... tipo, vingador. Ele diz, eu acabo com a vida de quem merece. Ele se meteu com garotinhas. O meu pai não é igual a você, e muito menos igual a ele, Sophie disse com o dedo em riste. E se você quiser me matar, me mate agora, pois eu não vou mudar uma vírgula do que eu estou dizendo. Por mais clichê que isto seja. Ele olha para os carros, e diz a ela, um dia vão ter que acabar com essa porção de carros, na sociedade do futuro não vai existir nada disso, engarrafamentos. Ninguém sairá tão apressado. Ninguém vai trabalhar com o que não gosta. Ninguém vai passar o dia inteiro num lugar que não gosta, fazendo o que não quer. As escolas serão abertas, e irão educar as pessoas para a vida. As cidades serão planejadas melhor, e o nosso contato com a natureza será mais intenso. E mais harmonioso, e todas as cidades serão projetadas de maneira a interagir completamente com a natureza, serão extintas as fronteiras, e as diferenças, ela diz, e papai Noel vai aparecer todo natal para nos visitar... E deus vai proteger as criancinhas. Qual é cara, acorda! Nada disso vai acontecer. Qualquer um diz esse bando de coisas bonitas. Não vai acontecer nada disso, porque a maioria não vai fazer nada para que isso aconteça. Falou? Nem você está fazendo nada para que isso aconteça. O que mais impressionou Enzo foi o tom da voz de Sophie. O mesmo tom que ouvira na cadeia com os homens frios, com os quais ele fora obrigado a conviver. As piores criaturas da face da terra. Capazes de esmagar um ser humano igual se esmagam uma formiga, ou uma barata. E outros que haviam entrado no crime enganado, como se ele fosse algum parque temático famoso, para depois descobrir que fora enganado, e que havia pegado o caminho errado, e o pior caminho de todos, que é ter o pior inimigo contra você, que é o governo. Pois o governo pode tudo, ele entra na sua casa e estupra a sua família se ele quiser e fica por isso mesmo. Enzo tinha que fingir que tudo bem. Que todos os presos estavam na mesma. Na cadeia ele fingia que era uma coisa que ele não era, a sua vida é toda baseada em fingimentos. Se ele fosse tão homem assim, como ele fingira na guerra, onde apenas se preocupava em alcançar seus objetivos sem pensar, postura que passara a adotar em sua vida.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo X

A cadeia e a guerra são assim, e não é possível que o inferno seja pior. Aqui se faz. Aqui se paga. Lugar onde filho chora. E mãe não vê... A gente vive de teimoso. Porque se emociona com a porra de um pôr do sol no fim da tarde. Só por isso. Antes disso eu também havia experimentado enterrar um irmão, eu vivo num lugar em que o cara que matou seu irmão entra no mesmo bar que você para comprar cigarros, e você não pode fazer nada, porra. Todo mundo sabe que aqui não existe estado democrático de direito. E todo mundo sabe que ele matou seu irmão. Inclusive você. Sophie pergunta a Enzo: e o que aconteceu com o cara que matou seu irmão? Ele olha para frente. Ele apareceu morto. É como se agir de maneira diferente fosse contra as leis do lugar. Já o carro do meu outro irmão se chocou com um caminhão numa estrada. Outro morreu de tanto beber. E outro babaca cometeu suicídio. Mas não gosto de ficar falando dessas coisas. Então eu já estou acostumado. Não ligo, não. Pode ver que eu fico com essa cabeça aqui no colo, mas nem ligo. Porque eu sei que o que existia de ruim aqui neste corpo, não existe mais. Já saiu. Sophie pergunta a ele: você acredita na existência da alma? Em vida após a morte? Essas coisas. Enzo diz que sim. Eu acredito. Ele acredita. Então ela pergunta a ele para onde ele acha que pode ter ido à alma daquele homem que ele matou. E quando ele responde a ela para o inferno, ela pergunta se ele acha que deus também vá manda-lo para o inferno, já que ele matou alguém. Enzo diz que fez justiça com as próprias mãos. E que pelo menos deus é a favor da justiça. Sophie pensa que Enzo mantém muito de seu lado animal. Mas ela não comenta nada com ele. Ele diz que não se importa. Pois deus está vendo que aquele que ele acabou de matar abusava de meninas mais novas. Então ela pergunta a Enzo se ele acha que para deus existe diferença de um crime para o outro. Ele diz que existe, sim. Ele diz que já matou outros homens, como se não precisasse ter matado esse para se apoiar no que dizia. E que sim. Deus sabia que o outro era um safado que abusava de menores. Ela perguntou a ele, se ele considerava a morte de uma criança, ou o estupro de uma mulher uma covardia, ele disse que sim. Que a criança não podia se defender. E que no caso da mulher. Ninguém podia obrigar ninguém a fazer o que não quisesse. E indagado sobre a morte de um velho, ele disse que sim, que também era covardia, pois um velho não tinha forças para se defender. Ela perguntou a ele se ele iria parar de matar. Ele disse que sim. Que aquilo não era vida para ele. E que logo assim que ele arrumasse um bom dinheiro. Ele iria pegar o seu filho, e cuidar de arrumar uma boa mulher, que fosse companheira, e o ajudasse a educar seu filho melhor do que aquela vadia da mãe dele. Na verdade aquela morte era uma questão de honra. Sophie perguntou a ele sobre os soldados que ele havia matado na guerra. Ele disse: na guerra, você, apenas, obedece. Mata para se manter vivo. E não que eu odeie o outro. Aquele que eu mato. Um babaca pode até pensar assim. Mas um soldado consciente, normalmente odeia quem o enviou para a guerra, mais do que a todo mundo. Na guerra você vai sem querer. Não importam os motivos. E num lugar onde o serviço militar é obrigatório, isso é um inferno, você é obrigado a servir a porcaria do seu país, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IX

Você percebe que quem está morto é você, que vai ficar preso lá dentro. Imagino os sofrimentos dos homens que são presos injustamente, deus que me perdoe, mas são uns poucos seres que são expostos ao pior tipo de sofrimento, que é a vingança da prisão, sem ter feito absolutamente nada. Era nisso que eu pensava quando eu estava preso. Na verdade eu sentia mais pena deles, do que de mim, que eu sabia que eu havia me jogado lá dentro. É uma insanidade que teria que ser evitada a qualquer custo. Se o ser humano deixasse o seu lado animal um pouco de lado quando necessário... Por causa da guerra surtei com o país, fiquei revoltado, fui roubar... Aí eles me pegaram, num dia que eu não ia sair para roubar, mas que o meu filho precisava comer. Nossa você nem me disse que tinha um filho... Enzo diz, eu tenho, olha aqui a foto dele... Ele disse a ela, eu tenho um filho. Acende a luz do salão de novo. Olha a foto dele. Enzo mostra a foto na carteira. Um dia eu vou largar essa vida que eu levo por causa dele... Teve uma cantora que fez isso, largou tudo para cuidar do filho. E uma atriz que largou tudo porque tinha síndrome do pânico. Uma atriz até famosa... E como é ficar preso? E ir a guerra? Os olhos de Enzo estavam vidrados, os de Sophie também. É como ir para o inferno. Imagina estar no inferno. É assim que é estar na guerra, é como estar preso, e estar preso é a mesma coisa que estar na guerra, não sei como acontece com os outros países, mas aqui a cadeia é assim. Todos os dias você tem que agradecer por ter visto o sol. Na guerra é assim também. Sophie pergunta a Enzo, e como é que você fez para sobreviver a toda essa loucura? Enzo diz. Da mesma forma que você faz para sobreviver à loucura do seu trabalho. Eu fui vivendo. Enzo pergunta a Sophie, e como você lida com os mortos no teu trabalho. Eu passo por essa lavagem cerebral pela qual todo mundo que trabalha com saúde e segurança é obrigado a passar. Porque senão acaba surtando. Ficando deprimida, ou alguma porra dessas. A cadeia é um pesadelo. Eu sempre fui pobre. No primeiro barraco em que morei, na primeira favela em que eu morei, tacaram fogo nela de madrugada, nos barracos de madeira, a gente estava dormindo. A gente morava numa invasão. Chão de terra, e barraco de madeira. Foi um incêndio criminoso, todo mundo sabe que foi um incêndio criminoso, isso vive acontecendo, mas eles não dão a notícia assim... Eles sempre dizem que vão investigar quais foram à causa do incêndio. Para eles deve ser tão vergonhoso admitir isso, como deve ser para uma família admitir que um suicida pusesse fogo as vestes. É tão vergonhoso para o governo, para o sistema, que somos nós, mesmos, quanto um parricídio. Ou aqueles suicídios que se dão como forma de protesto. Mas em nenhum momento aventaram a possibilidade de alguém ter provocado aquele incêndio. Eu tive que passar por dois infernos, pelo inferno do fogo, e pelo da água, que era na época das enchentes no verão, em que todos os anos nós perdíamos tudo, e tínhamos que reconstruir tudo de novo. Naquelas enchentes. E vizinhos nosso que moravam mais próximos ao barranco, morriam. Sabe tudo isto que estou contando aconteceu no antigo gueto do mercado, que não existe mais... De noite tacaram fogo em alguns barracos, eu ainda ouço o crepitar das chamas.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VIII

Não sei como ainda consigo me orientar nesse mundo de meu deus... Acho que é por ter vivido nas ruas, ser pobre e preto, ter ido para a guerra, e ter visto pessoas pisando em minas terrestres e voando ao meu lado. Tendo um dia pela frente, eu viveria até o final do dia, e estando atrás de trincheiras, e visto, valas cheias de corpos, acho que isso te faz nivelar as coisas sempre por baixo. Faz-te comparar tudo por baixo. Enzo pensou e depois disse, já tendo o policial distante, que nem figurava no retrovisor. Igual você, depois que passou a trabalhar no hospital. Eu tenho essa mesma sensação de que ainda estou vivo. Ainda me deixam respirar. Ainda me deixam existir. Só não sei até quando. Mas eu estivesse nesse hospital de guerra que você fala, nesse hospital de filmes de tevê, e já fiquei internado em hospitais como esse que você trabalha. Ela pergunta a ele, como é ficar preso? Você quer saber como é ficar no calabouço? Sinceramente, todo mundo tinha que fazer de tudo para não ir parar naquele lugar. É horrível, é uma coisa horrível, a solitária, ter que dar metade da comida azeda para os ratos, e comer a outra metade, é horrível... Ela pergunta, e para onde você foi primeiro... para a guerra ou para a prisão? Enzo diz, para a guerra, eu fui preso depois que voltei da guerra. Eu fiquei cinco anos na guerra. Cinco anos na prisão. E desde que me conheço como gente sou um preto do gueto, que precisa roubar para poder comer, roubar em todos os sentidos. Puxar o tapete dos outros antes que eles puxem o meu. É assim que nós pensamos. Sophie diz, acho que a gente não consegue perceber que somos apenas uma bactéria num corpo. Que não temos importância alguma. Na guerra é que você vê a falta de importância da vida para o mundo. E na prisão sabe, na prisão é onde você conhece o sofrimento. Na prisão você aprende a valorizar a liberdade, a vida, ou você aprende isso, ou você morre lá dentro. O teu espírito morre. Pois a prisão neste país é feita para isso. Para foder com a vida do sujeito. Prisão é pau no cu! Mas é como aquele cantor de rap disse, a prisão fazia parte do crescimento dele como homem, todos esses rapazes assim como eu, já foram presos, envolvidos com o crime, e suas mães eram empregadas domésticas. Ela diz, eu gosto mais de rock. Falo dos verdadeiros rappers, não dessa falsificação que existe por aí. Sophie pergunta a Enzo, mas você já havia ido à guerra, porque achava que a prisão fosse te ajudar em alguma coisa? Na verdade eu não achava isso, todos os meus amigos já haviam sido presos. Então eu achei que se eles podiam passar por aquilo eu também poderia. Eu havia passado pela guerra. Mas o problema da cadeia é que ela é igual à guerra, você vai pra lá pensando que é uma coisa, e por mais feio que pintem a guerra, quem já foi, chega lá é algo pior do que você podia imaginar. Isso aconteceu comigo quando fui preso. Por mais que eu tivesse encarado a guerra antes, percebi que a prisão era tão ruim quanto, talvez até pior. E que nenhum ódio, nenhuma frustração, merece que você vá parar naquele lugar. Talvez você até faça coisas para ir parar naquele lugar. Mas quando você chega lá. E sinceramente percebe que quem você matou já está morto. E provavelmente livre de qualquer sofrimento. Por mais que os seus parentes ainda sofram.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VII

Nem vem que não tem cara pálida! Enzo disse a Sophie, gente como o seu pai, matou ao meu pai, e matou meu irmão. Enzo disse: você fala como se conhecesse bem o assunto. Como se tivesse ficado presa. Ela pergunta: você já ficou preso? Ele responde, sim. Por quê? Você já ficou? Ela diz, não. Eu não. E sorri. Porque você ri de tudo? Ela diz, além de ser filha de policial, eu sou uma simples enfermeira. Eu queria ser presa por causa de política. Numa passeata... Queria ser arrastada. Aparecer na televisão. Virar um mártir de uma passeata, e ter o meu nome rodando na internet. Tentei isso durante todo o tempo em que estive na escola. Não deu certo. Nem jogado Malvina em carro de polícia. O máximo que consegui levar choque, cacetada e spray de pimenta na cara. E o pior é que mesmo filmado, não era nada em vista do que estava acontecendo naquela época. Havia coisa mais quente. Eu entendo de morte porque sou enfermeira num hospital que é um verdadeiro açougue. Vejo pessoas morrendo. Você sabia que a febre tem um cheiro diferente. Enzo fica olhando para a cara de Sophie. Tudo bem. Eu acredito que o seu pai seja policial. Então sendo assim ficaria um pouco mais difícil para que eu fosse presa, ou qualquer coisa do tipo, pois não trabalho com nenhuma contravenção. Ele diz, eu também não, quando eu estou em trabalhos temporários, trabalhando de pedreiro, eu deixo tudo isso pra lá, o meu negócio mesmo é a grana. Pra você ver. Eu quase não uso droga. A não ser os meus remédios, mesmo, que eu tenho que tomar. E que todo mundo pensa que é remédio de maluco, neste país as pessoas são muito atrasadas, elas não sabem que ter depressão, não é ser maluco, e que depressão não é doença de fresco, e nem de rico. Ela pergunta a ele, será que vão descobrir a cura para a depressão? Ele diz: pouco provável. Mas eu sou doido mesmo. Tenho esse cabelo. E tomo remédio. Vamos, acho que vai ser uma aventura andar com você, diz Sophie dando uma tapinha no ombro de Enzo. Quando Enzo disse a Sophie, não fique nervosa, aja como se nada estivesse acontecendo. Diminui a velocidade. Acende a luz do salão, por favor. Isso. Eles vão parar a gente. É só não gaguejar... O seu pai é polícia, eu sou o seu amigo da faculdade. Eu sou combatente veterano. Da primeira infantaria. O policial põe a palma da mão para baixo pedindo a ela que diminua a velocidade e pare. Enzo para. O policial chama Enzo que desce do carro. Enzo diz a ele, chefe, eu sou combatente, veterano da guerra, ele mostrou o documento. O policial perguntou: tudo certo com o documento do carro? Ele disse ao policial, tudo certo com o documento do carro, o pai dela também é policial... Ele aponta para o carro. Ele também é da casa... Aponta para o distintivo. O policial diz, não dá pra deixar o do café? Enzo diz, não. Eu realmente não tenho, e o café ultimamente está muito caro... Você há de concordar comigo no quanto o café está caro... Qualquer compra que se faz no supermercado leva todo o dinheiro da carteira. Eles vivem dizendo na tevê que a economia melhorou, melhorou pra quem? Eles pensam que eu me importo com aqueles gráficos que eles exibem nos jornais. Eu mal entendo aqueles gráficos! Não sei nem dizer os nomes das capitais desse país. Sou péssimo em geografia, na língua, em história, em matemática, em tudo!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo VI

Porque um cara o pegou aqui... Num gueto próximo a tua casa, mas aí eles ligaram pra avisar a gente que ele estava em poder deles. Se fosse por mim eu teria picotado ele todinho no machado, que eu gosto de usar o machado, parte por parte, pedaço por pedaço. Ele morreu com um tiro na cabeça. Podia ter matado ele com mais requinte, deixa-lo no sol sofrendo, igual os romanos faziam antigamente, ele teria uma morte bonita. Mas essa morte que ele teve foi fácil. Mas esse tipo de cara quando cai no sistema, vira mocinha na cela, eles enfiam até cabo de vassoura no rabo dele, você sabia que nesse país quem manda na cadeia são os presos? Não tem esse negócio de carcereiro, não. Carcereiro é só o cara que vai levar as notícias ruins aos presos. Quando disse que ia levar a cabeça dele, eles não acreditaram, eles pensaram que eu ia até lá só para me certificar de que ele já estava morto. Mas aí eles disseram que não havia necessidade, pois eles iam mata-lo. Eu tinha certeza disso. Mas quando eu disse que eu ia até lá arrancar a cabeça dele, quando eu disse isso pelo telefone, eles pensaram que eu estava brincando. Então quando eu arrastei o corpo dele de dentro da vala para poder arrancar a cabeça dele... Durante todo esse discurso, Sophie se manteve imóvel olhando para Enzo, como se tivesse tomado uma droga poderosa que lhe desse essa catalepsia, e quando Enzo falava de seu morto, o balançava, ou seja, balançava a cabeça o que sobrara do inimigo. Ele disse, mas o tiro valeu a pena, aliás, você sabe que um tiro com endereço errado pode desencadear uma guerra mundial. Eles não acreditaram. Nem quando eu pedi um facão emprestado. Sophie disse a Enzo, você pode guardar essa coisa? Ele perguntou a ela? Você está com medo? Ela disse lógico que não... Eu tenho medo é que alguém veja isso, não quero ter que me aborrecer com meu pai. Sophie disse a Enzo, que se dane, eu conhecia esse babaca... Eu também não gostava dele. Enzo sente sinceridade em sua voz. Ele se metia com meninas muito novinhas. Ela diz. Ele percebe um brilho em seus olhos. Enzo diz a Sophie: você ainda quer ir lá comigo, ela diz, sim. Hoje é meu dia de fumar um baseado! O meu trabalho está uma merda. A minha vida está uma merda igual à vida de todo mundo. O tempo que se leva para chegar ao trabalho. O ar que se respira. Toda a poluição visual, e sonora... A sujeira das ruas. A miséria estampada na cara dos mendigos. A loucura tatuada nos rostos dos viciados em crack. Não é essa cabeça que vai acabar com o meu final de semana... Ele já está morto, mesmo... Diferente de mim que preciso viver. E de mais a mais, trabalho com gente morta o tempo todo. Com todos os tipos de mortos. Mortos vivos. E mortos de fato. Não vai voltar. Nós que estamos vivos é que temos que nos preocupar com a morte. Eles, não. A vida já era para ele. Eu sou enfermeira num hospital público. E não se esqueça de que o meu pai é um policial. E não pense que eu estou com medo de você por causa dessa segunda afirmativa. Porque eu sei que se você quiser me matar, você vai me matar. Então não faz diferença. E além do mais, prometi a mim mesma, que nunca imploraria por minha vida. Caso não estivesse errada. Então não vou implorar por minha vida, caso você resolva que o simples fato, de eu ser filha de um policial, represente o que há de pior na polícia, e queira se vingar disso em cima de mim. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo V

Ele que passara a pior época de sua vida num... Sabia muito bem disso, quem sentia ânsia de vômito, ou vomitava por causa de uma bebida mais forte, como uma porcaria de licor de menta qualquer, não podia beber a água barrenta da guerra, quem com um simples balançar de ônibus sentia o estômago embrulhar, quem não podia ver sangue, nem ver os corpos dos amigos metralhados, ou quem sabe ver a cara de um soldado momentos antes do seu corpo voar pelos ares, com toda diligência, as pessoas fazem um olhar triste pouco antes de morrer, os soldados movem o rosto para o lado. É como se virassem crianças. Tem mãe que se mata quando fica sabendo que o filho morreu assassinado na guerra. Mas se ela visse a expressão que todos eles fazem antes de levar um tiro, iria abrir uma cratera em seu coração. Segundos antes as pessoas sabem que vão morrer, mesmo quando não são avisadas. Igual àqueles gatos que se posicionam atrás da porta antes do dono chegar. Dos elefantes que se afastam para morrer. Ou dos macacos que se protegem com as mãos antes da pancada, e que se parecem conosco até no momento da morte. Eles têm a mesma expressão. Deve ser uma proteção a dor, como algumas pessoas que sofrem acidentes e acordam no hospital sem ter sentido dor. É igual à esperança de se encontrar com alguém depois da morte. Ou morrer dormindo feito um passarinho. Enzo assistiu Sophie colocar para fora o resto de suas tripas, e voltar caminhando em sua direção. Ela se sentou no carro. Ela devia ser o tipo que não aguentava o sol em cima do corpo, nem pôr os pés na areia da praia. Ele perguntou a ela, meio que brincando, meio que sério, até porque quando dissesse quem era ele na televisão ela logo o reconheceria, e o delataria por qualquer recompensa. Então era bom saber se existia alguma possibilidade dela desistir dessa idiotice. Mas para descobrir se ela iria fazer realmente, isso, Enzo não precisava de nada mais, nada menos, que conversar com ela olho no olho. Sophie se sentou no carro, e fez uma expressão de quem havia passado. E no seu olhar não havia nada que denotasse medo, aquilo era só parte da aventura, mas, uma mulher histérica dela teria gritado feito uma vaca. Ia abrir a porta, e dar no pé correndo no meio dos carros. Ele teria que dar um tiro nela antes que ela alcançasse o outro lado da pista, e conseguisse fugir, ou fosse atropelada por um automóvel. Na esperança de contar o quê viu. Alguém que se chocasse com uma cabeça cortada, logo ia querer fugir. Mesmo porque Enzo era capaz de identificar o milímetro esgar de nojo no canto da boca de muito bandido considerado excessivamente frio em suas ações... Como aqueles que mereciam uma medalha por roubar um banco desarmado e se fazendo passar por funcionário do banco. Ele ganhava todo mundo na expressão. Teriam que ser aproveitados pelo governo. Assim como eram aproveitados os hackers. De uma dondoca então... Nem se fala! Era como se eles se perguntassem. Cara, porque você fez isso? Ele disse, ele havia comido a mulher do patrão. Ele já havia aprontado pra cima de mim, também... Então quando telefonaram lá pra área, dizendo que haviam pegado, e matado ele aqui, eu prometi ao patrão que levaria a cabeça dele.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo IV

Ele estava com a mochila em seu colo, quase que eu me esqueço da mochila... Ela diz, o quê é que tem aí dentro? Depois que ele pôs a mochila nas pernas. Ele diz: algumas ferramentas de trabalho. Ele disse depois que guardou a arma na cintura. Enzo hesitou um pouco. E pensando que se Sophie havia aceitado a historia da arma, ela era suficientemente loura, e louca, para saber o quê havia dentro daquela mochila sem se pasmar, e não achar nada daquilo anormal. Era como se ele confiasse nela, logo de primeira, logo de cara. Embora os amigos sempre o aconselhassem a nunca confiar em mulher alguma, de maneira alguma, sobre hipótese alguma, ainda mais se tratando de negócios, de coisas relacionadas a dinheiro, tretas, cambalachos. Enzo sabia que mulheres traídas, assim como nações, levam homens à primeira página do jornal. Com gravações de escutas telefônicas de conversas não autorizadas pela justiça, que mais parecem confissões. Algumas chegam às vias, de fato, ao picotar o marido e passear com os restos dele dentro de uma mala por aí. Outras esperam o sujeito dormir para só então tacar fogo nele. Ou jogar água fervendo em seus ouvidos. Outras preferem algo ainda mais humilhante, como por exemplo, uma traição silenciosa. Nada pior do que esse gosto de ferro que fica na boca depois da vingança. De bílis. Esse gosto de merda de criança. De cheiro de vômito. Como Enzo sentia na cadeia, naquele lugar que cheirava a concreto, ferro, esterco, e secreções de todos os tipos. Nasais, orais e anais. Era horrível quando algum diretor tinha a infeliz ideia de jogar um produto qualquer para desinfetar todo o pavilhão com creolina. O cheiro se espalhava pela masmorra, e ficava difícil respirar. Como é difícil respirar nesses prédios fechados. Num lugar em que você sonha respirar o ar da rua. Da lua. Não poder entranhar esse ar nas narinas, e sim o cheiro de algum produto químico de quinta categoria. Não tem nem o cheiro comum da cadeia que já é fedorento. Mas que ele já estava acostumado. Igual o cheiro dos mortos na guerra. Você se acostuma com o cheiro deles, mesmo que tenha que se fingir de morto, numa vala, junto à centena deles. Não é difícil se sentir assim, mesmo distante dos campos de batalhas. Das linhas de frente. Sabe como é na guerra? É igual na vida real. Alguém sempre quer ter ferrar. Tem sempre alguém atrás de você, querendo puxar o seu tapete. E você está sempre fugindo, e tentando puxar o tapete de alguém que está na sua frente. Pois é isso que mantém as coisas desequilibradas no mundo. Se os seres humanos simplesmente se entendessem, e parassem de querer provar o quanto podem ser demoníacos, isto aqui seria o paraíso. Enzo pensa. Então logo assim que ela terminou a pergunta, ele abriu o zíper da mochila. Baixou parte dela, e surgiu o saco em formato de cabeça. Ou cobrindo a cabeça. Meu deus... Era uma cabeça... Mesmo... De verdade! Era a cabeça de um homem nos seus vinte e poucos anos. Sophie subiu com o carro numa calçada, batendo com a roda no meio fio. E correu. Indo vomitar numa parede. Enzo pensou que talvez Sophie não aguentasse ficar presa num manicômio judiciário nem por uma semana.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Eu Prometi Levar A cabeça Dele... - Capítulo III

Ela perguntou assim, me desculpe, mas eu não sei o seu nome... Ele disse, o meu nome é Enzo. Ela disse mordendo o hambúrguer. Nossa... O meu é Sophie, eu nem me apresentei... Quando Enzo viu um pedaço de alface grudar nos dentes brancos, e lindos da Sophie, ele sentiu como se tivesse levado um soco no peito... Mas não era um soco que causasse dor. Era apenas uma boa pressão. Um baque harmonioso. Ela disse, falta de educação, né? E perguntou a ele, você está olhando para a minha tatuagem? Ele disse, sim, estou. Ela disse: você fuma? Ele disse, acho que sim. Enzo perguntou a ela: e você, só fuma? Ela disse, só. Graças a deus. Ele disse, eu já cheirei, e parei, graças a deus. Mas o mais difícil é parar de fumar cigarro, né? Ele mostrou o cigarro numa das mãos. Ela perguntou a ele, você tem erva? Ele disse, não. Eu não tenho erva. Ela disse você sabe onde comprar? Ele disse, sei. Ela disse, tem coragem de ir lá. Ele disse: coragem eu tenho, mas existe um probleminha. Ela perguntou qual problema. Ele respondeu. Eu estou armado. Eu passei a andar armado depois que vim da guerra. Ela pergunta, para que guerra você foi? Ele disse, era uma intervenção pacífica das nações desunidas num pequeno país do Oriente. Os olhos dela brilharam quando ele terminou a historia da guerra. Ela disse a ele, mas você tem coragem de ir comigo na boca de fumo? Ele diz, fale baixo para que as outras pessoas não fiquem abismadas... A droga ainda não é legalizada neste país. Ela diz, deixa-me ver a arma... Ele mostra a ela que diz: uau! Nunca vi uma arma tão grande! E dá uma risada que soa como uma pilhéria de quem não tem medo algum. É uma pistola preta. E velha. Enzo se enrola com o cinto de segurança. Quando cai uma camisinha de seu bolso. Ela põe a mão na boca, e sorri. Sophie diz: você leva camisinha até quando vai à esquina comprar um cachorro quente... Bom saber... Ele diz, não... Mas sabe como é, vai que surge alguma maluca? A gente nunca sabe. Alguma maluca que te convide para ir numa favela, numa noite chuvosa de sábado, numa boca de fumo, num lugar perigoso, armado, Ela diz a ele, você tem a sua carteira de reservista? Ele diz, tenho. Ela diz: então se vier algum policial você pode mostrar a sua carteira de reservista, e o documento da arma. Ele disse, posso sim, mostro. Eu faço isso, sim. E por que você foi para a reserva depois que voltou da guerra? Na verdade eu fui dado como inválido. Por isso ninguém pode saber que trabalho de pedreiro. Ela diz, não vou contar pra ninguém que você trabalha de pedreiro. Ela diz olhando o asfalto. E o que aconteceu na guerra? Ele diz, eu bati com a cabeça. Sophie decidiu que seria melhor não perguntar mais nada sobre o assunto. Então eles entraram no carro, e Sophie pegou a avenida principal que cruza a cidade, direto para o gueto que ele havia indicado um ponto de drogas conhecido, onde ela já havia ido a algumas festas com um amigo veado. A chuva batia no para-brisa igual acontece nos filmes. E passavam por baixo de viadutos, e passarelas. E aquela luz da noite amarelecida resvalava para dentro do carro. Aquela luz que aparece quando se tem a impressão que as lentes dos óculos ocultam alguma película da mesma cor. É só nisso que pensamos, quando vemos o carro avançar. Enzo diz a Sophie. Você vai até a boca de fumo, comigo... Você vai gostar de lá, lá tem uma pessoal tão legal... Você vai ver... Você vai gostar deles. Vai sim. Eu tenho certeza absoluta.