quinta-feira, 10 de outubro de 2013

1904...

pulo do bonde. desço a ladeira com as mãos nos bolsos. assoviando. ele me pergunta: você está assobiando, porque? digo: não sei. está feliz? pergunta. respondo. talvez... diz: talvez, você está assobiando, e não sabe porque está assobiando? eu digo: tudo bem, talvez o fato de eu estar assobiando não seja tão importante assim, entendeu? ele diz: então você está me dizendo que é um bobo alegre? não, só que existem coisas mais importantes que isso. a revolta nas ruas... sei lá! e você acha que com toda essa náusea, com todo esse medo, e essa sensação de sufocamento que a sociedade nos dá, como se alguém estivesse com as duas mãos colocadas sobre nossa garganta, ainda exista motivo para se andar assobiando cançonetas populares, por aí? eu digo: cara, se isso te irrita tanto assim, eu não assobio mais, falou? muito obrigado, senhor, com licença, passar bem. e ele seguiu com o seu chapéu e a sua bengala de escritor famoso. entrou na rua do teatro.

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