quarta-feira, 24 de julho de 2013

Nicholas Cage...

Nicholas Cage caminha pelas ruas do centro. Nicholas Cage dirigi ali pela Lapa. Nicholas Cage pega uma mina que é a cara da Eva Mendes. Nicholas Cage dá uma dura num casal. e diz: eu quero um naco desse baseado! o rapaz olha para o Nicholas Cage. ele faz parte da máfia. da máfia dos italianos, tá ligado? Nicholas Cage namora a Eva Mendes que mora num daqueles cortiços do centro da cidade, esses cortiços antigos que são bucólicos durante as tardes de domingo, e tristes durante os dias de carnaval, quando ficam mais tristes pois parecem estar mais expostos aos nossos olhares, assim como os barrigões de chopp. Nicholas Cage é todo malandreado. macumbeiro. Nicholas Cage fez capoeira na juventude, e hoje ele está um pouco enferrujado. Nicholas Cage é malandro a moda antiga. se vivesse antigamente ele ia usar chapéu panamá na cabeça e andar de tamanco. Nicholas Cage desce do carro. Nicholas Cage diz: me dá o cachimbo de crack. Nicholas Cage fuma o cachimbo de crack igual aquele advogado. Nicholas Cage é do povo da rua. Nicholas Cage entra na favela e diz. eu quero maconha, e pó, eu quero maconha e pó. Nicholas Cage é carioca. deixa o radio do carro ligado numa radio que toca pagode. Nicholas Cage ouve A Patrulha da Cidade. Nicholas Cage diz rindo: enfia os vinte centavos no rabo! Nicholas Cage foi a um jogo no Maracanã. Nicholas Cage ouve o Maracanã dizendo: Nicholas Cage! Nicholas Cage ficou sentado perto da Charanga do Flamengo, curtindo o jogo chapado com o sorriso no rosto. Nicholas Cage anda bêbado pela cidade enquanto rola um blues ao fundo. Nicholas Cage vai beber até morrer. Nicholas Cage bêbado na Praça Onze durante o carnaval, ele diz. o Rio é foda, uh! Nicholas Cage ouve a música Naquela Mesa numa barraquinha de camelô, e diz para o rapaz, essa me lembra o meu avô! Nicholas Cage pega um disco do Benito de Paula de um viciado. ele diz: esse, fica comigo...Nicholas Cage vai buscar o pão com mortadela e o jornal. Nicholas Cage diz para o bandido. me dá só a maconha, e rala! Nicholas Cage passa no carro. eu atravesso no sinal aberto. Nicholas Cage balança o dedo na minha cara me ameaçando por ter avançado o sinal. ele faz como se fosse me pegar. Nicholas Cage entra num grupo de anônimos. Nicholas Cage se mata? Nicholas Cage, morre? não, ele não morre. ele para com tudo, e fica com o a Eva Mendes. hum... e diz: o meu nome é Nicholas Cage. estou em recuperação... e depois Nicholas Cage se converte. só não consegue parar de fumar cigarro. é, maldito cigarro.

Subúrbio...

uma menina preta passa com o namorado preto. ele diz: cala a boca, oh, você só fala merda! ela mete a mão na cara do filho da puta e diz, cala a boca é o caralho! corta pra ele de novo. subúrbio. pô, cara, eu queria ler um livro que eu vi naquele sebo que fica embaixo do viaduto da Lobo Júnior...  ele se chama O Porteiro da Noite... dei mole. subúrbio. o Thiago da Dulcineia. o Thiago da Conceição. o Leandro da Belisário. o Leandro do Prédio. subúrbio. plataforma. subúrbio. o cara no buraco da Penha. o cara paga vinte reais em dois bifes desse tamanho! subúrbio. como é que tá o rap? tá bem! como é que tá o charme? tá bem! como é que tá o rock? tá bem, também! subúrbio. corta pra um bêbado no bar, eu conheço esse cara, é o cara do rap! subúrbio. vai lá assistir o jogo com nós... subúrbio. toca a bola, sangue bom. caralho, da antiga, aí! só relíquia. subúrbio. pai, vai com essa barriga do lado de fora? maior micão, aí! você vai me buscar assim? maior micão, aí! subúrbio. Parque Shangai, subúrbio. você só anda de tênis? só. subúrbio. aí aquele cara começou a dançar caindo em cima de mim. gente, medo. subúrbio. eu cortei o meu dedo cortando laranja, vi o sangue escorrer, e saí gritando e chorando no meio da rua... ah, o meu dedo! oh, o meu dedo! subúrbio. como é que tá o livro? o livro tá bem! subúrbio. e a banda? tá indo bem! subúrbio. vai chupar, ou vai lamber! senta, senta, senta na piroca! subúrbio. menina, você acredita que no casamento do Naldo... subúrbio. O Dia. O Meia-Hora. O Extra. O Globo. Na Globo todo dia. uma colher de açúcar. uma colher de sal. o dia da eleição. Festa da Couto. subúrbio. feira da Montevidéu. subúrbio. Feirinha de Itaipava. católico. macumbeiro. espírita. budista. crente. subúrbio. a menina me olha, e diz. ter que ver esse tipo de coisa no meio da rua! lembro Cartola que dizia, quando eu passo, a gurizada pasma, horrorizada, como quem vê um fantasma, e o esqueleto humano, assim, vai, cambaleando, quase cai, não cai. esse cara estudou comigo. ele é casado com uma prima minha. um moleque fala com a mãe cantando: mãe, eu posso ficar com o troco do pão? maquininha de música. Maluco Beleza. Vida Louca. Papel de Pão. subúrbio. bicho. corrida de cavalo. Nextel. Tablet. vamos circular. circulando, rapaziada! subúrbio. subúrbio. subúrbio...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Tipo, Rolando Boldrin!

este cara que eu conheço é um bom contador de causos. pouco importa se é historia ou se é estoria. ela te prende. gosto de bons contadores de causos. tipo, Rolando Boldrin. ser um bom contador de causos independe de profissão, ou formação didática. o cara não precisa nem saber escrever. no caso dele, ele lê, e escreve bastante. e também já viajou um bocado. o que com certeza ajudou no seu conhecimento. então paro e fico ouvindo esse cara durante todo o tempo. ele diz: o cara apareceu na rua. ele tava com uma Kombi da firma em que trabalhava, e queria que a gente fosse com ele no centro. aí nós fomos, eu, ele, e mais dois moleques. aí num dos sinais da Leopoldina um cara disse de outro carro: pô, que cheiro de maconha, hein! o motorista olhou pro lado com a cara mais cínica do mundo, e disse: num tô sentindo, não! aí a fumaça começou a sair da Kombi. pô, como é que tu não tá sentindo? o motorista não deu mais ideia a ele. o cara olhou pro sinal, e disse: polícia! encosta... aí todo mundo desceu da Kombi. o parceiro dele ficou olhando os documentos, e ele ficou fazendo pergunta. nisso o motorista disse: esses caras ficam tudo no meio da rua de bobeira. aqui tá tendo muito assalto... não deixa de ser uma segurança, doutor. e o policial disse: mas, fumando maconha! o policial me perguntou: o que você faz? eu disse: sou estudante. ele virou pro outro moleque, e perguntou. e você, o que faz? ele disse: também sou estudante. e quando virou pra esse moleque que eu tava te falando, ele perguntou: e você, faz o que? ele respondeu assim: eu não faço nada... e o policial perguntou: como assim você não faz nada?! ele disse: eu não faço nada! o policial disse: você não trabalha? ele disse: não, eu nunca trabalhei! aí o policial perguntou indignado. e como você, vive? o meu pai me banca! o policial bufou, e desistiu. o parceiro dele devolveu os documentos e entrou no carro. o carro saindo, ele pôs os braços pra fora da janela do carona, e perguntou: você nunca trabalhou? aí esse moleque reafirmou: não, eu nunca trabalhei! ele sorri e dá um trago no cigarro...

Perdi A Minha Primeira Gravação...

era um rap. gravei uma fitinha demo. quem conhecia a música a chamava pelo nome de Terra Encantada. mas na verdade a música se chama Uma Jogada Do Destino, porque era o título de um filme que eu gostava. a estória não tem nada demais. um turista se perde, esbarra com um bandido "consciente" (sem piadas, por favor), e vai pro desenrolo. gravei a música com um ódio que nunca mais consegui repetir. como um crente fanático gritava que a gente tava tudo ferrado, e que ia tudo morrer de fome. depois fui descobrir que a maior parte de nós não está nem aí pro apocalipse, ou pra hecatombe que provocamos com nossa indiferença perante a vida. mas gosto daquela performance. depois disso me transfigurei numa porção de coisas, do romântico suburbano ao piadista sem graça. popular ao extremo. obviamente, que essa, por ser a minha primeira gravação, tem para mim um valor sentimental. levava as copias desta fitinha para as rádios comunitárias num tempo em que praticamente não existia internet. não passei a musica para o CD. ela é de uma época em que me perguntavam: você é do hip-rock? eu parava festinhas juninas, e festinhas de pegação em escolas para gritar palavras de ordem! e assim como um Tim Maia raquítico, e anônimo, abandonei palcos. fui expulso. boicotado. fiz inimigos. dei lição de moral em gente da plateia. parei bailes funk. bailes charme. festivais de rock. importunei pessoas. quanta besteira, meu deus! quantas vezes desafinei no underground, como diz meu tio músico, e sai do tempo com essa mania de querer fazer, apesar de tudo. mas se algum doido que não consegue se desfazer das coisas, não por sua qualidade, (risada nervosa.) e sim pelo valor emocional que elas têm, e se tiver uma fitinha dessas, ou se tiver esse material digitalizado, entre em contato comigo. não tenho a música porque assim como hoje, naquela época acreditava que tudo é o registro de um momento, e por mais que não seja perfeito, é para ser compartilhado com os outros, para que eles possam compartilhar comigo também. mas, nem a esperança, nem o texto, morrem com o ponto final.

domingo, 21 de julho de 2013

Recorde de Curtidas No Facebook É De Um Brasileiro!

Eugênio é um pacato garçom de 23 anos, carioca, e morador do bairro da Penha no subúrbio. mas ele tem uma façanha histórica para o mundo moderno. conseguiu ficar sentado durante vinte e quatro horas consecutivas, compartilhando, curtindo, compartilhando, e consequentemente sendo curtido. o primeiro desses recordes estranhos do mundo virtual, era de um australiano que havia ficado o mesmo tempo que Eugênio em frente ao computador, só que tuitando, que hoje em dia já é um verbo reconhecido pelo corretor ortográfico. Eugênio preferiu o micro tradicional aos outros aparelhos, pois o australiano do Twitter havia feito o mesmo. talvez para dificultar um pouco. lógico que tanto o brasileiro quanto o australiano tiveram uma boa alimentação, eram hidratados de hora em hora, e passaram por uma correção da postura corporal. eles urinaram através de uma sonda. mais nada seria permitido pelo motivo óbvio de tomar mais tempo. também foram acompanhados por nutricionistas semanas antes das respectivas empreitadas. e uma junta médica os acompanhou durante a prova. perguntei a ele como foi ter que compartilhar tudo, até coisas com as quais não concordava? ele disse: foi como tratamento de choque, rapaz, lobotomia. troço pesado. Eugênio tuitou desde coisas como gente xingando deus, pornografia, e apologia ao crime e as drogas. até mesmo curiosidades como a filha pedindo a mãe para dar uma ligada para ela, ou uma irmã pedindo ao irmão que pusesse o feijão no fogo. e muito adolescente se dizendo entediado na própria internet. que nas palavras de Eugênio serve para matar o tempo. a diversidade religiosa do brasileiro também foi uma das coisas que o assustou. pois ao mesmo tempo em que uma pessoa compartilhava algo extremo sobre sua religião, vinha outra pessoa compartilhando algo no mesmo nível sobre a sua. Eugênio disse ainda que no mesmo momento em que repassava um baita protesto pelos direitos dos gays, vinha um homofóbico atrás, algo bem radical. ele disse não ter parado para pensar que isso existia com tanta intensidade no Brasil. essa diversidade, brasileira. perguntei a ele: mas porque você fez isso? e a sinceridade não faltou: olha, não vou mentir pra você, não, rapaz. fiz isso pra aparecer, mesmo. não ia ficar famoso. não tenho nada a perder. perguntei a ele: e se alguém quebrar o seu recorde? ele respondeu rindo: invento outro. e para finalizar pergunto:  o que vocês ganhou com isso? ele diz: apareci na televisão, ora! você veio aqui me entrevistar. não sei se é motivo de orgulho. mas este recorde é nosso!

Que Porra É Essa De Funk Ostentação?

ligo pro meu pai. pai, tudo bem? ele diz: fala! pergunto: o que é funk ostentação? ele responde. num sei não, aí. e me pergunta: era só isso? digo: só. ouço o sinal de desligado. depois eu ligo prum amigo gangsta rap. digo: e aí, cara, tranquilo? ele diz: tranquilo. pergunto: o que é funk ostentação? ele rebate: qual é, cara? tá me tirando! ouço o sinal de desligado. viro para o lado. balanço minha mina. pergunto: o que é funk ostentação? ela pergunta: que horas são? digo: cinco da manhã. ela se vira. resolvo ligar pra minha irmã. aqui é o irmão, me responde uma coisa, o que é funk ostentação? ela diz: vai a merda cara! ouço o sinal de desligado. ela se vira para o lado, e responde: era um babaca se passando por meu irmão, meu irmão tá nem aqui, meu irmão tá lá na Antártida!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Whisky Nacional É Cachaça!

tem um vândalo no meu portão. tenho andando com medo dos vândalos, doutor. não consigo mais sair de casa, doutor. tenho medo de quebra-quebra. a televisão me diz que os vândalos estão chegando, doutor. o Brasil é um país pacífico... o estado não vai permitir que esses vândalos tomem conta da cidade. atos de vandalismos não serão tolerados. o cidadão comum, sabe que esses não são manifestantes e sim, bandidos. criminosos. tem uma vândalo em cima da árvore. um vândalo depredou o patrimônio público, doutor. um vândalo foi acusado de apropriação indébita. o patrimônio público não pode ser depredado. o nosso país é um país livre, doutor. os vândalos tiram o nosso direito de ir, e vir. um vândalo matou... não, doutor, um vândalo não matou. mas é de matar. tem um vândalo sentado na praça comendo pipoca. tenho pesadelos com vândalos, doutor. eles descem de helicópteros. saem dos esgotos. tem um vândalo com uma camisa do Papa. quem sabe um vândalo peregrino. os baderneiros e os vândalos estão provocando arruaças. tento dormir. não consigo. ouço aquela voz vinda debaixo da minha cama. vândalos... vândalos... e aí coloco o meu travesseiro na cabeça. teremos uma comissão para cuidar dos atos de vandalismos. tem um vândalo mascarado no meu espelho. o vândalo mascarado fumando charuto, dá um trago no Whisky, cospe, e diz: eca, nossa, Whisky nacional é cachaça!

A Molecada Do Lava A Jato...

...sempre tem um sofá e um sonzinho rolando ao fundo. na maioria rola Racionais, ou Arlindo Cruz de leve para não contrariar ninguém. ah, as vezes, funk. mas dependendo do dono rola até uma Plebe Rude, Black Alien, eu já ouvi. encosta a tua bike, senta naquele sofá e fica a tarde inteira. depois do almoço, é claro. olha pro valão em frente, e sente aquela fedentina, olha para a parede em frente, e diz: que merda. de vez em quando alguém fala: me empresta a bike que eu vou dar um pulo na farmácia. some na esquina. e você apenas balança a cabeça. as vezes a rapaziada do lava a jato mergulha num silêncio prolongadíssimo. as vezes depois da rodada de domingo todo mundo dana a falar. as vezes no final de semana rola um churrasco. uma churrasqueira, e um isoporzinho. as vezes cola até algum velho que fica jogando buraco na praça. algum velho que não conseguiu entrar na internet. como dizem. mas a molecada do lava a jato está sempre ali. naquele sofá, faça chuva, ou faça sol. me empresta a bike aí que eu vou lá no meu primo pegar a máquina de cortar cabelo!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Eu Sei Que Eles Sabem Que Eu Existo!

eu pergunto a minha mina. você viu um furgão lá fora? digo olhando pelo canto da cortina. ela diz: deve ser a CIA atrás de você... ela abre a janela, que calor aqui... que cheiro ruim! tudo fechado. eu me jogo no chão e ponho a mão em frente a boca como fazem os jogadores tentando evitar a leitura labial. falo por sussurros. devem existir escutas por toda a casa.... ponho o telefone no ouvido e ouço um chiado ao fundo. ela me diz: você tá delirando! eu digo: tô cercado! os meus companheiros me abandonaram... ela diz: é impressão sua, amor. eles me boicotaram. disseram que eu sou um dissidente. entrei para a lista de traidores. ou será que eu sou apenas um capital dissidente? não sei! não rolou nem um sentimento de classe. consideração racial ou algo que o valha. disseram que sou uma ameaça. falo por códigos. sinais. driblo. não posso ser muito explícito para que não me descubram. passo na rua. alguém diz: esse cara com essa mulher de cabelo vermelho, não sei não! eu me escondo no supermercado. a câmera do supermercado me persegue. eles sabem que envio mensagens secretas. sou censurado. torturado. quero ir exilado para a França, Estados Unidos, Inglaterra. eles vigiam os meus passos. o meu vizinho me espreita do olho mágico na madrugada. alguém diz: é um artista do bairro que sequelou. outro diz: incapaz de fazer mal a uma formiga! alguém diz: tem que se relacionar. eu digo: sou tímido. o rapaz que recolhe o lixo faz sinal para alguém quando eu passo. o mesmo acontece com o cara falando no orelhão. o entregador de flores parece me apontar. mas um passarinho me traz notícias do campo do fronte. do campo de batalha. onde sempre há algo novo. ele me diz: você foi citado. eu digo: sério? ele diz: sério, num relatório da ONU! Obama tá na tua cola, malandro! eu digo: mentira! ele diz: eu lá sou homem de jogar conversa fora, rapaz!? tem caroço neste angu.... e eu vou descobrir o que é. ele reforça: aí, tem! eu digo: já avisaste ao Joaquim Barbosa? ele diz: sim. mas não mija fora do penico,não, rapaz, se não a coisa esquenta pro teu lado! vai sobrar pra mim, e não há quem te tire de lá! eu pergunto: batata? ele diz: batatíssima! eu digo: você vai me ajudar. ele diz: eu sou bem relacionado no jet set, como você sabe. vou ver o que posso fazer por você. mas não prometo nada! ele pigarreia, e diz: mas por enquanto segura a tua onda, que a tua batata tá assando! a minha mina diz: você têm alucinações. e amigos imaginários. (e inimigos também, ela pensa). eu digo: amor, é verdade, o meu amigo intelectual, ele não cresce! ele nunca cresce! permanece do mesmo tamanho. com a mesma idade, desde que eu o conheci!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Caçador de Androides - Philip K. Dick

eu li o caçador de androides. e gostei da caixa de empatia. do Mercerismo. ou seria Cristianismo, Budismo, ou Islamismo... são metáforas do livro. e o teste Voight-Kampf para detectar os androides que ao que me parece são psicopatas, assim com a maioria de nós, que assim como psicopatas, nós homens da sociedade moderna somos mais inteligentes. e o preconceito contra os especias, que ao que me parece tem uma especie de esquizofrenia. assim como a maioria de nós. eu sei disso porque me observo. e o observo os outros. ainda existem homens "santos" que conseguem suportar todo esse estresse de viver numa grande cidade, competitiva, perigosa, e veloz. as vezes corremos sem saber porque. e na maioria das vezes nossa correria não nos leva a nada. ao invés de desejar mais, desejar menos, cada vez, menos. mas com a mídia nos aplicando um tratamento de choque, em que logo depois caímos numa Síndrome de Estocolmo amando aos nossos inimigos. mas na maioria das vezes, reagimos de maneira violenta. temos um crise dos nervos, entramos numa escola atirando, temos um enfarto, ou esganamos o pescoço mais próximo. a gente segue comendo mais, bebendo mais, fantasiando mais, se drogando mais, trepando mais, consumindo mais, rezando mais, fazendo cada vez mais festa, e se entediando cada vez mais com todo o excesso. pois ninguém pode ser tão feliz. a nossa caixa de empatia é a nossa caixa de remédio tarja preta. é só engolir uma pílula. assim que funciona a caixa. é só apertar um botão. até a nossa tristeza normal, por causa do nosso vazio que a certeza da morte causa, estamos tratando com remédio. seja ele, sexo, cerveja, videogame, antidepressivo, ou esporte radical. para um tratamento com menos drogas é preciso tempo. e tempo é tudo o que nós não temos. pois somos uma sociedade dedicada ao prazer imediato. você pode até trepar com uma androide como fez Rick Deckard. não, é verdade? quantas pessoas acordam todos os dias ao lado de androides. androides com botox, bombas, enchimentos, silicones, recauchutadas, reinventadas, plásticas. bonecas infláveis. assim como no Mercerismo nos ligamos a todos. todos estamos conectados a internet que funciona como uma espécie de inconsciente coletivo. virtual. física quântica. androides incapazes de formular um raciocínio assim como os nossos analfabetos funcionais que acreditam no que o repórter, ou o pastor diz  a eles. que tem como exemplo de vida o empresário boçal. que teme os vândalos, e os quebra-quebras. o que eu mais gosto é da depressão do Rick Deckard, e de sua esposa Iran. e a falta de autoestima que é curada com a compra do animal de estimação. será que Deckard desejaria tanto qualquer animal de estimação, se eles não estivessem extintos? é parecido com nosso consumismo que paga por exclusividade. que diz que não sei o que é uma pedra preciosa só porque é rara. e a nossa incapacidade de lidar com outros seres humanos, e com outras culturas, descarregando todo nosso amor aos nossos animai de estimação. mesmo estando conectados com outros seres humanos 23 horas por dia. o que leva Rick Deckard a entrar em crise, é justamente uma trepadinha como uma androide. ah, nossos escândalos sexuais, e quem nunca pecou que atire a primeira pedra! como aquelas atiradas, Wilbur Mercer. que talvez seja uma fraude. um bufão. apesar de muito coerente em algumas colocações insatisfatórias. a polícia cobra a Rick Deckard que ele não sinta empatia por androides, para que isso não atrapalhe o seu trabalho. será por isso que amamos essas lutas em que se dá porrada no outro, e que o deixa retardado para o resto da vida, assim como ficou John Isidore. Buster Friendly que é o comediante que fica vinte e três horas por dia no ar, e que é a pessoa pública mais importante do mundo, declarou que a terra morreria debaixo de uma camada, não de pó radioativo. mas de traste. não duvido nada!

sábado, 13 de julho de 2013

Franz Kafka e Albert Camus

li O Estrangeiro de Albert Camus numa tarde, fiquei chapado, e desde então tive vontade de ler algo parecido com aquilo. fui ler mais Camus. peguei O Mito de Sísifo que é um ensaio filosófico maravilhoso. no final fui presenteado com um ensaio sobre Franz Kafka. talvez por aí eu conseguisse alguma coisa. em minha cabeça, ou na realidade, Camus foi influenciado por Kafka. numa tarde, deitei no mesmo sofá, e da mesma forma que aconteceu quando li O Estrangeiro de Camus, fui hipnotizado por aquela metamorfose de Kafka, não consegui me levantar enquanto não finalizei, o livro. não quero dar a minha interpretação da historia. até porque esse negócio de achar que um livro tem uma interpretação é coisa de religião ou de intelectuais. e não quero que aquela pessoa feliz, que ainda não leu A Metamorfose, ou O Estrangeiro, seja poupada de qualquer novidade. mas no meu caso, o primor de Kafka, o que ele conseguiu fazer com este leitor ignorante, foi o seguinte, além de me levar a pensar sobre a profundidade do que foi abordado, é claro. ele me conduziu aquele quarto. até hoje os olhos de Gregor me perseguem. consigo descrever Grete. o senhor Samsa. conheço o cheiro das suas roupas. conheço as cores. e a voz de cada um deles. estive naquele quarto. posso jurar que estive lá os observando durante algum tempo. até a sensação de sufocamento que a sociedade nos dá, senti com mais intensidade durante a leitura. consigo debruçar sobre aquela janela, e ver um sol que ilumina o mundo de maneira infinita. como num sonho. o livro caiu da minha mão. fiquei exausto.