sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Banheiro. A leitura. E Outras Tantas Coisas Tidas Como Supérfluas.

quando o meu livro foi lançado uma prima lembrou que na casa da minha avó eu lia no banheiro. morando numa casa cheia de gente, o banheiro torna-se o porto seguro para a leitura. na madrugada é a única luz que pode ficar acesa sem incomodar aos outros. ainda leio no banheiro. mais para não perder uma oportunidade de leitura, do que por necessidade. embora não sei porque sempre a sua luz do banheiro parece ser melhor. a batida do violão da bossa nova foi inventada dentro de um banheiro. pois João Gilberto gostava da  acústica do mesmo. caso queira ler em voz alta para melhor absorção da leitura, é uma boa pedida. dizem que o banheiro era o único lugar onde os Beatles não eram incomodados. hoje a leitura deixou de ser prioridade, assim como a verba para a cultura é a menor, a leitura é a última opção de passatempo, ou o que quer seja, para a maior parte das pessoas. com a chegada do livro eletrônico, em países como o Brasil, em que se lê pouquíssimo, a leitura tende a perder espaço. quanto mais se entulha músicas em um equipamento eletrônico, menos se ouve música realmente. poucas pessoas ouvem os discos completos. a maioria vive de sucessos. o chavão do conceito de trabalho parece ter se perdido. no caso da música, talvez o ideal fosse que os artistas lançassem apenas compactos. como acontecia na época da Carmen Miranda. pois hoje, uma música de um ano atrás, é velha para a maioria dos adolescentes, e das pessoas em geral. são raros os artistas que conseguem manter alguma resistência, e lançam o disco no tempo em que acredita ser necessário. por causa desse processo de banalização que estamos vivendo. embora saiba que alguns artistas sentem necessidade de criar mais. mas é bom que isso seja uma opção. durante algum tempo acreditei que o artista deveria tentar negociar com esse modelo que aí se encontra. eu mesmo, quando comecei a escrever para este blog tentei evitar textos longos. hoje não temo mais os caudalosos. é bom ter tempo para ler e pensar um Marcel Proust, que é eterno, ou um Mario Vargas. mas é preciso tempo para isto. e tempo é tudo o que nós não temos hoje. então o tempo passa a ser mais importante que o dinheiro. sempre foi. desisti de acompanhar a evolução tecnológica. não há mais para aonde se evoluir. não duvido mais de nada. temos que resistir um pouco, para que as coisas do espírito não se percam por aí. para que a hegemonia da falta de tempo cesse. quem só tem tempo para responsabilidades pode se considerar morto. pois como diz o filósofo, o ócio também é necessário. principalmente para a observação com a qual se aprende muito. enquanto o mundo, ou seja, nós mesmos, nos faz acreditar que não temos tempo nem para cuidar do próprio umbigo. o tempo investido em uma boa leitura, ou num bom disco, dizem que isso é um conceito relativo, mesmo para os seus criadores, tem um retorno inestimável. que nesta correria, nós não vamos conseguir perceber. mas ler um bom livro, e caminhar numa manhã de sol pensando nas questões que foram abordadas por ele, continua sendo um dos melhores refrigérios para a alma.

2 comentários:

  1. Quando seu livro foi lançado... Bom, nem preciso dizer que "minhatorcidaeratodasua", que fiz breve notinha me achando o máximo da divulgação, que escrevi coisas imaginárias sobre a Penha e sobre seu livro - que nunca li. Vinha preocupado no ônibus... O tempo, não! já sem tempo! O lugar era um shopping, não! era O Shopping! - que nunca vi. As pessoas no ônibus não eram aquelas, assim, da zona sul, né? Eram pessoas sofridas, cansadas, cheirando a trabalho... ponto final no Leblon - mas não eram dali. Vinham de sacolejo comigo, com cara de quem sobe a Rocinha ainda hoje. Então, essa moça, que também nunca vi em minha vida, espalhou um bocado de perfume ao levantar-se do assento. Encantou-me, porém eu estava atrasado, não prestei atenção em forma ou encanto. Ela precisava de informação e perguntou ao trocador - daí eu vi! queria o melhor ponto, estratégico, para O Shopping... "você vai ao lançamento do Delano?" _como já estava quase, levantei e mandei na lata! Ela me olhou... olhos arregalados... "sim... como você sabe?" Pensei comigo: quem mais naquele ônibus iria ao shopping... e fazer o quê naquele lugar? comprar mil coisas caras e voltar de ônibus? naquele ônibus? Pra zona norte? não. "Muito prazer, eu sou poeta e também vou pra lá!" Ter sua identidade revelada de público por um tipo estranho como eu... deve ter doído. Saltamos, fomos caminhando, conversando, lendo-nos. Foi assim que conheci sua prima.

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  2. E aí meu amigo... me deixa emocionado... muito obrigado por suas observações sempre bem colocadas... que interessante e que grande coincidência....

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