quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Papai Noel no Maracanã

Quando eu era criança a gente era tudo feliz no Rio de Janeiro. Tudo colorido, bonito, gel no cabelo, ombreira, e Atari. A Blitz na vitrola, e o Balão Mágico na tevê. Todo mundo imitando o Michael Jackson. Parecia que a gente estava na plateia do Chacrinha vivendo uma eterna tarde de sábado. Mas criança do subúrbio tinha doença pra cacete. Pois se bebia água da bica, e comia amêndoas na rua. A gente tinha pano branco, caxumba, rubéola, coqueluche. O maior evento do ano era assistir a chegada de helicóptero do Papai Noel no Maracanã. Mas teve um ano em que eu peguei a única doença que não podia, pois as outras crianças tinham pavor. Catapora. Eu não queria espantar todo mundo do estádio. Esse até hoje é o maior trauma da minha infância. Se bem que eu não pude ter um videogame... E também...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Meu Nome Não é Elano!

Eu tava bebendo um negócio com dois ou três bêbados amadores, e desconhecidos. A gente tava bebendo e assistindo uma banda de rock ruim. A banda era ruim. Não o rock. Um deles apontou a lata de Coca-Cola em cima da mesa, e perguntou: que porra é essa? Quando olhei percebi que tava escrito: quanto mais Rafa melhor. Alguém explicou que as latas vinham com vários nomes. Então a intenção é sair em busca da sua. Alguém disse: os caras do marketing são foda! Eu pensei. Os caras do marketing são foda. Mas eu nunca teria uma latinha com o meu nome. A vantagem de se ter um nome desconhecido é que as pessoas dificilmente se confundem. Já se você se chama Marcelo, Felipe ou Tiago, fica mais difícil. O lado ruim é ter que ouvir: eu não perguntei teu apelido, eu perguntei teu nome! Ou aquela: o dono da loja de móveis? Na verdade Delano é um sobrenome. O médico que fez o parto da minha mãe se chamava Jorge Delano. Até hoje não entendo a comparação com o ator Alain Delon. Não, eu não sou o Franklin Delano Roosevelt. Pior é ser chamado de Derlano por aqueles que não têm boa pronúncia. Quando o jogador Elano está na seleção... Eu respondo: o meu nome não é Elano!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Oração de Delano Valentim

Senhor, que num milagre teu, senhor, toda essa gente comece a ler meu livro, que ele se torne um A Cabana, ou o meu Ágape igual ao do Padre Marcelo Rossi. E que o meu livro dispute ombro a ombro as prateleiras, e os passageiros dos ônibus, com o Harry Potter e o Crepúsculo. E que eu seja invejado e odiado como Paulo Coelho. Eu quero ver meu livro na mão daquele homem do povo que lê o Meia-Hora em pé no trem, e que escuta no celular, ou no radinho de pilha, o jogo do Flamengo, e a Patrulha da Cidade. Esse homem que mal sabe mexer na net, que não sabe nem o que é Face. Pois eu estou cansado daquele escritor que é um gênio para a história da literatura brasileira, mas que me dá sono no primeiro parágrafo. Senhor me leva para Hollywood, para que eu possa me prostituir como fez o irmão do Holden Caufield. Eu deixo o James Cameron me filmar. Ele faz do livro o roteiro que quiser, corta o personagem principal, muda o fim, eu não tô nem aí! Eu só quero que o filme propague o meu livro. Eu prometo que não vou à festa da entrega do Oscar. Dou uma de Salinger, que passou a vida toda lutando por aquilo, para no fim dizer que não queria. Os intelectuais adoram isso, escritores reclusos. Lembra-se do Dalton Trevisan? Do Thomas Pynchon? Do Carlos Castañeda? Do Rubem Fonseca? Mas senhor me afasta dos intelectuais, das resenhas, dos Prêmios Jabutis, das Feiras de Parati, da Academia Brasileira de Letras. Eu não quero ser condecorado, premiado, e estudado, para depois apodrecer numa estante empoeirada. Eu quero ser lido!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Pé de Maria Joana

O Gordo disse pro magro esnobando. Aí tô com um pezinho lá em casa. O Magro surpreso. Mentira! O Gordo birrento. E já tá bem grandinho! O Magro curioso. Tu já fumou? O Gordo: ainda não. Mas tô pensando em estrear hoje. O Magro, vamo lá fumar um! O Gordo fazendo mistério. Mas ele tá no terraço do meu prédio... O Magro ainda sem acreditar. Você tá dizendo que plantou um pezinho no terraço do teu prédio? O Gordo: sim. O Magro: e se os outros vizinhos descobrirem? Eles não gostam, mas não sabem nem o que é. Pensam que é outra coisa. O Magro: o quê, por exemplo, trevo? É por aí! O Gordo disse já desinteressado. Continuou. Eu preciso de ajuda pra resgatar esse pé. O Magro: e qual é o tamanho dele? Vamo lá que você vai ver! Na escada o Gordo contou para o Magro: o porteiro fica admirado de como eu gosto de planta! Quando o Magro viu o pé, falou. Isto não é um pezinho, isto é uma árvore! O Gordo, sem escândalo. Vamo pela escada. Um tiozinho que ia abrindo a porta perguntou: que planta é essa, meu filho? E o Gordo: mandioca da serra! Eles riram desceram para a casa do Magro na noite suburbana. Carregando o vaso, suando. Uma patrulinha passou e um deles comentou. Que babacas, carregando planta uma hora dessa! Na casa do Magro, quando eles começaram a fumar, o relógio ainda estava marcando meia noite.

sábado, 27 de outubro de 2012

Eu Só Tô Com Um Real!

Ela me ligou a cobrar e disse: liga pro meu pai fazendo um favor. Diz a ele pra vir aqui que eu tô sem passagem. Eu liguei pro meu pai e disse: ela pediu pro senhor ir lá que ela tá sem passagem. Ele disse: eu só tô com um real na carteira. Diz a ela, que eu só tô com um real! Eu pensei. Como assim ele só tá com um real? Ele não tá é com nada! O Meu pai, trabalhador, aposentado. Homem honesto a vida toda. E bom profissional... Dos melhores! Ele só tá com um real na carteira. Pagou todos por seus direitos. Tem médico de dois em dois anos. Na escola da filha caçula passa até analfabeto... Ele só tá com um real na carteira.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Bela Suzane Richthofen

Quando Hugh Hefner fundou a revista Playboy, ele tinha a intenção de pôr na capa uma mulher de carne e osso que pudesse ser uma vizinha. Assim como a atriz Kristen Stewart que traiu o mocinho indo de encontro à imagem que o seu rostinho angelical representava, Suzane Richthofen nos decepcionou. A sociedade tem dificuldade em aceitar ricos assassinos. Como se o dinheiro tivesse uma capacidade redentora. Provavelmente Suzane é psicopata. Na época o argumento para o destaque do caso foi o parricídio. Mas qualquer leitor de diários sanguinolentos sabe que todos os dias um pobretão enche a cara de cachaça, mata a família, e vai ao cinema. Os casos ganham nomes na imprensa quando algum dos envolvidos, vítima ou agressor instiga nossa curiosidade. Por isso que o caso se chama Suzane Richthofen, e não O Caso dos Irmãos Cravinhos. Assim como O Caso Eloá (vítima), O Caso Isabela Nardoni (vítima), O Caso Bruno (agressor), e O Caso Elise Matsunaga (agressor). Ontem assisti a uma reportagem totalmente tendenciosa, em que os dois marmanjos eram colocados como vítimas inocentes da loura demoníaca. Se a gente fosse falar de frieza, como um adolescente, para quem o contrário do amor é o ódio, eles são tão frios quanto ela! Pois trucidaram aquele casal simplesmente por causa da grana. Não creio que a motivação fossem os supostos abusos, pois lucrariam muito mais indo à polícia e se livrando do pai, que preso ainda ia deixar uma grana para que curtissem em paz. O tom da reportagem foi que o namorado cometeu o crime motivado por sua paixão hollywoodiana. A imprensa ama Suzane, assim como ama Elise. Ela constrói o mito para vender mais. Mesmo que exista uma Suzane em cada esquina, sem o rostinho que representa nosso padrão de beleza atual. Sendo assim não conseguimos nos distanciar para que justiça seja feita. Como um amigo meu disse: eu acredito que o Bruno matou a amante, mas em qualquer país do mundo ele estaria solto, pois sem corpo não há crime. Como disse Hélio Luz: será que o povo brasileiro quer uma polícia justa? Para que a justiça sempre acontecesse, nós teríamos que deixar de lado nossas paixões (vingança).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De Preta Ficou Branca!

Era um domingo desses que não chovem. E que as crianças não querem ficar em casa. As ruas do subúrbio cheias. Churrasco para todo lado. A volta da praia. A espera do jogo. Ela estava num desses churrasquinhos. Era a sua festinha de aniversário. Quando aquele carro estacionou próximo ao meu fio. Mais precisamente em frente a varanda lotada. Com três ou quatro cabeças que saíram simultaneamente. Uma loura de cabelos pintados desce com a ferramenta nas mãos. Pensou que fosse tomar um tiro. Ela quase caiu pra trás. Quando a loura anunciou: Surpresa! Antes tivesse vindo um balaço daqueles. Mas não, veio os parabéns da Xuxa nos alto-falantes. E põe alto nisso. Com a cara rachada de vergonha, teve que ouvir Emoções do Roberto Carlos. E depois a sopa de letrinhas de como ela era uma ótima, mãe, mulher e esposa. Era uma homenagem. E a nossa vítima, de preta, ficou branca. Mas os vizinhos adoraram. Pois não era com eles. Ah, esqueci, e ainda tiveram os fogos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ainda Existe Índio No Brasil?

Eu vi a foto do índio pendurado. Nem quero saber o que aconteceu, mas sempre torço por um final diferente. Quando quero saber algo, ouço a rádio de noticiais, leio na internet, ou ouço a Hora do Brasil, assim acompanho o que os nossos capangas estão aprontando. No geral prefiro me manter distante para não me aborrecer. Fico deprimido. Acho de um enorme mau gosto assistir telejornal ao acordar, ou antes, de dormir, e uma baita influência para que você tenha pesadelos, ou comece o dia de maneira negativa. Imagem é tudo. Postaram também a foto de uma porção de crianças metralhadas, daquela guerra que não vai acabar nunca, a não ser que fechem aquele território, e tirem todos aqueles povos de lá. Já vi gente demais morta. Gente que conheci, fuzilada. Até suicidas. Se alguém queria me deixar chocado não conseguiu. Essa gente radical, que fica postando fotos com o cu no sofá e um copo de Nescau na mão, e dizem que vão fazer revolução ou sei lá mais o quê, mas não conseguem abandonar os seus trabalhos onde são explorados, e querem um diploma para garantir um salário melhor, pensam que fazem grande coisa pelo mundo se dizendo conscientes, ou votando nulo, ou votando certo. Quem quiser fazer algo diferente vai ter que enfrentar toda a democracia do mundo ocidental. E quando eles vêm, arrebentam com tudo! O pepino é bem maior do que essa gente imagina. O partido que está no poder é o partido que a gente sonhou no passado. Os novos partidos revolucionários me soam como, eu já vi esse filme antes. Tanto é que são formados por dissidentes. Ainda existe índio no Brasil? Eles foram dizimados quando aculturados por nossa curiosidade, e por nossa falta de compreensão de como alguém pode viver no meio do mato pelado, sem precisar de celular, computador, ou universidade. Eu vi um índio dizendo que o homem branco injetou a culpa em sua tribo, pois eles eram poligâmicos, e agora são monogâmicos. Assim como os padres jesuítas fizeram, nós levamos nossos vícios, nosso alcoolismo. Aquilo que na cultura deles era um momento de transcendência, passa a ser uma fuga. Como as drogas são para a maioria. Achei a foto daquele rapaz morto, de uma agressividade tão grande quanto à de seus assassinos, diretos, ou indiretos. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Só Muda Quem Está Em Dúvida

Ontem a minha mina disse que não aguentava ver os crackudos na linha do trem. Eu já estive várias vezes numa cracolândia, e sei que é o inferno na terra. E que só não vê espíritos vagando quem não quer. Eu disse a ela que escrevesse sobre isso para poder desabafar. Nenhum individuo ou grupo tem o poder de mudar nem uma rua se a maioria não quiser. Nelson Mandela não libertou África sozinho. Alemanha nazista não era Hitler. O ministro Joaquim Barbosa não é o salvador da pátria. O Brasil não funciona. O apoio a cultura é ridículo. A educação é uma piada. E a saúde pública não existe. O sonho de mudar o mundo hoje é patético. O que tem feito o mundo avançar em alguns pontos é a sua própria história. Não há nada que garanta que uma ação vá ter um efeito imediato. Ou mesmo que vá ter um efeito a longo prazo. O quê não nos exime de fazermos a nossa parte. Não só para que possamos deitar tranquilos no travesseiro. Mas sim porque alguma coisa nos diz que a harmonia é o melhor negócio. Quando eu não jogo papel no chão, não faço isso por causa de uma propaganda, porque não tem ninguém vendo, ou porque alguém me disse que não deveria fazer. Faço porque junto a toda a informação que recebi, cheguei a conclusão de que realmente é o certo. Mas podia ter concluído o contrário. Sem essa pieguice de que mundo eu vou deixar para os meus filhos. Ninguém pode se anular como individuo em prol da sociedade. Mesmo nesta época do politicamente correto. Até porque quando somos bonzinhos, não nos desvencilhamos da sociedade. Nós somos o mal e o bem que habita nela. Eu também mato, estupro, e roubo. Embora não seja eu quem puxe o gatilho. Ninguém pode carregar o fardo. Até porque só muda quem está em dúvida. As verdadeiras vítimas são minoria. O Brasil é assim porque nós brasileiros queremos ou deixamos que ele fique assim. E mesmo que tenhamos avanços nas áreas mais críticas, nada nos garante que vamos evoluir como sociedade, ou que seremos felizes, que acredito ser o objetivo final. Em países ricos malucos entram em lugares atirando. E é onde estão os maiores índices de suicídios  Por isso o pensamento não pode estar restrito a uma época, ou situação que normalmente é passageira. Mesmo para a minha filosofia teen. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Foi Por Isso Que Aconteceu Aquilo!

Eu perguntei: você terminou o livro? Ela disse: não. Ah, o garoto queria se matar. Não gosto disso. Eu retruquei: mas você tem que ler para saber o que acontece. Então respondeu: eu nunca leio os livros até o final. Eu disse: porque? Ela: tenho medo de saber o que vai acontecer. Prefiro não ler. Depois eu me pus a pensar que o livro não acaba em suas páginas. Pois assim como na vida a coisa pode se inverter depois. Mudar de rumo, sei lá. Por isso que não gosto de autores que querem explicar tudo, que não deixam a gente imaginar nada, e que pensam que o leitor é um pária sem criatividade, ou inteligência para refletir porque aquele personagem se transformou no quê é hoje, por exemplo. Talvez ela não queira saber o final, por pensar que assim como na vida, ele pode ser bom ou ruim. Depende do ponto de vista. Eu não sei porque, mas a minha intuição me diz que já aconteceu algo que vai voltar depois. Mesmo que não seja nada tão extraordinário como a gente gostaria de imaginar. Alguma coisa que nos conforte. E que nos faça dizer, tá vendo? Foi por isso que aconteceu aquilo!

domingo, 21 de outubro de 2012

Horário de Verão

O meu pai acorda as seis da manhã, e vai comprar o jornal, o leite e o pão. A minha mãe liga o rádio e prepara o café. Ela se arruma enquanto o meu pai não chega. Eu levanto. Nós tomamos o café da manhã juntos. Os dois me beijam e saem de mãos dadas. Sete horas. Ela pega o trem. Ele pega o ônibus. E os dois   pegam no trabalho as oito. Saem as cinco. Na volta, se eles apertarem o passo, ainda dá tempo de irem me buscar na escola. Pois levam do centro da cidade ao subúrbio, apenas quarenta minutos. Eu vejo os dois me esperando na saída. Sendo assim nessa época, a gente consegue aproveitar a luz do dia. Talvez a gente caminhe um pouco na praça, ou vá dê uma passadinha na casa de um parente próximo. Por isso que eu adoro este horário.

sábado, 20 de outubro de 2012

Na Casa do Tim

Eu fui a casa do Tim. Ele estava sentado num sofá assistindo televisão. Gordo igual um buda. Uma profusão de crianças correndo para todo lado. Sobrinhos, vizinhos, netos, talvez. O Tim me disse: sem cerimônia, Magrão. O Tim me chamava de Magrão. Ele empurrou o gato que estava ao seu lado. O bichano saiu num pinote em disparada para fora da casa. Eu havia imaginado outro cenário. Pensei que nós íamos para um estúdio cheio de instrumentos pendurados. Não havia privacidade. A tevê no último volume. Ele gritava com as crianças. A menina correu pra rua! Veio uma mulher da cozinha que parecia ser sua irmã. Ela perguntou: vamos comer rabada, Tião? Ele disse: vamos, o Magrão quer provar da tua rabada! E depois disse a ela: esse aqui é um cantor amigo meu, cuidado que cantor é tudo calhorda! Ela deu um risinho e voltou para a cozinha. O Tim em casa era um patriarca. Ele pegou uma lata e começou a enrolar um baseado. E me disse: se quiser mete a mão que do meu você não fuma. Eu fui cheio de esperança de falar sobre música ou quem sabe fazer alguma. Era uma terça feira. E fomos levar uma porção de crianças na escola. E depois fomos ao supermercado. Na volta ele tirou a camisa. Nunca pensei em ver aquela famosa pança preta. Aos poucos comecei a relaxar e a aproveitar o momento, e esqueci o negócio da música. Ele contava histórias engraçadas sobre os músicos. Era um comediante nato que dava a entonação certa imitando as pessoas. Depois que fomos buscar as crianças, o Tim me levou a um ponto de ônibus, e nós nos despedimos. Logo após fiquei sabendo que ele havia morrido. E me veio a mente aquela tarde tão agradável. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Artista

Antigamente no subúrbio, quando a criança aprontava alguma peraltice, a mãe dizia: para de fazer arte menino! A criança era tida como arteira. Os malandros chamavam seus chegados de artista. Mas nem todo mundo que faz arte é artista. Nem todo mundo que trabalha com arte é artista. O ator Marlon Brando dizia não ter amor a arte, e que se o pagassem para ficar sem fazer nada, ele ficaria sem fazer nada. Billie Holiday ao ser indagada se sabia cantar, respondeu: e quem não sabe? Tem gente com livro editado, filme pronto, peça ensaiada, quadros expostos, que não é artista. Eu assisti a uma aula em que um professor de filosofia disse que um diploma não faz de ninguém um filósofo. Como Chico Science dizia, computadores fazem arte, e artistas fazem dinheiro. Hoje em dia com a facilidade tecnológica, existe uma enxurrada de gente fazendo arte. Mas são raros os verdadeiros artistas. Conheci pouquíssimos com aquele brilho no olhar. Embora esta frase seja um clichê, não deixa de ser verdadeira. O verdadeiro artista não se preocupa com nada. A única certeza que tem, é a de se dedicar e aperfeiçoar o seu ofício. Pois não tem tempo a perder. Igual aqueles filósofos antigos que não se casavam para não suprimir o tempo dedicado a  filosofia. O escritor Charles Bukowski dizia não ter tempo nem para cortar as unhas. O verdadeiro artista pensa como artista, e se movimenta como artista. É como se o mundo fosse a sua tábua de criação. Como Henry Miller dizia: eu leio o mundo. Fama, dinheiro, e reconhecimento, podem fazer parte da vida mundana de um artista. Ou ser até uma necessidade para que continue propagando a sua arte. Mas não são preponderantes no resultado final de sua obra, que tem um valor abstrato para si mesmo, muito maior que esse temporal.

"A arte pertence ao inconsciente! O Artista deve expressar a si mesmo! Expressar a si mesmo diretamente! Não seu gosto, sua educação, inteligência, conhecimento ou habilidade". Schoenberg.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

2003 Foi Um Ano Ruim

Eu tava magro. Nunca tive tão magro em minha vida. Todo mundo me perguntava se eu tava doente. O meu cabelo não parava de crescer, e eu não sentia nenhuma vontade de cortar. Eu vivia com o meu pai. Ele saia de manhã para trabalhar. Deixava alguns trocados para o pão em cima da mesa. Voltava à noite. Ele me dava boa noite e ia dormir. Eu olhava para as paredes descascadas do quarto, e pensava no que fazer. O que eu ia inventar agora. Todo mundo some quando se começa a envelhecer por baixo. Depois os putos reaparecem para relembrar a velha amizade. Seres humanos. Ninguém tocava a campainha. Ninguém me telefonava. Eu ia a biblioteca pública do bairro, mas já havia lido quase todo o seu pequenino acervo. Um urubu sobrevoava a casa. Eu queria me matar mais não tinha forças pra isso. Então me sentava em bancos de madeira, até a minha bunda criar calos, esperando ouvir alguma coisa que me tirasse daquela procrastinação. Nada. Final de semana eu arrumava uma nota de cinco, e me juntava com algum tipo derrotado. A gente ia ao supermercado, escolhia o vinho mais barato, e virava uma garrafa quente do gargalo. Alguma coisa me dizia que eu tinha que continuar. Viver é tão absurdo, mas ao mesmo tempo tão maravilhoso. Não me pergunte por que. Nessa época eu tive uma ideia de algo novo que podia fazer. Consegui me reinventar. Descobri que não existe luta, e que é preciso ter paciência.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Para Aonde Foram Os Crackudos?

Para aonde foram os crackudos. Hoje eu fui a Biblioteca Parque Manguinhos, e não vi nenhum deles por lá. As ruas estavam limpíssimas. E os traficantes, será que mudaram de ramo. Como uma população inteira evapora. Não que eu me preocupe com isso, pois como qualquer cidadão mediano, eu não me preocupo com ninguém. Mas queria saber. Só por curiosidade. Será que eles ascenderam, como dizem que aconteceu com algumas civilizações antigas. De repente eu estava lá, entre o Jacaré e o Manguinhos. Duas favelas pacificadas. Vi a polícia montada, como na época do Bota Abaixo. Vi o frisson das crianças querendo aparecer na televisão. Tia, vocês vão filmar aqui. As velhinhas felizes da vida. De repente percebi que estava sendo contagiado por aquele clima de Copa do Mundo, de Réveillon, e de Natal, em que mesmo os ateus comemoram. Percebi que era hora de voltar para casa. Pois quando a conta chega, sempre bate o arrependimento. Normalmente ela vem acompanhada da ressaca. E a ressaca moral é a pior delas. Quando você percebe que bebeu demais. E que a festa nem foi tão legal assim.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MPB FM vs. Rádio Roquette Pinto

A JB FM era a rádio número um com selo de “bom gosto”, junto da Antena 1 Fm. Mas a JB se propôs a dividir o bolo com a música brasileira e saiu na frente. Aí alguém da MPB FM sacou que se só tocasse música brasileira alcançaria um público sedento. E hoje ela ocupa o lugar que era da JB. É a mais tocada nos consultórios psiquiátricos. Mas tenho sentido a força da Roquette Pinto. Talvez pelo fato de ser uma empresa pública, ela possa apostar num tempo diferente, com espaço para intervenções de seus apresentadores, que em alguns programas lançam comentários críticos e históricos sobre o que tocam. Além disso a Roquette aposta no lado B da MPB, e no que existe de mais sofisticado na música universal. No momento em que escrevo estas palavras estou ouvindo Andrea Doria da Legião, que é uma música quase lado B. Já a MPB tem optado, com raras exceções, por uma programação mais lado A. E mesmo em alguns programas como o Pop Rock Brasil, eles metem algumas músicas saturadas, quando podiam se aprofundar mais um pouco na década de oitenta, que acredito eu, ouvinte assíduo do programa, seja a vontade da maior parte. Existe uma introdução disso, mas quando o ouvinte se empolga, eles recuam. Embora a rádio tenha um papel importante para os artistas da MPB, ela podia ousar mais. Inclusive com artistas verdadeiramente independentes. Não tenho esperança de ver uma música minha em nenhuma das duas rádios. Não existe uma ouvidoria. E acho que diferente do que as rádios dão a entender, as coisas não são tão fáceis para quem grava seu próprio material, e não tem o respaldo de um produtor ou uma gravadora, mesmo que independentes. Mas hoje talvez o ouvinte da MPB seja um potencial ouvinte da Roquete Pinto, que tem afinados muitos ouvidos, inclusive os meus.

P.s: não estou me justificando, mas não me apeguei a pesquisas, e sim a minha percepção de um público ligado a música popular brasileira. Numa análise mais completa, eu não poderia deixar de citar as formidáveis Rádio MEC FM e a SulAmérica Paradiso.

domingo, 14 de outubro de 2012

Eu Enfiei a Cabeça Dele na Lata de Lixo!

Todo dia eu venho a esse supermercado e ele fica me olhando. Eu estou a essa hora de chinelo e de bermuda com esse cabelo. No mínimo não estou pegando no pesado. E na visão dele o trabalho enobrece o homem. Ele não sabe que neste momento, só de olhar para ele e pensar sobre, eu estou trabalhando como escritor. Ele não sabe que eu sou escritor. Ele deve pensar que eu sou sustentado por minha esposa. Mal sabe ele que nesse quarteirão e no outro, e talvez até nesse bairro inteiro, eu seja um dos caras mais felizes. Por causa da minha liberdade, e de viver do jeito que sempre sonhei. Ele me olha e talvez não vá com a minha cara porque eu tenho cara de maconheiro. Isso justifica alguma coisa em sua cabeça. Ele me encara de cara feia, porque sente inveja da minha liberdade. Eu saio de fininho para não arrumar confusão. Mas em pensamento, eu enfiei a cabeça dele na lata de lixo!

sábado, 13 de outubro de 2012

Chico Buarque de Holanda

A minha vó me perguntou uma vez o que eu queria ser. Eu disse a ela que eu queria cantar samba e tocar violão igual aos pretos do morro. Agora eu estou aqui no meio dos pretos do morro. Intimidado com a viola no saco. E tenho a sensação de que estou clareando a noite. Os meus olhos claros que na beira de praia fazem tanto sucesso, aqui só fazem chamar ainda mais atenção para a minha pessoa exótica. Todo crioulo que me cumprimenta diz: e aí surfista? E talvez surfista seja uma forma de não me chamar de playboy. Ela requebra. Ela me olha. Eu dou um sorriso tímido com o canto da boca. O trafica encosta em mim e me diz: a tua papinha não é surfista? Eu digo: não, nada a ver, aí! Ele diz: qual é surfista, vai querer enganar nós? Eu calo. Ele me deu a melhor erva do morro. E disse: essa é só pra morador! Agora vem o homem gordo diretor da escola. Ele beija a mão da preta. Ela olha para a mesa como que para ter a minha aprovação. Eu sou um estorvo. Acendo um cigarro e encho o meu copo. O traficante gostou de Quem Te Viu Quem Te Vê, e disse: maior realidade aí... E depois ele contou uma história imensa sobre um caso dele com uma passista. Ele se identificou com a música, agora nós temos algo em comum. E toda vez que eu venho à quadra ele quer conversar. Ela está rebolando e olha direto na minha direção. Não consegue mais disfarçar, e eu estou com medo que eles fiquem chateados. Agora aquele crioulo mais velho cismou com ela. Ele parece querer que ela sambe com ele. Mas ela balança a cabeça e me olha novamente. Eu não posso me meter. Quem sou eu? Magro e desarmado. O trafica se levanta e caminha para o centro da quadra. Ele segura o coroa e daqui posso ler seu lábio. A mina tá com o cara! E me aponta. Ela vem. Depois o trafica. Ele diz: aí surfista, tá em casa aqui, você pode ficar tranquilo. Eu só consigo dizer: valeu... Ela me puxa e a gente vai sair. Ela não fala com ninguém. Eu penso. Sou eu, só quem sabe dela sou eu! Isso dá música.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Eu Não Consegui Roubar...

Naquele quintal só se comia angu e ovo. Por isso que hoje em dia eu só como ovo quando não existe outra opção. E tomei nojo de angu. Eu, e um dos meus primos que virou ladrão, e que por isso morreu assassinado, a gente era louco por pão. De tarde naquele sol do quintal, a gente tinha que se virar para comer pão. Então nós catávamos garrafas ou vendíamos alguma coisa no ferro velho. Eu ia com a minha prima as saudosas Casas da Banha, e ficava vigiando com medo enquanto ela jogava as coisas dentro da roupa. Hoje em dia isso não seria possível por causa das câmeras. Uma vez eu tentei roubar um doce na mercearia. O rapaz não brigou comigo. Mas me olhou de uma maneira tão desaprovadora, que antes ele tivesse me levado para a delegacia. Ainda hoje não consigo me esquecer daquele olhar. Mais tarde surgiram convites mirabolantes para furtos mais sérios. Detesto armas e violência. Só o pensamento de empunhar uma arma me provoca náuseas. Um amigo meu rouba canetas. Ele está conversando contigo, ou com uma atendente qualquer que lhe presta uma caneta, e ele escorrega a caneta para dentro do bolso. E vibra como se tivesse acabado de assaltar um banco. Ele diz: você viu, ela nem imaginava! Quando eu era criança pedi a um senhor que me emprestasse umas moedas para poder jogar fliperama. Na minha cabeça infantil aquilo era uma necessidade. Depois do que ele disse, eu passei a detestar pedir coisas aos seres humanos. Quando é dia de dar doces eu me tranco em casa. Fecho até as cortinas. Pois fico com pena daquelas crianças que pegam doces, não para se divertir, e sim para matar a fome.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Praia Mais Bonita Do Brasil

A praia mais bonita do Brasil fica num dos estados mais populares do nordeste. É uma praia pequena. Ela tem bancos de areia, areia branquíssima, e água cristalina com temperatura agradável. Mas o melhor de tudo, é que não existem muitos muitos seres humanos por perto para poluir o ambiente. Embora nessa praia tenha sido filmada uma novela, impressionantemente ela não se tornou popular. Esse estado do Brasil tem praias muito conhecidas, mas essa não figura entre as mais citadas. Não sei se por que bulhufas ela se mantém assim. Não sei se é contramão, ou o que acontece. Lá tem poucas barracas e as coisas não são tão caras.  Trouxe algumas conchas que catei para fazer um colar. Eu não bebo cerveja. Mas naquele dia tive que beber. E enquanto o vendedor estava reclamando que lá era uma praia pouco frequentada, eu pensava, tomara que eles não venham sujar aqui, também, que fiquem pela cidade! Pensei isso não por uma questão de egoísmo, e sim de preservação. Quando olhei para aquele mar, matutei, eu posso até não ter conhecido a  eternidade, mas que eu já conheço o paraíso, ah, isso eu conheço!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Snoop Doggy Dogg No Programa Da Oprah Winfrey

Snoop Doggy Dogg foi ao programa da Oprah Winfrey. Quando ele sentou no sofá, a apresentadora, antes mesmo de saudar a plateia perguntou: você fuma maconha? E Snoop respondeu: exceedingly. Ou seja, excessivamente. Oprah abanou o ar com a mão e disse, está um cheiro aqui, que chegou a empestear todo estúdio. A plateia veio abaixo. Um minuto de risos. Snoop disse: é que esse baseado é o baseado do mês! E Oprah perguntou: como assim o baseado do mês? Ele explicou. Eu tenho um cemitério. E Oprah fazendo graça, eu não sabia... A plateia sorriu. Snoop disse: é um cemitério de pontas. E quando eu encho um potinho com as pontas do mês inteiro, eu tiro aquela erva curtida de dentro de cada cigarro, e enrolo um único baseado do tamanho de um charuto enorme, e isso aconteceu hoje! A Oprah disse: quer dizer então que eu fui sorteada? Sim, você foi sorteada! A Plateia desabou. O YouTube não permitiu que o vídeo fosse postado.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Adriano

Adriano, eu moro aqui na Penha, e este lugar realmente tem alguma coisa inexplicável. Até escrevi um livro sobre isso. Adriano, todo mundo sabe que o teu problema não é droga, e sim bebida. Você está doente, e tem que se cuidar. Pois tem um vício que leva a outro vício. E provavelmente tudo começou com uma depressão que você não cuida. Dá para ver em teus olhos. A depressão assim como o alcoolismo é uma doença que tem tratamento. Existem esses grupos de doze passos que funcionam. Mas cuidado para não culpar a bebida e o sexo pelos teus fracassos, ao invés de reavaliar o teu pensamento. E cuidado também para não substituir alguns vícios por outros, tipo, comida, videogame ou fanatismo. Eu sei que você vai enlouquecer se tiver que abandonar determinadas amizades e lugares. Mas dependendo do caso, isso se torna necessário. Ninguém afunda ninguém, Adriano. Cada um é que se afunda sozinho. Você falou em desistir, e parar de jogar. Após um jogo em dois mil e nove, eu fui dormir emburrado, pois estava colocando fé que com aquele time dava pra ser campeão. Mas sabia que a gente não podia perder aquele jogo. Eu deixei de acreditar assim como você está deixando de acreditar agora. No dia seguinte aquele jogo todo mundo disse: Já era! Mas vocês começaram a embalar. E a cada jogo que passava, eu me perguntava: será que vai dar? Você é o jogador mais forte que eu já vi jogar. Eu me lembro de que pisava na bola e a protegia com o corpo, e o zagueiro que trombasse contigo se dava mal. Você com a tua cabeçada, e o teu chute forte. Sempre a espera do próximo duelo, a gente começou a fazer as contas e a dizer que dava. Nunca valorizei tanto os minutos passados como naquela final. E cada um que passava me dava um alívio igual aquele vento que passa no rosto numa tarde de calor. Quando o juiz deu o apitou final e apontou o centro do campo, eu senti uma emoção que só havia sentido pela última vez naquele gol do Pet. Saí correndo portão afora, gritando de felicidade. Eu não acreditava mais na recuperação do Flamengo, e você me fez acreditar que a gente junto conseguiria. Espero que você agora aceite que eu te diga que você pode se recuperar. Não que a gente dependa de você, pois nós não podemos depender de jogador. Até porque o nosso time, é a nossa torcida, e não os nossos jogadores. E você criado no clube, sabe muito bem disso. Mas sim pelo que você já fez pela gente. É uma forma de gratidão. Por isso nós te aceitamos de volta. E tomara que você faça a sua parte. Não pela gente, mas por você mesmo, Adriano.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As Minhas Mãos São Feias

As minhas mãos são cheias de calos. Calos do instrumento que toco precariamente, e outros calos. Calos nas pontas dos dedos. A ponta do meus dedos são queimadas, por falta de atenção. Eu faço um força terrível para não roer unha. Não sei cortar as unhas, e sempre que as corto sem ajuda, acabo arrancando um pedaço de pele. Mas o que há de feio em minhas mãos não é fruto de um trabalho pesado. Embora escrever me deixe com dor na coluna por conta da má postura. Elas são feias talvez em respeito a uma tradição familiar. Pois as mãos da minha mãe cheiravam a água sanitária. Por isso sempre que vou comer em algum lugar escondo estas mãos que pressionam as teclas. Que apesar de limpas, são feias. As minhas mãos estão sempre embaixo da mesa. Já cuidei das minhas unhas, mas não deu, elas chamavam ainda mais atenção para o resto. Por isso que as minhas mãos em determinadas situações estão enfurnadas em meus bolsos. Pois elas são os olhos do tímido.

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia de Eleição no Subúrbio

Dia de rever os amigos de infância. Pois eles sempre voltam para almoçar em família na casa da mãe que continua morando na mesma casinha que irá morar pelos próximos cem anos se deus quiser. Dia de saber que o cara mais inteligente da turma não ficou rico. E que aquela menina pela qual você era apaixonado acabou se casando com aquele mané, e que hoje ela está gorda e que traz três filhos na bagagem. Bem feito pra ela. Dia de ouvir na fila para votar que todos os políticos são safados. Dia de pensar em quem vota nesses políticos safados. Dia de no final da tarde olhar aqueles carros lotados voltando para outros bairros distantes, e de entrar no ônibus cheio de crianças e bolsas. Mas ninguém deve ligar muito para saber quem foi eleito. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

De Saia Curta e Salto Alto

Ela chegou à festa com aquela saia que mesmo para os padrões dos tempos em que as mulheres são essenciais para a política central do ocidente, num tempo em que o que é bonito é para ser mostrado, num tempo em que posar nua é sinônimo de trabalho, e de eu sou independente, mas você paga a conta. A saia era um escândalo. A tia chegou abafando e logo pegou no colo o menino ainda em trajes de pagão. Alguns homens engoliram em seco como de costume. E disseram em pensamento: gostosa! Num tom que dava a entender que isso era uma ofensa. E as mulheres, despeitadas ou não, diziam: que saia! Algumas olhavam mais com admiração do que inveja. Daquele mesmo jeito que alguns homens olham. A tia pegou o aniversariante no colo e fez todas as firulas possíveis para que todos vissem o seu útero. Agachou, pulou, e sentou de perna aberta. Falou praticamente com todos os homens acompanhados da festinha de um ano. Com aqueles com quem tinha, e que não tinha intimidade. Alguns ficaram até com medo de se levantar da mesa, para não sofrer um achaque íntimo. Naquele dia metade dos casais que foram à festa dormiram brigados. A outra metade comentou o acontecimento. O aniversariante dormiu no colo da tia entre dois belos melões. A tia dormiu feliz da vida em sua cama de solteira. E lá vêm as festas de final de ano. Boa sorte a todos!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Avenida Brasil

Aeroporto. Tiro. Carro na contramão. Falsa blitz. Pedra arremessada de cima da passarela. Engarrafamento. Tiroteio. Xingamento. Foda-se. Vai tomar no cu todo mundo. Calor pra caralho. Mendigo andarilho. Criança abandonada vendendo bala no ônibus. Ônibus lotado. Duas horas parado. Pardal. Atraso. Garrafa de plástico arremessada pela janela. Alagamento. Intransitável. Bandalha. Mixórdia. Pedinte. Vendedor ambulante. Pregação. Isopor com cerveja. Boca perto da pista. Maconha palha. Propina. Motel pra trepada com colega de trabalho na hora do almoço. Travesti se prostituindo em ruazinha transversal. Propagandas. Forró. Falsas propagandas. Palavras de ordem. Utopia. Hospital público lotado. Escola de nível médio para trabalhadores que sonham. Pedofilia. Necrofilia. Turismo sexual. Cachorro vira-lata com o pelo caindo. Idoso. Deprimente. ONG corrupta. Barracos amontoados. Pichação. Falta de privacidade. Lixo cobrindo bueiro. Arrancada. Atropelamento. Estresse patético. McDonald`s. Habib`s. RJ TV. Wagner Montes. Frentistas com celulite. Batidas. Ausência de riqueza. Ausência de beleza. Pobreza sistemática. Corrupção impregnada. Omissão. Atitude duvidosa. Falta de amor próprio. Ilusão constante. Otimismo arcaico. Pessimismo. Artista mimado. Carro tocando pagode com ar condicionado. Gênio incompreendido. Lixão cenográfico. E não aparece um tufão pra acabar com isso tudo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

12h25min

Ele não ouve mais a professora. Já guardou o material. Olha o relógio. 12h20min. O sinal toca. É o primeiro a sair. Corre. Ignora os gritos de pera aí! Atravessa o portão. Passa por um carro de polícia. Correndo. Sem medo. Hoje Não. Tô com pressa. Quase pisa na mercadoria de um vendedor ambulante. Atravessa com o sinal aberto. Quase é vítima de atropelamento em frente ao shopping. Buzinas. Mais buzinas. Não ajuda uma velhinha atravessar a rua. Quase derruba uma velhinha na saída do supermercado. Corre. E corre de novo. Passa por seu avô jogando baralho na praça. Não dá a mínima. Corre. A menina vem com duas amigas conversando tranquilamente. Descendo a ladeira. Ele está ofegante. Ela diz: deu tempo? Ele diz: sim. Um filete de suor escorre das suas têmporas. Ela dá um beijinho seco nos lábios. Ele segue em silêncio ouvindo a conversa das amigas. Ela pergunta: tudo bem? Ele diz: sim. Ela sente a mão dele suada. Ele olha o relógio da praça. 12h25min.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vila Mimosa

Cheiro de cerveja envelhecida. Odor ocre. Perfume da Avon. Vinho barato. Cigarro mata rato. Quartinho apertado. Maquininha de música. Funk proibido. Forró de teclado. Som alto. Tatuagem de cadeia. Fininho de cadeia. Pó. Talagada. Olhos vermelhos. Pernas bambas. Polícia. Bandido. Milícia. Taxista. Dinheiro no sutiã. Em nome do pai do filho e do espírito santo feito com o pagamento. Cabelo pintado de louro com tinta vagabunda. Balangandãs. Badulaques. Balacobaco. Imagem de São Jorge. Ogum. Camisinha no cestinho de lixo. Creme de farmácia. Higiene. Falta de higiene. Competição. Sinuca. Fliperama antigo. Camelô vendendo bala halls. Bijuterias. Se lava ali na pia. Tem uma toalhinha aqui. Agentes de saúde distribuindo preservativos. Evangélicos apontando o caminho. Guia de macumba. Menores. Maiores. Virgens. Broxas. Aposentados. Peões. Dia de pagamento. Angu. Vaca atolada. Churrasquinho de gato. Playboys entediados. Intelectuais em busca do povo. Arruaceiro arrastado para a rua mais próxima para levar uma coça. Sexo. Foda. Programa. Trepada. Amor, vamos fazer um amorzinho gostoso? Esculachos. Briga. Pagou ou não pagou? Gozou rápido! Demorou a gozar... Halitose. Cabelo cheiroso. Pau ensebado. Felação. Gritos artificias. Me fode! Tentativa de strip-tease. Homem cheiroso. Homem carinhoso. Homem estúpido. Peito caído. Bunda durinha. Coxa marcada. Celulite. Rosto encarquilhado. Rostinho de boneca. Bunda grande. Bunda pequena. Peito grande. Peito pequeno. Só não uso camisinha com o meu marido! Declarações de amor. Casamento. Chupar o pau dos outros por tabela. Com beijo na boca é mais caro. Sem beijo na boca, então. Só beijo o meu marido na boca! Anal é mais caro. Dói. O teu pau é muito grande. Ai. Ui. Coloca devagar. Vou trocar de posição. Mal humor. Bom humor. Alegria histérica. Chão sujo. Perdeu a linha. Sono. Ressaca. Esquinas da Rua Ceará. Cearenses. Mineiros. Cariocas. Enfim, Brasil.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Dezesseis Anos e Um Mês

Ela só tem dezesseis anos. E tem um filho com um mês. A sala está cheia. O neném não vai com a cara de nenhum dos presentes. A mãe põe ele no colo de um tio alto, e de óculos, e diz: vai com o tio. Ele segura o menino por alguns segundos. O neném tem dificuldades para fazer virar a cabeça. Mas ele faz isso. Parece que perdeu alguma coisa. Olha desolado para as paredes brancas da sala. E de repente dá um grito. Faz um barulho parecido com um ai. O tio balança o neném. Ele dá outro grito. Ouve a voz da mãe perguntando o que foi, e percorre todo o caminho com os olhos até chegar a ela. O tio diz: acho que ele quer ir no teu colo. E devolve o embrulho para a mãe que diz: as vezes ele estranha... O tio diz: ele não gosta de ficar no alto? Você vai ficar sentada com ele? E a mãe: sim. Ela continua. Mas eu não fico em pé com ele, não! E agora o neném está em silêncio e com os olhos arregalados. Ele não fica em pé com o tio. Mas fica sentado com a mãe. Ele é apenas um cotoco de gente, mas como toda gente já sabe o que quer. E o tio pensa que esta é a sua maneira de dizer. Não é a mamãe! 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Netfobia

Estou com medo que o meu computador seja invadido e as minhas ideias plagiadas. Estou com medo de não ter mais direito a um segredo. De não ter mais direito a uma intimidade. Tenho medo que você esteja me filmando agora, neste momento. Tenho medo que você saiba onde eu estou e tenha todos os meus dados. Tenho medo de ser filmado nu, ou no próprio ato sexual, ou até quem sabe tocando uma, como se não tivesse mais direito a fantasia, e as paredes a partir de agora tivessem realmente ouvidos, e ouvissem até a minha respiração. Tenho medo que me filmem dando uma cagada em um local proibido. Ou de ser preso antes de aliviar a bexiga. Ou de ser filmado tirando uma meleca do nariz, e passando na sola no tênis, e isso virar um hit no YouTube. Quem não deve não teme. Mas eu devo muito. Não quero viver em rede, embora eu já me veja enrolado nela igual um caranguejo, lutando para me desvencilhar. Não quero ser um número, como previu o apocalipse, neste mundo de dígitos e bits. Não quero ter um milhão de amigos virtuais. Não quero ser gravado dando uma opinião que não daria publicamente para não magoar as pessoas. Como se a preservação, o cinismo, a fofoca, ou a hipocrisia não fossem inerentes ao ser humano. Tenho medo de me tornar um viral sem conteúdo. Tenho medo que as minhas músicas sejam jogadas no meio de um milhão de outras músicas que são escutadas em aparelhos pequeninos para se ouvir durante alguns dias. Tenho medo que as minhas músicas sejam ouvidas fora do contexto. Tenho medo de que os meus textos se tornam mais textos empilhados na internet. Tenho medo de não ter mais tempo para a leitura de livros de outro tempo. Tenho medo de não poder ouvir mais os discos. Tenho medo de não ter tempo para admirar um quadro, ou de não ter tempo para o ócio e a divagação. Tenho medo de deixar de ser eu, e fazer parte de um grupo e ficar repetindo as coisas que os outros dizem. Tenho medo de circular por aí em remixado. E que mais do que ganhar dinheiro com isso, eu não tenha direito a autoria. Como eu já vi imagens que captei na televisão e só pude dizer: fui eu que fiz isso! Como já ouvi versões de coisas minhas. Tenho medo, e sei que tudo isso está acontecendo, e que não vai parar de acontecer. Como se a gente não tivesse direito de optar, ir ou não ir à praia de nudismo. Só que dessa vez o que será despido, serão os nossos espíritos. Eu tenho medo de mais do que perder a minha essência no meio desse bolo doido, é de não me reconhecer como tal. Como quem eu sou! A privacidade está com os dias contados e eu não vou saber lidar com isso. Talvez eu fuja para uma ilha. Fique barbudo. E invente uma nova doença. Netfobia.

domingo, 9 de setembro de 2012

Câmera Não Escolhe Quem Filmar!

Ele mastigou duas aspirinas e as engoliu. Sempre fazia isso quando estava com enxaqueca. Nunca ficou provada a eficácia daquilo que a vovozinha que morreu com 100 anos havia lhe ensinado. A saudade da avó o levou a sentir saudade daquela primeira desova. Ele se lembra de ter carregado o corpo por um local ermo até a beira do lago. O mais velho naquela época o havia ensinado a carregar o corpo, e disse: é como carregar sacos de batatas! E essa saudade o levou a sentir saudades de quando podiam levar sacos de lixo pretos e enormes dentro da viatura. Ultimamente até com o kit vela vinham implicando. Uma arma e uma peteca de pó para quem bancasse o engraçadinho com aquele discurso de que eu sou cidadão. Ou de que por alguma espécie de escolha do destino, aparecesse na hora em que as coisas estavam acontecendo. Quando alguém pediu a ele que se levantasse, ele se lembrou daquele jogador de futebol flagrado com o travesti. E de um comentário na internet. Câmera não escolhe quem filmar! E elas também filmam policiais, ele pensou enquanto ouvia a  sentença da boca do juiz.

sábado, 8 de setembro de 2012

Assassinatos

Ele foi chamado no portão da casa da namorada para ajudar a carregar um sofá. Na esquina levou uma porção de tiros. Estava devendo. Ele havia acabado de sair da cadeia depois de amargar uma pena de quase sete anos por roubo. Foi até a padaria com o sobrinho. Queria comer algo. A mãe disse, não vá. Mandaram o sobrinho correr. O menino correu. Ele foi assassinado ali na esquina em frente a padaria durante o dia. Estava devendo. Ele apareceu numa vala. Dizem que estava viciado em crack. E que morreu de overdose. Estava devendo. Ela sumiu e apareceu numa vala. Cheia de tiros. O que chamou a atenção era o fato de ser uma mulher já com certa idade e cheia de filhos. Dizem que era viciada. Estava devendo. Ele jogava bola e fazia uma linha de passe bonita. Foi espancado até a morte a madeiradas. Dizem que saiu com a mulher de um bandido. Estava devendo. Disseram pra gente, ele tá na lista. Eu fiquei com medo de ir embora da festa com ele que foi espancado até a morte. E ainda passaram com o carro por cima do corpo dele. Estava devendo. Ele foi fuzilado, e junto dele um moleque de dezesseis anos que não tinha com o troço. Ele estava devendo. Dizem que moleque não,  moleque não estava devendo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Feliz Dia Da Independência!

Você está olhando para o seu filho no retrovisor. O moleque é o capeta e ele vai enfiar o Ben 10 nos cornos da menina. Você se antecipa a jogada como um bom atacante de futebol. Ele é igual a você quando batia nas criancinhas, a tua mãe diz. Mas foda-se, você era responsabilidade dela e do seu pai nessa época. Então você grita: não faz isso com a tua irmã! Ele recua. Volta com mais força. A menina abre um bocão que ocupa todo o espelho. Parece que vai te engolir. O seu marido enfiou a cara no jornal, e é como se qualquer coisa que aconteça fora daquelas páginas não seja de sua responsabilidade. O príncipe encantado da sua adolescência não está falando com você. E talvez seja por causa dos filhos, como se  você os tivesse feito, sozinha, ou como se o que existe de errado com eles fosse justamente herança do teu DNA. Você quer perguntar se ele quer dirigir. Mas essa não será uma boa pergunta, já que pelos cálculos dele, os seus vinte minutos de atraso procurando as tralhas das crianças fez toda a diferença. Vinte minutos antes não havia engarrafamento algum. Você não se imaginou com trinta e poucos anos parada num engarrafamento com um príncipe que está virando um sapo com uma barriga enorme de chopp. Não era essa a viagem dos sonhos com o seu carro novo. Ficar parada durante horas junto de uma porção de gente que você não conhece. E depois levar  mais meia hora procurando um local para estacionar. Para chegar numa casa lotada de parentes fofoqueiros, querendo saber quanto você está ganhando e jogando na sua cara o fracasso que você é e que sua prima... bom deixa pra lá. Mas vai ter água salobra. Fila para o banheiro. Falta de silêncio, e de privacidade. Você queria estar em casa comendo aquela pizza caseira e bebendo vinho. Quem sabe baixar um vídeo. Mas toda a família vai! Não podemos fazer desfeita... Você vai abrir a porta e começar a gritar. Feliz Dia da Independência. Mas que nada, vamos tentar de novo. Você não vai fazer isso. Maldito dia da Independência... você diz entredentes.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Propaganda Eleitoral Gratuita

A propaganda eleitoral apesar de previsível, ainda é a melhor opção da tevê brasileira no gênero comédia. O figurino está impecável. Ainda mais quando surgem os candidatos de partidos radicais que prometem estatizar o país, com seus uniformes de velhos comunistas, com camisas do Che Guevara que fazem sucesso no meio universitário revolucionário que não sabe que essa moda já passou. O figurino do ator principal que faz o papel do prefeito, é no velho estilo almofadinha. A trilha sonora deixa a desejar com sambas batidos por grupos de pagodes que ganham uma bufunfa, e não tem a mínima noção do que estão apoiando, ou que fingem não ter. E os funks exibindo os candidatos, senhores da área nobre da cidade já em idade avançada, tentando se aproximar dos jovens e do povão, também não convence. A fotografia promete, mas não traz nenhuma novidade. Focalizando sempre os canteiros de obras. O roteiro peca nos diálogos dos candidatos que tem menos tempo, e quase não conseguem dizer seus nomes que vem acompanhados de do gás, do churrasquinho, do posto, e por aí vai. Eles se equivocam pensando que são tão conhecidos a ponto de conseguir um trampo melhor. A velha piada da celebridade, do atleta, do comediante, e do pipoqueiro, não funciona mais. É o mesmo que torta na cara e jogar água nos outros. Nem as alianças de partidos que antigamente eram inimigos. O ponto alto do filme é o ator principal com a sua interpretação brilhante. Ele consegue convencer no papel de salvador da pátria. E deixa o público com a sensação de que está em Genebra. O diretor que também é publicitário garante a sua marca. A montagem e edição tem os cortes exatos, que levam o público a acreditar naquilo que o diretor quer passar. O telespectador tem a sensação que viajou realmente naquele mundo de fantasia. O que é bem melhor que ficar assistindo os mesmos pastores engraçados pedindo dinheiro. Os mesmos programas de comédia em que se leva meia hora para se dar uma risada. E os tais dos Stand Up Comedy que em sua maioria não passam de um bando de mauricinhos preconceituosos, e metidos a intelectuais, que só fazem piadas diminuindo as outras pessoas, e se acham a última bolacha do pacote com a sua sabedoria de querer ajudar esse país de ignorantes. Quando eles provavelmente foram beneficiados por nossa ignorância. Em meio a tudo isso, A Propaganda Eleitoral Gratuita ainda é promessa de boas gargalhadas. Divirta-se!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Billy Paul No Parque Madureira

Um cara de uma dessas revistas alternativas me ligou. Qual é cara, você pode escrever uma matéria sobre o show do Billy Paul que vai ter aí no subúrbio? Eu disse: posso. Ele: mas não vai rolar cachê e nem divulgação. Eu perguntei: mas rola algum dinheiro pra um pastel e uma Coca-Cola? Ele respondeu: qual é cara? nós fazemos tudo pelo poder transformador da arte! Desligou. Vou logo avisando. Não sou crítico musical. Não sei se essa profissão existe. Assim como comentarista de futebol que eu acho uma profissão tão dispensável quanto ascensorista de elevador. Nem conheço o vasto trabalho do Billy Paul. Mas era de graça. Perto de casa. E com o agravante de ser em Madureira, que é a casa da música negra no Rio de Janeiro. A capital cultural do Rio de Janeiro. Então, justo. O cara certo no lugar certo. Eu e minha mina assistimos de camarote. Pendurados nas grades do fundo para poder ver o palco. Billy Paul não grita. Ou melhor, dá um grito de vez em quando, quando necessário. Ele é como aquele meio-campo, ou cabeça de área clássico, que joga para servir o time. Puxa a responsabilidade para si. Não é um show para quem não gosta de música e só está preocupado em balançar a bunda. Ele tem um tempo diferente, e Billy Paul sabe disso, pois deixa o cara das teclas, e o guitarrista solar tranquilamente... Fiquei impressionado com a falta de pressa mesmo quando se tratava dos hits. Assisti a shows clássicos nos últimos tempos. As pessoas vivem se repetindo. Billy Paul, não. Ele toca como se fosse desconhecido. Como se estivesse tocando num bar. Eu vi alguma coisa de verdade nessa noite. Não esses shows plásticos, em que a tecnologia é um componente tão importante que deixa tudo frio. E que você sabe de cor a hora em que o vocalista irá dar boa noite. Se o Prince ouvisse a versão de Purple Rain em Madureira, ele nunca mais cantaria essa música. Assim como acho que o Chico Buarque não deveria mais cantar Samba e Amor depois daquela versão do Caetano só com o violão. As backing vocals eram maravilhosas assim como a banda. De vez em quando em época de eleição acontece alguma coisa interessante no subúrbio.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dois Personagens...

Eles passaram por mim na escada. Não reconheci nenhum dos dois. Um deles estava de cabeça baixa e nem pude perceber a sua fisionomia direito. Mas fiquei com a certeza de que os conhecia. Matutei isso durante um bom tempo. Eu tinha certeza que havia uma intimidade imensa entre a gente. No dia seguinte, durante a manhã, aquela encontro me veio a cabeça novamente. Eu fiz aquela força que se faz com o cérebro quando se quer lembrar da letra de uma canção que não se ouve a muito tempo. E aí sim lembrei quem eles eram. Foi muito rápido. Talvez uma fração de segundos, como esbarrar , dar um encontrão no meio da rua com alguém. Mas eu tive certeza absoluta. Eram eles. Eram eles dois. Os meus dois personagens. Eu havia sonhado com eles. Com os dois.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Não Consigo Ler Dom Quixote...

Ele me perguntou: você leu Dom Quixote? Eu disse: não. Ele disse: porque? Chato. Eu sei que Dom Quixote é considerado um dos melhores livros do planeta. E deve ser mesmo. O fato de alguém achar um livro chato não quer dizer que ele seja chato. Tem muita gente que acha alguns livros que eu achei alucinantes, chatos. Por exemplo, conheço gente que não consegue ler Madame Bovary, Dom Casmurro ou Cem Anos de Solidão. E o próprio García Márquez disse amar Dom Quixote. Embora as más línguas digam que Dom Quixote era um remix de estórias de cavalaria da época. Assim como dizem que Shakespeare escrevia causos e que muitas estórias eram encomendadas. O que não diminui de forma alguma a grandeza do bardo e dramaturgo. Eu gosto dessa aura de sagrado. Mas de obrigatório, não. Odeio quando um merda afetado finge ter lido Dom Quixote e diz: ah, sim, Dom quixote, nossa, legal. Ou então um jornalista vira e diz. Leia James Joyce, é leitura obrigatória! Dever de casa. Isso é o mesmo que obrigar uma pessoa burra a ouvir Beatles só porque os Beatles são a melhor banda do mundo. Eu nunca vou contar a ninguém que não consigo ler Vidas Secas, e nem me emocionar com a cachorra Baleia. E não entendo o quê escritores que eu adoro veem em Faulkner. Li o Grande Gatsby sofrendo e não me conformo de não ser louco por esse livro. Eu vou tentar ler esse livro novamente em algum momento. Pois eu sei que alguns livros dependem do momento da nossa vida. Aquela história de que os livros nos encontram no momento certo tem funcionado comigo. Mas que nenhum babaquara venha me perguntar sobre um clássico que eu não gosto. Mas ainda posso virar para o lado e dizer: bom... dando a entender que li.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Furúnculo

A briga. Eu acabei rolando por cima da cama. Tentei me esconder. Era uma mulher furiosa com TPM, menopausa, ou sei lá o quê mais. Estava disposta a me trucidar. Depois dessa moda de homem ser picotado por mulher, nunca se sabe não é mesmo? Mas eu consegui fugir e me abrigar no banheiro. Eu sabia que havia cometido um crime. Aquilo não iria ficar barato. Mesmo que eu ficasse a noite inteira ali. Uma hora eu teria que sair. E com certeza ela estaria me esperando lá fora. A marca da traição estava no meio das minhas pernas. Ela sabia disso. Era tarde para apagar aquele rastro. Depois de algum tempo resolvi sair. Ela estava deitada na cama fingindo ler um livro, e olhou por sobre o mesmo, e por cima dos óculos. Ela já havia ralhado seriamente comigo antes. Nem que eu inventasse de dar flores ou caixa de bombons, ou carros com tele-mensagens, a essa altura do campeonato não adiantaria. Mas dessa vez eu pisei na bola realmente. Eu já havia espremido espinhas escondido. Mas o prazer dela em colocar aquele carnegão para fora era inestimável. Ela me agarrou sem dizer nada, puxou a minha calça e viu que eu havia espremido o furúnculo sozinho. Sentou na cama e chorou. Você espremeu teu furúnculo sozinho... buá... eu senti pena.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Vício!

Não consigo me controlar. Já foi o meu dinheiro quase todo. Toda vez que estou naquele lugar compro a minha droga. Certamente tenho que ir sem grana. O meu programa de doze passos me diz para evitar lugares e pessoas. Mas eu simplesmente não consigo. Voltei pra casa sem grana nenhuma depois que passou o efeito da viagem. E que viagem! Eu me senti um pinto no lixo, e agora estou jogando no chão, deprimido com o final da festa. E começo a perceber que vício é vício, e não importa qual vício seja, e que um vício sempre vai te levar para o buraco. Seja ele qual for! No começo é sempre assim, você acha que vai ser diferente, e que será aquela pessoa que vai conseguir se controlar. A gente nunca sabe quem vai ser o sorteado. Mas o tempo passa e nada, você é apenas mais um drogado que não come, não dorme, e que vaga pela cidade igual um zumbi, atrás de mais uma dose da maldita. Então que diferença faz ser viciado em cocaína, sexo, ou em qualquer outra droga? Se o processo é sempre o mesmo. O meu psiquiatra diz, o quê é a ansiedade sem a depressão? E qualquer vício sempre vem acompanhado destas duas. Quando percebo que estou duro de novo. E que não fui a praia e que fiquei um dia todo num quarto escuro com um livro na mão, eu percebo que não posso mais frequentar shoppings ou livrarias, e que tenho que manter a distância de sebos e feiras. As minhas costas estão fodidas de tanto ficar sentado escrevendo. Bom, pelo menos, isso é melhor que bebida, não dá ressaca, e quem sabe algum dia eu ganhe alguma coisa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Sexo!

Eu espero a minha mina na estação. E vejo um grupo de adolescentes. Eles parecem ser de uma igreja dessas. E se revezam na hora de abordar os passageiros. Eu acompanho a cara e o sofrimento de cada um dos “escolhidos”. Sofro junto com eles, que estão vestidos de adultos “almofadinhas”. Três meninos e três meninas, que provavelmente devem ter algo melhor para fazer, do que ficar importunando as pessoas, com aquele papo de que deus vai resolver os problemas que a gente criou. Eu começo a acompanhar os seus gestos e movimentos, e penso que há algo errado no paraíso, como dizem os Paralamas do Sucesso. E pergunto a minha mina, por que eles não estão em outro lugar namorando, ou fazendo coisas que “adolescentes normais” fazem?  Ela me responde: obviamente os pais deles não deixam. E provavelmente eles vão se casar muito cedo por causa disso. Eles têm duas opções, ou ficam com os “irmãos” da igreja, ou ficam com os “irmãos” da igreja. Eu pergunto a ela: por quê? Ela me diz: sei lá, cara! Aí é querer saber demais...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Drive, ou Taxi Driver?

Aquele escritor idiota vai na tevê dizer que é uma cidade turística linda. O taxista me diz: esse lixo está por todo lado. Alguém tem que limpar essa cidade. Esses putos infestam as ruas. Os putos são os travestis que fazem ponto de ponta a ponta na orla de uma das praias mais famosas do país. Não vejo travestis no meio da rua durante o dia. A barra deve ser pesada para eles aqui. Eu penso no quanto a maioria deles são machistas. Preconceituosos. Bebem demais. Enfiam a porrada nas mulheres. Só lavam a sua honra com sangue. Devem estar em primeiro lugar na estatística do crime passional. Também devem comer travestis. Alguém deve comer esses travestis. Senão eles não estariam ali. Estrangeiros. A cidade está cheia deles. Quando você para numa fila para fazer um jogo de loteria, consegue ouvir os seus sotaques. Eles são donos de restaurantes, de lojas, são donos de quase tudo. Provavelmente não vão para outra cidade aonde as coisas sejam mais difíceis, e as mulheres mais espertas. Por falar em mulheres espertas, volta e meia, uma delas consegue se casar com um deles. Basta adentrar um cibercafé para ouvir uma delas falando em outro idioma. Eu ouço uma mulher falando sobre o quarto onde eu vou ficar hospedado. Ela me diz: você vai ter que pagar uma taxa se perder a chave do apartamento. Homem não pode circular sem camisa pelos corredores. E me vem a cena na cabeça. Um homem branco, 50 anos, quase vermelho, parece um camarão queimado de praia. Eu já vi essa cena de madrugada. Mas ela se repete durante o dia. Ele abre o portão para duas meninas ainda adolescentes. Se tiverem quinze anos completos, cada uma, é muito. Ele vai até a cabine do porteiro que abre o enorme portão de ferro. Na tevê diz que nesta cidade, o que as câmeras de segurança mais flagram depois do uso de entorpecentes, é o atendado violento ao pudor. Eu desligo a tevê. A minha cabeça está doendo. Engulo um comprimido de Melhoral junto do meu antidepressivo. E desmaio.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Se Não Bebe, Usa Droga!

O moleque tem 16 anos. Toca guitarra pra cacete. Ele pensa que o Nirvana foi a última coisa boa da música pop. Nem sabe que a Amy Winehouse lançou um disco foda depois que o Kurt Cobain se matou. Ele se acha a última bolacha do pacote com aquela camisa do Ramones. O moleque não gosta de beber pois sente dor de cabeça. Ele deu um tapinha num baseado uma vez, mas não sentiu nada. Odeia o cheiro do cigarro. Nem quer sonhar com outras drogas. A namorada dele, não. Essa adora uma erva. Ele é obrigado a ficar se cagando esperando por ela em frente a boca de fumo. Ela com aquela camisa do Sex Pistols. Ela nem sabe que existem os Strokes e os Monkeys. Ela pensa que o Sex é melhor do que os Beatles. Só porque eles eram punks e os Beatles não. Quando ela apresenta o moleque a sua mãe, ele se esforça para dar um boa tarde senhora. A mãe dela responde com um mugido. Ou será um rugido. Melhor. Ela faz um barulho estranho com a boca. O moleque diz a menina. A sua mãe não falou comigo direito. Ela diz. Deixa isso pra lá, ela é assim com todo mundo. Quando o casal sai. A mãe da menina diz para o pai que está com a cara enfiada no jornal. Esse aí, se não bebe, usa droga!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Troque Seu Cachorro Por Uma Criança Pobre

Agora essa moda de cão com sapatinho no colo chegou ao subúrbio. Antes isso era coisa de “fresco”. De madame da Zona-Sul. De “bicha”. De senhoritas de Manhattan que trabalham em revista de moda. Deixa o bicho andar. O bicho sabe se virar sozinho. Se você não o tivesse “adotado”, provavelmente ele ia conseguir se virar. Diferente de uma criança. Tem gente quem ama o bicho. Mas não tem amizade com um vizinho. Não se entende com o filho. E vem dar discurso a favor do animal. E dizer que é a favor da natureza. Todo dia morre criança assassinada. Tem uma porção de criança na fila de adoção. Faz igual ao Eduardo Dusek, troque seu cachorro por uma criança pobre.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Marquise

A marquise fica numa esquina próxima a minha casa. Antes ali funcionava um bar onde um daqueles senhores portugueses que te olham por cima dos óculos ficava sentado o dia inteiro. Ele olhava as pessoas paradas no ponto do outro lado da rua. Esse era o seu passatempo. Analisar as pessoas. E talvez ele reparasse nas suas roupas ou para onde elas iam. E talvez ele traçasse até um perfil psicológico delas. Antes do bar fechar as portas, e esse senhor botar a viola dele no saco, os adolescentes ficavam ali parados a noite. Fumando maconha e fugindo do frio. Quem sabe até espantando alguém que quisesse se recolher da chuva. Ficavam ali e pareciam fazer questão que todo mundo visse que estavam fumando maconha. Eu passei a nutrir uma simpatia silenciosa por eles. Pois me lembram de uma adolescência longínqua. Andam dizendo que estão roubando. E se isso for verdade, daqui a pouco vão aparecer mortos. E será uma pena saber que eram apenas crianças que pularam a infância, e estavam brincando de herói. Como dizem os sociólogos em jornais de hora do almoço. Mas logo após o bar fechar e os adolescentes darem uma sumida. É impressionante, como rapidamente apareceram uns mendigos para se acolher. Como se na cidade não houvesse nenhum lugar vago. E muita gente precisasse apenas de um pedaço de concreto para se ficar embaixo.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Lista de Promessas Que Um Homem Faz A Si Mesmo

O menino passou todo ensino básico olhando para aquela menina. Que devia se chamar Maria Clara ou Clarice. Algum nome desses que os ricos põem em seus filhos. O menino devia se chamar Zé ou Beto, uma dessas corruptelas que os pobres ganham junto dos seus nomes. A menina era branca de feições finas e narizinho arrebitado. Mas não era metida. Ela exibia uma cabeleira vermelha encaracolada. O menino era preto da cor da borracha do meu tênis. Mas por essa época ele ainda não sabia nada sobre racismo. Então isso não era nada que impedisse uma aproximação. Ele pressentia ser diferente. Mas não pela cor. Talvez por ter ganhado uma bolsa para estudar, e a sua mãe ser uma das faxineiras da escola. Todos os dias ele voltava para casa sozinho. Enquanto a sua mãe ficava varrendo a escola, a mãe da menina ia buscá-la. Todos os dias. A menina tirava as melhores notas. O menino era um aluno medíocre. Estava sempre a espreita da menina pelos corredores. Ela sempre retribuía o olhar. Ele sentia isso como uma forma de caridade. Aquele olhar era complacente. De santa. Como quem diz. Eu sei que você olha pra mim. Em nenhum momento ela era indiferente aquele olhar, ou tentava evitá-lo. O menino passou todo o ensino básico assim. Na esperança de que um dia ela retribuísse aquele olhar com alguma palavra. Terminou a escola. Nunca mais eles se viram. Até que um dia. Num supermercado. Os dois já bem crescidinhos. Se esbarraram. A menina disse "oi" para o menino. E escandalosamente pronunciou seu nome. Foi só isso. Depois ela se afastou com o carrinho. Mas era como se tivesse selado o segredo dos dois. Ele ficou feliz. Mas também arrependido de não ter tentado nada na época. E agora prometia a si mesmo nunca mais deixar de tentar. Mas aí ele já era um homem. E essa promessa entrou na lista de promessas que um homem faz a si mesmo. E que nem sempre cumpre.

domingo, 8 de julho de 2012

Estou Fora Para Ti!

Ela atendeu ao telefone e disse: fala. Eu odeio quando ela faz isso, pois me dá a sensação de que está falando com um cachorro. Eu disse: sou eu. Ela disse: eu sei, fala! A minha mãe gritou da cozinha. Não demora no telefone que a conta vem alta! Eu tapei o bocal com vergonha. Mas ela do outro lado continuou em silêncio. Eu disse: e aí quando você volta pra casa? Ela me disse: quando acabar a feira, sabe aquele cara aquele prêmio no ano passado, aquele eu te falei, ele tava falando aqui hoje! Nossa, ele é legal, é sim, Como ele é legal! Eu queria dizer a ela que o baile acabou porque prenderam o frente. Não tive coragem. Logo veio a minha cabeça aquele escritor afetado de echarpe que ela admira. e me deu vontade de desligar. Eu disse a ela: quando... Ela me cortou: está uma barulheira danada aqui, e o Brian tá falando comigo... Ela disse: já vou, Brian! Esse deve ser um puta intelectual, pensei. Um baita intelectual. Um puto desses que usa óculos, boina, e pronuncia as palavras corretamente. Ela disse: João, eu vou ter que desligar. Eu sei que quando ela fala João, ao invés de falar “Jão”, é porque ela quer esquecer daqui. Eu também, ás vezes eu quero. Eu disse: tudo bem. A minha mãe gritou: já vai desligar, ou não? Interurbano, pô! Ela disse: eu vou estar fora para ti por enquanto. Eu pensei "eu também". Estou fora para ti!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Emissário do Capeta!

Ele tem seis, ou sete anos no máximo. É de uma família da classe média. Ou média baixa. Mas os pais dele pensam que são ricos. Eles moram num condomínio metido a besta que fica próximo a um bairro realmente chique. Mas não dentro dele como eles dão a entender. O pai é não sei o quê da Petrobrás. A sua mãe é uma espécie de mulher de jogador de futebol ou dançarina de funk, que usa aquele rádio horroroso em que todo mundo no supermercado ou no salão ouve a sua conversa bocejante. Em que ela diz o quanto gastou com o quê, ou chama as outras mulheres de traveca. E o moleque é o capeta. O cão. Mete a porrada em todas as crianças do condomínio. É o dono da bola. Ele apaga a velinha dos outros quando há festa de aniversário. Um dia desses ele estava conversando com um comparsa no corredor. Um cupincha. Um parceiro. Quando uma menina com o dobro de sua idade, que pelos dias de hoje, obviamente podia ser sua mãe, passou. E o mancomunado disse a ele: que gostosa! e ele, como se fosse um homem experiente. É isso que você chama de gostosa? Talvez por isso o seu apelido seja, O Emissário do Capeta.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Eu vou ser capa do New York Times de Amanhã

(Selecionei o trecho que considero mais polêmico)

Você é um artista desconhecido em seu país, como é ser estudado por um dos maiores antropólogos do mundo numa das maiores universidades do mundo? Eu disse: não faz diferença. Você faz isso e pronto. É o que tem que fazer. Eu sou um artista como outro qualquer. O repórter me perguntou: e ser estudado em inglês, se você escreve... Eu disse: é como ler Henry Miller sem saber inglês. Você olha aquelas palavras ali no papel, e não entende nenhuma delas. Mas sabe que tem alguma coisa. A barreira da língua não existe. Nem todo mundo que gosta dos Beatles sabe inglês. Mas saber um pouco de inglês é bom, eu disse, e o repórter sorriu. Você defende a legalização da Marijuana... Defendo porque eu vivo na América latina. E por que lá morre muito mais gente do que aqui, por exemplo, por causa da bebida, do cigarro, e da violência do tráfico de drogas. Se bem que lá agora o crack que está fortíssimo. E o tráfico é uma empresa que não sabe lidar com produtos e clientes. Seria melhor que fosse regulamentado para que existisse controle, e fiscalização. O seu argumento é esse? Não é o meu argumento, a lei seca não acabou com a bebida no seu país... É a mesma coisa. No outro dia o Presidente Obama falou que era a favor do casamento gay, dias depois foi feita alguma coisa por aqui, e acredito que isso tenha ajudado. Dependemos de vocês. E espero que entendam isso, até porque as maiores vítimas somos nós, e não vocês.

Tomara que eles publiquem na íntegra.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

3 Dentes Arrancados e Cinco Costelas Quebradas

Ele era o único da turma que não fumava maconha. Todo mundo fumava. Menos ele. Ele não. Sempre que alguém saía em direção a rodinha dizia a ele: nem um tapinha, fulano? Ele respondia: não, e levantava a garrafinha de água em direção a pessoa. Por esse motivo ele nunca seria parado numa blitz e preso por tráfico de entorpecentes ou porte ilegal de armas. Pois era um cara do bem. Da paz. E também não seria preso e levado a delegacia por dirigir embriagado. Já que ele não bebia. Ele levou um susto ao ser parado numa curva por carro policial. Ele era o tipo de cara que quando cruza com polícia começa a gaguejar. E ao ser indagado para onde ia, ele disse o óbvio. Pra casa. Quando ele atendeu um desses rádios em viva voz. Era um de seus amigos. Marinho. Marinho disse: tô indo pra boca! E para explicar aos policiais que boca era uma amiga de boca grande? Só depois de 3 dentes arrancados e cinco costelas quebradas.

domingo, 17 de junho de 2012

Eu Atirei Num Homem Só Para Vê-lo Morrer

Ele está ali no chão estrebuchando e virando os seus olhinhos japoneses em minha direção. Eu queria sentir alguma coisa por ele. Pena, ou sei lá o quê. Mas por mais que eu tente não consigo. Ele fica me olhando sem acreditar. Daquele mesmo jeito que me olhou a primeira vez que foi se encontrar comigo naquele prostíbulo de quinta categoria. Ele sempre me olha como se o dinheiro não fosse importante. Da mesma maneira quando ele me olhou a primeira vez. Como se a coisa menos importante fosse o que eu ia carregar na bolsa no outro dia de manhã. As outras meninas ficavam impressionadas com esses idiotas como se eles passassem dos limites em sua burrice. Eu não. Sempre fui indiferente a eles. E a ele que está me olhando pensar isso. Não me importo com aquela menina com quem ele estava. Mas também não quero que ela fique com o meu dinheiro. Não sei o que eu posso fazer com esse corpo. Não quero ser descoberta porque se não vou ter que me comportar como se acreditasse que um puto que é viciado em puta não merece morrer.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

É Melhor Ser Feio Do Que Ser Burro

No dia 12 de Junho, dia dos namorados, o rapaz pediu uma namorada a deus. Ele disse: deus me mande uma filha sua, que eu a farei feliz! No dia 13 de Junho, dia de Santo Antônio, o seu pedido foi atendido. Ele olhou para os céus e reparou que deus era um pouco de qualquer coisa, e que parecia não ter cor nem religião. No dia 14 de Junho, ele reclamou da namorada para deus. Mas senhor, essa mina é um bujão! E deus disse: quando você me pediu uma das minhas filhas, não especificou se queria uma modelo intelectual de Big-Brother. Ou uma pessoa normal dessas que se vê nas filas do supermercado. E quem é você que não sabe tocar duas notas, para dizer se o que eu criei é belo ou não? Você não me disse que a sua carência era sexual e não afetiva. Na hora ele se calou e agonizou com aquela injusta tarefa de contrariar a deus, e devolver a ele um pedido feito e atendido na hora. Então o rapaz decidiu que ficaria com a gordinha. Mocinha prendada que ia a uma igreja qualquer todo final de semana. Mas com o tempo não é que ele passou a gostar da gordinha cada vez mais. Pelo seu companheirismo, fidelidade e amor. Concluindo. Moral da história. Parábola filosófica. É Melhor ser feio do que ser burro.

sábado, 2 de junho de 2012

Evoluindo do Macaco!

A gente tava assistindo ao Globo Repórter. E a minha mina disse: vamô num zoológico ver como esses putos se movimentam ao vivo! Nós ficamos ali num domingo. Jogando pipoca aos macacos. Em determinado momento um macaco puxava o rabo do outro e se escondia. Puxava o rabo do outro e se escondia. Eu disse a minha mina: lindinha. Ela: o quê é?! Eu disse: esse puto tá sacaneando o outro. Esse puto tá sacaneando o outro igual à gente faz. Caralho, que foda! Ela disse com o seu mau humor feminino: e daí? Eu respondi: e daí que nós devemos ter vindo desse bicho aí, mesmo! Ela disse: eu não vim da costela de Adão, e muito menos dessa coisa nojenta! Além do mais essa teoria já deve ter caído. Outro dia eu vi uma reportagem que se passava na Índia que dizia que um macaco distraia o dono da barraca de fruta pro outro poder roubar. Um amigo meu me contou, que antes de um macaco morrer numa caçada, ele põe a mão em frente ao, digamos, rosto. Como quem sabe que vai morrer! Nós até podemos não ter vindo desse bicho. Mas que nós temos alguma semelhança com ele, ah, isso nós temos!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Deus é Mau!

Minha mina me chamou: vem ver aquele preto que você gosta na televisão! Aquele preto que eu gosto é um pastor. Toda vez que eu assisto a televisão, eu assisto ao programa desse pastor. Não há nada melhor na televisão. E ontem o pastor contou uma história impressionante. Ele foi assaltado e ameaçado de morte por três caras. Puseram uma pistola na cabeça dele. A mulher dele chorando. Todo mundo gritando. Maior terror. Aí ele leu um trecho da bíblia pros caras. E disse a eles que aquela era a última oportunidade que eles tinham de se arrepender. Os cabras foram embora sem levar nada, e não se arrependeram. Então depois ele apareceu na televisão falando que ia dar mais sete dias para eles se arrependerem. E nisso ele leu um trecho da bíblia em que deus diz seus inimigos são meus inimigos. Eles não se arrependeram de novo. Pronto. Sete dias completos. Os três apareceram baleados com um número de balas simbólico em suas respectivas cabeças. Sete. E eu cheguei a conclusão que: deus é mau!

domingo, 27 de maio de 2012

Eu Odeio a Escola

Eu odeio a escola. Como instituição. Com os seus muros altos e os seus horizontes fechados. A escola destruiu o que restava da minha autoestima. Ela me reprovou cinco vezes na quinta série! Hoje em dia todo mundo passa. Mas em compensação ninguém sabe ler ou escrever direito, ou o que é pior, interpretar o que se lê e ou o que se escreve. Eu odeio a escola. Com toda a sua acentuação indesejável, e a sua matemática inexata. Coitada dessa escola com seus acadêmicos bundões que pensam que só eles podem salvar o mundo, como se nós precisássemos deles, que não enxergam um palmo na frente do próprio nariz, para nos mostrar o caminho. Eu odeio a escola com todos os meus clichês. Assim como ela tem os dela. Inclusive que é o de me querer trabalhando num balcão de uma loja de departamentos, para que o melhor lugar fique com alguém mais apto que eu, pois não há vaga para todo mundo. Mas sem discurso marxista de esquerda brasileira frustrada por não ter uma ditadura como inimiga. Eu odeio a escola. E a única coisa interessante que aconteceu por lá, foi uma professora me apresentar um livro pela primeira vez. Depois disso, eu peguei os livros em sua própria biblioteca, e a escola nem percebeu. Até que um dia ela me expulsou do seu colo com um pé na bunda. O que me deixou com toda essa mágoa e ódio, por ter me feito perder tanto tempo, e não ter me ensinado quase nada do que eu realmente queria aprender. E de não ter aproveitado nada do pouco potencial que eu sempre tive. Eu odeio a escola. Por sua falta de tempo, e por ela me iludir com um diploma, e subestimar a minha inteligência. Eu odeio a escola por ela julgar que todo mundo é igual. Eu odeio a escola. Mas eu escrevo, e mesmo errado, você entende o que eu escrevo. Mas duvido que você entenda tudo que ela escreve.

sábado, 26 de maio de 2012

Vai Passar o Rambo na Televisão!

Naquela época antes de pirataria um filme levava mais ou menos dois anos para chegar a televisão, e depois ao vídeo-cassete, e vice e versa. Se é que já existia o vídeo lá em casa. Então na escola foi aquele furdunço. Todo mundo na expectativa. Só se falava disso. Era uma espécie de final de copa do mundo. O Rambo ia passar na televisão. No SBT canal onze. Eu não me lembro bem que Rambo era, se o 1, o 2, ou três. Só sei que os sacanas da Globo decidiram esticar a novela. E o sacana do Sílvio Santos com aquele riso puro e franco para um filme de terror, como dizia o Raulzito, resolveu que não ia passar o filme enquanto não terminasse a novela. E fez algo inacreditável para os dias de hoje. Ele pôs na tela uma imagem congelada do Rambo, dizendo que o filme iria começar logo após a novela. Não dava nem pra esperar navegando na internet, pois ela ainda não existia. Eu estava cansado e tinha que acordar cedo pra ir pra merda daquela escola. Disse a minha mãe e ao meu pai: se eu cochilar, vocês me acordem, pelo-amor-de-deus, hein? Ai, ai, ai, ai, ai! Quando acordei assustado o meu pai com a sua nostálgica pança e o seu bigode ridículo me disse: que filmaço! Ainda deu pra pegar as letrinhas subindo. Nunca mais eu quis saber do Rambo. Nunca perdoei os meus pais. E vocês não sabem o trauma que carrego daquele dia seguinte.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Carta A Um Amigo Famoso

Não acho que você deva se justificar publicamente. Você só deve fazer isso perante a quem prejudicou. E se está fazendo isso agora, é porque o povo é “moralista”. Aposto com você que tem uma porção que acha a tua desculpa louvável, mas que continua fazendo o mesmo que você fez, ou pior. No fim das contas as pessoas públicas ficam com o quinhão de dar o “exemplo”. Mas numa sociedade, não são apenas as pessoas públicas que tomam decisões importantes. Tem que se tomar cuidado, pois a nova era está decretando o fim da nossa privacidade, e nós estamos embarcando nessa. Quem sente verdadeiramente o que você fez, ou faz, é quem está próximo a você. Para gente como eu, você vai sempre ser alguém imaterial que eu vou poder admirar quando quiser. Pois queira ou não, para gente como eu, você é uma bela de uma arte. E você pode até relacionar a sua arte aos seus atos... Mas não costumo me interessar nem pelo que os políticos fazem. A não ser que isso influencie diretamente na minha vida. Não vou deixar de ouvir uma música, ou assistir a um filme, por causa do que o artista é pessoalmente. Já conheci artistas que me decepcionaram. Mesmo assim continuei admirando, e acompanhando os seus trabalhos. Pois eles são inspiradores. Não carregue esse fardo, amigo. Pois ele é pesado demais.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Labirinto Da Língua

Eu fui num lugar. Mas o lugar nunca tem importância. E sim o que acontece nele. E lá havia uma placa onde estava escrito: proibida a entrada de pessoas estranhas. Se a placa estava se referindo ao desconhecido, de quem trabalha ali, tudo bem, eu ia poder entrar. Mas se ela estivesse se referindo a estranho, sinônimo de esquisito, eu não ia poder entrar. Pois eu sou um cara tão estranho quanto aquele cara daquela música dos Los Hermanos, que é aquela banda que os universitários amam, e que tem aquele clipe que faz referência a Kafka. Ou People Are Strange do The Doors. Eu sou o que se chama de excêntrico. E leia-se para uma sociedade careta, ainda, tão careta quanto falar careta. E no meu caso, eu sou um famigerado Artista-vagabundo, ainda, depois de todos esses artistas famosos no mundo todo. Se fosse esse o sentido, eu não poderia entrar. A língua põe a gente em cada labirinto!

domingo, 20 de maio de 2012

O Mendigo Foi Pro Casamento Do Belo!

Eu tava parado em frente a um sebo do Centro da Cidade. Olhando aqueles livros de  5 reais que ficam naquela banquinha da frente. Que era o que eu tinha no bolso contando com algumas moedas. Eu queria que a minha mina aparecesse logo. Pois assim poderia arrancar mais cinco reais dela. E quem sabe comprar algum Rubem Fonseca. Ou qualquer outro falastrão desses. Quando aparece um mendigo, e pergunta para o outro: não vai no casamento do Belo, não? E o outro devolve: onde? Aqui na Candelária! O amigo diz: vambora! E eles saem correndo. O senhor grisalho surge no fundo do sebo e me pergunta: o que foi essa gritaria? Eu digo: eles vão pro casamento do Belo! E ele responde: tá, e eu sou um belo, um belo de um idiota!

sábado, 19 de maio de 2012

MacEscravo

Eu acordei o cara. Ele me agarrou pela gola da camisa. Tava babando. O Cheiro de bebida era insuportável. Odeio esse cheiro de cerveja envelhecida. Ele me perguntou: eu emagreci? Eu respondi: um pouco... Ele: olha o que o McDonald`s fez comigo?! Quando olhei com atenção os olhos eram duas crateras envoltas por duas crostas pretas. Olheiras que só vi em bêbados imprestáveis. E ele me disse: eu comecei a fumar, cara! Eu não fumava! Enquanto dizia isso a guimba do cigarro queimava junto dos seus dedos. Quando subiu aquele cheiro de carne queimada tipo hambúrguer. Ironia do destino. Olha o que o McDonald`s fez comigo?! Ele repetiu. Eu disse a ele: cara, tudo bem, você vai arrumar outro emprego! Ele me disse: o quê você sabe sobre isso? sobre trabalho? Você vive enganando esses otários dizendo que é artista... Eu disse: olha, prefiro fazer o que eu gosto do que ficar igual a você! De repente ele me ignorou. Puxou uma bandeja debaixo da cama. Esticou uma fileira gigante. E pum! Eu gritei: caralho!!! E ele desmaiou.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Eu Fui Atropelado, Mas Não Morri!

A mãe vivia dizendo: Juninho não corre pra rua. E Juninho sempre ficava na Calçada. Admirando os carros com o seu ardor automobilístico. A mãe dizia: Juninho, se um carro te pegar, você morre, menino! Ela sempre dizia isso. Até que um belo dia, como numa fábula, Juninho correu. E foi atropelado. Mas nada demais. Só uma pancadinha de um motorista imbecil. Apenas um galo imenso na testa. Que de tão enorme a enfermeira disse: ele vai cantar hein, menino! Quando a mãe chegou ao hospital, carregada pela família, e sobre o efeito de calmantes, Juninho disse: mãe... eu fui atropelado, mas não morri!

A mãe de Juninho vivia assistindo aquele programa policial de hora do almoço em que o apresentador aterroriza as pessoas dizendo: o bandido foi pro saco! A mãe sempre assistia aquilo. E Juninho perguntou: o quê é ir pro saco, mãe? E ela: é quando a pessoa faz coisa errada e morre meu filho. Não pode fazer coisa errada hein? Ai, ai, ai! Quando o gato da família se esquivou para a rua. E ficou grudado que nem chiclete na roda do carro, a mãe de Juninho perguntou a ele: o que aconteceu com o bichano? E Juninho respondeu: foi pro saco!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Inadequado Para Homens Solteiros

Assistindo o casal de amigos brigões Mateus disse a Letícia. Esse casal briga demais. E Letícia disse. É normal casal brigar. E Mateus disse: é, mas tem hora que é chato. E Letícia: eu sei como você pensa e sei que você faz uma tempestade em copo d’água! E Mateus disse: é... eu só acho que as pessoas não deviam brigar a toa. E Letícia responde: a gente não briga a toa. A gente briga pra decidir as coisas. Mas briga é briga e... Não é briga! Mateus: então tá, é discussão. Letícia: não é discussão. É conversa. Se existe conversa com pessoas gritando eu desconheço, disse Mat. E Letícia contra argumentou: e de mais a mais nós não brigamos como eles. Ela apontou para os dois do outro lado da rua. Não dava para ouvir o que eles falavam. Ainda bem. Se não se ouviria uma porção de palavrões. Mas as mãos subiam e a descida era quase na cara do interlocutor/a. Letícia complementou. Nós só temos brigas bobas. E Mateus pensou, se essas brigas são tão bobas, então porque é que elas acontecem? Mas não disse nada. Pois já estava cansado de discutir, de brigar, conversar, ou seja, lá o que for!

sábado, 12 de maio de 2012

Mortinho da Silva

Ela só queria falar sobre a porra do ex-namorado dela. A porra do ex-namorado morto, que se fudeu num acidente de carro. Quando bateu o ponteiro parou no cento e vinte. No poste. Na marca. Se espatifou. Virou mingau. Cheio de pó e uísque na veia. Enquanto a boca de Karen se movimenta, Kevin não ouve mais nada de blá-blá-blá o quanto ele era legal. Só consegue observar os lábios vermelhos e tenta sentir o perfume entre os tantos odores do restaurante que uma daquelas revistas de fresco diz ser muito bom. Kevin pensa que não vai mais poder dormir um dia da sua vida sem essa mulher. Quando o garçom chega com o vinho branco suave, Kevin diz: o seu namorado devia ser alguém interessante de se conhecer... E Karen responde: acredito que você fosse gostar muito dele. E Kevin sente uma imensa vontade de dizer: foda-se a porra do seu ex-namorado! Mas depois pensa, que se foda, ela não vai poder mais trepar com ele mesmo! Pode viver esse amor platônico por toda a eternidade. Pois ele está morto. Mortinho da Silva.

domingo, 6 de maio de 2012

Lendas Urbanas 1 - O Motel

Ele parou na garagem do motel. Havia acabado de se despedir da balconista da lojinha de roupa. E daquele sexo fast food de hora do almoço, estilo machão latino americano. Quando viu um carro que desconfiou ser do seu amigo de ofício. Deu um sorriso e resolveu ligar pra ele do celular. Aí, tú tá onde? eu tô aqui na firma. E ele, sei, firma. Tô parado em frente ao teu carro. E o outro: hoje ele não tá comigo, não. Hoje é dia da minha esposa fazer compra. Ele respondeu: tô de brincadeira, queria saber sobre aquele contrato. Daqui a pouco eu tô chegando... E o outro sem entender nada se despediu. Tá bom. Até mais. Som de telefone sendo desligado.

Autor Desconhecido.

Observação: essa estória sempre é contada nos subúrbios brasileiros por alguém que conhece alguém.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Roupinol ou Boa-Noite, Cinderela...

Eu fiquei trinta anos preso. Mas isso foi antes das visitas íntimas, computador doméstico, telefone celular e o cacete a quatro que vocês tem hoje em dia. Quando eu fui preso o Escadinha ainda nem sonhava bater carteira. Nem o Comando Vermelho havia sido fundado. Eu saí da colônia penal pela porta da frente. Numa época em que a Lapa ainda era local de malandro decadente, e não parque turístico de playboy. Antes do crack. A gente só fumava uma erva do norte, e o pó era uma novidade no mercado. O chefe da boca tinha um trinta e oito cano longo escondido embaixo da blusa. Ninguém no morro podia fumar na frente de criança, pois era falta de respeito. Enquanto caminhava em direção a qualquer lugar, eu só pensava numa palavra. Mulher. Peguei todas as minhas economias de pequenos serviços prestados a comunidade carcerária. E parei para tomar uns tragos com uma menina da Praça Mauá que se chamava Cinderela e parecia aquela menina, a Brigitte Bardot. Quando acordei estava nu deitado numa sarjeta da Rua do Ouvidor. E perguntei ao policial: cadê a Cinderela? Ele me respondeu: se foi com a carruagem. Desde então sou conhecido por esse vulgo de Roupinol. E o golpe ficou com a alcunha de Boa-Noite, Cinderela...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ainda Bem Que Eu Sou América!

Eu tava em frente a drogaria esperando a minha mina adquirir algum analgésico. Quando vi uma família toda com camisa do Flamengo. Pai, mãe e filha. Havia um cidadão próximo a mim com a mesma camisa vermelha e preta, e com um riso de cumplicidade para a garotinha. Observei que nesse dia existiam muitos flamenguistas na rua. Quando um gaiato perguntou ao cidadão: o Flamengo jogou ontem? ele respondeu: não. É que o Vasco foi vice de novo, e nós estamos felizes. Ele devolveu: ainda bem que eu sou América!

Um dia desses ao ver o irmão de um amigo surgir na sala perguntei a ele: qual é o teu time? Ele respondeu: o meu time é América. Eu disse: não me lembro desse time, não... Ele irritado me respondeu: ah, mas você lembra sim, você vai lembrar... lembra de quando vocês precisaram de um campo pra treinar ano retrasado? Que vocês tavam sofrendo? Claro que você lembra! 

Na rua ouvi um cara de uma barraquinha de doces gritar para um velhote. Aquele campo lá vai ser leiloado! Ele respondeu: O América não tem dívida não. Quem tem dívida é o Flamengo, o Fluminense, o Botafogo...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Autor de Periferia é o Cacete!

A gente foi naquela bagaça de debate. E enquanto o apresentador falava ele ficou resmungando ao meu lado. Autor de periferia é o cacete! Autor é autor. Ninguém diz que um autor que nasceu em área nobre é autor de área nobre. Essa porra parece um prêmio de consolação do tipo: ah, que bonitinho! os pretinhos pobres sabem escrever... Eles falam sobre a realidade deles. É só sobre isso que eles sabem escrever. Eu posso escrever sobre a vida de um Extraterrestre se eu quiser. E não é porque a gente é envolvido com rap, que essa é a nossa literatura. O Chico Buarque é autor de MPB? E de mais a mais, o termo periferia no caso do Rio não é adequado, pois a periferia é longe do centro. Ele continuou com aqueles comentários ácidos. E a gente mora no subúrbio, que eles nem sabem definir direito. Uma favela na zona sul do Rio é periferia cara pálida? Toma cuidado com essas definições preconceituosas. O apresentador pigarreou. Ele se calou. E eu fiquei pensando no que ele disse.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Cura da Depressão

Eu tenho uma depressão terrível. Mas que já foi pior numa época em que eu dizia: vou me jogar da ponte Rio-Niterói! Ou então dormia e chorava o dia inteiro. Hoje não. Agora eu tomo um remédio chamado Paroxetina. Que é uma espécie de pílula da felicidade. E fumo uma ervinha recomendada por um médico que não quer se identificar. De vez em quando converso com deus. E minha oração sempre começa assim, se o senhor existe, e se está me ouvindo, me dá uma força aí! A depressão é a doença mais justa que existe. Assim como os suicidas têm razão, na opinião de quem vive num lugar equilibrado como esse planeta. Mas sempre que estou deprimido e ansioso, que é o meu estado normal, eu ligo o som e começo a arrumar a casa. Igual a minha falecida mãe fazia, sempre ouvindo Roberto Carlos. E aos poucos vou apaziguando. Pois viver é a coisa mais maravilhosa que existe. Não sei por qual motivo. Então a palavra que eu mais uso no meu dia a dia é: foda-se.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Proibição da Cerveja

Eu dei um pinote e caí sentado na Avenida Rio Branco. Quase fui pisoteado pela cavalaria do governo. Nunca vi a Rio Branco tão cheia. Florida. Nem naquela palhaçada de caras pintadas em que imberbe ainda em calças curtas servi de "massa de manobra" a interesses alheios. Mas isso é uma outra história. Eram velhos, crianças e todo tipo de gente que se possa imaginar. O centro da cidade parecia ter de volta os dias de glória da Revolta da Vacina. Os ônibus se encontravam virados. Os trens foram quebrados. Lojas saqueadas. Não restou nem a iluminação pública. Molotov. Lacrimogênio. Pedra. Ninguém entrava no buraco do metrô. E era um mundaréu de gente saindo pronto para atacar qualquer coisa que se movesse, e que direta ou indiretamente estivesse compactuando com a proibição do governo. Os bancos que não fecharam as suas portas foram apedrejados e os cacos eram recolhidos pelo asfalto. Pela primeira vez na vida senti um orgulho intenso de ser brasileiro.  Mais do que na copa do mundo. Agora tudo ia mudar. Nós íamos ter educação, cultura e saúde. Era só isso que eu queria. Nem precisava de segurança. A paz viria depois. Quando o casco da pata de um cavalo ia descer sobre o meu corpo. A minha mina me acordou. Acorda. Tá tendo algum pesadelo?

domingo, 22 de abril de 2012

Professor Idiota

Ela me disse: o meu professor me disse que eu tenho que ler um livro. Eu disse: qual? E ela: o tal Machado de Assis. E eu perguntei: que livro? E ela: O Alienista. E eu pensei no perfil dela. Quinze anos. Só escuta proibidão. Média de leitura de zero livro por ano. Vocabulário "limitado". Ou seja: o português falado pela maioria do povo brasileiro. E mal sabe ler ou escrever apesar de estar num sei em qual série do ensino fundamental. Não que ela não fosse se apaixonar por Machado de Assis. Como eu me apaixonei. Mas esse professor é um idiota ou é o quê?

sábado, 14 de abril de 2012

Guimba, Bituca, Beata e Bagana

A gente tava na Praça Camões. A minha mina sentada num banco. Um frio de cinco abaixo de zero. A gente tava mamando um garrafão de vinho barato. A única coisa que sobrou da crise em Portugal. O único remédio pra que a ossatura não congelasse. Eu assistia o cara enrolar o baseado. A policia do outro lado da rua também. Não senti saudade do Brasil. Quando o vagabundo disse: lá no Rio beata é guimba. Eu disse: é, mas beata é mais estranho que guimba. E o outro: em São Paulo beata é bituca. E continuou: guimba, bituca, beata e bagana, quatro senhoras solteironas...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ronald McDonald e a Carne de Cordeiro

Ronald Mcdonald deu uma golada no uísque. E disse: vamo. Pra aturar essas crianças só assim! E andando torto ele desceu a escada. Igual ao Paul McCartney naquele clipe dos Beatles. A criançada logo começou a gritar. Ele ignorou a todas elas. O diretor veio mostrar a folha com a frase. E disse: você só tem que dizer isso. Ronald leu e respondeu: carne de cordeiro, não! O diretor perguntou: você tá louco?! Ele repetiu: carne de cordeiro, não! Isso eu não faço. Coloca outro bicho. Se fosse vaca, boi, qualquer coisa. Mas cordeiro não, pera lá! E tem a lã e aquela coisa toda. O diretor ficou possesso. Os óculos caíram pelo nariz, e o homem gritou: tirem esse maluco daqui! Ronald me chamou: vamo. E nós saímos pela calçada. Ainda olhei pra ele na esperança que a gente fosse voltar. Aquele sonho que eu tinha de conhecer os Estados Unidos se esvaiu por causa de um capricho dele. Um molecote de óculos, de mãos dadas com a mãe, novinha, bonitinha, sorriu para o palhaço. Ronald pegou o seu nariz e enfiou no do menino que ficou feliz. E em contrapartida tomou a Coca-Cola das mãos do miúdo que nem ligou. Ele me deu uma golada. E foi o melhor gole que eu dei na minha vida. Estava um sol bonito, e nós descemos aquela rua do Leblon que te dá uma sensação de que você não está no Brasil. E que pode ser em qualquer lugar do mundo. Inclusive na França. Que eu não conheço, mas que tenho vontade de conhecer.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Marília Gabriela

Ele tomou um trago e disse: o Gianechini deu um beijo na Marília ontem. Eu disse: é, fiquei sabendo. Ele jogou o sal na mão novamente, e deu outro trago. Uma mulher bonita daquela, rapaz. Madura. Jornalista. Inteligente pra cacete. Aquilo não é mulher pra nós, não. Eu disse a ele: nós é tudo pequenininho... nós é igual aqueles lá que o Boris falô, tá ligado? O moleque deu sorte! Ele disse. Tomara que ele se recupere logo. Deve ser chato pra burro não poder ficar do lado daquela mulher o tempo todo. Ainda mais agora que ela deu um beijo nele. Eu viajei um pouco. O meu avô me cortou dizendo: agora pega a pá que ainda tem que tirar esse entulho todo do pátio.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quem Comeu a Velha?

Quem comeu a velha? Essa foi à pergunta que o meu tio PM fez na sala. Todo mundo gelou. Era óbvio que ninguém sabia. Ele estava com a pistola na mão. E queria saber quem manteve relações sexuais com a minha avó de oitenta e tantos anos que estava grávida. O meu primo gordinho disse com a voz trêmula: não sei... E me deu uma vontade de rir insuportável. Eu tive que respirar, e olhar para o chão. Mas a risada começava a surgir no estômago. Ele virou para a própria mãe: quem foi mamãe? Fala! E ela: não vou falar, já disse que não falo, eu gosto dele! E o tio: seus filhos da puta, incompetentes! Vocês deixam a avó de vocês, sozinha! Bando de vagabundos maconheiros! A vontade de rir estava aumentando. E eu ficava imaginando se quando a minha vó teve o primeiro filho na primeira metade do século passado, também havia tido esse drama. Quem comeu a velha? Todo mundo tremendo cada vez mais. O tio com a pistola em punho disse indignado: quem é que vai cuidar dessa criança, meu deus! Nessa hora mais risos foram abafados. E eu me lembrei de que quando a minha irmã adolescente ficou grávida, a pergunta foi à mesma. Mas pedi: posso ir fazer xixi? E o riso de todo mundo ameaçou sair. Quando o meu primo gordinho disse: ela ainda pode abortar... Houve um catatau de risos. E foi então que o tio PM se revoltou: eu sou contra o aborto! E começou a disparar para o alto. Não sei como todo mundo conseguiu passar junto por aquela porta tão estreita.