quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Faroeste Caboclo

Naqueles dias Douglas andava feliz pelo conjunto. E todo mundo olhava para ele com uma admiração invejosa. Inclusive os moleques que deram uma trégua nas desavenças. Nem ser o perna de pau da pelada podia embaçar a sua imagem. E quando se via o moleque em pé na esquina ou e em qualquer calçada estufando o peito, ninguém pensava que ele fosse metido. Apenas que estava gozando os louros da fama. Talvez algum desavisado da rua pudesse perguntar: porque que o Douglas tá tão metido? E nós tivemos que engolir aquela marra dele durante séculos. Mas até hoje quando fica bêbado ele começa com a mesma ladainha: hei, lembra de quando eu decorei a letra de Faroeste Caboclo? Hein, lembra? Ele foi o primeiro maluco a decorar aqueles nove minutos de versos. É como se ele fosse um dos autores da letra. E ele fala do Renato Russo com uma intimidade que parece um parente próximo. E no dia da morte do saudoso poeta, ele chorou um Rio Amazonas inteiro.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Dostoiévski Vs. Sidney Sheldon

Eu não tinha dinheiro para comprar livros. Nem passagem de ida e volta para ir a uma biblioteca melhor. Então querendo ou não, aquele era o acervo que eu tinha disponível. Ainda não tava metido a besta, e não conhecia nenhum pseudo-intelectual para me dizer quais autores deveriam ser lidos. Então eu podia ler Dostoiévski num dia e no outro Sidney Sheldon. E na minha cabeça tudo era literatura e tudo era bom. Livro era livro. Hoje eu talvez não leia o Sheldon pensando que ele é limitado. E não alimente uma nostalgia obsessiva em relação a Dostoiévski, por exemplo. Mas tanto o Sheldon quanto o Dostoiévski cumpriram o seu propósito. E tenho certeza, de que o que me fez aceitar a simplicidade e a subjetividade, deve ter sido começar a ler com o coração tão limpinho. Sem preconceitos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Homem Na Estrada

Brou tava com o irmão numa estrada de Brasília quando ouviu pela primeira vez aquela música dos Racionais Mc`s, Homem Na Estrada. Ele perguntou ao irmão que dirigia: De quem é essa música? E depois disso o irmão deu uma fita cassete dos Racionais para o Brou que a levou pro Rio. Uma fita dessas que esses otários de hoje em dia não sabem usar. A história é narrada por um preso da época da chacina. Quando Brou chegou a Penha, escreveu toda a letra da música com a ajuda do toca fitas. Ele levara quase dois dias para escrever aquele número enorme de frases. Um amigo mais chegado pediu a letra: qual é Brou, me empresta aí pra eu copiar? Brou emprestou e ele guardou no bolso. Quando Brou foi cobrar a letra, o amigo chamou à mãe a janela e perguntou a ele olhando para a senhora: Brou, aquilo não é uma letra de uma música? E Brou respondeu: sim, por quê? E a mãe logo o cortou dizendo: vocês combinaram isso! Só depois com a família reunida que a sobrinha cantou a música para a tia. Um homem na estrada recomeça a sua vida... Mas aí era tarde. A mãe já havia chorado pensando que o filho era bandido, e que recebia cartas da cadeia. Pois ela havia encontrado uma delas quando foi lavar sua roupa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Dia Em Que Samuel Nasceu

Samuel nasceu num sábado. E fazia um solzinho desses que teima aparecer. Ele pensa que sábado é melhor que domingo. Pois no domingo a gente só pensa em acordar cedo na segunda-feira. E teve bandinha de música e tudo. Um tio policial militar trouxe a bandinha. Embora Samuel tenha medo de polícia, atualmente. Ele nasceu naquele hospital que fica numa ladeira próxima a sua casa. Samuel não se lembra da enfermeira. Nem do médico ou de como eles eram. E olha que o seu nome é uma homenagem ao médico que o puxou cá pra fora. Mas sempre que sente cheiro de éter e ele vê paredes brancas se lembra do hospital. E diz isso a mãe que responde dizendo: é mesmo... você se lembra do dia em que nasceu? Nossa que menino inteligente!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Deus Tem Uma Conta No Bradesco

Eu tô travado ali. Olhando a tevê. Não tenho tevê a cabo. E nem tenho gato. Então fico ali. Mas na verdade é só na hora em que eu tô comendo. Porque não consigo assistir televisão. Ela me faz mal. Ainda mais naquela hora em que você acorda com a cabeça fresquinha, e eles começam a informar quem morreu. Televisão de manhã faz mal. Você tem um sono tranqüilo e acorda com toda a desgraça do mundo caindo na tua cabeça. Não dá pra começar o dia assim. E se continuo assistindo, daqui a pouco tô com medo de sair na rua. É uma péssima oração para se começar o dia. Eles não dizem que alguém nasceu feliz da vida. Ou que acontecem coisas legais também. E a exceção para eles é sempre a regra. Mas bater na televisão é bater em cachorro morto. Eu não acho que seja o meio, e sim o que fizeram dele. Igual qualquer coisa na vida. Não tenho nada contra a televisão. Apenas prefiro outras coisas. Se tiver algo que me agrade eu assisto. Igual agora que não consigo me desvencilhar daquele cara. É um pastor. Já tentei assistir outra coisa. Eu pulo os jornais. Num canal tá uma atriz falando de sua vida, e num outro um cantor sertanejo falando de sua vida. E a vida deles é muita chata. Agora o pastor me pede para depositar o dízimo, e mais dez por cento da oferta. Então calculo esse valor de acordo com o salário mínimo, e chego à conclusão de que é muito. Assim como é muito para um livro, um show, ou uma peça de teatro. Aí ele começa a dizer que essa conta é de Deus. Para a obra dele. E eu não consigo parar de rir pensando que Deus tem uma conta no Bradesco.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Músicos e bebida: Mistura Explosiva!

O meu avô era um músico-bêbado. Eu sou um artista-vagabundo. Mas fui intitulado assim contra a minha vontade. Não consegui ser um bêbado. Mas quem sabe algum dia seja promovido. O meu avô era analfabeto. Eu sou semi-analfabeto. O meu avô nunca foi à escola. Eu fui expulso de lá. Ele saia para comprar pão e voltava três dias depois com uma rosa na boca. E a minha avó dizia: eu vou te fazer engolir essa rosa! Eu não tenho coragem de desafiar minha mulher desse jeito. Medo. O meu avô era autodidata. Eu sou também. Sem a mesma eficiência, é claro. Ele ensinava todos os instrumentos para todo mundo. Aquele ouvido do bruto era perfeito. Existe uma lenda de que ele lia partitura, e outra de que era amigo de Mário Reis e Francisco Alves. Não tenho como provar nada disso. Pois a fonte é um filho mais velho e fã. Quando assisti o caminhar mareado de Jack Sparrow, lembrei-me dele. No dia em que meu avô deu uma banana pra gente, eu me sentei com a minha prima gorducha no meio-fio. E a melhor lembrança era aquela em que nos levava para andar por aí. Ele tirava o chapéu para cumprimentar todo mundo. E eu dizia: quando crescer, eu quero ser igual a esse velho! Que ironia, não?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Corredor Polonês de Crente

De longe ouviu a gritaria. O senhor vai voltar. Acha aquilo estranho, mas continua andando. Vê uma porção de homens de terno e senhoras de vestidos longos. Caixinhas de som, e entrega de folhetinhos. Recebeu um da mão de uma senhora com cara de ralei muito. Numa mesa um bandido estava sentado com todo o produto. E o outro em pé ao lado dele. Não entendeu aquele corredor polonês de crentes na rua da boca. Pó de cinco. Maconha de dois. Era o que o vapor gritava. Da mesma maneira que eles gritam naquelas filmagens de câmera escondida na tevê. E ele disse: maconha de dois. E aí foi jogar o folheto fora, na lata de lixo próxima. O bandido com um boné de NY disse: não faça isso! Não fez. De repente surge um moleque que fazia a contenção no beco e grita: pastor, hoje eu não tô bem, me dá uma luz! O homem de terno põe a mão na cabeça do rapaz. Ele pega a maconha e quando vai sair, o outro moleque diz: qual é? Não pode sair agora não, é falta de respeito, ô! O cara fica por ali e pensa que vai chegar atrasado ao trampo de segurança.

sábado, 26 de novembro de 2011

Plano de Saúde

Não tenho dinheiro. O meu trabalho é uma droga. Ninguém vai com a minha cara. O mundo é uma merda. Eu pensava todas essas coisas. Depressão. Não conseguia me concentrar na formiga subindo a parede. Dor no estômago. É a ansiedade quando sufoca. Então disse a mina: tô ansioso. E ela: vamos ao médico, essa merda mata! Entrei. Clínico geral. Branco. Cabelos grisalhos. Sessentão. Ele me pergunta: senhor, qual é a tua doença? E eu: ansiedade. Ele me olha irritado. Depois diz: tem que ir num psicólogo! Então respirou e refez a pergunta: senhor, o quê está sentindo? Ansiedade. E ele: tira a camisa e deita ali naquela cama. Eu deitei. O homem de branco colocou uns fios em mim. Ele olha um aparelho e conclui: tudo bem. Eu levantei. Ele anotou umas coisas e disse: faz esses exames aqui. Apertou a minha mão, e bom dia. Eu fiquei com cara de ponto de interrogação, esperando que o médico se desculpasse, ou que me pedisse para voltar. A minha ansiedade aumentou. A minha autoestima diminuiu. E acho que na volta para casa me senti pior.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Milícia (Mal de Freixo)

Eu perguntei a ele: o quê você acha do prefeito defender a milícia? O cara falou que elas resolveram o problema da violência em locais em que o governo não chegava. Ele disse: não sei. Acho, eles sinistros. Ele mora num local onde tem milícia. Olha a espuma no copo e acende outro cigarro. Eu pergunto: sinistros, como assim? E ele: teve um dia desses que um moleque de dezesseis anos foi roubar em outro lugar. Quando ele voltou não sei como, mas eles descobriram. Pegaram esse moleque e a namorada de catorze. Espancaram até a morte. Não deram um tiro. Só se ouvia os gritos. Num sei se isso é certo ou não. Os olhos dele brilham. Eu digo: talvez, não.

sábado, 19 de novembro de 2011

Dia 20 de Novembro

Naquela família todo mundo é preto. Eles estão na sala. Uns a favor. Outros contra. Onze pessoas. A tevê ligada na teledramaturgia. O rastafári fala: cara, não há um viado preto com quem se possa conversar nessa merda de país. Só um. Eles não entendem o que eu digo! A prima do meio: mas os negros também não se dão o respeito... Já viu como esses putos entram no ônibus? O tio mais velho: e os índios, cara?! O rastafári explode: eles que se fodam! Eles que cuidem do seu próprio rabo. Todos têm que se defender cara. Os índios, os viados, todo mundo. A prima diz: chamar de viado é preconceito! Ele balança a cabeça como se não entendesse. A tia doutora numa timidez forçada diz: sou contra cotas. Eu estudei em escola pública. O Rasta continua: já falei que não sou contra cota pra pobre. Faça isso e os pretos serão incluídos. Depois que ele diz isso de maneira incisiva, parece que chegam a uma trégua. E por alguns segundos se instala o silêncio. Quando o primo gordinho faz um olhar de riso e interrompe: aí primo, na novela quase não tem preto. O Rasta responde: é, mas tem uma porção deles assistindo! A discussão recomeça. Com a mesma gritaria.

domingo, 13 de novembro de 2011

Bob Marley Desconhecido

Nós andamos uma hora de ônibus. Trinta minutos a pé. Um tempinho para beber água e ir ao banheiro. Ou seja, duas horas. Tudo para ver aquele que para a gente é um herói, e pro  mundo um completo desconhecido. Imagina um fã de reggae conhecer alguém a altura de Bob Marley? era mais ou menos isso. Ele nos recebeu na varanda. Parecia ansioso. Não conseguia se concentrar. O olhar sempre perdido entre a tevê e o que estava dizendo. Num momento lá se levantou para pegar o isqueiro, e  seu amigo disse: ele não tá legal. Briga de família, coisa de dinheiro... troço chato! Não parecia em nada com aquele cara que nós vimos pulando no palco. Era como se a porra de um gênio, tivesse preocupações cotidianas demais. Infelizmente, verdade. Ele havia brigado com os irmãos. Um treco desses. E isso me deixou deprimido. Aquele cara tinha que ficar sentado fazendo música, e não se preocupando com picuinhas. Isso é para gente que não sabe a direção de sua vida. Quando nos levantamos, ele disse: gostei de vocês. Por favor. Voltem novamente. É muito bom conhecer alguém que gosta do que a gente faz. Quando pisamos a calçada, ela me disse: tomara que ele fique bem. E eu completei: tomara. E ela: se pudesse eu pagava esse cara pra ele só fazer música!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mas Continuo Doido...

Ele vende carro pra caramba. Tem maior lábia. Não terminou o ginásio, mas lê o jornal O Globo para conversar com os clientes. Já roubou som de carro, fumou e cheirou. Hoje fuma tabaco, toma uma antes do almoço e outra depois do expediente. Batuca Jorge Aragão no volante enquanto fala comigo. Ele se veste bem e comenta do perfume: conhece esse? Antigamente saía fantasiado no Cacique de Ramos. Cumprimenta todo mundo na rua. Toca pandeiro, e joga aquela pelada quinta à noite. Domingo vai com a "preta" e o filho na casa da cunhada, que faz o feijão do jeito que ele gosta. Joga na maquininha, no bicho, tem sorte em tudo, até nas cartas. Além de ser perito na sinuca. De maneira que já vi a rapaziada do morro abandonar a mesa para não jogar com ele; que entre um pagode e outro, diz: larguei a vida doida, mas continuo doido.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Invasão

Ninguém morreu na porra daquela invasão, não morreu um moleque lá da área... Um moleque da favela! Nenhum deles. Quando começou o tiroteio todo mundo foi pra casa. Da entoca entra no beco e dá um assobio. Alguém abre a porta. Nós conhece a favela, né? Quem morreu era de fora. Os moleques de outras favelas, que não conheciam o morro, e que ficaram perdidos. Eu vi dois deles... De moto... Os olhos arregalados... Esses eu ajudei a fugir. Mas a maioria morreu. E foi diferente dos números da televisão, é claro. Lá em cima do morro tava cheiro de carniça. De tanta gente morta. Os porcos comeram tudo. Mas tiveram uns que fugiram. Ele solta a fumaça e continua: eu saí tranqüilo. Não olhei nem pra trás. Fui embora.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Poodles

A menina mergulha na lata de lixo. O moleque espera. Deve ter alguma coisa que preste ali. Tudo é lixo naquele lugar. Um cenário de guerra, com homens mutilados e cadeiras de rodas. Ele assiste a cena de dentro do ônibus. Tem uniforme, crachá, carteira assinada, e um tasco de um baseado dentro do bolso. Não dá nem pra dar onda, ele pensa. Blitz. Um policial sobe no lotação. Quando vê o cachimbinho de crack, sujo e enferrujado do moleque, ele diz ao policial: aquele menor tem um cachimbo. O policial responde: não te perguntei nada! Ele se cala. Depois diz: o Brasil não vai melhorar, eu tenho certeza que o Brasil não vai melhorar... Quem disser isso tá mentindo. O Brasil vai explodir e nós vamos morrer aqui dentro. Ele diz isso olhando para os outros passageiros que se assustam. O policial ignora dessa vez. Depois ele se lembra do poodle e fala: eu queria ser uma porcaria de um poodle. Alguém já viu como essas madames cuidam deles? Eles têm até sapatinhos para não pisar no chão. Eu queria ser a droga de um poodle daqueles. O policial diz: você quer calar a porra dessa boca?! Um dos policiais revista a mochila de um homem que subiu naquele ponto, e que vai perder 50 reais daqui a pouco. A menina saiu do lixo e disse para o menino: nada! O motorista dá a partida. E ele diz baixinho... Um poodle... A droga de um poodle!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Porquês Inúteis

Seu Zé era um velho que tinha um bar com fliper na praça. Todo mundo que jogava ali morreu de tiro. Quando meu pai me pegava lá dentro enchia o meu saquinho. O Seu Zé andava de motinha com as mercadorias amarradas. E ele mesmo dizia: essa mer... cadoria! As vezes eu pagava e dizia: obrigado. E ele: você quer brigar comigo, rapaz?! E no dia em que o moleque disse: esse lugar não tem nada, que lugar amaldiçoado! Ele Respondeu: vira essa boca pra lá, rapaz! O Seu Zé levava as palavras ao pé da letra. E ele é tão presente com o seu cuidado com elas, que eu estava aqui escrevendo, e me lembrei dele ao perceber esse bando de porquês inúteis.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Vida Literária

Ele olhou para a tela do computador. Talvez tenha tido um “bloqueio criativo”, como dizem àqueles escritores que nunca tem o que dizer. E o papel que não é papel ou a folha que não é folha, em branco, na tela. E pensou. Pro diabo! Não sou obrigado a escrever essas porcarias... Pegou uma música que não saía da cabeça, e saiu assobiando. Viu a pichação de parede. A sujeira dos garis. A fumaça que os carros soltam com a expiração. Os camelôs repletos de DVDs piratas. A criança com cara e uniforme de escola pública. O solzinho que há dias não dava as caras. E pensou. A vida continua literária.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Como Se Samuel, Fosse Eduardo

Eduardo chamou Samuel. Samuel. Vamos à outra rua? A outra rua é a rua paralela a rua de paralelepípedo em que eles moram. Samuel disse: não. Eduardo disse: tá. Samuel não quis ir não sabe nem por que, se sua mãe nem estava lá. Mas simplesmente não quis brincar. Preferiu assistir desenho. Eduardo atravessou aquele corredor imenso, e cheio de casinhas, que dá para outra rua. A senhora que estava no tanque viu Eduardo passando. Se o corredor estivesse cheio, talvez ele parasse para conversar com as outras crianças. Mas àquela hora estava vazio. Ninguém havia chegado da escola, ainda. O caminhão. Samuel só ouvia falar daquele caminhão. Ele ainda ia ouvir falar muito daquele caminhão, que nunca viu. E talvez crescesse, e o caminhão, quem sabe. A mãe de Samuel ao chegar do trabalho abraçou o filho e beijou de maneira que ele nunca viu. E depois ela o puxou para aquela casinha do corredor ao lado, em que Eduardo vivia com a mãe e o pai. Samuel teve que contar a ida de Eduardo a sua casa mil vezes. E nunca esqueceu a maneira como a mãe de Eduardo o abraço e beijou. Como se Samuel, fosse Eduardo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Meu Blog É Um Deserto

O meu blog é um deserto. Túmulo desértico. Triste como a caatinga. O sertão. O árido e o semiárido. O meu blog é uma solidão. Lotado de textos que ninguém lê. Ou quase, ninguém. Alguns entram aqui por acaso, procurando alguma coisa no Google. E ainda saem irritados, pois a palavra chave é a mesma; mas o assunto, não. Milhares de textos dentro do computador. No armário. Quem sabe obras póstumas pelas mãos de algum parente atencioso. A internet é um universo. E dentro desse universo tem um lugar que é o meu blog. Terra improdutiva. Elefante branco. Numa solidão só. Igual milhões de outros blogs. Sem consolo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

No Meio do Dilúvio

Ela diz algo para todo mundo na fila. Ninguém dá a mínima para o quê diz. Todo mundo só está preocupado com a própria vida. Tudo é mais importante. O time. A festinha de aniversário do filho. A ração do cachorro. Todo mundo tem com quê se preocupar. De repente dá um trovão e desce uma pancada de chuva do céu. Eu também saio correndo para me abrigar embaixo da marquise. E no meio do dilúvio, a velhinha maltrapilha diz: eu avisei que o meu pai ia pegar vocês...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Boca-Podre

Ele é barbudo. E treme. Treme sempre que bebe, ou antes, de beber. Mas treme. Os meninos gritam para ele: Boca-Podre! Ele tem os dentes estragados. É magro. E a mãe de olhos fundos, todo o dia faz um tour pelos bares atrás dele. Mas nem sempre foi assim. Dizem que era engenheiro e coisa e tal. Uma tia minha diz: ih, ele era bonito! E o meu tio: a noiva do Boca era um pitéu... Então ele foi derrotado ou desistiu de lutar? Não sei. A história que contam é que ficou assim por causa dessa menina. Uma ingrata que o abandonou na porta da igreja. Assim mesmo. Igual em novela. E o Boca-Podre não soube administrar o vexame perante a comunidade. Mas quando eu o vejo, tento visualizar a cena do Boca chegando do trabalho, e passando na casa da namoradinha para dar um beijo. Mas confesso que é difícil imaginar isso. Muito difícil.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Coisa de Momento

Eu sou soropositivo há vinte e cinco anos. Hoje em dia dá para se viver com AIDS. O governo sabe disso. Mas eles não vão dizer isso na televisão, porque se não vai ter uma porção de maluco que não vai mais usar camisinha. Ele disse. E eu perguntei: Você se arrepende de não ter usado camisinha? E ele: não, cara. O sexo é um momento. É coisa de momento. Naquele momento ali, eu fiz isso.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Homem-Maduro

Ela ficou impressionada com o homem maduro que conheceu na internet. E disse as amigas: é... gente, eu prefiro homens maduros. E não me engano! Até a voz dele no telefone era uma voz madura. Ela cresceu ouvindo dizer que as meninas evoluem mais rápido que os meninos. E se lembra do primeiro namoradinho. Quando disse a ele: para de correr para lá e para cá e se suar. Sem graça, ele parou. E agora foi aquele cara. Mais de trinta anos e morava com a mãe e só andava de bermuda e de calça larga, como se fosse um adolescente. E ainda disse a ela: homem pra vocês é aquele com barriga de chopp no sofá, e três filhos correndo pela casa. Ela ia pensando quando chegou à entrada do shopping. Mas não ficou nada feliz ao ver um menino de dezesseis anos de bochechas rosadas e sorridente, vestindo as roupas do seu homem maduro.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Minha Mãe É Babá, Mas Não Pode Ficar Comigo

Samuel espera que a sua mãe venha. Mas ela não vem. Ninguém vem à escola buscar Samuel. Ele fica grudado na grade. A cara de quem olha triste para fora. Quando chega uma prima. E essa prima gordinha tem quase a idade de Samuel. A menina se aproxima da mulher que fica no portão da escola. Hoje a mãe de Samuel não vai poder vir. A mulher responde entediada. Tá. Tudo bem. Samuel olha triste para a prima. Eles vão para a rua e Samuel pensa. A minha mãe é babá, mas não pode ficar comigo. Mas depois que a prima o convida para colar a bunda no papelão e descer no barranco, Samuel admite gostar de quando a mãe não vem.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma Perna Branca Ou Um Minuto Na Igreja

Ele colocou a mão em sua perna. Ela disse: que merda é essa! Tá maluco? Pirou?! E ele escorregou a garra para fora daquela brancura. Seu irmão olhava a cena com nojo. Como se dissesse: você é podre! Enquanto ele pensava que talvez aquela porta fosse uma saída de emergência. Ela disse a ele: você ainda é uma criança. Uma criancinha. Não vem que não tem! Ele abaixou a cabeça e ligou o rádio da cozinha. Pôs uma música. Ela disse: tira essa música que esse cantor é um drogado. E você não tem idade para ouvir isso. Ele encostou-se à outra parede. O irmão pensava por que a sua mãe o obrigava a conviver com aquele idiota. Incapaz na escola. Porque tinha que respeitar as mesmas regras de alguém que não conseguia ficar quieto um minuto na igreja. E não fazia nada além de balançar as pernas. Ele disse a ela: eu te amo. Estou apaixonado. Ela disse: ah, é mesmo? Então aproveita para comprar um quilo de batatas pra mim. Pega esse dinheiro que tá em cima da mesa, e traz o troco de volta! Ela continuou na pia descascando a cenoura. O irmão ficou parado próximo a porta sem dizer nada. E ele saiu pensando que estava um dia lindo, e que ia ser um saco ir para a escola outra vez.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Pac-Man

Ele me segurou pela camisa e disse: as pessoas odeiam os seus trabalhos! Disse isso com os olhos em chamas. Ele tava bêbado. Bebe e assiste aos jogos do Flamengo nos bares. Ele me disse: você faz o que quer! Ele é professor de geografia, mas trabalha com informática. Pois dá mais segurança do que dar aula em escola pública para meia dúzia de delinquentes. E ele continuou: eu odeio o meu trabalho. E fico rezando para o tempo passar. Ele conserta computador na casa de velhos militares. Eles dizem: a ditadura era boa. Ele diz: não. Opa. peraí! Começa um discurso e eles se impressionam com a sua elucubração. Ele diz: eu te invejo. Você é forte. Eu digo: também não é assim. Pago o meu preço. Ele me diz: não tem espaço pra gente como você na escola. A sociedade não sabe lidar com gente como você. Ele continua: cara, quando toca o telefone no meu trabalho, eu já fico preocupado. Eu só não quero que interrompam o meu Pac-Man. Só isso que eu não quero. Que interrompam o meu Pac-Man!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eu Só Não Quero Voltar Pra Rua

Ele é um homem alto e forte. Com olhos fundos e feições índigenas do Norte do Brasil. A pele tem a cor do cobre. Seria facilmente confundido com um garimpeiro de Serra Pelada. Ele diz: eu só não quero voltar pra a rua. Eu já morei na rua. Tudo bem. Não tinha inimigos. Quando eu acordava escondia o meu cobertor em cima da árvore. Tomava café no posto. Mas sei lá. Não quero morar na rua de novo. E se acabarem com aquele restaurante de um real vão me quebrar. Vai ser mais gasto com supermercado. Aquela comida é feita por nutricionistas. Eu tenho uma vida boa, rapaz! (aqui ele fica exaltado). Tenho uma qualidade de vida excelente. Tem gente que tem dinheiro, mas não tem qualidade de vida. É o que eu converso com a minha assistente social. Todo dia eu malho. A minha glicose está equilibrada. Eu sempre pago o meu quartinho adiantado. Só que se cortarem o meu benefício vou ter que morar na rua de novo. E eu não quero voltar pra rua.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Cenouras Hipócritas Ou Brasileiro Insensível

Vi aquela moeda de um real em cima da mesa. Ela estava solta e separada das outras. Fiquei com pena dela. A gente nunca sabe quando vai precisar de um real. Passa pra cá. Ela deu um pinote pro bolso. Era hora de passear e ela se acomodou ali embaixo da carteira. Na rua da feira um cara me parou: tem um real pra pinga? Gostei da atitude do bruto e arremessei a maliciosa para o ar. Ela girou. Ele estava com a mão aberta. A bicha caiu na palma da mão dele. Parei para comprar legume. Pensava na vida enquanto olhava aquelas cenouras hipócritas. Uma menina parou do meu lado. Tio compra bananada. Balancei a cabeça dizendo que não. Ela insistiu na esperança de me deixar sem graça. Tio compra bananada. Automático disse: não, obrigado. Eu já havia dado a minha reserva para outro tomar cachaça. Ela era uma criança fofinha. Daqui a pouco aparecia alguém disposto a ajudar. O cara da barraca me olhou de cara feia. E disse a ela: toma um real pra ajudar. Eu sou um brasileiro insensível.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rebuçado

Ele diz: eu fumo para aliviar a minha dor. Eu sinto muito dor. Eu já o ouço dizer isso muito antes dessa moda de fins medicinais, marcha e essa coisa toda. Contemplando o cais fedorento da favela ele diz: eu fiz tanta merda. Roubei. Trafiquei. E não aconteceu nada. Mas fiquei desse jeito de bobeira. Eu tava no ônibus vindo do baile, e veio essa bala de fora. Até hoje não sei quem atirou ou por que. Ele sempre conta essa história entre uma baforada e outra. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Livro

Eu comprei o livro. O meu irmão mais novo quis ler. E disse a namorada: leia também. A mãe da menina leu o livro nas tardes em que não tinha o quê fazer. Embora fosse um livro adolescente. A menina que agora era ex-namorada do meu irmão, quando se mudou teve que doar os livros para a biblioteca pública por falta de espaço em casa. Um menino que fazia o trabalho de escola tirou o livro da estante. Gostou da capa e do resumo, e fez uma ficha na biblioteca para pegar o livro emprestado. A irmã dele começou a ler o livro. Eu comprei o livro novamente num sebo do centro da cidade.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Tendenciosa

Ela subiu me olhando. Não pude acreditar. Roleta e trocador. Fiquei sem graça. Tentei disfarçar. Uma senhora com setenta anos ou mais. Ela pagou a passagem e eu pensei. É óbvio demais que pare aqui na minha frente. Não teria coragem. Ela irá sentir-se envergonhada. Mas eu tava enganado. No momento em que acabei de tirar a biografia de um dos escritores que mais gosto da mochila, ela encostou. OK. Levantei e dei o lugar. Ela: obrigado. E se ofereceu para segurar a minha bolsa. Grato. Sei que se estivesse em pé, provavelmente ninguém iria segurar nada. Na minha cidade é assim. Mas se ela andasse mais um pouco teria outra pessoa. Qualquer um com menos de sessenta anos daria lugar a ela. Achei a escolha... Tendenciosa. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Favela Ocupada

Favela ocupada. Ele tava parado em frente a sua casa. Acabou de fumar. Veio um soldado e disse: pô aí tu num tem um baseado desse pra me arrumar, não? Ele gelou. Mas falou: tenho. Entrou em casa rapidamente. O soldado esperando. Ele suava com medo de que fosse uma armação. Mas se fosse não teria jeito mesmo. Era melhor arriscar. Entrou em casa e pegou um baseado. Deu para o soldado que falou: com todo respeito, sem querer abusar, não tem uma seda aí não, irmão? Tenho. Ele entrou em casa de novo. Saiu com a seda. Deu para o soldado. O soldado falou: valeu... E saiu andando. Ele respirou. Alívio.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Apontador Que Caiu No Chão

Eu tenho uma vida desgraçada. Simplesmente não gosto de estudar. E por isso a tia da escola me odeia. O meu pai deu o fora com outra mulher e a minha mãe ameaça tacar fogo na casa. Com meus irmãos e comigo dentro. A mãe de um amiguinho paga a minha caixa escolar e me sinto humilhado por isso e pelas roupas dadas. Odeio essa bolsa de couro velha que não combina com um menino que devia ter uma mochila. Não sei se odeio andar maltrapilho. Acho que não. Odeio mais ser achincalhado. Virar chacota por esse motivo. Não tenho videogame. Lá em casa nós vendemos garrafas para comer ovo. Estou enjoado de ovo.  E de angu também. Naquele quintal só se come angu. Às vezes eu penso. Será que eu vou ser um adulto amargurado? Não. Acho que não. Pois quando eu voei para pegar o apontador que caiu no chão e devolvi a menina, eu me senti o menino mais feliz do mundo. E ainda escrevi um conto curto sobre isso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Beleza Previsível De Cristina Kirchner

Ele sentou no bar e pediu um café. Depois tirou um cigarro e foi para a porta do boteco. Começou a jogar fumaça na cara dos transeuntes. Eu tinha lido todos aqueles livros e o que não me faltava era assunto. Queria falar da importância daquilo tudo. Mas ele ouve essa falácia todo dia. Quando ela chegou, ele disse: hum. E ela: bom dia... Ela era uma mulher no auge dos seus cinquenta anos, com uma beleza previsível e cara de âncora do jornal da noite. Ele foi muito educado. Ela exibiu a mesma classe que tem Cristina kirchner. E num gesto de enfermaria segurou o braço trêmulo do escritor. Eles pararam um táxi. O carro partiu. Eu olhei para as nuvens de cafeína e nicotina que subiam. O preto no balcão olhando minha cara perguntou: você sabe quem ele é? E respondi: eu sei quem ele é. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

João Banana

Naquela casa tudo é velho. O ventilador com hélices de alumínio. O vídeo cassete. Os móveis. A tinta das paredes. O fogão enorme. A geladeira. Inclusive o velho gorducho com bochechas rosadas que ouve ópera numa vitrola e apoia os pés num banquinho. E todas as histórias. Ele limpa a garganta e com a sua voz mais áspera diz:
 Antigamente o sujeito entrava num lugar e pedia: me dá uma média com pão e manteiga. Hoje em dia não tem mais isso (o autor discorda). Antigamente o sujeito entrava numa mercearia, pegava um tomate e saia comendo. Hoje em dia não tem mais isso. Antigamente não existia droga. O único cara que fumava maconha aqui era um tal de João Banana. Foi o primeiro maconheiro que vi. Ele ficava dentro do bar, mas só fumava escondido. Hoje em dia está tudo mudado...
Quando disse isso o fiquei imaginado ainda de calças curtas, olhando esse tal de João Banana palitando os dentes  todo de branco parado em frente ao bar, e pensando como ele ia esconder a erva do diabo. Como eles diziam. Antigamente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Casal Excêntrico

Ele disse: vamos cair fora dessa escola. Ela disse: é mesmo, esses professores não tem nada para nos dizer, talvez lá fora exista algo mais interessante. Ele parou em frente a uma floricultura. O vendedor não viu nada demais nos dois. Ele disse: hei cara, você pode me dar uma flor para a minha gata? O vendedor da floricultura pensou que uma flor não faria falta. E que eles eram um casal tão bonitinho... Pensou igual uma bicha afetada. Logo após eles entraram numa livraria. Os seguranças da livraria que sempre perseguem os negros como se nós negros só roubássemos livros; não deram a mínima para o casal excêntrico de mãos dadas. Eles entraram. Foram as prateleiras. E nada de interessante por lá, também. Apenas clássicos sem fôlego e empolados. Best Sellers. E vencedores de prêmios sem importância. Queriam alguma coisa que os sacudisse. Mas isso está em falta. Quando os dois saíram da livraria, toda a cidade procurava por eles. Os seus rostos estavam nas tevês e nos jornais. Pegos. Na manhã seguinte ele leu com dificuldade o jornal que dizia: menino e menina de seis anos fogem de escola particular mais cara da cidade.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Bad Company

Ele tava no meio dos moleques. Todos eles à-toa e de cabeça raspada. O pai disse: se continuar andando com essa gente. Esse menino vai dar pro quê não presta. E não é que deu. Um tempo depois tava na boquinha da rua de baixo. Era o único limpinho entre os sujinhos. Crackudos. O pai desesperado o mandou para São Paulo morar com a mãe. Ele saia para trabalhar e voltava sempre no mesmo horário. Mas tinha dinheiro demais para um assalariado. Um dia o padrasto desconfiou dele e o seguiu. Ele quebrou para dentro de uma quebrada. Flagrante. Contava um patacão de dinheiro em frente ao boteco. Então a mãe decidiu enviá-lo para morar com a irmã na Alemanha. Ele veio visitar a família um ano depois. Todo mundo feliz. Almoço de domingo. Tudo bem. Quando foi embarcar a polícia federal apareceu. Um quilo da pasta base de cocaína camuflada em fundos falsos.  O pai viu o rosto do filho no Jornal Nacional e vaticinou: são as más companhias.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Vinte Anos De Sua Vida

Ele está com diabetes. Sabe que vai morrer. Outro dia o surpreendi comendo uma lata de marrom glacê. Eu disse a ele: você vai morrer! Tá pensando que não, mas vai morrer! Isso foi quase uma ameaça. Ele não tá nem aí. Tá ficando cego. Caiu no meio da rua recentemente. Eu o levo para apostar nos cavalos. Já bebeu. Já fumou. Já cheirou e comeu tudo que queria. Inclusive mulheres, ele diz. Andou viajando em navios da marinha mercante durante um tempo. E fala: a minha pica é internacional! No que eu digo: agora que você tá ficando cego, todo mundo vai comer o teu rabo! Ele ri e me diz que só não consegue parar com o cigarro. Lamenta. Parei de cheirar, mas não consigo parar de fumar. Ele me olha sério e fala: se piorar, eu meto uma bala na minha fuça. Tem uma no ferro esperando por mim. Não vou dar trabalho pra ninguém. Fui eu mesmo que criei isso, ele conclui. Eu penso que viveu tudo o que podia em vinte anos de sua vida.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Serendipitoso

Quando eu pergunto a ele: E aí, como tá? Ele diz: tudo bem como sempre. O cara já foi preso, e quando conta sobre a cadeia é sempre de maneira engraçada. Mesmo ao falar da surra que o apagou durante dias. Ele passou um tempo na solitária onde deixava a comida azeda para os ratos, e comia o resto para que não cismassem com a sua refeição ou com ele.  Tem pouco mais de trinta anos. Nunca perguntei por que foi preso. Provavelmente por tráfico.  Realmente não acredito que faria mal a alguém se não fosse para se defender. Um dia me disse: eu não sei andar na cidade direito, sempre vivi dentro de favela. Enrola mais um cigarro e fuma tranquilamente sentado num caixote. Tem uma barraca de frutas na feira da favela, e talvez seja a pessoa mais tranquila que conheço. Mora num quartinho minúsculo. Não tem os dentes da frente. E diz: volta aí pra trocar idéia. Não me impressiono com as suas histórias. E sim com o fato de se sentir seguro nesse mundo com quase nada.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sexta-Feira Felpuda!

De cima da passarela eu vi o sol no final da tarde. Ele estava deslumbrando. Lindo. As pessoas passavam por mim. O trem embaixo. O motoqueiro passou e disse: Cai fora, cara! Tá atrapalhando o trânsito. Fui embora. Não dava para ficar namorando o sol o tempo todo. Ninguém ia entender. E agora de noite vi a lua. Linda. Fez de tudo para ficar visível. Enfurnou-se entre as árvores. Cheia. Felpuda. Sexta-feira. Todo mundo vai sair. Ninguém que trabalha na cidade vai voltar para casa. Eles vão para todos os lugares. O trânsito em direção ao subúrbio vai ficar tranqüilo na Avenida Brasil. Todo mundo vai beber. Fumar. Cheirar. E serão guimbas e mais guimbas de cigarros. Pontas de baseados. Rapas de pó. Dores de cabeça. Ressaca. Camisinhas sujas. Vai ter um mundo de camisinhas sujas em motéis. Muita camisinha. Imagina uma pilha de camisinha. Ele está deitado enquanto ela toma banho. Veja a cena. Ele diz para si mesmo: sou feliz. Quando toca o despertador. Eu desço da passarela.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Tipo Sócrates

Eu tava maior babaca esse dia. Tava caminhando pela imensidão da Avenida Rio Branco. Segunda-feira de manhã. E eu cá com meus botões tive uns achados filosóficos. Tava me sentindo um puta filósofo. Inteligente pra cacete. Tipo Sócrates. Imagina a cena. Um filósofo no meio de boys e secretárias. Aí eu disse: a verdade é que ninguém trabalha para si próprio. Um trabalha para o outro. Será que alguém já teve essa sacada? E emendei com aquelas perguntas básicas. Um questionamento no mínimo adolescente. Por que somos tão “inteligentes”? Por que fazemos música? Quem criou deus? Quando me toquei que nada sei. Burro.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cidade Das Mulheres

Eu tava chapado. Muito chapado. Caminhando pela cidade e vendo as luzes. Sempre as luzes. Indo em direção ao metrô. De repente observei que estava num mundo cercado de mulheres. Só existiam mulheres no mundo. E eu era o único homem. Assim como naquele filme do cineasta italiano Federico Fellini em que o ator Marcelo Mastroianni acorda num trem e desce numa cidade onde só existem mulheres. Tava eu ali. Mas como é mundo moderno, metrô ao invés de trem. Calculei estar sonhando. Ou sei lá o quê. Uma delas falou algo comigo. A música do Roberto Carlos em meu ouvido não me deixava ouvir. Eu ia tirar o fone. Quando pintou um guardinha no meio da minha história.  De uniforme, cassetete e tudo. Ah, não! É mole? E ele gritou: vagão feminino! Fui. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Teto-Preto

Naquele dia faltou água na favela. A criançada tomava banho no chuveirinho. Uma menina gritou: mãe, eu não tô aguentando esse calor... eu vou meter minha cara no balde! Eu disse a ele: qual é cara, não anda com esse violão na capa não, que os caras vão pensar que é fuzil. Ele tirou o violão da capa e falou: você é muito medroso! Nós fomos para debaixo da escada. O Neguinho tava sentado no sofá com um sorriso congelado e no olhar serenidade como se aquele fosse o lugar mais interessante do mundo. Ele alcançou a iluminação. Entrei naquela nuvem de fumaça. Dois moleques chegaram. Um preto e um branco. Tímidos. Ele disse: esse cara fez aquele som que vocês gostam... Conversamos. Ele segredou: os dois maiores 157 da favela. Quando eu vi o Neguinho começando a se encurvar até tombar do sofá. Um bêbado gritou: teto-preto! As pessoas começaram a se aproximar. E aos poucos vieram os gritos. Teto-preto! Teto-preto! Parecia gol do flamengo. Gritando e dançando, todo mundo. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Tática Covarde de Guerra

Faz calor. Estou no quarto. O chão é de ladrilho. Deito ali sem camisa. Não adianta. Acordo suado. Boto o ventilador em cima de mim. Ele ri e sopra um ventinho de vez em quando. Um calor dos infernos, eu digo. Não dá para ficar na sala perto da janela; pois é onde bate o sol. As moscas atacam. Moscas do inferno, eu digo. Nesses dias em que estamos lesados pela quentura, elas usam essa tática covarde de guerra. Não dá para ficar em lugar algum. O termômetro zomba da gente marcando quarenta e cinco graus. Ele sabe que a sensação de calor é bem maior que isso. O motorista passa a toalhinha na cara. O cara no elevador diz: tá abafado. A fumacinha sobe do asfalto da Avenida Presidente Vargas. Eu penso que deus deu uns moles. Podia organizar tudo. Chover toda segunda de madrugada para não atrapalhar ninguém. E sem essa de quentura. Fodam-se os eco-chatos e suas teorias. Agora eu só quero matar essa mosca desgraçada que não me deixa escrever.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cena De Cinema

O menino leva a menina à esquina. Eles acabaram de comer um cachorro quente na praça. É sábado à noite. Os dois caminharam por ruas escuras até lá. Ele tentou beijá-la. Ela virou o rosto. Ela disse: você tá aonde? Ele respondeu: em casa. Ela disse: então vem pra cá. Ele se lembrou dela dizendo: eu te amo, porra! Mas agora ele ouviu: nós não podemos ficar juntos, pois somos muito malucos. Fazer o quê? Ele pensou que o melhor momento que tiveram foi aquele em que ela encostou a cabeça em seu ombro dentro do ônibus. Mas agora eles estão parados na esquina. Ela dá um beijo em seu rosto.  Ele retribui com uma cara de bunda. E já decidiu uma hora antes que nunca mais vai ligar para ela. Que olha para ele com aquela cara triste de quem sabe disso. Os dois se despedem. Futuramente ele vai passar do outro lado da rua e não vai falar com ela. Normal. Eu saio do cinema com os olhos destruídos e vermelhos. Vou ao banheiro lavar o rosto.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Justin Bieber

Existe um babaca para cada dia do ano. E o babaca de hoje é o meu novo vizinho. Ele mete a cabeça por cima do muro e diz: hei cara, esse negócio de arte dá dinheiro? Eu digo: deve dar, o Justin Bieber, por exemplo, tá chei da nota. Ele diz: você não pensa na tua aposentadoria? Eu digo: não, não vou me aposentar. Saquei, ele diz. E eu penso que não vou me juntar a esse monte de caga-dorme que toma conta das cidades mais legais. Rio. São Paulo. Esse bando de gente que sai de casa de manhã e quando volta enche a privada de merda. Só isso que eles sabem fazer. Encher o mundo de merda. Só não quero ser um caga-dorme pensando que é uma grande merda. E ele diz: bom dia! Vou trabalhar... Eu digo: bom dia.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Terror Dos Intelectuais!

Ela subiu para o ônibus que eu estava.  Roendo unha. Saia rodada.  Faixa na cabeça. Cara de hippie arrependida. De quem voltou de Woodstock a pé. Eu pensei “ih... essa mina tá por fora do Brasil. Tá por fora. Nem sabe aí. Nem sabe.” O Velho ao meu lado falava sozinho. “eu parei de ir ao Maracanã quando o Zico parou. Num vô mais. Pra quê? só chutão! Só tem chutão pro alto hoje em dia!” Eu percebi que ela me olhava por cima do livro. E quando isso acontecia tinha que evitar o olhar. Só que meu interesse era maior. Ficamos naquele jogo uns vinte minutos. Ela olha. Eu desvio. Ela olha. Eu desvio. Até que vi o nome do livro. Harry Potter. Se não fosse o Harry, seria Crespúsculo, A Cabana ou um Código da Vinci ensebado. Esses são os hits dos ônibus. País que ninguém lê. Que leiam essa porcaria mesmo. Nada de clássico. Nada de Prêmio Jabuti. Feira de Paraty. Eu sou o terror dos intelectuais!

sábado, 2 de julho de 2011

Pagode Meloso

Ele arrumou a casa toda. Posicionou os cigarros que ela gosta estrategicamente. Preparou a comida e pôs o vinho na geladeira. Só lamentou não saber fazer todas aquelas coisas direito. A felicidade subiu da virilha quando ouviu a campainha. Na verdade era o telefone. A voz de taxi-girl do outro lado da linha disse: você me desculpa? Desculpo. Primeiro ele desejou ser uma mulher histérica para dar um chilique. Depois se sentiu uma mulher de malandro. Mas foi o pagode meloso do outro lado da rua que estragou o seu sábado.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Panaceia

O meu pai atravessou a rua. Eu fui atrás dele. Ele não disse nada. Não consegui dizer nada. Ficamos uns bons cinco minutos calados. Séculos. Ansiedade. Eu estava com um bolo confeitado cheio de glacê na garganta. E ia pensando “porque diabos o velho não fala comigo? Preciso que fale!” olhei para os seus olhos e estavam vermelhos. Mas consegui ver uma gotinha que venceu a batalha. Quando ele me disse: cacete... Não se têm muitos shows bons assim nessa porcaria de cidade! Eu disse: é... Esse cara é muito bom! Nunca me esqueci daquele show. Atravessamos a rua e pegamos um ônibus em direção ao subúrbio. As outras pessoas ficaram por ali.

sábado, 25 de junho de 2011

Eu Acho Que Ainda Não Tá Bom

Por uma questão de educação perguntei a esse meu amigo. Você leu o meu blog? Li. Eu sei que ele não gosta das coisas que escrevo. É o tipo que diz: antigamente era melhor. Depois de algum tempo você escreve porque não consegue parar de escrever e já não se importa mais com a opinião dos outros. Ele disse: eu não gosto daquele troço de erro de português e palavrão, parece que tá querendo chocar, porra! Um escritor me disse: você não vai ler o meu livro porque já me conhece. Conheci alguns artistas insuportáveis pessoalmente, e continuei lendo e ouvindo as suas obras. Até aonde o artista é aquilo que faz? Eu penso que o artista e a sua obra se confundem, mas não são iguais. Alguns clichês são sempre válidos. Fico assustado quando sou associado ao que escrevo. Não sou aquilo, mas também sou. Eu ouvi o último disco de fulano de tal que está quarenta anos na música. E posso garantir que com o tempo ele ficou melhor. Embora ainda falem que não superou o primeiro disco. E com um velho escritor acontece o mesmo. No Brasil se enterra a pessoa viva. Ou será que é só a nossa inveja da capacidade do outro. As pessoas próximas são as que menos se importam com o quê quer que eu faça. Não aprenderam a separar a arte do artista. Todo mundo quando conversa comigo se torna especialista em música e literatura. Interrompi meus pensamentos. Ele parou e disse: eu acho que ainda não tá bom. Eu disse: eu também.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A Cama É Um Lugar Seguro

Você chega a casa. Não há ninguém. Fica de quatro e começa a andar na tua covardia. Do jeito que você consegue. Você engatinha como uma criança que precisa de colo. Não acende a luz, pois não há Luz. Segue no escuro tateando o quê sempre dá uma sensação de insegurança. Nessa casa não há dinheiro. Não há mulher. Não há trabalho. Só as paredes. Você acabou de descobrir que não se pode fazer apenas o que quer fazer e o quê gosta de fazer. O mundo não deixa. E você sente a dor de uma furadeira varar tua barriga. Quer chegar a cama. Só isso que sonha agora. Aquela água salgada descendo dos olhos não te deixa respirar direito. Você consegue alcançar a móvel e se enfurna debaixo do cobertor que te acolhe igual útero. Você treme e se esconde do mundo. A cama agora é um lugar seguro. E você vai ter que ter o dobro de coragem para sair dela amanhã de manhã.

domingo, 19 de junho de 2011

Sem Pau

No dia anterior eu havia desafiado deus. Quem você pensa que é? Desce aqui se tu é homem! Dormi exausto de tanto chorar. No dia seguinte fui cumprir o ritual de mijar ao acordar. E milagre! Não havia nada no lugar do meu pau. Nada. Só um campo liso. Eu me olhei no espelho e pensei “eu sou o homem mais feliz do mundo!” Temi que chegasse o dia em que sentisse vontade de dar o rabo. Balela. O que me fazia sofrer era o excesso de masculinidade e não a ausência dela. Hoje eu penso em quanto tempo perdi tentando enfiar aquele pau em tudo que era buraco. Agora sou mais produtivo, já que nenhuma mulher vai querer um homem sem pau, não tenho que me preocupar com mulher nenhuma. Hoje eu tenho um milhão de amigas. Não tinha uma. E consigo ver beleza na natureza. Nos livros. Nos filmes. Choro no cinema com qualquer comédia romântica. Consigo ver beleza até nas mulheres! Antes eu só enxergava um traseiro e um par de peitos. Atualmente sou muito mais feliz e muito mais livre. Não faço nada para impressionar ninguém. Saio para dançar e conversar com as pessoas. Todos os meus problemas estavam relacionados aquele membro. Hoje eu me sinto leve...  Sem ele ali pendurado.

sábado, 18 de junho de 2011

Cosmética Classe A

Ele tava dançando. Chapado. Saidinho. Afro. Óculos escuros. Dread. Desencanado. Puxa-ferro. Hip-hop. ONG. Revista Raça. Modelo negro. Marcha da maconha. Jay-z no Rock in Rio. Samba de raiz. Comunidade. Não favela. Off-Lázaro Ramos. Cidade de Deus. Periferia. Literatura da periferia. Ponto de cultura. Viaduto de Madureira. Ensino médio completo. Ela adorou aquilo. Amiga. Sorridente. Branquinha. Zona-sul carioca. Maconha e doce. Bossa nova. Naipe de novela do Manoel Carlos. Olhos azuis. Coldplay no Rock in Rio. Samba de raiz. Universidade pública. Antropologia. Morou na Grécia. Garota de Ipanema online. Barzinho em Botafogo. Cosmética classe A. Ele segura o braço da menina. Ela estremece e lembra que adora ir ao subúrbio. Ele sonha acordar em frente à praia e ter água do mar batendo perto da janela. Quando diz: já vai sair? Ela responde: nós vamos ao show no Circo. Circo Voador na Lapa Rio de Janeiro. Show de reggae. Banda Jamaicana das antigas. Rastas igual a ele. Ele pensa que não vai dar. Nem que tivesse carteirinha de estudante. Ele diz: daqui a pouco eu vou... Ela diz: tudo bem. Ele acena. Lá nos falamos. E ela: O.K.  Ele mexe na carteira e tira o dinheiro do ônibus. Dá para beber mais uma cerveja. Mas não vai poder demorar muito, pois amanhã tem que acordar cedo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Homem Cordial

Eu vi quando o cara da moto rapou no retrovisor. Ele disse: foi mal. O policial mandou: foi mal é o caralho! Vocês tão sempre querendo se adiantar! Eu dei um pinote pra dentro do ônibus. O motorista me perguntou: o quê aconteceu ali? Eu respondi: o maluco da moto esbarrou no retrovisor, aí já viu né? Ele disse: esses motoqueiros pensam que são os donos da rua... Rapaz; ainda jogo um pro alto! Neguinho pensa que eu tô brincado, Vai mesmo! Sem muita convicção, eu disse: eles sobem na calçada e tudo, maior vacilação aí! É mesmo, ele concordou. Aproveitado a intimidade perguntei: pô piloto, com todo respeito, tem como quebrar essa? Eu tô na correria, a merreca acabou. Ele olhou para o envelope na minha mão e falou: sobe lá por trás. Quando desci o ônibus acelerou. Eu sabia que aquele negócio de câmera não ia dar certo. Lamentava enquanto assistia o carro se afastar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O Menino Do Fundo Da Sala

O menino senta no fundo da sala. Ele sempre olha para fora e pensa na vida desperdiçada com matemáticas e mapas de lugares que não conhece. O menino adora os livros, e põe um deles por cima do caderno para fugir daquela escola. Mas ele continua lá. Mesmo quando o sol é bom. Mesmo quando faz o melhor sol que ele já viu. A professora um dia briga com um, e no outro dia briga com outro, mas ele continua lá. Ele não quer ter a vida que professora diz que é boa. Ele não quer ter a vida do seu pai. Ele não quer ter a vida que dizem que vai ter se não estudar. Ele ainda não sabe qual é a sua vida. Mas ele continua lá.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Mais Um Advogado Merda No Mercado!

Aí ele chegou com a cerveja. A gente embaixo da marquise. Tava um frio do cacete. Um frio que congela a armação dos óculos. Abriu a boca sai fumaça. O brilho dos faróis, dos olhos e da iluminação pública. Ele me disse: cara... Eu terminei a faculdade. Eu disse: Show! Ele tremeu e falou: num sei não. Eu devolvi a pelota. E agora? E ele: mais um advogado merda no mercado! Depois do silêncio voltamos a sentir aquele frio constrangedor.

sábado, 4 de junho de 2011

Ela Não Quer Mais Casar!

Ele me telefonou: já alugou o terno? Sim, então vem correndo pra cá! No caminho eu ia pensando o quanto era bacana que caras legais se dessem bem. O cara buscava a noiva todos os dias na faculdade. Ele saía de onde estivesse para fazer isso. Chapou com ela desde a época da escola. Ficou ligando de tempos em tempos: ainda tá namorando? Sim, então depois te ligo. Até que um dia ela disse “não”. Eles começaram a namorar e agora iam se casar. Eu ia ser o padrinho do casamento e provavelmente do futuro filho deles. Quando cheguei, ele me perguntou: seu terno é legal? Sim, meu terno é legal. E ele: que pena... Pois não vai ter casamento. Ela não quer mais casar! Ele estava tranqüilo. Sem essa de carpideira. Amor é coisa de viado. Homem trepa. Mas eu fiquei com uma vontade imensa de chorar. E só pensava que nunca ia ser padrinho de ninguém. Aquela porção de gente. Aquele dinheiro todo. Sei lá.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Crase

Levei meu texto para esse escritor ler. Afundei naquele sofá que me deu uma sensação de desequilíbrio. Escritor novo é foda. Ainda mais com essas novas tecnologias. País que ninguém lê. Pirataria. Filmes 3d. Ele me olhou como se eu fosse um passa fome. Não que eu não seja, mas jogar assim na cara é foda, né? Depois mudou a posição das pernas, tirou os óculos e disse: você só fala do teu bairro. E eu: é... Eu só falo do meu bairro. E pensei que nunca viajei de avião e queria viajar de avião. E que não conheço ricos depressivos ou policiais em crise. Ele me disse: gostei do teu livro, você escreve bem. “Eu escrevo bem”, pensei. Mas tem que melhorar o português, o texto está cheio de erros, sobretudo a crase, falou num muxoxo. Ele estava preocupado com a crase.

sábado, 28 de maio de 2011

Canastra

Repartição pública. A loura chega. Cabelos curtos. Tatuagem nas costas. Cara de mulher fatal. Gostosinha. Ela dá um beijo no rosto daquele preto, magro e boa pinta com cara de falador. Eu penso. Canastra. Todo mundo percebe que a loura ignora os outros colegas de trabalho. Ponto. Outro dia. O preto grita meu nome. Eu levanto o dedo. Ele diz: chega mais! Eu sento em frente a ele que me diz: vocês adoram dar trabalho pra gente! Quando ele diz “vocês”, se refere a esse bando que sonha com o café que está na mesa da atendente. Entra uma menina em cena. Bonitinha. Nada demais. Cara de igreja. Se casar vai trepar uma vez por semana depois da novela. Estagiária. Ele diz: é ruim ficar em pé, né? E ela: é, é ruim. Na seqüência ele pergunta: o quê você vai aprontar fim de semana? Ela diz: nada, eu não tenho dinheiro, chego cansada... E ele diz: eu também não tenho dinheiro, não... Eu penso. Canastra.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Idade Avançada

Ela olhou para o moleque e não acreditou. Perguntou apenas: qual é a tua idade, moleque? Ele disse: quinze anos. E jogou os olhos para baixo que é como esses moleques sempre fazem. Ela disse: você sabia que eu tenho idade para ser a tua avó? E ele bufou como quem acha a pergunta desnecessária. E ela disse: por que você não procurou uma mulher mais nova? Silêncio. Mas ela falou: tudo bem, eu tô precisando de dinheiro mesmo! E ele ansiosamente perguntou: qual é a tua idade? E ela: eu tenho idade avançada!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Respirando De Canudinho

Ela entrou no elevador. Ela não ia falar com ele. Não mais. Ele pensou que o ascensorista talvez estivesse pensando que eles não se conheciam, e em como a vida de ascensorista é chata. O dia todo: Sobe. Desce. Essa profissão devia ser banida por subestimar a inteligência do ser humano. Ela se comportou como mulher e aguentou bem a pressão fingindo não o conhecer. Ainda brincou com a bola como fazem os craques, se olhou no espelho e viu como estava o cabelo. Ele estava respirando por canudinho, e tinha vontade de bater, xingar, gritar, esganar a filha da puta. Quando o elevador chegou ao andar, ela saiu tranquilamente mexendo na bolsa. Ele foi para o corredor lateral e deu aquele respiro de alívio que quase derrubou o prédio.

sábado, 21 de maio de 2011

Acabou a Televisão de Cachorro

O Moleque falou para a Menina: esses programas de tevê são legais. A Menina disse: você gosta? O Moleque respondeu: gosto. E a Menina: mas do quê que você gosta? E ele: das comidas que essa loura faz. E a Menina respondeu: essa loura é legal, né? E ele: pode crê Loura maior legal aí, Loura legal de monte! A tevê era dessas que ocupam uma parede inteira da sala e que deixam as pessoas pequenas em sua frente. Quando surgiu um homem com cara de pai do fundo da loja e meteu a mão no botão. O homem disse: acabou a televisão de cachorro, circulando, circulando... O Moleque falou: vamos tentar arrumar algum dinheiro. E a Menina: eu quero comer alguma coisa. Eles saíram aspirando a substância que os levava para o mundo em 6d. E mesmo fazendo calor eles têm que carregar seus cobertores.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Cara Magro de Cabeça Raspada

Eu tava com medo de ficar com eles na praça, aí o Cara Magro disse: cara eu não tô fazendo nada de errado, se ligou? A gente não tá fazendo nada de errado, a gente paga imposto, se ficar se escondendo é pior. Os outros dois não deram a mínima para o quê ele disse e continuaram com aquele assunto sem importância. Nós íamos andando em direção ao ponto de ônibus. Quando o busão chegou, eu paguei a minha passagem e fui me sentar atrás. Mania. E o Cara Magro de Cabeça Raspada falou: cara porque você tá indo para o fundo? Vocês sempre vão para o fundo, vamos sentar aqui na frente, senta aqui na frente, tem lugar aqui, isso me agride... Isso é agressivo, cara! Os outros dois olharam para ele como se fosse maluco, mas sentaram e deram um gás no papo. Eu fiquei sem graça e me sentei na frente. Os outros passageiros ficaram nos olhando sem entender nada.

domingo, 15 de maio de 2011

O Dia do Livro

No dia seguinte ia rolar o dia do livro e eu estava tão ansioso que não consegui dormir e saí catando livros pela cidade. Sempre que está próximo ao dia do livro os sebos e as livrarias fazem isso, aumentam o preço dos livros. A cidade fica intransitável. Todo mundo sai às ruas para comprar livros. Isso gera engarrafamentos e quem tem carro não encontra lugar para estacionar. Ninguém consegue andar nas calçadas. Os bandidos começam a roubar nos pontos de ônibus e dentro deles também. A minha tática era sair com um aspecto miserável e colocar tudo dentro de caixas velhas de papelão e ficar parecendo um mendigo andarilho, um louco qualquer, que é o quê eu realmente não sou. Passei o dia todo suando e dizendo: hei, me ajuda aqui! No dia do livro as pessoas ficam mais felizes. Eu olho para os seus semblantes e elas estão mais leves e é essa mesma leveza que elas têm nas filas de cinema sábado à noite. As que freqüentam cinema é claro. Todo mundo prepara a ceia durante horas e quando dá meia noite pipocam os fogos. Eu fui dormir tarde, mas acordei cedo e sai. O dia amanheceu com sol, esse ano não choveu como previsto. Um senhor que estava com a casa aberta me chamou. Fui logo olhando os livros e vi um que procurava entre os outros na sala, e ansioso disse: eu tenho esses aqui. Ele chamou a menina pretinha de coque na cabeça e disse: aqui minha filha, aquela série que você gosta! Os olhos da menina brilharam. E os meus também.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Barrado na Academia Brasileira de Letras

Um almofadinha desses que apresentam jornal na hora do almoço me disse que ia rolar um debate sobre funk e hip-hop na ABL. Como eu estava indo para o centro da cidade resolvi dar uma passada por lá. Chegando ao local nenhum conhecido, e sim uma porção de crianças com camisas da maior ONG de hip-hop do Brasil. E pretos seguranças de terno preto. Entrei ressabiado, pois tenho medo de locais chiques. É uma coisa que nós pretos suburbanos latino-americanos temos, apesar das campanhas pela auto-estima. Um DJ conhecido meu acenou para que eu chegasse mais. E aquele papo de sempre: e aí como é que tá o rap? Legal tá indo bem. Quando o chamaram para retomar o trabalho fiquei só e frustrado no meio daquelas crianças. Resolvi que não ficaria por ali, pois não havia nem sinal de que o debate fosse começar. Avistei uma porção de jovens brancos e legais desses que lidam com a cultura e fui para o meio deles, pois estava realmente constrangido de ser o único adulto próximo aquelas crianças. Quando o segurança preto percebeu que eu estava perto da rapaziada sem crachá, ele veio até a mim e me perguntou: você é da ONG? Eu disse: não. E ele: então o senhor não pode ficar aqui. E eu disse a ele: então eu vou embora! Engraçado que eu fui barrado na ABL não pelo meu péssimo português e sim pela cor do meu texto. Quem sabe se eu usasse outra fonte...

domingo, 1 de maio de 2011

Bullying

Enquanto ele caminha para a escola em que estudou, ainda vê as fezes nas lentes dos óculos, escuta a gritaria de alegria no banheiro e sente a água da privada batendo em sua cara. Ele ainda escuta as risadas de quando aquele menino preto entrou com uma peruca loura na quadra. O menino estava vestido igual à menina que havia marcado com ele. O rapaz ainda lembra como ficou preso na lata de lixo em que foi jogado. Ele não falava nada na escola. Ninguém falava nada com ele. Ele não tinha amigos. Ele não tinha namorada. Às vezes sumia por um ou dois dias e quando voltava se sentava no mesmo lugar. Um menino gordo tentou se aproximar uma vez, mas como não obteve resposta, desistiu, pois ele havia olhado desconfiado como se o gordo quisesse debochar dele. Uma vez no corredor ouviu uma menina dizer: deve ser viado! O médico disse: ele apresenta um quadro normal. O sacerdote na tevê: deus tem um propósito pra tua vida! E o herói na televisão: eu não descanso enquanto não vingar a morte da minha mulher! E uma vizinha que o assistia passar todo dia para comprar refrigerante: moleque esquisito, não fala com ninguém! No trabalho ele era calado e prestativo como diriam os colegas. O sobrinho disse que o tio era estranho e que quando ia a sua casa passava a maior parte do tempo na internet. Dentro da escola um homem do governo e de terno dava entrevista dizendo que a solução era diminuir o tráfico de armas. Do lado de fora um vizinho respondia ao repórter: ele era um cara normal. Normal.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ondas Gigantes

Era um cenário de filme pós-apolítico. Eu me lembrei do Mad-Max. O mundo era obscuro. A cidade quase vazia. Eu me encontrava dentro da carcaça de um ônibus embaixo de uma ponte. Dali avistei a rua alagada, era o dilúvio. Uma banca de jornal virada. Pelo canto do olho, eu vi surgir uma grupo de seres iguais aqueles zumbis de Eu Sou a Lenda. Eles estavam com cajados dentro da água. Não sabia se iam atacar. Próximo a eles também um ser mutante. Esse ser era um homem-mulher, talvez tivesse três seios, e carregava um pequeno ser. Uma espécie de profeta do novo mundo, imerso, gritava sobre nosso fracasso e os castigos de deus. De outro ônibus que servia como uma espécie de tenda para outras pessoas, um grupo atiçava e debatia com esse profeta. Quando resolvi ampliar minha visão, acordei e vi que estava em São Cristóvão na Rua Bela, num ônibus parado numa enchente. Um bêbado discutia com o pessoal do ônibus ao lado. Uns crackudos com pedaços de madeira tentavam encontrar alguma coisa de valor no meio de toda sujeira. Um travesti passava com uma criança no colo. E duas senhoras com os corpos cobertos davam um discurso: deus vigia, mas nós temos que acreditar! Quando um preto com uniforme da COMLURB disse: nós só vamos sair daqui amanhã de manhã. Uma das senhoras gritou: vira essa boca pra lá, um anjo de deus vai fazer descer essa água e tirar a gente daqui. O anjo de deus devia estar um pouco atarefado, pois a água só desceu quatro horas da manhã.

domingo, 24 de abril de 2011

Spray de Pimenta

Ele sabia que não era com ele, mas mesmo assim olhou para trás, a velha mania de pensar que todo mundo na rua quer falar com a gente. Ou quando toca o telefone. Interfone. O jato de espuma foi certeiro na cara. Era carnaval. Todo mundo riu e ele ficou sem graça. Naquele bloco ninguém dançava ou cantava, a praça foi tomada por uma guerra de espuma. Mas aquela cena o lembrou da manifestação no centro da cidade. Ele não gostava de estudar, e não pagava passagem, pois morava perto da escola. Então estava cagando para tudo aquilo. Mas cedeu para não ter que aturar a aporrinhação dos colegas. E de lá eles iriam para o shopping que era melhor que matar aula só e ficar sem nada para fazer. O quê ele pensa desse tipo de coisa? Ele pensa que a maioria da população prefere morrer de fome a fazer alguma coisa. Então que se danem! Ele divagava que não tinha nada contra aqueles guardas do cordão de isolamento, quando a bomba de efeito moral explodiu o deixando sem moral nenhuma. Azucrinado ele pensou: “Não tenho experiência em guerras, meu deus, mas se uma guerra for assim eu tô fora!” Quando conseguiu recobrar os sentidos falou para si: “Está tudo bem, agora eu vou embora”. O guarda veio por trás e zás! Espirrou gás-pimenta em seu rosto. Hoje seu apelido é Coquetel Molotov.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pressão Psicológica

O menino me olha da mesa ao lado. Ele pensa que eu olho para a garota. Igual um palestrante nervoso ele não sabe o quê fazer com as mãos. A menina parece ter mais experiência. Ela olha para os lados e finge prestar atenção em algo que tem muita importância e que talvez vá dar assunto. Eu sei que é mentira e que aquela cena daquele velhinho tentando pôr a neta nos ombros não tem tanta importância assim. O menino veste o macho que defende o seu território e fica me encarando, mas ao mesmo tempo tem que se preocupar com o quê dizer a menina. Os olhares dos dois são sempre perdidos, para cima, para baixo e para o lado. Eu sinto que estou atrapalhando o fluxo de pensamentos dele. A menina não me percebe ou pouco se importa comigo, pois sei que estou ao seu lado no campo de visão. Ele de novo me encara e eu o encaro profundamente como quem diz: não dou a mínima para você. Eu quero é saber como ele vai sair dessa. Ela está à espera do que ele vai dizer se é que ele vai dizer alguma coisa. Ele entrega os pontos. Fica de pé e diz a ela: vamos dar uma volta. E me olha como quem diz: você venceu.

domingo, 17 de abril de 2011

A Estreia

Aquele segurança de boate me surpreendeu. O ambiente ficou com cara de área nobre. Eu estava curioso igual às crianças que foram levadas para lá por algumas professoras e para quem aquela porta era de chumbo. Os professores que moravam no bairro também estavam lá, e alguns malucos que ouviam música e fumavam erva. A minha preocupação na fila era: “Será que tem sofá aí dentro?” O negão que era o segurança me tranquilizou: “Tem. Tem sofá aí dentro.” E eu: “Show de bola!” E ele: “E vai ter café e água gelada, senhor.” E eu: “Massa!” De repente chegou um coroa de terno acompanhado de uma menina loura e magra de óculos que estava vestida como se fosse uma aeromoça. O Homem parecia ser o chefe de todo mundo. Eu me afastei intimidado e não ouvi o quê ele disse. Mas no final da embromação ele cortou a fita. Todo mundo como numa promoção de eletrodomésticos. Eu não acreditei naquele mundo de livros na estante. Era a primeira livraria decente entre muitos bairros do subúrbio. Eu não sabia por onde começar, não ia comprar nenhum daqueles livros, mas ia ler boa parte deles ali dentro.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ele Era Divino!

Ele subiu cambaleando no mesmo ônibus que eu estava e sentou na escada para não pagar passagem. O motorista não pôde ver. Eu o reconheci logo, o cabelo grisalho, a barba mal feita e a camisa de botão aberta. Eu não teria coragem de falar com ele em outra ocasião, pois tem fama de mal-humorado. Mas ele estava tão bêbado que resolvi arriscar e disse: o meu pai conhece o senhor e... E ele disse: eu não me lembro de ninguém! Um tempo depois ele morreu de tanto beber. Mas dizem que antes de morrer comeu uma mulher mais nova que ele, e dizem que também fez algum dinheiro participando de um show de uma pagodeira famosa. Ele morreu na merda igual aqueles pintores antigos que morreram na merda e hoje em dia são nomes de serviços de banco, ou aqueles compositores para quem o pessoal do municipal cruza as pernas entre um bocejo e outro. A família dele mora na mesma casinha do subúrbio. Mas agora quando ele foi homenageado por sua escola de samba e sua obra virou tese em universidade e ele é cantado por sambistas que participaram da revitalização da Lapa, a madrinha da bateria que é atriz-modelo diz assim: ele era divino! Eu concordo que ele era divino!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Roda-Gigante

A escada que leva a Roda-Gigante é enorme. E a Roda-Gigante é gigantesca. O meu pai diz: “Quando você tiver grande não vai achar a Roda-Gigante tão grande assim.” Mas eu sinto que vou continuar achando a Roda-Gigante imensa. A menina me olha de dentro da Roda-Gigante. E a Roda-Gigante demora muito para completar uma volta. Eu quero que ela veja o quanto eu sou forte e como eu suporto bem todas essas voltas. Os meninos que conseguem suportar a volta da Roda-Gigante sempre são recompensados com sorrisos. Os olhos da menina são enormes e me acompanham do céu, e ela também tem uma boca enorme com dentes grandes e brancos. Eu não estou agüentando e sinto vontade de vomitar as minhas tripas. O meu pai sempre me pergunta: “Você é um homem ou é um bolinho de carne?” Eu quero dizer: eu sou um bolinho de carne! Mas ele não vai entender. Quando a Roda chega ao ápice, eu desejo que todo mundo morra. Mas enquanto penso isso vejo que a Roda já está no chão e me surpreendo por ter conseguido resistir. A mãe da menina espera com os óculos na mão. Ela me olha com olhos estrábicos e dá um sorriso. Põe os óculos e vai embora puxada pela mãe.

Sujeito-Homem

O PM desceu do carro dizendo: eu vou perguntar só uma vez e não adianta mentir porque se eu encontrar vai ser pior, vamos lá, tem flagrante? Não, não tenho flagrante, o cara respondeu. O PM olhou desconfiado e disse: usou droga? Usei, ele falou tranquilamente. O PM mais uma vez: cheirou pó ou fumou maconha? E o cara: fumei maconha. Não cheirou pó? O PM insistiu. Não, não cheirei pó. O PM concluiu: isso é sujeito-homem! Vai lá, se adianta! E o cara continuou descendo a ladeira que dava para uma ruazinha do morro.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Menina Magra e Loura de Cabelo Encardido

Eu cheguei à fila a meia noite e ela já dava a volta no quarteirão. 00h00min uma senhora de guarda-chuva e cabelos grisalhos me diz: Todo ano é essa palhaçada! É mesmo, eu respondo para dizer algo. 01h10min dois moleques pularam o muro de uma fábrica para pegar goiabas. 01h15min os dois moleques voltaram da missão de pegar goiabas e a menina magra e loura de cabelo encardido disse: isso é coisa de pobre mesmo! 01h40min as pessoas começaram a se conhecer e conversar em pequenos grupos que formavam um grupo maior. 02h04min passou um travesti e um moleque imitando o trejeito de um afeminado: vem cá boneca! O travesti mostrando a ferramenta entre as pernas respondeu: aqui a boneca! Todo mundo riu. 03h30min a mãe da menina magra e loura de cabelo encardido diz: você não lava nem as tuas calcinhas e ainda quer que eu lave as cuecas do teu namorado! Essa discussão durou mais ou menos uns quarenta e cinco minutos e todo mundo ria enquanto elas discutiam. 04h28min eu começo a sentir sono. 05h03min eu fico sabendo que o atendimento só irá começar às sete horas da manhã. 06h00 as pessoas desenvolvem uma espécie de amizade, estão tranqüilas e combinam um lanche coletivo quando a padaria abrir. 06h25 um repórter da televisão chega, ele está de cabelo molhado, banho tomado, limpo, bem alimentado, e diz: eu vou entrevistar vocês, mas preciso que chorem e que digam como é ruim ficar aqui. Quando ele liga o microfone à mãe da menina magra e loura de cabelo encardido começa a chorar e fala: é uma covardia o quê fazem com a gente!

O Mundo Das Mochilas Rosa

Ela tem um olhar clichê, fuma um cigarro da moda clichê e joga a fumaça para o ar que faz um desenho clichê. Ela se vira para o velho da barraca e diz: “Tio me dá um Halls” e o velho vai buscar. O velho some entre os doces para buscar a Halls. Eu passo por aquela rua todos os dias e ouço as suas risadas e gargalhadas. Poses. Telefones que batem fotos e risadas, muitas fotos. A menina levanta o celular acima da cabeça, bate uma foto de si mesma e diz: “Eu sou a mais linda do Big Brother!” E no rosto dela surgem duas covinhas clichê. Todos os aparelhos tiram fotos e tocam músicas, todos eles. Os mais velhos adoram aqueles uniformes das professorinhas que remetem aos anos dourados, quando o máximo para as meninas pobres era ser professora. Existe o mundo das mochilas rosa. Todas elas usam mochilas rosa. Mas agora a escola foi proibida de funcionar à noite, a vizinhança falou que acontecem ali cenas de sexo, drogas e álcool. “A vizinhança falou”, estava escrito assim no jornal. Enquanto me afasto ouço uma menina dizer: “Ah, sua vadia!”